sábado, 27 de setembro de 2014

CRÔNICA: ADIÇÃO IRRISÓRIA


Era uma indesejável segunda-feira e eu conversava, na cozinha do escritório, com alguns colegas de trabalho, quando um deles anunciou, de maneira receosa, seus números do fim de semana:

– Sábado eu só peguei sete.
Perante corajosa anunciação, os demais ouvintes foram atraídos por seu relato. Inclusive eu. Alguns com incredulidade nos olhos, outros com evidente satisfação. Talvez até tivesse havido algum olhar condescendente.

Quanto ao meu olhar, este foi de total auto avaliação. Porque embora meus olhos estivessem pousados na figura de meu colega, era pra mim mesmo que eles atentavam... E comparavam.
Se você que está lendo esse texto for uma mulher, então me deixe explicar que o número “sete”, sendo ele posterior á afirmação de “só peguei”, automaticamente significa “mulheres” na concepção de um homem. Portanto, eu, diante daquela sincera confissão, só conseguia exigir de minha mente, que fizesse um levantamento de meus próprios números. Não sei bem para que serviria este ato consciente (ou talvez inconsciente), mas o fato é que eu queria me lembrar das somatórias de minha maior noite de glória. E o relatório gerado pelo meu processador neural, foi simplesmente uma adição irrisória, tamanha insignificância.

“Não é possível!”, eu pensei comigo, com a mesma decepção de um empresário que acaba de checar dados numéricos que lhe apontam para uma eminente falência. “Não pode ser só isso”. Eu ordenava para que o meu processador cerebral gerasse um novo relatório, buscando informações que supostamente se encontram empoeiradas no arquivo morto da minha mente. Mas os resultados continuavam os mesmos:
Em minha noite de maior glória, eu havia pegado apenas duas.

E já que os relatórios não acrescentaram nenhuma nova soma; nem mesmo uma pífia baranga bêbada de fim de noite, eu resolvi duvidar de sua veracidade. Passei a relembrar minha noite “gloriosa”.
Foi numa festa de aniversário da cidade. Eu estava com uma colega de trabalho. Tudo seguia muito legal, passeávamos de mãos dadas; eu me sentindo o garanhão porque ela uma garota expressiva em atributos físicos, portanto, eu vivia uma noite de plena fartura. Bem, isso nos meus simplórios conceitos. Mas, eis que ela anunciou que estava cansada e queria ir embora. Ainda era cedo e eu, no auge de meu apogeu, não queria ver a festa acabar. Então levei a mina até sua condução e voltei para festa. Mal sabia eu, que a razão de meu ego inflado, acabara de ir embora.

Mas aquela foi uma noite incomum para alguém nos meus padrões pouco dignos de um Don Juan de Marco. E logo uma segunda ficante surgiu em meu caminho. Tratava-se de outra gatinha apetecível, e esta, ficou comigo pelo resto da noite.
Em suma, minha mente não havia se enganado. Eu só peguei mesmo duas.

De repente, eu despertei de meu devaneio, e estava de volta á cozinha do escritório, ouvindo agora o relato de outro colega. Este se mostrou bem menos modesto, e sapecou um sonoro “VOCÊ É MUITO FRACO, CARA! EU PEGUEI QUINZE!”.
Á princípio, eu imaginei que, sem querer, talvez as minhas memórias do passado houvessem escapado de minha boca e eu as tivesse proferido em voz alta. Mas logo notei que o pegador das quinze, direcionava sua ostentação ao pegador das sete. Ou seja, minha diminuta glória continuava oculta aos ouvintes do café da manhã. E isso era bom, porque certamente minhas “duas pegadas” o fariam entrar em choque anafilático, de tanto rir.

O cara das sete pegadas caiu impiedosamente de seu pedestal, enquanto eu me encolhia em algum canto, imaginando o que diria quando chegasse a minha vez de relatar algo sobre a noite de sábado. Aliás, meu fim de semana inteiro havia sido zero (Não se esqueça de que aquele meu expressivo número dois, foi numa outra festa, em uma longínqua data).

Pois foi diante de tão elevados relatos, que minha pequenez se perguntava: “como caralhos alguém consegue pegar quinze garotas, numa única noite?”. E não vi alternativa, senão perguntar como isso funcionava, diretamente á uma mulher.
O sexo feminino certamente mataria minha curiosidade sem me apontar com dedos machistas. Só que para minha surpresa, antes de ela me relatar como as coisas funcionavam, a humilde moça salientou que havia pegado vinte e dois naquele mesmo sábado de fartura. Afirmação que provavelmente humilharia até mesmo o cara das quinze pegadas.

De qualquer forma, minha colega foi amplamente solícita, e me forneceu detalhes de como funcionam as coisas nas baladas dos dias atuais: Basta chegar furtivamente aos ouvidos de uma garota, não importa qual, sugerir algo pragmático, do tipo “já é ou já era?”, e se a garota consentir, você ganha um ou dois minutos de troca de fluídos labiais, com direitos á uma fervorosa disputa de línguas, onde são compartilhadas centenas de bactérias.
– Depois você sai e vai para a próxima – decretou minha colega, do alto de sua vasta experiência.

– Mas você nem se despede? Tipo, não troca nem o número do telefone?
– Tá maluco? Se eu parasse para ficar dando tchau pra todo mundo ou trocando endereço do facebook, as minha amigas teriam me ultrapassado, né?

– Deixe-me ver se entendi: tudo isso não era uma questão de diversão com direito á dar uns pegas em caras legais, mas sim uma espécie de competição?
Minha colega não precisou pensar muito. Sem cerimônias, ela cuspiu um suficiente “É!”.

Naquele instante, a síndrome de ineficiente que pairava sobre mim, se desfez. Concluí que eu era mesmo um sujeito afortunado, simplesmente pelo fato de não entender como funcionava aquele negócio de pegar dezenas numa única festa.
Não senhor!

Era bem melhor em meus tempos de juventude, onde havia espaço para uma troca de conversa, para os galanteios, cavalheirismos e troca de olhares... Tudo isso precisava acontecer antes de um simples beijo. Como era gostoso aquele tempo em que andar de mãos dadas fazia com que nós nos sentíssemos os maiores dos pegadores da noite; muito mais habilidosos, pois sabíamos como entreter uma mulher numa noite inteira, em vez de passar toda a festa, marcando tracinhos no braço, para cada  beijos banal que déssemos ao longo da noite. Ato este que só serve para inflar o ego na presença dos colegas de trabalho, no dia seguinte.
Se eu acho que as coisas eram melhores no passado, isso não importa. O fato é que nada me impede de ter orgulho de minha saudosa e memorável adição irrisória.

sábado, 13 de setembro de 2014

RESENHA DE LIVRO: O LADO BOM DOS SEUS PROBLEMAS


Este simpático trabalho do autor Mauricio Horta, começa com um prólogo que deixa bem claro as pretensões incomuns do mesmo: ele diz que neste livro, intitulado O Lado Bom dos Seus Problemas, você não encontrará formulas prontas para a felicidade plena, o que vai bem ao sentido contrário de tantos outros títulos, que vendem livros daqueles que se dizem senhores da verdade, os considerados gurus da sabedoria. São sempre livros cuja pretensão é nos mostrar 10 maneiras para se ter sucesso imediato; os 7 hábitos do empresário Pitbull; os dez mandamentos do homem altamente eficaz; e por aí segue...

Penso que esses conceitos são fechados e acabam soando como uma cilada. É como se quisessem nos ensinar a rir de nossas desgraças; sentir alegria diante de um determinante diagnóstico de câncer; dar gargalhada ao topar com o joelho na quina da cama... E sabe de uma coisa, meu amigo leitor? Livros com essa premissa amontoam-se nas prateleiras das livrarias Brasil afora.
Só que aqui já nos deparamos com um prólogo que adverte leitores que buscam por métodos preestabelecidos, para que devolvam este volume para a prateleira. E o título pode até soar enfeitadinho e fazer parecer que estamos mesmo diante de alguém que vai nos empurrar goela abaixo, os benefícios de se afirmar, o dia inteiro, que tudo vai dar certo.

