terça-feira, 23 de junho de 2015

RESENHA DE LIVRO – VIDAS PROVISÓRIAS


O autor do livro analisado nesta resenha, certamente é bem mais conhecido por seus trabalhos como repórter. Á título de exemplo, Edney Silvestre se destacou como correspondente em Nova York, durante os ataques terroristas do onze de Setembro. Mas o cara é também possuidor de grande talento para literatura que, e assim como era no meu caso, a maioria dos brasileiros desconhece.

Vidas Provisórias é um trabalho dotado de viés delicado e sutil, que narra histórias paralelas e simplistas de dois personagens, os quais vivem “vidas provisórias” no exterior: um jovem universitário, irmão de um militar dos tempos da ditadura, que é sequestrado em seu apartamento no Rio de Janeiro e brutalmente torturado pelas mãos dos militares da década de 60, depois é descartado em fronteira, sem nenhum documento de identidade. Ao mesmo tempo, acompanhamos uma adolescente de dezessete, que escapa do Brasil, munida de passaporte falso, temendo a violência truculenta que assolava o país.
Usando de sua elevada experiência vivida no exterior, Edney nos entrega um trabalho fantástico, cujas tramas são relatos quase palpáveis, onde fica fácil trazer á tona todos os infortúnios vividos por Paulo e Barbara, os dois protagonistas. As dificuldades enfrentadas por eles, que precisam se adaptar á viver num país desconhecido, se escondendo como se fossem ratos, lutando contra o medo da deportação, diariamente sob a sensação de viver como indesejáveis, cheios de saudade da terra natal e dos familiares. Tudo isso nos é mostrado sem pudor, onde a essência do ser humano permeia ao longo de cada parágrafo.

O livro possui uma pegada melancólica, mas não chega á nos deixar entediado. O autor é minucioso nos detalhes e nos transporta facilmente para dentro de suas páginas. As cenas de tortura vividas por Paulo me incomodaram bastante, assim como a constante sensação de inadequação que Barbara ostenta ao longo de sua trajetória. A obra também é rica nos detalhes que aconteceram ao redor do mundo, em conformidade com o tempo vivido por cada personagem.
Gostei muito também do visual deste volume. Este segue com o desenvolver das duas histórias, alternando-as em pequenos capítulos, onde cada um possui um estilo diagramático diferente, inclusive nas cores. É mesmo um belo trabalho.

Edney Silvestre é outro autor extremamente competente que só fui conhecer este ano (atualmente venho mantendo um faro aguçado para descobrir bons autores nas livrarias). Ele possui outros trabalhos, até com mais notoriedade, os quais eu certamente procurarei muito em breve.
É literatura bem escrita e delicada, infestada de intensidade emocional e até um pouco triste. Mas acima de tudo, um livro que fala de esperança, de luta pela sobrevivência dentro de um mundo aparentemente empenhado em nossa destruição. Uma obra que beira a perfeição, justamente por trazer o leitor de volta ao tato com sua própria humanidade.

sábado, 6 de junho de 2015

RESENHA DE LIVRO - OURO


Por trás da gloriosa conquista do lugar mais alto no topo e da obtenção de uma reluzente medalha olímpica, existe vida.

Vida que geralmente é sufocada pela obstinada busca pela excelência no esporte. Certamente a abnegação desta mesma vida parece ser condição primordial para que um atleta seja merecedor do lugar mais alto do pódio.
Neste excelente trabalho, de título simplório, mas detentor de conteúdo riquíssimo, o autor Chris Cleave nos remete á uma história de superação e limites do ser humano, onde um questionamento paira constante na mente do leitor: até onde seríamos capazes de ir para conquistar a glória olímpica.

Eis a premissa deste fabuloso livro intitulado OURO.
A trama, que por sinal é muito simples, conta a história de duas jovens que fazem parte de um grupo de ciclismo de elite, e juntas elas vivem uma trajetória de sofrimento, luta e superação. O autor enriquece suas personagens dando á elas personalidades distintas, que constantemente as coloca em intensos conflitos. O enredo também está repleto de bons coadjuvantes, todos envolventes e em harmonia com o desenrolar da história.

Há momentos em que eu adorava suas personagens, e noutros eu era capaz de detestá-las facilmente. Uma delas, chamada Zoe, foi a que mais mexeu comigo ao longo da leitura, talvez por ser uma mulher de temperamento muito forte; dotada de um determinismo provocador. O autor me fez amar e odiar Zoe em diversos instantes da obra. E no fim das contas, soube que eu a adorava desde o início. Não há espaço para vilões aqui. O que temos são seres humanos confrontando suas limitações e suas falhas.
Chris Cleave talvez tenha sido a maior descoberta literária que fiz este ano. Ele sabe narrar de maneira brilhante os limites físicos e emocionais das pessoas. Foi capaz de transformar um roteiro banal num intenso relato da fragilidade humana. A leitura deste livro me fez sentir as dores dos personagens, como poucos livros foram capazes de fazê-lo.  Levou-me ás lágrimas em alguns instantes, e arrancou sorrisos de meus lábios noutros. Não é um autor inovador, mas ele consegue despertar sentimentos em seus leitores com facilidade absurda.