Mas não.  Aqui o que encontramos é um catálogo de estudos sobre sentimentos considerados por nós como ruim. E bem sabemos que reações como inveja, medo e ansiedade, são algumas potências desanimadoras de fato. Mas a premissa deste trabalho é nos mostrar o quanto alguns desses sentimentos nos fazem adquirir força de onde pensávamos não ter, assim como uma visão de mundo menos ingênua. Em outras palavras, existe sim, um lado que pode ser considerado bom em nossas frustrações diárias.
Outro aspecto fundamental á ser ressaltado, é que este também não é o relato de um cético, destinado á nos entediar com seu demasiado resmungo. São textos explicativos, com linguagem simples, que apontam de forma imparcial, as causas e efeitos de cada sentimento proposto.

O único tema que achei um pouco vago foi o “Ciúme”. O autor passa quase todo o conteúdo relatando causas, e só nos últimos parágrafos é que tenta levantar alguns pontos que supostamente seriam positivos aos portadores de tal debilidade. Mas mesmo assim, não achei sua sustentabilidade muito assertiva.
Em resumo, o livro é muito legal. Faz parte de projetos ligados á equipe editorial da revista Superinteressante (fato que atraiu minha atenção para este volume) e acerta por manter um conteúdo quase que didático, com linguagem informal e muitos exemplos de como é possível encontrar pontos positivos, justamente naquilo que nos parece entristecedor.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

CRÔNICA: DINAMISMO IGUALITÁRIO

Outro dia tive um prolongado embate online com uma grande amiga, que alegou acreditar que as redes sociais estão deixando as pessoas burras; que a expansividade informativa da internet faz com que tenhamos acesso a todo o tipo de conteúdo, mas há uma carência de qualidade em quase tudo que era postado. Da mesma maneira, essa permissividade democrática forneceu voz a toda essa massa idiotizada e cheia da necessidade de adjetivar o mundo que a rodeia, como se, nas palavras dela: “dar opinião fosse indicativo de discernimento”.

Tendo em vista que eu já havia escutado esse tipo de apontamento de outras pessoas, achei que seria prudente refletir sobre, antes de redarguir. E após o que imagino ter sido uma fugaz verificação consciente, alienada a sutil cautela quanto ao perigo de se generalizar qualquer julgamento, tentei renovar a oportuna discussão com essa amiga. E eis que colocamos um novo ponto de interrogação no sentido de abrandar o determinismo que era dela e de outros tantos. Sugeri que, embora concordasse com os argumentos quanto à internet ser um instrumento que, para ser edificante, carece de profundo empenho em peneirar conteúdo, discordava quanto a ideia de que todos os adeptos das redes sociais estejam, propriamente, emburrecendo. Mas que talvez estejamos sim, nos tornando uma tribo de iguais, aprisionados em bolhas (essa conversa acontecia inbox, numa famigerada rede social).

Mas o que significa estarmos nos tornando iguais?

O que quero fomentar é que quando se está interagindo pelo intermédio de uma rede social, é muito difícil conseguir verter personalidade através de uma simples telinha. E de certa maneira isso torna membros distintos da sociedade em meros aplicativos de análises, bitolados; reduz a diversidade latente em indivíduos parecidos ou até iguais. Superficialmente essa ideia de igualdade até parece democrática. Mas se observarmos tal condição um pouco mais de perto, veremos que é quase injusta a privação da singularidade, dadas circunstâncias tão desfavoráveis quanto a mera troca de informações escritas, as quais podem (e muitas vezes são) interpretadas de maneira errônea pelo interlocutor. Outro problema é que essa igualdade online, embora nivele seus usuários, faz com que este nivelamento unifique pensamentos semelhantes.

Eu vou dar um exemplo:

Certa feita, conheci uma garota através da gigante das redes sociais, o Facebook. Inicialmente a achei uma moça interessante e fui checar seu perfil. Notei que muito de suas preferências batiam com minhas preferências, e aparentemente seus ocasionais comentários em posts eram evidências de que ela só poderia ser, de fato, alguém agradável para se tentar amizade.

Análise feita, enviei um convite de amizade que por ela foi prontamente aceito. Satisfeito, tentei uma abordagem gentil. Porém, em pouquíssimo tempo de prosa notei que, por mais que me esforçasse em parecer simpático, comunicativo, expressivo ou qualquer ato corriqueiro, que teria seu poder de influência aumentado por uma abordagem presencial, a interação online deixava meus recursos limitados a ponto de fazer com que eu parecesse um sujeito insosso ou, ainda pior, poderia estar sendo interpretado como algum tipo de sociopata interessado em transgredir a moral alheia. Ou seja, aquele mesmo auxílio tecnológico que me possibilitou novo horizonte, era o mesmo que me privava de distinguir-me. E por quê?

Porque é impossível expressar individualidade através de uma simples conversar virtual. E se pensarmos na importância da sensibilidade humana, da linguagem corporal, do olhar que anuncia e insinua, coisas que imagino serem fundamentais quando se está conhecendo alguém, estas ficam completamente ocultadas pela interação virtual.

Outro problema é que estamos vivendo uma expansão tecnológica onde todos se tornaram vozes ativas. E como a rede social é uma forma de interatividade indireta que possibilita sermos quem quisermos, fica muito fácil destilar veneno quando se está pilotando um avatar. Em outras palavras, a internet tem se mostrado um antro de proliferação desenfreada de ódio. E isso acaba fazendo com que algumas pessoas se protejam demasiadamente por temerem interlocutores, digamos, encolerizados.

Por fim, se usamos de uma ferramenta na qual podemos ser (ou parecer) quem quisermos, torna muito complicado confiar na configuração do perfil que está diante de nosso monitor nos convidando para um bate-papo. Por isso as bolhas estão fechadas para que apenas iguais possam interagir.

Significa que redes sociais são ainda piores do que imaginamos!”, cravou minha amiga.

Por mais escabroso que pareça, eu ainda acho que não, respondi.

Claro que não sou o dono da verdade absoluta, até porque não existem verdades absolutas. Além do mais, sabemos bem que as redes sociais servem como ótimos recursos de estreitamento social, agilizam serviços, enfim, é um eficaz espaço para se elevar e expandir negócios. Mas precisamos trazer à tona a ideia de democratização coletiva: por que não fazer das redes sociais um lugar de interação responsável e apenas no sentido de abordagens sucintas que desencadeiem em harmoniosos encontros presenciais? deixar de lado a ideia do perfil maravilhoso e despir-se de quem realmente somos; minimizar opiniões superficiais no sentido de evitar a propagação do ódio; e que tal aprendermos de uma vez, já que redes sociais são espaços modernos de interação, a usarmos a ética da convivência para estes ambientes?

Sim, meus amigos. Pessoas comunicativas, que gostam de conversar, de interagir com outros dos seus, aqueles que anseiam pelo contato humano, estes estão fadados a serem reduzidos a meros solitários online, sentenciados por essa mesma tecnologia que surgiu com a premissa de os salvar..., ou muito pior é a hipótese de boas pessoas serem confundidas com algum tarado da internet, o que não é muito difícil de acontecer.

O fato é que cheguei a pensar que fosse apenas eu quem não soubesse lidar com redes sociais. Mas talvez o que realmente ocorre é que pessoas, na mesma proporção em que não demonstram seu lado crível, também não parecem muito interessadas em saber quem é o interlocutor.

É claro que continuarei utilizando, mesmo que poucas vezes, algumas redes sociais. Mas ciente de estar convivendo na dolorosa realidade de que sou apenas mais uma tela que escreve; um robô que digita..., sem alma, dotado de traços imprecisos e sem distinções particulares, dentro de uma sociedade que segue seu amplo e vasto dinamismo igualitário.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

RESENHA DE LIVRO – BOM DE BRIGA


O sentimento permanente que ficou, ao término deste livro, foi de insatisfação. Só que não era um descontentamento com o livro em si, ou com o seu conteúdo. Mas por ele simplesmente ter acabado. Sim, este magnífico “Bom de Briga” poderia muito bem ter mil páginas que certamente não nos deixaria entediado. Suas duzentas e oito páginas parece pouco espaço para um recheio agigantado por personagens carismáticos, mesmo se pensarmos no menor dos coadjuvantes.
Bom de Briga é o segundo volume de uma trilogia, que começou com O Azarão (vide resenha neste blog). E esta continuação se mostrou bem mais encorpada do que seu antecessor, que em minha opinião foi o trabalho menos expressivo desde gênio da literatura moderna, chamado Markus Zusak.
E por falar no autor, há muito eu já aprendi que é impossível deixar de aplaudir seus trabalhos. Markus Zusak é extremamente habilidoso em criar personagens cativantes. Nos faz aprender a gostar deles, rápido, justamente por conta de sua fórmula que serve como válvula de escape para os padrões literários atuais: o caricato herói elevado, forte, intelectual; exemplo de ser humano perfeito.
Não. Os Personagens aqui são falhos, fracos, cheios de dúvidas, seres em intrincada evolução. Mas que nunca desistem e que têm como sua maior virtude esta mesma persistência. Talvez isso faça com que nos sintamos mais próximos, mais identificados com eles.
A trama segue a narrativa em primeira pessoa do primeiro livro. Portanto, voltamos a ter uma visão de mundo, contada pelos diálogos gostosos de Cameron Wolfe. A história, que agora possui um enfoque maior nas relações familiares, mostra os irmãos Cameron e Ruben, mais velhos e ainda unidos, tentando se encontrar no mundo. E no meio dessa busca pela autodescoberta, é o boxe amador que acaba descobrindo os dois irmãos. No entanto, a premissa não é centrada, ou seja, não estamos diante de um livro sobre boxe, mas uma história de relacionamento humano. Principalmente entre irmãos, que ostentam um vínculo de amor que se alterna entre indiferença e insegurança, mas que é fiel até as últimas consequências (eu cresci com outros dois irmãos homens, por isso ás vezes até me identifiquei com alguns diálogos e situações). É justamente a relação entre os dois irmãos, e a vivência dentro do conturbado mundo da família Wolfe, o que torna este livro tão abundante. Mesmo nos instantes em que os membros coadjuvantes da família nos são mostrados, ficamos com vontade de querer saber mais sobre eles, o que acontece em suas particularidades, ou como eles se meteram onde se encontram. O enredo não deixa ninguém ofuscado, mesmo aqueles que só aparecem ocasionalmente. E o final, embora não seja nada impactante ou inovador, quase me fez ir ás lágrimas.

Esperarei para ler a conclusão, cheio de expectativas. Porque se há uma coisa que eu sei que posso fazer, sem nenhum receio, é retirar das livrarias os livros desse mestre chamado Markus Zusak, seguro de não estar levando porcaria pra casa.

domingo, 27 de julho de 2014

CRÔNICA: A GERAÇÃO MIOJO


De repente, vemo-nos vitimados pela aceleração do cotidiano e a espantosa urgência das coisas as quais se apresentam diante de nós, como se as vinte e quatro horas dos dias houvessem se tornado insuficientes para suprir os “inadiáveis” compromissos mundanos; fazer, correr, cumprir, checar, intervir, enviar, saldar, entreter, usufruir, relacionar...

Mas espera um pouco aí; não acordamos de um recente coma de vinte anos e, tão pouco somos inusitados viajantes do tempo, enviados da década de cinquenta para ver como é o futuro. Então por que a urgência do mundo contemporâneo nos soa como um equívoco geracional?

Tudo bem que algumas mudanças recentes tiveram considerável influência em nossas vidas, e estas fizeram com que olhássemos com mais atenção para o determinismo da realidade em que estamos inseridos, em que a contingência paira constante. Mas a grande inquietação talvez seja a velocidade com que são exigidas as estas situações cotidianas, mesmo mais banais, precisam ser resolvidas imediatamente. E o pior: atualmente, rapidez parece ter se tornado sinônimo de eficiência. Não há mais tempo para discernimentos, aliás, este texto já deveria ter acabado há séculos, não é mesmo?

Afinal, pense comigo: você mal acabou de comprar aquele “I-tudo”, cheio de parafernália tecnológica recém lançado no mercado, e lá está o sistema capitalista lançando um modelo fresquinho, que faz aquele seu avançado aparelho, pareça algo obsoleto e ultrapassado, mesmo que essa percepção não corresponda a uma realidade concreta.

Gerações passadas gostam de se gabar sobre a ideia de que preparavam todas as coisas de modo minucioso, eram mais dedicados, integrados e interessados em almoços de domingo em família; uma atividade que perdurava ao longo de todo o feriado; encontro onde aproveitávamos a ocasião para fazer algo considerado quase bestial nos dias atuais: relacionar-se socialmente.

Será?

Hoje, no auge da demência urbana, somos integrantes de famílias modernas, que se locomovem de suas casas aos domingos para procurar por restaurantes que ofereçam uma realidade há muito perdida por essa noção irracional de urgência: comida caseira. E de preferência, que isso seja degustado dentro do próprio carro ou num recinto propositalmente desconfortável para que não fiquemos ali por muito tempo. Porque cliente que demora a se levantar gera prejuízo ao estabelecimento que precisa lucrar com a alternância; ambientes que privilegiam a demanda em detrimento do lazer.

Não estou comparando gerações nem alegando que o passado era melhor. Mas se acha que estou exagerando, então me diga: você levaria o seu carro num Lava-lerdo? Quando foi a última vez que você acatou uma sugestão do tipo “Pare pra pensar”? Parar e admirar então, vixe..., esqueça! Não temos mais tempo pra isso.

O fato é que nossos antepassados eram tão inadmissíveis quanto os somos. Mas é inegável que eles tinham qualidades que estão se perdendo ao longo dos anos... E duas dessas características em extinção é a paciência e o gosto pelo esforço. Creio que se continuarmos desse modo, logo a sociedade não produzirá mais grandes pianistas, escritores, pintores, entre outros..., funções cuja habilidade depende fundamentalmente de paciência e perseverança.

Tanta urgência o tempo inteiro nos tem feito perder o apreço pela qualidade. Interações consideradas corriqueiras, como um bate-papo despretensioso se tornou algo impensado. Vi-me cercado por essa falta, quando tentei interagir com outras pessoas neste mundo fugaz, usando para isso, ambientes modernos de interação entre pessoas: as redes sociais.

Funciona assim:

Cada indivíduo navega como se estivesse olhando para uma esteira rolante, onde as opções, ou seja, os outros navegantes passam rapidamente em seu perfil como se fossem mercadorias em vitrines. Então o internauta tem vinte, talvez trinta segundos para avaliar o “conteúdo” que se apresenta diante de si. E não perca muito mais do que isso, porque a esteira não para e outras opções estão chegando velozmente. Poste tudo aquilo que você faz de modo que todos que o visitem saibam que estão diante de uma pessoa feliz..., ah, e não fale muito com ninguém para que não pensem que você é um desocupado. Afinal, o ócio sempre foi visto como condição de gente irresponsável.

E o que é mesmo essa coisa de qualidade?

Ah, pro inferno com a qualidade! Não dá tempo de pensar sobre isso. Aliás, pra quê você precisa de qualidade se a esteira continua lotada de opções? Não importa o que apareça em sua frente, olhe rápido e pegue o que lhe parecer auspicioso.

Seja veloz, ou logo algum engraçadinho vai dizer bem na sua cara: “Eu tenho isso e você ainda não tem. Portanto, sou melhor do que você”. Ou pior ainda é se alguém perguntar: “você ainda não tem aquele produto?”, olhando como se você fosse um débil-mental por não ter adquirido algo tão óbvio.

Quer dizer que a atual geração é superficial e vazia?

Não. De forma alguma! Afinal, eu não sou nenhum velhote recalcado que aprendeu a usar o computador para destilar veneno contra este planeta conectado... Eu também estou no meio dessa geração miojo. Mas sei que talvez tenha vivido no tempo de transição dessas duas gerações, aparentemente distintas e que não se apreciam. Pude ver os tempos de dedicação ao acabamento minucioso e bem feito, sendo transformado na atual extroversão indispensável, talvez por influência da industrialização.