O livro mais conhecido dele chama-se PEQUENA ABELHA, e certamente estarei antenado neste, e em todos os outros trabalhos deste promissor contador de histórias britânico.
Ouro foi uma excelente descoberta que fiz. Um livro que quase não retirei da prateleira por parecer desinteressante, mas que valeu muito á pena ter conhecido. É aquele tipo de leitura que faço devagar, temendo que esta chegue ao seu final... Recomendadíssimo!

domingo, 26 de abril de 2015

RESENHA DE LIVRO: UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL


O ser humano é uma inconstante dicotomia entre benevolência e crueldade. Qualquer um dos lados aflorados é capaz de transformar drasticamente a vida deste mesmo indivíduo ou de pessoas ao seu redor.

Quando um garotinho de rua pede uma moeda de esmola para Laura Schroff, ela vê sua benevolência atiçada, e deste momento em diante, ela tem a sua vida e a daquela improvável alma, vagante das ruas de Nova York, mudadas para sempre.
Exatamente como o título sugere, este livro trata mesmo de UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL, conta uma inusitada relação de amor entre uma executiva estabilizada e um menino negro pedinte de rua. Mas particularmente eu prefiro o título original da obra: An Invisible Thread (Um Fio Invisível), pois faz mais justiça ao que a autora queria passar sobre sua relação com Maurice; o garoto de rua que certo dia lhe pede esmola e eles acabam se tornando amigos.

A trama começa narrando o inusitado encontro entre os dois protagonistas, mas ela não fica atrelada apenas ao cotidiano atual. Os autores, Laura Schroff e Alex Tresniowski, constantemente mudam o foco para mostrar o passado turbulento que fora a vida de Laura e Maurice, construção literária que nos ajuda a entender e gostar dos personagens.
A história contada no livro é real e foi vivida pelos protagonistas. E mesmo diante de relatos fortes sobre vidas improváveis, lares destruídos por violência, drogas e miséria, ainda sim a veracidade dos fatos não deixa o clima tornar-se novelesco ou piegas. Tive a sensação de que os autores tentaram fidelizar a realidade de cada situação vivida por Laura e Maurice, sem haver a preocupação em arrancar lágrimas do leitor.

Em determinado instante da trama, Laura, que narra tudo em primeira pessoa, levanta um questionamento bem interessante: Ela se pergunta se é correto entrar na vida de um menino pobre e sem perspectivas, e então lhe proporcionar instantes de conforto, lazer e fartura. Isso seria mesmo algo digno á se fazer? Segundo ela, tal atitude poderia vir a ser um ato de dissimulada crueldade, pois sempre após se encontrar com Laura, Maurice precisava se deparar com o contraste sombrio que sua vida é em comparação á vida de sua nova amiga. A autora se pergunta se tudo o que faz para o garoto, talvez não seja apenas para que ela própria se sinta melhor... Uma questão difícil de ponderar.
Um ponto que achei desnecessário foi uma entrevista que encerra o livro, na qual Laura conta alguns detalhes sobre a obra e o seu desenvolvimento. Não creio que isso fosse necessário, uma vez que, a própria trama já desenrola coisas suficientes para nos deixar por dentro da importância e o desejo de se realizar este trabalho. De qualquer forma, a entrevista é um posfácio e não há necessidade de ser lida.

UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL é o testemunho de duas vidas que em determinado instante de tempo se encontram, de forma inesperada e irreversível. Então, executiva e morador de rua se tornam amigos, e aprendem juntos humildade e amor.
O teor do livro parece nos dar indícios de que há qualquer momento iremos ás lágrimas, mas embora estejamos diante de uma bela história, a desconsolação não chega á se fazer presente.

Mas é um bonito relato de vida e vale á pena ser degustado.

sábado, 25 de abril de 2015

CRÔNICA: SALA VAZIA


Deitado no tapete da sala, de barriga pra baixo, eu pensava em alguma coisa para escrever. O barulho do ventilador ligado, girando para paredes vazias, lá no quarto, era um sinal de que eu vagueava sem destino pela casa. Em minha frente, a estante de livros onde notei uma grossa camada de poeira, uniformemente adormecida entre os volumes... Pensei que eu deveria arriscar compor uma poesia.
Será que foi o vislumbre da poeira impregnada em meus móveis que despertou essa inusitada sugestão? Certa vez, eu li num texto, que as palavras surgem e constroem frases naturalmente na mente de um poeta, diante do simples entrever da realidade ordinária. Eu não me julgo um poeta, e nem mesmo sou bom na arte de construir versos. Principalmente porque acredito que a grande magia da poesia não é a de transmitir algo lógico ou comunicativo, mas, sobretudo a de construir emoções.
Mas eu aprendi que escrever deve se tornar um hábito constante na vida de quem quer se manter estudante dessa arte... Se escrever for apenas um hobby, então seremos como atletas de fim de semana, onde não exercitaremos o suficiente para elevarmo-nos á novos degraus de excelência. Exatamente como um atleta que precisa praticar os músculos, um escritor precisa praticar a escrita. Mesmo quando sua mente está vazia, feito calçadão do centro da cidade em noite de chuva.
Bom, o fato é que o desconforto de ficar muito tempo deitado assim, imprensando o abdômen, me deixa sem ar. Então, eu me sentei e, casualmente, olhei para o negrume da tela da TV desligada. Foi estranho, mas me lembrei de que fazia meses que eu não assistia nenhum canal televisivo e, mesmo assim, não sentia falta de nenhum deles. Quantas risadas tolas, quantos gritos de gol, quantos bocejos entediados, quanta indignação. Quantas lágrimas eu e ela já compartilhamos juntos... Eu queria fazer as pazes contigo, ó querida condutora da futilidade mundana. Mas o espelho escurecido e emburrado, diante de mim, mais se parecia com uma criança mimada, que jamais perdoará o meu completo abandono.
Absorto, eu reparo um pequeno tufo de algodão, preso nos pelos do meu peito. Eu o retiro e olho de perto. E entendo que não se trata de um tufo de algodão, mas de resquícios da Tekila, minha adorável Poodle, portadora de enorme quantidade de fiapos de algodão, que se desprendem dela, deixando por onde passa um rastro matreiro de cor branca. Percebi que toda a extensão do tapete era um ambiente impregnado de pequenos bolinhos provindos de sua crina canina, denotando que aquele recinto havia sido emancipado.