A geração atual possui sim grandes qualidades, mas como em qualquer outro tempo, não é tudo dessa atual sociedade que devemos levar como exemplo. Nem sempre a velocidade é sinal de serviço bem feito. Aliás, se não mudarmos nossos paradigmas, em muito breve a criatividade estará perdida; a arte que preza pela paciência, que hoje tanto irrita e nos deixa aflitos.

Não temos tempo para apreciar e discernir, mas sim, apenas “curtir”. Não há espaço para uma boa conversa, apenas uma breve e resumida xavecada, em tom de questão, daquele famoso jeito: “já é ou já era?”, aparentemente tão questionável.

Recentemente li uma conversa que vazou na internet entre dois jovens integrantes desta realidade acelerada, no qual o rapaz (que devia ter mais ou menos dezesseis anos), para conseguir levar uma garota (ainda mais jovem) para a cama, usou argumentos tão obscenos e explícitos, que pensei se tratar de alguma brincadeira entre amigos. Mas no breve fim das contas e para minha total estupefação, o rapaz conseguiu “ganhar a mina na lábia” e a levou para o motel. A comprovação do sucesso do engajado sujeito se deu pelo fato de que a história virou caso de polícia.

Boates e casas noturnas são ambientes compostos de música absurdamente elevada, justamente para desencorajar a tão ultrapassada abordagem verbal; aquela velha conversa nervosa e tímida que precedia uma conquista. Esqueça! Ali não é lugar para conversar, não dá tempo... Afinal, a esteira não para, não é mesmo?

Como dizia o grande Guimarães Rosa: “O animal satisfeito dorme”.

Parece que nos tornamos seres inconformados, escravos do acúmulo desenfreado e descerebrado. Portanto, não dormiremos nunca mais... Haja Lexotan.

RESENHA DE LIVRO – TEM ALGUÉM AÍ?


Uma coisa inusitada me ocorreu, conforme o avanço na leitura deste livro: certa familiaridade situacional entre mim e a personagem principal. Porque a grande temática á cerca deste “Tem Alguém Aí?”, outra esplêndida obra de Marian Keyes, é a busca pelo reencontro consigo mesmo; situação que desnuda o personagem desde o início da trama, até o seu comedido final.

A familiaridade decorre justamente nesse aspecto, porque Anna Walsh, personagem principal deste livro, começa sua trajetória percebendo que se encontra sozinha, e então ela parte em busca do reencontro consigo mesma. Algo que está atualmente acontecendo em minha vida.
Talvez esta leviana identificação com a personagem pudesse fazer desta resenha um tanto suspeita, pela simples perda de meu discernimento quanto á uma analise fria e imparcial. Mas aqui eu reencontro uma autora cujas habilidades para construir e, no caso deste livro, descontruir personagens, á coloca na condição de mestra. Marian Keyes é infinitamente superior á outras autoras que propõem o tema chick-lit (gênero voltado ao público feminino, principalmente por seu teor açucarado e infestado de situações que se assemelham á roteiro de novelas e seriados), e o que faz dela tão superior, é justamente o fato de que seus livros fogem desta pretensão novelesca, para colocar em pauta assuntos derivados da essência natural e muitas vezes a falha de nós seres humanos para lidar com o ineditismo da vida.

É muito rápido e fácil a identificação e, por consequência, apaixonar-se pelos personagens de suas histórias. Atrevo-me á sugerir Marian Keyes á qualquer público, mesmo o masculino, que normalmente desconfia de suas capas enfeitadinhas com beijinhos, coraçõezinhos e cores delicadas, algo tão característico nos livros da autora. Faça como eu tive que fazer um dia: antes de rotular, abra uma exceção e leia. Certamente você ficará impressionado com situações que lhe farão se lembrar de si mesmo, ou de alguém próximo. Talvez até, no auge de seu devaneio literário, você até possa jurar conhecer alguém dentro da história.
Maryan Keyes têm se aprimorado á cada novo livro. E este óbvio distanciamento dela com outros autores do mesmo gênero, faz com que eu a coloque entre os melhores autores modernos que já li. É culpa dela, o fato de outros títulos do chick-lit terem me agradado tão pouco.

Bom, a trama desta vez nos revela a história de Anna Walsh (o quarto á contar sobre uma das cinco irmãs Walsh). Ela nos é apresentada em situação de total debilidade; está completamente machucada, medicada diariamente com remédios pra dor, antidepressivos e calmantes. Isso já desperta nossa curiosidade com o que teria acontecido. E as coisas começam a nos ser entregues, quando Anna resolve retomar sua vida em Nova York, e ela parece focada principalmente no reencontro com seu marido, Aidan, que há tempos não volta pra casa e nem dá sinal de vida.
Em certos momentos, Anna se mostra um tanto obsessiva, dotada de doses constantes de baixa-estima, nos fazendo pensar que ela foi vítima de violência doméstica. Eu, particularmente, não sabia ao certo o que pensar sobre Anna. Mas conforme a trama se desenrolava, eu pude compreendê-la, e como disse no início da resenha, às vezes até me sensibilizar.

Marian Keyes nos acomete ao seu mundo com expressiva facilidade, nos angustia com dores que nos soa familiar, e nos faz rir de arrancar lágrimas... Então, seiscentas páginas parecem ter se tornado sessenta, tamanha facilidade com que a leitura se desenvolve. É o toque de Midas, desta gênia da literatura moderna.
É leitura recomendadíssima, não importa o seu sexo, conhecimento literário ou sua particularidade crítica. É bem provável que, quando você menos esperar, estará perdidamente apaixonado por este livro.

sábado, 12 de julho de 2014

CRÔNICA: DIA MUNDIAL DO ROCK

Conseguir um lugarzinho dentro de um ônibus coletivo em manhã de dia útil é basicamente o anseio que permeia a mente de todo usuário deste tipo de transporte. Mas talvez tão ruim quanto passar algum tempo em pé e espremido com outros trabalhadores, seja viajar sentado ao lado de alguém que, portador de carência incontida, sustenta incontida necessidade de conversar. E muitas vezes esse ato inesperado acontece no instante em que começava nos fones de ouvido aquele som bacana que massagearia a exaustão do pós-expediente. Desse modo, penando contra a própria vontade, vemo-nos obrigados a desligar a música, para decifrar o que já estava a sair dos lábios do malquisto, agraciando-nos com seus esquecíveis relatos, que se iniciaram antes mesmo de termos a chance de interromper o som.

Esse episódio se repete com certa frequência, e nunca, em nenhuma dessas infelizes ocasiões, eu fui contemplado por considerável abordagem ou alguma reflexão produtiva; nem mesmo uma notícia do mundo que realmente valesse à pena ser conversado... Nada.

Sempre são as mesmas perguntinhas vazias e comentários insossos: “Trabalhando muito, cara?”, “Como é que vai a vida?”, “E esse tempo maluco?”Você tá sumido, hein...” “esses ônibus estão sempre atrasados”. Abordagens as quais eu ofereceria todo o meu carinho, caso fosse um pouco mais honesto: “Sim, estou trabalhando muito. Mas seria melhor ainda estar no trabalho, do que conversando contigo”; “Sim, a vida estava perfeita até você se sentar do meu lado”; “Não estou sumido não, mas adoraria conseguir fazer isso agora”.

Admirarei devotamente aquele indivíduo que, ao se tornar meu inesperado acompanhante de cadeira do ônibus, perceber minha atitude forçada de desligar os fones, e simplesmente reconhecer o óbvio: “pode continuar escutando sua música, tranquilo, cara. Eu também amo as minhas e sei o que é isso”. Mas esse seria um alienígena; este modelo de passageiro, zelador da paciência alheia, talvez não exista. E seguirei com meu ato de desligar os fones de ouvido para dar atenção a alguém que só porque pertence à mesma condição social que eu, acha que temos a obrigação de papear no buzão.

Provavelmente, se você tolerou esse desabafo até aqui, deve estar me mapeando como um sujeito arrogante, chato ou antissocial. Mas me permita justificar esta minha inevitável transgressão:

Por mais nebuloso que possa parecer, o que você está lendo aqui, nada mais é do que um manifesto de devoção. E quem ama, odeia ver seu instante de contato com o objeto amado sendo bruscamente interrompido.

Sim, caro leitor. Pode parecer piegas, mas eu amo as minhas músicas; ou como diz minha mãe: “aquelas suas músicas doidonas”. E quando você se sentar ao meu lado, justamente no instante em que meus acalentos auditivos estiverem rolando, saiba: só lhe darei atenção, porque ainda não possuo singeleza o bastante para dizer em sua cara, que você acabou de interromper um momento infinitamente mais prazeroso do que qualquer coisa que você tenha a dizer. O zelo pela tolerância na convivência, infelizmente, não me permite essa naturalidade.

Ter pouca ou nenhuma inclinação para um bate-papo dentro do ônibus, algo moralmente impronunciável, não me acomete por eu ser um rabugento intratável ou qualquer outra definição que tenha lhe ocorrido na mente. Bom, talvez eu seja para algumas pessoas, mas o que quero fomentar aqui é o quanto da frustração que sinto, pois costumo usar o tempo de viagem do trabalho até em casa para curtir um tantinho dos prazeres os quais não tive tempo de apreciar durante o expediente. E estes se resumem em ler um livro ou ouvir um pouco de música. Portanto, a menos que as pessoas tenham algo realmente interessante pra dizer, eu prefiro ficar com os meus prazeres.

E há muito tempo que vivo um caso de amor com o rock.

Em tempos passados, eu teria afirmado que sou apenas um apaixonado. Sim, eu já fui acometido pela patologia da paixão pela música. Mas atualmente o meu caso evoluiu para amor. E você se perguntará: dado como exemplo a preferência musical, qual é a diferença entre paixão e amor?

É muito simples: a diferença é exatamente a mesma que ocorre quando nos relacionamos com uma pessoa. Ou seja, quando estamos apaixonados, perdemos o senso, nos tornamos compulsivamente irracionais e precisamos nos familiarizar de forma obcecada com o objeto de nossa paixão. Já quando se ama nada disso precisa mais ocorrer. Porque quando se ama, simplesmente se gosta. Não há espaço para deliberar sobre nada... Você ama e ponto final. Qualquer reação, reclusão, inclusão, proximidade ou afastamento, ocorrem automaticamente e na total ausência de conjecturar por outra reação. Não há influência externa, apenas sentimento puro.

Darei um exemplo disso:

Quando era jovem, precisamente no auge da adolescência, eu descobri o rock e me apaixonei. Foram tempos em que eu precisava me afirmar, e para isso, tive que tomar algumas atitudes, as quais hoje eu as entendo como um tanto obsessivas: precisava ter sempre alguma coisa a dizer que parecesse legal aos ouvidos de outros “roqueiros”, para que não pensassem que sou um poser; comprava camisas das bandas mais famosas, mesmo que eu não as conhecesse, porque isso fazia de mim alguém mais aceito pela tribo; temia afirmar aos meus colegas algum apreço por aquela banda considerada ruim pela maioria, simplesmente porque existem alguns amores que devem ser negados socialmente. Naquele tempo de atos banais, eu era o egocêntrico que não sabia se gostava mais de rock ou de ser aceito, só o que importava era me parecer com um roqueiro nato. E me ultrajava quando não era reconhecido como tal.

Hoje a paixão morreu, dando lugar ao puro e singelo amor. Não mais sinto nenhuma necessidade de ser incluído ou aceito por grupos; só uso camisa de bandas as quais me identifico e, por consequência, eu as quero homenagear. Ainda privilegio a cor preta, mas hoje me visto pra mim e não para mostrar aos outros. Também aprendi que não dói confessar que se gosta de ouvir aquela banda considerada careta por aqueles que se dizem entendedores de música..., ah, e eu não sinto a menor vontade em trocar ideias sobre minhas predileções musicais, até porque, hoje eu sei que isso faz parte de nossa particularidade, e exatamente como é a clareza dessa definição, particularidades não existem para ser entendidas por ninguém, além de nós mesmos. Mesmo a definição de “roqueiro” se tornou uma adjetivação que me incomoda, porque faz parecer que sou um ser limitado, um rótulo que reduz minha existência.

Se este amor me tornou uma pessoa melhor ou pior eu não sei dizer. Mas eu posso garantir que sou muito mais feliz hoje, porque consegui tirar da minha consciência aquela neurótica necessidade de estar sempre a caráter para que as pessoas saibam quem eu queria ser.

Porque hoje este pacato transgressor que vos escreve só quer ser ele mesmo.

Sou um amante de rock, Não um roqueiro. E por isso continuarei odiando ter que desligar os fones de ouvido. Não odeio você, meu caro companheiro diário dos transportes coletivos. Só o que peço é que não julgue este confessor inconsequente. Porque eu sei muito bem que você também ama coisas ou pessoas. E da mesma forma que eu, você também odeia ter que se afastar de seu objeto amado.

Feliz dia Mundial do Rock, para essa vasta nação de amantes mundo afora!

sábado, 21 de junho de 2014

RESENHA DE LIVRO – A VINGANÇA VESTE PRADA


Dizem que o Diabo é um sujeito muito bom em orquestrar suas vinganças. Mas o “tinhoso”, segundo os ideais da autora Lauren Weisberger, parece ter perdido seus colhões. E nem mesmo as peripécias do maligno conseguiram dar um gás neste, que é a sequência do aclamado “O Diabo Veste Prada”.

Não deve ser uma missão muito simples compor um livro que dá continuidade á um best-seller. E este “A Vingança Veste Prada” conseguiu o que queria, pelo menos quanto ao sucesso nas livrarias. Mas ele esbarra na mesma tecla que seu antecessor, ou seja, é de uma mesmice um pouco cansativa. Novamente a autora nos entrega algo longo demais para uma trama pouco diversificada.
Uma tentativa de mudança que eu achei infeliz foi que agora a história está narrada na terceira pessoa. Não temos mais a personagem principal Andrea Sachs nos brindando com seus diálogos doces e inconstantes. Agora o livro possui um narrador paralelo á trama. E em minha opinião isso não funcionou muito bem.

A trama outra vez é fraquinha. Podemos continuar acompanhando as nem tão excitantes aventuras de Andrea Sachs, que anos após ter sofrido na agência de um certo diabo, agora toca sua vida de modo progressivo; ela está prestes á se casar e tornou-se amiga e sócia de sua odiada colega do antigo trabalho na Runway, Emily. Juntas, elas fundaram uma revista de luxo sobre casamento. E é justamente o sucesso deste novo empreendimento o que atrai alguns indesejáveis que Andrea pensou estarem enterrados em seu passado.
Só que por mais que a história dessa vez tenha um pouco mais de vigor, infelizmente o diabo do título é menos que uma coadjuvante. Este raramente aparece, deixando apenas sua suposta aura maléfica encarregada de atormentar a pobre Andrea. É como se a mente da personagem já fosse suficiente para deixar seus nervos em frangalhos.

Embora o glamour das grandes grife mundiais se manifestem com menos intensidade nesta continuação, ainda há a mesma preocupação com o charme detalhista e diversificado no figurino dos personagens. "A Vingança Veste Prada" segue a mesma linha narrativa, cheia de beleza e rica nas minúcias.
Não me atrevo á afirmar que esta sequência seja melhor que seu antecessor. Apenas me permito dizer que temos aqui um roteiro com um pouco mais de situacionismos, o que já é uma grande sacada. O problema só ficou por conta do ofuscamento de Miranda Priestly, que justamente por ostentar o título de vilã da história, deveria ser um pouco mais aproveitada. Também não gostei da narrativa em terceira pessoa. No mais, Lauren Weisberger segue com sua impecável escrita, que embora seja pouco engraçada, é original, rica em detalhes e um tanto charmosa.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

RESENHA DE LIVRO – O DIABO VESTE PRADA


Ser um amante de literatura por si já me torna uma pessoa um tanto singular, num país onde a maioria sustenta um total desprendimento cultural. E o que dizer de ser um homem que gosta de ler chick lit? (gênero literário moderno, destinado ao público feminino). Obviamente isso só acentua ainda mais a peculiaridade das preferências que me constituem.
Este “O Diabo Veste Prada” é um dos mais famosos livros do gênero citado acima, no qual duas pequenas particularidades me chamaram a atenção quando li: a pretensão da autora e a trama em si. Deixe-me tentar explicar:

Quem já leu Chick lit e conhece o gênero, sabe bem que as histórias são geralmente tecidas em torno de uma típica figura feminina do mundo pós-moderno, com enredo de fácil digestão, linguagem coloquial, normalmente engraçado e cativante. Mas neste trabalho da autora Lauren Weisberger, algumas coisas escaparam totalmente ao que seria a regra do gênero; o que não seria uma coisa ruim, caso tais distinções denotassem um agradável ineditismo e até originalidade. Mas a obra, embora seja mesmo de fácil leitura e com linguagem simples e moderna, passa longe de ser cativante, não é nem um pouco engraçada e ás vezes até cansativa. Se pensarmos no desenvolvimento da trama então, aí a coisa fica mesmo completamente irritante tamanha é a ausência de tempero.
Eis a sinopse:
Andrea Sachs é uma garota recém-saída da faculdade, e que arranja emprego de assistente da poderosa editora Miranda Priestly ( o diabo do título), na conceituada revista Runway. Pronto. A trama do livro é somente isso.