Senti-me um estranho, um intruso dentro de minha própria sala.
Até mesmo o tapete, com toda sua expansividade familiar, agora me era excêntrico, porque eu havia me tornado um visitante raro da sala, incapaz de notar seu novo adorno esbranquiçado.
Como pode eu ser incapaz de reparar transformações tão evidentes dentro da minha própria casa? Era como se eu estivesse entrando na sala pela primeira vez. E exatamente como ocorre na natureza dominante, a Tekila teria todo o direito de me expulsar, pois aquele terreno agora lhe pertencia. Afinal, até a TV recusava-se á fazer as pazes comigo; os livros deviam me odiar por deixá-los á mercê da poeira incessante; e os fiapos de algodão de minha pequena leoa reivindicavam o solo daquele ambiente.
Levantei-me e fugi, feito um covarde, para a cozinha. Frequentemente, eu esticava o pescoço, como um periscópio humano, vigiando a sala de longe. Aquelas veracidades cruéis não me queriam por lá, e agora eu temia estar sendo perseguido, e talvez a revolução se intensificasse, ocasionando em uma expulsão coletiva. Tive medo de olhar também ao redor da cozinha, pois os talheres poderiam se unir aos copos e o microondas, numa campanha coletiva para me repelir.

O ser humano é o único animal que não sabe o que fazer na hora de marcar terreno.
Mas a sala já havia aprendido isso, e a corte residencial estava formada, em todos os vãos da estante. A acusação trouxe algumas testemunhas de peso: minhas pequenas Gueixas de pano, que conviveram comigo há tanto tempo, agora me olhavam com menos admiração: “Você é mesmo um ausente! Como pôde ser tão ingrato? Até já dormiste neste chão, velado por nós!”, eu era capaz de escutar suas duras acusações. O dragão de argila, que adquiri de uma vendedora indígena em Foz do Iguaçu, apesar de não ter feito nenhum pronunciamento, pareceu optar pela neutralidade, recusando-se á tomar algum partido... E por fim, a Dama da Justiça, imponente e resoluta, o mais antigo adereço da estante, com sua balança nas mãos, parecia pronta para me dar a sentença.
Culpado!
Finalmente eu entendi que não somos nós aqueles que precisam invadir, sobrepor ou apreciar o lar. Na verdade, é o ambiente que nos escolhe, que nos analisa antes de decidir se gostará de nós... Ou ele nos expulsa sem nenhum pudor, como se fôssemos indesejáveis leprosos.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

RESENHA DE LIVROS – A MULHER COM O LAPTOP


Logo que comecei a leitura deste livro, tive a impressão de que eu estava entrando numa cansativa jornada de 318 páginas, as quais se piorassem, eu não veria alternativa, senão cometer um ato raro: abandonar a leitura. Sim, este A MULHER COM O LAPTOP começa um pouco enfadonho, daquelas leituras que causam inevitáveis ardências nos olhos. E mais; em momento algum ela decola pra nos fazer querer virar mais uma página e ler mais um pouquinho.

Outro aspecto que imediatamente me causou desconforto, é que o autor nos arremessa, sem nenhum pudor, uma elevada quantidade de personagens, o que nos deixa completamente perdidos, tentando recordar quem é quem na história.
Começo esta resenha com queixas, exatamente para dar segmento á epítome, destacando que o autor, D.M. Thomas, consegue se redimir em parte de alguns de seus pecados literários, conforme vamos progredindo nas páginas deste seu trabalho.

A trama passa a ter um ganho substancial na exata proporção em que o personagem principal vai se mostrando para o leitor. Sobretudo quando ele faz desabafos impronunciáveis, instigado pelos próprios sentimentos. Ainda assim, a leitura peca por nunca passar de morna e quase não têm grandes instantes para nos deliciar. São apenas situações quase que corriqueira, como se estivéssemos acompanhando o dia-dia de pessoas num inusitado workshop. A falta de familiaridade com os personagens também incomoda bastante, mas acho que o leitor acaba criando certo vínculo próprio apenas com os seus preferidos, embora eu deva dizer que nenhum foi cativante o suficiente aos meus auspícios, talvez por falta de mais interação construtiva ou o elevado número de coadjuvantes.
A trama conta a história de Simon, escritor de segunda classe, que é convidado á passar uma temporada numa ilha grega, onde coordenará uma oficina literária. Os “alunos” da oficina são personagens distintos, meio que em busca de certa libertação de seus impulsos interiores. O desafio de Simon é de tentar ensinar aos participantes a diferença entre querer escrever e a qualidade do que é escrito. A trama parece meia vaga e ás vezes nos deixa a impressão de que ela é mero escapismo para algo maior que está por vir, o que infelizmente nunca acontece.