Serão longínquas quatrocentas e tantas páginas que narram os apuros vividos pela personagem principal, orquestrados por uma chefa que é um verdadeiro diabo encarnado. As situações são constantes e realmente beiram o absurdo, deixando sempre muito explícito a enorme truculência de uma líder para com suas empregadas. E quando a personagem não está no trabalho, tudo o que vemos são seus relatos quanto aos medos e traumas, resultados de um trabalho torturante e sem sentido. Até o desfecho previsível e nem um pouco interessante. Ás vezes, eu fiquei com a sensação de que a autora nada mais fez do que encher linguiça a maior parte do livro.
O Diabo Veste Prada não chega á ser um livro ruim. Longe disso. Ele é bem escrito, possui uma personagem principal até simpática, e podemos desfrutar de um intenso vislumbre do que seria o mundo da alta costura. As famosas marcas de grifes não estão somente no título do livro, mas também espalhadas ao longo de toda a trama. Mas o enredo é de uma mesmice estagnada, que pode cansar em alguns momentos.

A minha opinião como leitor pode até ser ofuscada por uma legião de fãs do livro, eu sei. Mas justamente como mencionei no inicio desta resenha, eu gosto de ler chick lit e, portanto, não me incomoda o fato de estar diante de um gênero que sempre denotou sua total despretensão e simplicidade. Mas a realidade é que o texto se tornou extenso demais, repetitivo e pouco engraçado.
Este foi um raro caso de um livro que eu descobri após ter assistido ao filme, que por sinal, é outro caso raro do trabalho cinematográfico, que em alguns momentos chega a ser mais eficiente do que o próprio livro. Um ponto positivo quando se lê depois de assistir, é que a chefa carrasca, Miranda Priestly, acaba ganhando um rosto, pois é impossível ler sem ter em mente o olhar gélido interpretado magistralmente na telona pela sempre maravilhosa Maryl Streep.

Gosto sempre de sustentar a ideia de que um livro vale pelo simples ato de ler. E o Diabo Veste Prada vai merecer os aplausos por sua dinâmica detalhista e simpática. Mas infelizmente é um livro esquecível, que é facilmente ofuscado por tantos outros melhores autores do mesmo gênero.

sábado, 19 de abril de 2014

RESENHA DE LIVRO – LEONARDO DA VINCI


Leonardo da Vinci foi um homem avançado demais para sua época. Essa é a conclusão a qual me convenço á cada novo livro que leio sobre a vida e o trabalho deste gênio da renascença.
Se Leonardo tivesse vivido nos dias de hoje, numa era moderna com imensos avanços tecnológicos e quantidades absurdas de recursos que praticamente vão ao infinito, certamente este homem teria criado coisas inimagináveis, mesmo para nós, viventes deste período abundante.

Neste livro, cujo título leva o nome do mestre italiano, o autor Martin Kemp, especialista em Leonardo da Vinci, deixa de fora o lado biográfico para ir mais á fundo nos trabalhos que Leonardo desenvolveu ao longo de sua vida. Kemp tenta compreender como funcionava a mente deste gênio, que era capaz de unir arte e ciência em seus projetos. Também nos mostra um pouco do legado que ele nos deixou, vasculha seus trabalhos inacabados, seus desenvolvimentos mecânicos e até seu caderno de notas. E quando se está diante das obras de Leonardo, é impossível não sustentar uma constante impressão de que ele foi um grande visionário, que antecipou nossa atual era moderna.
Obviamente este livro é relativamente pequeno e talvez até incapaz de fazer justiça á enorme abrangência do personagem homenageado. Mas com competência e esforço, o autor tentar mostrar toda a proposta de captação da verdadeira essência de Leonardo da Vinci como indivíduo e fenômeno histórico.

Como não poderia ser diferente, o conteúdo literário é um pouco técnico e em alguns momentos pode cansar os leitores menos interessados na complexidade das obras do artista. Porém, aqui podemos encontrar detalhes ricos e interessantes á cerca das criações do mestre italiano. Mesmo aquelas que ficaram inacabadas.
O último capítulo chama-se “O Quarto de Lisa: Leonardo da Vinci além da vida”. Aqui encontramos detalhes surpreendentes sobre o afresco mais famoso de Leonardo, a Mona Lisa. Curiosidades legais que não cometerei o pecado de revela-las nesta resenha. Melhor deixar para que você leitor, se esbalde como eu fiz, através das páginas que contam um pouco mais sobre os grandes projetos deste que foi um dos maiores homens que já pisaram neste planeta.
O livro possui um visual belíssimo, contendo imagens dos quadros de Leonardo, assim como trechos de suas complexas anotações. É um belo volume para se ter na estante. E melhor ainda é esmiuçar suas páginas e poder aprender um pouco mais sobre Da Vinci e sua inesgotável mente criativa.

segunda-feira, 24 de março de 2014

RESENHA DE LIVRO – O PODER DOS QUIETOS


A primeira coisa que chamou minha atenção quando eu retirei este livro das prateleiras e o segurei entre meus dedos, foi seu resoluto subtítulo: “Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar”. Imediatamente pensei se tratar de mais daquelas embromações, escrita por algum guru distinto, que trás lições elaboradas e incontestáveis de como ser feliz ou ter sucesso na vida. E embora eu desconfie desse tipo de fórmulas prontas, pensei que o livro seria legal, porque eu teria uma chance de me auto avaliar e ver o quanto havia conseguido evoluir naquilo que considerava o meu mais temeroso defeito: a timidez.

E a primeira bofetada que recebi, já nas primeiras páginas deste excelente “O Poder dos Quietos”, o qual eu me atrevo á elevá-lo ao status de bíblia dos introvertidos, é que timidez e introversão são duas condições absolutamente distintas; que não há uma definição geral entre os doutores da psicologia para introversão e extroversão; que eu estava de posse de um manifesto de ideias, capazes de me mostrar que existem qualidades e virtudes na introspecção, as quais eu não via porque aprendi a apreciar somente aquilo que o mundo determinista ditava como regra para o sucesso: a capacidade de ser extrovertido.
Sim, o subtítulo da obra é pretensioso e bonitinho, do tipo que promete felicidade moldada numa forma. Provavelmente foi inspirado segundo os critérios do bom marketing de vendas. Mas seu conteúdo é versado, impecavelmente construído por meio de infindáveis pesquisas sobre razões, consequência e as diferenças entre extrovertidos e introvertidos. Esse fato foi a segunda bofetada, a que me mostrou o quanto meu temperamento é o de um genuíno introvertido. Mesmo após anos trabalhando para melhorar isso em mim, simplesmente por achar inadequado, ainda continuo afeiçoado ás características dos ensimesmados.

A autora Susan Cain (que intitula á si própria como introvertida) esmiúça os mais longínquos e inusitados resultados obtidos através de estudos científicos, psicológicos e psicanalistas, e nos faz um resumo sobre as vantagens e desvantagens, não somente dos introvertidos, mas também dos extrovertidos. Susan vai atrás dos mais distintos assuntos, como testes de polígrafos, comentários sobre rubor facial, teoria do situacionismo, conceitos de automonitoramento, enfim, ela se mostrou uma mulher engajada na luta por encontrar explicações que pudessem esclarecer o porquê do favorecimento coletivo aos descolados.
Eu achei demais aprender sobre mim mesmo, através das páginas desse livro.

Mas talvez a grande lição que podemos extrair desse ótimo trabalho, é que a sociedade precisa de sua variabilidade, e que este livro é, na verdade, um importante guia para ajudar a nos aproximar um pouco mais de nosso temperamento.
É leitura gostosa, essencial, e por que não dizer, de fundamental teor didático.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

RESENHA DE LIVRO – HOMEM CINDERELA


Existem poucas maneiras de fazer com que as histórias dos grandes nomes do boxe mundial cheguem até os ouvidos daquele que não se interessa em acompanhar o esporte (como no meu caso). E o cinema é um desses raros meios á parte. Foi através da sétima arte que eu ouvi falar, pela primeira vez, em James J. Braddock; campeão mundial dos pesos pesados e símbolo de superação neste esporte.

Contudo, limitar conhecer a vida de grandes personagens que habitaram nosso passado, apenas através da telinha, pode ser perigoso. Porque geralmente filmes precisam de uma versão mais romantizada para atrair o público, e isso pode distorcer verdades e nos induzir á conceitos preestabelecidos.
A versão cinematográfica de “Homem Cinderela” chama-se “A Luta Pela Esperança”. História que o diretor Ron Howard foi até certo ponto fiel á vida de James J. Braddock, mas ele tiraniza seu adversário ao título mundial, Max Baer, talvez para dar maior impacto àquele que deveria ser o vilão cruel na trama.

Mas o fato é que Max baer, embora não tivesse sido exatamente um amor de pessoa, era um boxeador talentoso, que lutava fácil, gostava da fama e ás vezes era até carismático. Em momento algum no livro ele é apontado como um homem arrogante cruel e frio, características que são acentuadas no Max do filme.
Mas deixemos o filme de lado (que por sinal, vale muito á pena conferir, mas sem se ater ao lado biográfico), e vamos falar do livro do autor Jeremy Schaap, que mostrou ser um obstinado pesquisador em busca dos fatos que rondaram a vida de James J. Braddock e os grandes boxeadores de seu tempo. Uma época marcada pela quebra da bolsa de Nova York (1929), fato que gerou decadência social nos Estados Unidos e no mundo; e pelo Boxe, que naquele tempo era o esporte mais prestigiado do país.

Diante de um cenário desolador e desesperançoso, o Homem Cinderela (apelido que Braddock recebe na época) protagoniza uma história de triunfo contra todas as adversidades, e se torna herói nacional. James foi um boxeador promissor, até que uma sequencia de derrotas, a mão direita quebrada e o crack da bolsa nova iorquina, o levam ao fundo do poço. Braddock chega á ter que trabalhar em serviços braçais nas docas e receber auxílio do governo para conseguir sustentar mulher e filhos. Seu agente Joe Gould era o único que ainda sustentava alguma esperança no boxeador.
Cerca de um ano depois, vivendo sem nenhuma perspectiva, James J. Braddock ressurge das cinzas como azarão, e numa incrível reviravolta, ele se vê disputando o título dos pesos pesados, contra o atual astro e campeão mundial Max Baer.
É uma história de superação incrível, que não perde o brilho mesmo diante da autenticidade dos fatos, o principal objetivo do autor. Uma bela história para os fãs de boxe, assim como é um surpreendente livro, para os amantes de literatura; exatamente como no meu caso.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

RESENHA DE LIVRO: O FATOR SORTE


Sempre gostei da ideia de que a vida está constantemente me colocando nos lugares certos; ora para me fornecer boas situações; outras vezes para me manter longe de problemas. A maior parte do tempo, alguns detalhes denotam isso como verídico em meu dia-dia. Mas há instantes em que me vejo em situações tão ruins, que fica complicado sustentar essa minha crença, tamanho são os empecilhos ao meu redor. O que então seria esses acontecimentos, senão algo completamente fora do meu controle? E justo eu, que adoro associar o termo “autocontrole” á minha existência.  
Olhando para o cenário inteiro de minha realidade, posso afirmar que a sorte faz sim, parte de minha vida. Contudo, ela rege através de doses pequenas e constantes. Mas por que eu nunca tive um grande momento de sorte, que pudesse mudar drasticamente a minha vida? Tipo acertar os benditos números da loteria, os quais eu persigo insistentemente á tantos anos. Obviamente, da mesma forma, talvez eu devesse me sentir imensamente satisfeito com minha situação, simplesmente porque o elevado oposto também não faz parte da minha existência, ou seja, nunca tive um azar tão catastrófico, á ponto de me lançar ao fundo do poço.
Bem, o escritor Max Gunther (autor de Os Axiomas de Zurique) vai a buscar das respostas para a questão que levantei acima, e consegue juntar todo o material coletado neste interessante livro, intitulado “O Fator Sorte”. Max procura saber por que algumas pessoas possuem mais sorte do que outras e o que podemos fazer para nos tornarmos uma delas.
A grande sacada aqui foi que o autor não se apegou á nenhum estilo, conceito ou crença. Ele apenas criou uma coletânea de materiais em estilo jornalístico, para nos apresentar casos onde esse estranho fenômeno chamado Sorte foi determinante. Reuniu histórias de gente afortunada e de outras inacreditavelmente azaradas, e dividiu o livro em temas que vão desde A Teoria de Aleatoriedade (meu capítulo favorito), passando por crendices religiosas, supersticiosas, presságios e até mesmo casos de intuição. Nos últimos capítulos, o autor faz um resumo com algumas das atitudes mais evidentes na vida das pessoas sortudas. Nessa parte vemos teorias interessantes, e nem um pouco místicas, que podem muito bem ser aplicadas em nosso cotidiano, para aumentarmos o nosso imã da boa sorte.
 Que fique claro que não se trata de um livro de autoajuda. Mas um amontoado jornalístico, que vai a busca de respostas consistentes. Sem julgar, sugerir ou favorecer qualquer dos relatos presente em seu conteúdo.
É uma leitura gostosa, de fácil compreensão e que aborda um tema que interessa á todos nós. Á menos que você tenha se convencido de que é um azarado irremediável, vale á pena conferir este intrigante livro.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

HOMENAGEM: AMIZADE



O inesperado pode ser algo assustador quando se tem em jogo algo tão instável quanto nossa própria vida. Mas há momentos em que este mesmo imprevisto pode nos proporcionar alegria. De certa forma, gosto da ideia de que tudo tem á ver com a maneira com que encaramos nosso cotidiano. Uma pedra no sapato pode nos ser algo inquestionavelmente incômodo, mas esta mesma pedra, pode ter nos tirado o tempo que precisaríamos para conseguir embarcar num transporte que fora completamente destruído num acidente... Não faz muito tempo, eu precisei fazer uma cirurgia no Tendão de Aquiles. Quando entrei no quarto asséptico, fui recepcionado por duas enfermeiras, que acharam inusitado aquele meu sorriso e espontaneidade. Disseram que jamais haviam presenciado um paciente tão tranquilo ao entrar naquele lugar, considerado um antro de completa infelicidade. Aquelas palavras das enfermeiras era a comprovação de que eu estava aprendendo a olhar com admiração para toda a manutenção irremediável da vida.

Recentemente tenho experimentado algo inesperado, que me foi gentilmente devolvido pela Senhora Vida. O retorno de um velho amigo. Que simplesmente conheceu e viveu os tempos difíceis; que tolerou com paciência admirável todos os meus medos e neuroses. Um ato que por si, já valeria toda minha admiração e que seria completamente compreensível se este camarada não quisesse ter-me por perto... Mas que mesmo assim, dispõe de tempo para escrever um texto tão auspicioso (confesso que precisei consultar essa palavra no dicionário), que pincela com maestria incomparável, o verdadeiro significado da palavra amigo...
Obrigado por Tudo, Mario.