Os pontos fortes do livro ficam por conta da narrativa bem construída, muitas vezes intensa e noutras com diálogos profundos: “Quanto mais bela uma mulher, mas ela tende a desprezar a beleza feminina, após o declínio da sua”. Sacadas reflexivas, como essa, embelezam alguns instantes da obra. Outro aspecto positivo é que a forma de linguagem é um pouco diferente da habitual. Não sei dizer nem se é difícil, mas é imprevisível e incomum, principalmente quando se trata de um narrador na primeira pessoa. Incomodou um pouco no início, mas depois aprendi a gostar da forma de escrita de D.M. Thomas, um escritor que mostrou possuir um estilo textual peculiar, mas que teria sido melhor aproveitado se a trama fosse um pouco mais sedutora.
Foi uma viagem por uma história nem um pouco previsível, mas sem grandes momentos. Com uma forma de linguagem singular, e um título que só foi ser explicado no finzinho da obra. Pra quem for degustar, fica a dica: não avance até o final para entender o título. Prefira desfrutar de todo o livro, viajando numa aventura pouco empolgante, mas que é simpática e despretensiosa.

sábado, 28 de março de 2015

CRÔNICA: SOLIDÃO

Foi proposital a deliberação por deixar o título deste texto com apenas uma única palavra. Assim desejei, como numa tentativa débil de fazer com que o próprio termo que designa o estado de isolamento, soubesse como é se sentir sozinho. Por que eu daria a esse tema outras palavras mais para lhe fazer companhia, se com este simples ato posso me vingar de sua ríspida denominação?

Reparações à parte, solidão não é condição necessariamente ruim. Sei que cada segundo da minha vida se torna instantaneamente passado, mas é o instante imediato deste presente algo que só posso notar quando estou só. A solidão me permite tatear a existência; ela é um espelho que me obriga a olhar para dentro de mim... Apura-me.

Estar sozinho é como provar um pouco de mim mesmo. É ter a chance de verificar a própria transcendência se tornando ambiente. Isolado estou quando tenho as conversas mais sinceras comigo. E constantemente é na quietude singular que nasce em meu ser as mais intrínsecas inspirações.

Desse modo, penso que existe em nosso poder a possibilidade de desfrutar de instantes íntimos, desde que nos disponhamos ao acalento desta condição, a qual todos fogem como se a mesma fosse um mal aterrador.

Afinal, por que devo temer a única circunstância que me é garantidora? Estar sozinho é o estado universal, pois eventualmente esta universalidade se desfaz pela presença de alguém.

Talvez a solidão seja vista como maléfica justamente porque é ela quem me concede a chance de avaliar o que há de mais grotesco em mim. E geralmente essa autoanálise aperta pelo pescoço, sufoca, e me faz aceitar possibilidades impensáveis, como um revólver carregado ou uma dose de cianureto..., finitudes transformadas em hipóteses sedutoras. O suicídio certamente é o âmago do solitário quando externado em sua máxima.

Mas se eu falar na solidão na terceira pessoa, então poderei dizer que não estou mais sozinho. Porque eu e ela andaremos juntos, como bons comparsas testemunhando nossa imutabilidade. Eu querendo entender por que ela gosta tanto de rodear-me; ela humildemente resignada por não ser uma companheira exigente... Do contrário, certamente a solidão rumaria em busca de alguém que soubesse lhe usar como instrumento de acréscimo existencial, de maior produtividade. A solidão deve gostar que abusemos de sua predominância contemplativa, apenas para que fiquemos um pouco mais ao seu lado.

Mas que manifesto seria esse que gosta de se fazer perceptível na ausência de qualquer possibilidade de séquito? Se a vida foi criada do nada, então a solidão deva ser uma espécie de lacuna no meio do que foi feito...

Se de fato o inferno for mesmo os outros, como nos propôs Sartre, então a solidão não é apenas algo a se ansiar, ela seria mais do que isso. A solidão seria uma redoma que nos abriga de um oceano turbulento e caótico; seria um útero a nos proteger como se fôssemos o seu feto. A solidão é a possibilidade de plenitude, enquanto a manifestação de qualquer presença uma espécie de diminuição do que haveria de melhor em nós...

Aldous Huxley sugere que “Se somos todos diferentes, é fatal que estejamos sós”. Caso sua constatação seja mesmo assertiva, então a solidão deixaria de ser uma escolha, para nos ter como circunstância..., mas se Huxley estiver errado, então seria a solidão uma espécie de perda do humanismo?

Não deixemos que tais pensadores, talvez meros amantes do isolamento, nos influenciem em demasia, fazendo com que nos afeiçoemos a essa temerosa condição.

Contudo, muitas vezes me peguei refletindo sobre minha solidão, e sinceramente em todo o vislumbre não havia receio. Posso parecer um sujeito amargo, mas sei que vivo cercado, preso num mundo que tem se mostrado desinteressante e chato; convivo em lugares cheios de pessoas que não tem nada a acrescentar a ninguém, nem a elas mesmas... Meus mais cândidos textos se parecem com queixas sobre a complexidade da convivência; evito pessoas por preferir estar só; sinto cada vez menos vontade de interagir com a comunidade em que estou inserido, porque dela nada posso extrair, além de formalismos ideológicos e hábitos superficiais.

Sei que preciso viver em sociedade, mas venho sentindo cada vez menos vontade de participar ativamente da tribo. Não acho graça nas coisas que antes ria, não tenho vontade de conversas frívolas, sinto-me angustiado em ambientes atulhados de gente.

A solidão para mim é uma fuga; meu ócio necessário.

Não deve ser muito agradável pensar sobre isso para a maioria das pessoas, mas na minha casa a solidão é menos dissimulada e quase que ocupa todos os espaços. Em casa ela é anfitriã; ampla e fácil de notar. Eu a venero quase que com idolatria...

Porque a solidão do meu lar me segura pela mão, diz de uma vez o que quer, sem cerimônias..., realidade completamente distinta daquela solidão que permeia o meio social; a solidão que parece estar presente no ambiente de trabalho, na mesa de bar, no ponto de ônibus, esta é bem mais circunspecta. Mesmo impregnados de seres humanos, aqueles que temem a maledicente solidão, estes ambientes devoram as pessoas sem que se deem conta disso. Diariamente posso ver minha velha companheira nos gestos automatizados, na troca de palavras banais, no cotidiano customizado pelo consumismo descerebrado. Mesmo no meio de tantos, somos absurdamente solitários.

Tornamo-nos uma versão robótica, automatizada, munidos de microchips que se programam conforme a vontade dos interessados que detém o poder capital. Adestram-nos a temer males inexistentes e, quando estamos completamente alheios de nós mesmos, então nos colocam um cabresto doutrinador, que massageia o pânico imaginário... E se porventura sentirmos o incômodo recorrente da libertação dos males que nos foram inseridos, o sistema imediatamente invoca seus meios para nos medicar, até que voltemos a viver dentro da velha rotina programada e infeliz.

A solidão talvez fosse um mecanismo capaz de nos fazer enxergar todo o esquema doutrinador. Porém, há também um dispositivo designado a fazer com que nós, meras máquinas obedientes, sintamos medo de tudo aquilo que poderia nos libertar.

O problema talvez não seja a solidão em si, mas sim, a maneira pela qual a interpretamos. Deficiente é o nosso julgamento sobre as coisas que não são dignas de confiança. Porque o próprio julgamento precisa antes passar por uma espécie de peneira que há em cada um de nós, moldada pelos conceitos pragmáticos que adquirimos ao longo da vida... Então passamos a replicar sistematicamente o medo daquilo que desconhecemos.

Por que é tão difícil olhar para as coisas sem julgamentos conceituais?

Afinal, o único jeito de se gostar da solidão é desfrutar dela sem notar que a mesma existe; sem perceber que ela paira ao nosso redor; que sem ela você seria incapaz de ler este texto com atenção... Uma totalidade sublime, que debocha de nossas tentativas irrisórias de encontrarmos aconchego sem ela.

quinta-feira, 26 de março de 2015

RESENHA DE LIVRO – A GAROTA QUE EU QUERO


Mesmo detentor de razoável aparência e olhos verdes (sempre tão apontados como algo indispensável na hora de uma boa xavecada), a timidez era algo determinante e que geralmente freava meus planos de interatividade com as garotas, na adolescência. Eu era um desastre na arte da conquista; da boa lábia... Creio que isso era bem ao contrário de meus irmãos, que sempre foram infinitamente mais habilidosos do que eu neste quesito.

Começo esta resenha apontando este meu infortúnio juvenil, no intuito de reforçar o quanto me senti identificado com Cameron Wolfe, personagem principal deste volume que encerra a brilhante trilogia do criador Markus Zusak, intitulado A GAROTA QUE EU QUERO.
Desde o livro passado, eu já identificava que parte da fragilidade de Cameron era mesmo recíproca. E neste último episódio houve um foco maior da trama girando em torno das frustrações quanto ao isolamento e escassez de relacionamento do sôfrego personagem. Foi o que acentuou a proximidade deste resenhista que vos escreve, com a criação do autor. Cameron Wolfe é um desastre aparentemente imutável e insolúvel, e seus irmãos mais talentosos só fazem este sentimento se frisar no jovem rapaz.

Aqui, Markus Zusak dispensou as apresentações, justamente por se tratar da reta final da trama. O livro já começa mostrando o dia-dia da família Wolfe, sem nenhum foco introdutório. Os personagens vão surgindo aleatoriamente, o que é muito gostoso para quem já leu os dois livros passados. E embora sejam meigos coadjuvantes, a aleatoriedade pode deixar o livro um pouco confuso para leitores que não degustaram os volumes anteriores.
A família aparentemente está melhor das pernas, tocando a vida com um pouco mais de tranquilidade, fato que proporcionar ao leitor mais espaço para viver perto de Cameron, o único que parece ainda não ter se encontrado. A trama vai focar mais no cotidiano solitário e receoso deste simpático sujeito, que outra vez narra a história. Cameron gostaria de ter uma namorada, mas reconhece sua covardia e simplesmente não sabe o que fazer. Então, coisas acontecem e uma inesperada surpresa faz com que nosso herói encontre exatamente aquilo que o título propõe: a garota que ele quer (creio não ter cometido nenhuma gafe, pois isso acontece logo no início da história).