Pensamentos

Certo dia li em algum lugar que para um homem ser completo ele deveria, ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro.
Por vários anos planejei tudo isso, e por vários anos fiquei cada vez mais frustrado comigo mesmo.
Afinal, havia plantado uma árvore que acabou não florescendo, e sempre tive medo de ter um filho e não conseguir dar a ele algo que achava ser importante ter em minha juventude.
O livro enfim, já gastei cadernos e folhas avulsas sem nunca criar nada que o contexto pudesse valer a pena ser lido por ninguém.
Passaram-se anos e acabei desistindo de escrever o livro.
Quanto ao filho, continuo com medo de concebê-lo.
E a árvore nada mais se tornou do que uma paisagem em minha memória.
Mas o mestre do universo, o Senhor tempo, acabou por me ensinar às duras penas lições que a maioria delas eu não teria escolhido viver.
Mas tudo muda, e eu não era uma exceção à regra afinal, então me concentrei nas coisas que achava que me fariam diferença.
Trabalhei como um louco, mas de forma errada, e fiz coisas que não me ajudaram em nada a crescer como pessoa.
Tornei-me egoísta.
Passava por cima de pessoas como um trator, e com isso só me tornei mais sozinho e amargo.
Mas o tempo, esse tempo, esses minutos que se transformam em horas e dias e que não percebemos que está acontecendo, me fizeram enxergar a verdadeira magia.
Aquela magia que encontramos ao levantarmos da cama e olhar o quadro na parede do quarto, ou seja lá o que quer que olhamos e não percebemos.
Seja a chuva que nos obriga correr para não nos molharmos, ou o sol que logo pela manhã já nos faz reclamar do calor.
Mas aprendi que a vida está presente todos os dias de nossas vidas mais do que a vemos.
E hoje quando levanto pela manhã procuro fazer isso com o coração, e meus abraços se tornaram tão fraternos que procuro passar sempre a melhor energia possível, mesmo que não esteja muito bem.
Pois o dia é longo e tenho sempre a certeza de que se não acordei bem é porque o dia tem tudo para melhorar mais tarde.
Aprendi que o filho que deveria ter, nada mais é do que uma ação que possa ser lembrada para sempre, ou a ajuda à alguém.
A minha árvore nada mais é do que uma boa formação do meu caráter, e que me trará maravilhosos frutos.
E meu livro não precisa estar no papel, mas na lembrança do mundo como um belo conto, onde desempenhei o papel principal e o de coadjuvante com direito ao oscar.
Aprendi enfim, que posso sim chorar, pois sou humano como qualquer outro, e aprendi que posso sim sorrir, pois a vida ensinou-me isso.
Sim existem anjos. E eles geralmente não nos guiam por caminhos fáceis.
Fazem que pulemos de grandes precipícios para que assim nos ensinem a voar, e acima de tudo, acreditar que podemos voar.
Aprendi que sorrir é mais fácil do que chorar, e ser feliz é uma questão de escolha, não algo que simplesmente acontece na nossa vida.
Aprendi a sorrir com as coisas mais bobas da vida, e a dar gargalhada com as dificuldades mesmo que às vezes elas pareçam intransponíveis.
Nossa vida nasce escrita pelas mãos do Criador, mas ele nos deu lápis e borracha para podermos reescrevê-la. E é preciso ser um bom autor.
Acredite em você, e depois se olhe no espelho.
Você vai ver que seus olhos brilham como as estrelas que iluminam o céu da humanidade. E perceberá que seus atos fazem parte de uma força onde, sempre como um círculo, o que parte de um princípio volta sempre ao seu início.
Então verá que o que se faz com disciplina e bom coração retornarão a você com a mesma força que a distribuiu.
Ser feliz é algo que buscamos todos os dias de forma irracional, mas se pararmos para escutar nosso coração e a canção que o universo toca para nossa alma a cada dia, talvez consigamos em um breve momento encontrar a paz que nosso espírito realmente busca.
Não sou um conhecedor da verdade, nem tampouco dos segredos do mundo, mas a cada suspiro que sai da minha alma, percebo que o mundo é e sempre será muito mais do que minha visão pode enxergar...  
Talvez algum dia ao me sentar para olhar o horizonte, trarei em minha alma a certeza de que os caminhos que percorri estavam corretos e então o sol poderá iluminar-me a alma de forma que possa enfim comungar com a verdadeira força que rege o universo.
E assim, poderei dizer ao mundo com toda a força que encontrei o verdadeiro sentido da vida.
Talvez isso seja devaneio de uma mente insana, que sonha e acredita em um mundo onde não existam mais diferenças de pessoas ou de crença. Onde existam pessoas que enxergam não com os olhos da face, mas sim com os olhos da alma.
Onde pessoas não achem que são expectadores, mas que passem a desempenhar o papel principal, pois como disse Francis Bacon (filósofo, político inglês e alquimista que fazia parte da Fraternidade Rosa-cruz) “Somente a Deus e aos anjos é dado este poder de só observar.”
Podemos escolher sermos marionetes do destino, ou podemos ser o controlador das cordas de nossa vida. Não precisamos ser o que o mundo nos obriga, mas podemos ser o que o mundo precisa.
Sim eu sei, é difícil. Lutar sempre contra a tirania dos outros, saber fugir da falsidade escondida em um sorriso ou um abraço.
Tentar entender enfim o porquê de tanto rancor, egoísmo, ganância desenfreada, ou seja lá os tantos outros artifícios que as pessoas possuem para magoar as outras e assim atingir seus objetivos. Realmente é difícil.
Segundo Lao Tse “o homem que conhece o outro é sábio, o que conhece a si próprio é iluminado”.
Às vezes me pergunto se conseguirei ao menos chegar ao patamar de sábio algum dia. As pessoas me surpreendem a cada dia, e como diz o ditado “morro e não vejo de tudo na vida”.
Penso às vezes em desistir de tentar entender, mas o que mais poderei fazer se desistir, se realmente abandonar as pessoas? Conseguiria enfim entender-me?
Acho que às vezes precisamos nos afastar dos outros e ouvir somente nosso coração, mas não dizer ao nosso coração o que queremos, mas ouvi-lo.
Quando conseguimos isso deixamos nossa alma em silêncio, e assim nosso coração realmente fala. E devemos ouvi-lo, pois ele é sábio, ele comunga com as forças que regem nossa vida.
Prefiro perder o que tenho em bens materiais ao invés de atirar-me aos escombros de uma vida sem guerra, sem batalha. Não serei pobre de espírito ao ponto de não aceitar a dor da derrota, mas sim, serei o guerreiro que irá emanar dos escombros com minha espada em riste e meu estandarte flagelado tremulando para que nações de tristeza vejam e admirem o que minha alma é capaz de conquistar. O Grande Arquiteto do Universo assim me moldou e tempestades jamais causarão a erosão da fraqueza em minha alma.
Ao final os fracos se ajoelharão perante Ele e pedirão perdão, mas aos guerreiros restará a glória de ver suas espadas e escudos estendidos ao chão em agradecimento pela vida que viveram.
A vida por vezes nos afasta das pessoas, faz com que consigamos magoa-las, ou por vezes deixa que sejamos magoados por elas.
Mas precisamos aprender com as lições que nos são impostas que às vezes as lágrimas que rolam por nossa face não querem realmente dizer que sofremos, mas que caminhamos por estradas que realmente deveríamos percorrer e ao final de nossa jornada poderemos nos sentar e contemplar o que nos foi importante.
E então iremos sorrir.
Acredito que a vida tenha vontade própria e ela não ministra seus ensinamentos de forma aleatória. Ela molda toda uma existência com paciência não compreendida por nós na maioria das vezes.
Então ela nos surpreende com acontecimentos inesperados, como o retorno de um grande amigo a muito afastado. Mas ela também fez seu trabalho de forma brilhante naquela vida e lhe oferece a recompensa ao lhe devolver um amigo que certamente fará com que você se lembre que todos os momentos realmente possuem sua própria magia.
Poderemos um dia nos distanciar novamente, mas o tempo já cumpriu seu papel de gravar estes pequenos momentos em minha existência e assim transforma-los em lembranças gratificantes que jamais me serão tomadas. 
A ti meu amigo Michel Soares. 
 Com carinho, respeito e fraterno abraço...
Mario Sergio Cetto