Acredito que esta trilogia fechou muito bem. Em definições, diria que “O Azarão”, primeiro da jornada, seja o mais fraquinho dos três, porém é fundamental para que entremos no mundo dos irmãos Wolfe. O segundo, “Bom de Briga” é bem mais encorpado e nos coloca dentro de conflitos familiares, em especial dos dois irmãos, Rubem e Cameron. Enquanto este último é com certeza o mais sensível dos três, o qual o autor foca exclusivamente no personagem principal. Trazendo á tona suas dores e limitações, e nos fazendo se encantar com suas conquistas.
Uma queixa que vi entre muito leitores internautas, é quanto ao fato deste último livro ter sido publicado pela editora Intrínseca, enquanto que os outros dois saíram pela Bertran Brasil. Isso não seria nenhum problema, mas a capa deste “A GAROTA QUE EU QUERO” não deixa nenhum indicativo de que se trata do terceiro volume de uma trilogia, o que compromete um pouco para aqueles que lerem o livro, sem antes ter passado pelos anteriores. Não estar familiarizado com a família Wolfe talvez faça com que o brilho destes carismáticos personagens seja ofuscado.

Picuinhas entre editoras á parte, é um livro belíssimo, fácil de ler, e que deixou claro uma crescente evolução no aspecto sensível da obra, sem parecer piegas em nenhum momento. Sim, a história ás vezes desperta estímulos á ponto de arrancar algumas lágrimas (eu achei muito bem construída e amarrada a relação entre Cameron e seu irmão mais velho), e nos faz torcer pelo personagem.
É leitura suave e despretensiosa. E talvez seja esta arriscada combinação o brilho literário que instiga a emoção dentro de nós, privilegiados leitores.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

RESENHA DE LIVROS – PRATO SUJO


Enquanto componho esta resenha, aprecio um gelado e delicioso copo de suco de caju... industrializado. Talvez contrassenso maior do que este não exista, pois eu deveria estar me atentando aos cuidados na hora de ingerir algo estritamente feito por uma indústria interessada exclusivamente em conquistar meu paladar, sem se importar com as consequências de suas ações para se chegar á isso. Mas como dizem: o ser humano é o único animal que ingere coisas que fazem mal, sabendo que elas o fazem.

Este trabalho que recebe o nome de Prato Sujo – Como a indústria alimentícia manipula os alimentos para viciar você (eu adorei esse título), é mais um projeto da revista Superinteressante, escrito pela autora e jornalista Marcia Kedouk, e vem com a premissa de esmiuçar os temas alimentícios que surgem de forma superficial no entendimento popular, como por exemplo, a ideia de alguns alimentos que se tornaram vilões da culinária, passando também por dietas, que em conceito técnico e prático não passam de sonhos fantasiosos que instigam o milagre do emagrecimento rápido.
O livro faz uma varredura que nos ajuda a entender um pouco melhor o que é o açúcar, e á partir disso, saber exatamente porque coisas como refrigerantes podem fazer mal. Outros casos bastante comentados popularmente, mas sempre escassos de profundidade, como o sódio e a farinha branca, também recebem destaque no conteúdo da obra, e nos ajuda a ter melhor compreensão sobre aquilo que entra pela nossa boca.

Sempre que resenho um livro que envolve a equipe de produção da revista Superinteressante, costumo exaltar a linguagem fácil do texto. E neste Prato Sujo a regra segue presente. Aqui os temas são abordados de maneira coloquial, com exemplos cotidianos e sem entrar muito em complexidades técnicas, o que não significa que elas não estejam no livro. Há espaço para argumentação didática sim, mas estas se mesclam com o ordinário simples, tornando uma leitura deliciosa e de fácil compreensão.
Claro que em tese, a grande maioria dos alimentos que consumimos atualmente costuma ter algum tipo de transformação que visa a produção em larga escala ou a manipulação gustativa. E muitas vezes estas transformações são danosas á saúde. A indústria então se defende com a ideia de que ingredientes nocivos são inseridos em quantidades seguras, permitidas pelos órgãos institucionais de proteção á saúde pública. Mas de que forma poderíamos refletir sobre o consumo de pequenas doses consideradas seguras, em nossa alimentação diária? Talvez isso não tenha grandes consequências á curto prazo, mas com o passar dos anos, pode acarretar numa redução da eficiência de nosso organismo, o que ocasionaria em diminuição de nosso tempo de vida; ou quem sabe um câncer se desenvolva com o passar dos anos.

O fato é que essas e outras questões estão lá no livro. E para aqueles que têm sede de conhecimento, este volume é uma grande sugestão, afinal, a culinária alimentícia faz parte da vida de todos nós.
Bom, eu já tomei um belo copo de suco industrializado por hoje. Porém, muito embora o calor e a sede anseiem por mais um copo, acho que o melhor a fazer é ingerir industrializados em quantidades pequenas... Dica essa que aprendi lendo livros como este.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CRÔNICA: AQUELE SORRISO

Cabisbaixo e contra vontade, eu marchava rumo ao encontro com a velha rotina semanal de trabalho. Meu impreciso andar, resignado e lento, como o de alguém que é obrigado a suportar as toneladas da vida, quase claudicava. E embora meu destino final não fosse assim, tão trágico, ainda assim, a condução pesarosa e a má vontade eram condições imutáveis do ser... Nada demais, apenas mais uma triste e viscosa manhã de segunda-feira. E como de praxe, eu seguia resignado e indisposto.

Nem sempre é assim, geralmente honro meus compromissos capitalistas com um pouco mais de resiliência. No entanto, naquela manhã específica eu me encontrava cheio de tédio, consequências da mesmice torturante de um novo dia útil. Nos ouvidos, os fones tocavam música alta, como se fossem um apelo desesperado para que a sanidade emergisse de algum canto interior, porque a familiaridade do som às vezes me segura pela mão e impede que eu despenque de vez no abismo.

Então eu seguia em frente;

Passos curtos e hesitantes;

É claro que alegria é um estado inconstante e que raramente se manifesta numa manhã previsível, a qual sabemos que uma mesa de escritório recheada de desprazeres nos aguarda. Mas este texto nasceu pelo fato de que, naquela inusitada alvorada, um instante de acalento se fez e contrastou toda a inópia maledicente.

Sim, foi o capricho ocasional da vida que colocou em meu caminho uma dama completamente incompatível com a tristeza incoercível a qual emanava. Era um ser possuidor de andar despojado e exuberante, que olhava para o mundo lúgubre ao redor como se debochasse dele. Portadora de autoconfiança invejável, ela vinha em sentido contrário, pareceu olhar dentro de minha alma pútrida e me presenteou com um sorriso majestoso e impoluto, capaz de transformar em cores a mais depressiva palidez.

E do fundo do meu inferno e defronte a tanta confiança e esplendor que gratuitamente me era oferecido, não me restou alternativa, senão olhar ao redor em busca daquele que seria o suposto contemplado com tamanha demonstração de afeto, algo que não me achava digno... E eis que naquele instante, o mundo cruel e ameaçador zombou de meu ato impulsivo, mostrando que só havia eu no caminho daquele sorriso... Portanto, a perfeição de todo o encantamento havia, de fato, sido destinado a mim.

Esperanças diluídas entre eventos passados e os que estavam por vir se desfizeram de imediato. No lugar do rancor havia um novo eu, inflado por uma injeção de ânimo, a tentar devolver o meu mais sincero sorriso, o qual era nitidamente desprezível e um pouco acanhado, culpa da imprevisibilidade. E antes que aquela bela moça, dona da mais reluzente alegria, se perdesse de vez de meu campo de visão, perguntei-me quem seria aquela singela soberana, que com apenas um sorriso que durou não mais do que alguns poucos segundos, fora capaz de me resgatar do purgatório, transformando minha segunda-feira triste, num dia suportável e satisfatório.

Jamais recebi incentivo melhor.

E no meio do calçadão do centro da cidade, embasbacado com tamanha grandeza afetiva, demonstrada sem nenhum pudor, eu finalmente senti considerável ganho de potência, que pode também ser interpretado como alegria; definição de Espinoza, que significa a passagem para um estado mais potente do próprio ser.

Um sorriso e nada mais...

Contudo, foi ato grandioso que deixou claro o quanto a vida pode ser mais suportável, sem nenhum custo substancial. E eu saberei que aprendi essa lição quando finalmente conseguir devolver igual gentileza àquela doçura humana, que de bom grado oferecia seu sorriso aos miseráveis; que se traduziu num instante de felicidade única, feito especialmente para que me lembre de que a curva mais bela que uma mulher pode expor, é a de seus lábios esticados num formoso sorriso.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

CONTO: EU QUERIA FICAR RICO!

Sentado na calçada em frente ao portão de casa, eu refletia sobre as perspectivas da vida. E minhas deliberações nem um pouco precisas, concluíram que as coisas estariam sendo mais fáceis se eu fosse detentor de capital financeiro elevado. Então indaguei a mim mesmo, rindo de óbvia constatação: “como eu não havia pensado nisso antes?”. Sim, eu era jovem e os sonhos galopavam. E entrei de cabeça no meu mais novo projeto existencial: ficar rico.

Eu queria ficar rico, e minha mãe discordou irrefutável, alegando que isso era coisa de gente materialista, que tendo o suficiente para viver já estaria de bom tamanho;

Eu queria ficar rico, e meus colegas de escola aproveitaram para me contar seus sonhos também. Pelo menos aqueles que, assim como eu, tiveram a preocupação de gastar alguns instantes para pensar sobre o que queriam;

Eu queria ficar rico, e a professora falou que o caminho para isso era estudar muito. Perguntei a ela se todos os professores eram ricos, já que deviam estudar bastante. E sem entender o que havia feito de errado, fui colocado de castigo;

Eu queria ficar rico, mas dominado pelas lascívias da adolescência, achei que antes disso daria tempo de arranjar uma namorada;

Eu queria ficar rico, porém, me disseram que enquanto a sorte não chegasse eu deveria arrumar um emprego;

Eu queria ficar rico, e meu colega de trabalho fez as contas na cabeça, e por alguma razão, achou melhor mudar de assunto;

Eu queria ficar rico, e um sacerdote falou que eu deveria ter desprendimento dos bens mundanos, que somente a riqueza espiritual era o que realmente importava. Despediu-se após incontestável lição divina, e foi embora acelerando sua BMW conversível;

Eu queria ficar rico, mas no lugar de enriquecer, acabei tendo meu patrimônio subtraído ao ter que dar algumas moedas de esmola para um morador de rua, apenas pra não me ver consumido pela culpa;

Eu queria ficar rico, mas exausto após um longo e estressante dia no trabalho, achei que fosse merecedor de uma ida ao bar, para tomar umas cervejas com os amigos;

Eu queria ficar rico, e meus colegas de bar acharam graça! Abraçaram-me e tocamos os copos. Concluímos, bêbados, que isso era coisa pra gente mesquinha. O que importava mesmo era a amizade;

Eu queria ficar rico, e minha namorada me largou para ir à procura de alguém que já o fosse;

Eu queria ficar rico, então fui consultar as cartas, porque me disseram que o mundo exotérico me daria respostas. A cartomante se animou com minha visita, disse algumas coisas incompreensíveis, mas garantiu que se eu fizesse tudo direitinho, conseguiria alcançar minha obstinada meta;

Eu queria ficar rico, só que o meu salário do mês mal deu para pagar pelos serviços da cartomante;

Eu queria ficar rico, mas pensei que apesar de não ter chegado lá, ainda assim era um sujeito de sorte, pois havia arranjado uma nova namorada;

Eu queria ficar rico, então fui ler “O Segredo” e “Dez Lições para se Tornar Bem Sucedido”;

Eu queria ficar rico, mas houve antes uma incompatibilidade, pois minha nova garota tinha o sonho de se casar;

Eu queria ficar rico, mas ela tinha outro sonho, que acabou se tornando também o meu sonho. Então tivemos um lindo filho;

Eu queria ficar rico, enquanto vivenciava outro domingo tedioso, sentado em frente à tevê, tentando me nutrir daquela ideia de que a família é a maior de todas as riquezas;

Eu queria ficar rico, e um misto de ansiedade e desespero me acometeu, na fila da casa lotérica, para refazer meu jogo da Megasena;

Eu queria ficar rico, enquanto esbravejava com as páginas do jornal, abertas em meu colo, onde dizia que o preço da cesta básica voltou a subir;

Eu queria ficar rico, então tive que trabalhar em dois empregos para conseguir dar conta das despesas com escola, plano de saúde e moradia familiar;

Eu queria ficar rico, só que meus devaneios foram interrompidos quando, por acaso, parei em frente ao espelho e não reconheci aquele rosto começando a enrugar e tantos fios brancos na cabeça;

Eu queria ficar rico, mas comecei a desconfiar dessa possibilidade, na fila da previdência, para acertar os pormenores de minha aposentadoria;

Eu queria ficar rico, e sentado no banco da praça jogando dominó com um velho amigo, contei sobre este ingênuo anseio de infância. Ele olhou para mim e disse: “nunca se esqueça de uma coisa, velho amigo: Rico não é aquele que mais tem, e sim, aquele que menos precisa...”;

Nós rimos de seu comentário sarcástico... Ele se despediu e disse que precisava ir pra casa porque estava na hora de seus remédios. Os longos anos manuseando um cabo de enxada resultaram em hérnias que lhe causavam dores intensas. Antes de ir, virou-se pra mim e disse, ainda sob os risos zombeteiros, que seu sonho de infância era ser piloto de avião.

O bom da vida, eu pensei comigo, é a recordação de que havia começado essa história toda rindo de não ter enxergado um caminho que me parecia óbvio... E eu terminava com a mesma graça, só que agora era porquê, de fato, o que sempre esteve evidente, talvez fosse o meu destino tortuoso.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

RESENHA DE LIVROS – AS ESGANADAS


Jô Soares é um homem indiscutivelmente inteligente. Além de entrevistador, é comediante, humorista, dramaturgo e escritor. E esta última ocupação do cara é o que nos interessa aqui. As Esganadas foi minha primeira incursão através de um de seus trabalhos literários. E embora eu jamais houvesse lido nada dele antes, devo confessar que fiquei com certo descontentamento, pois esperava mais de seu livro.

Bom, antes de tudo, quero salientar em defesa do Jô Soares escritor, que seu livro está longe de ser ruim. O que houve é que não gostei muito de sua pegada literária, que em minha opinião não funcionou muito numa trama de suspense policial. Em alguns instantes tive a sensação de estar lendo uma comédia de humor negro (o que talvez fosse proposital). De qualquer forma, o autor nos brinda com um trabalho altamente rico em vários aspectos. Eu começo por eles:
A trama deste As Esganadas se passa no Rio de Janeiro de 1938, um assassino está á solta perseguindo alvos peculiares: mulheres gordas. Com requintes de crueldades gastronômicas ele mata suas vítimas e depois expõe seus corpos acintosamente, bem ao estilo de vilãos criados por autores como Dan Brown. Quem sai á caça do malquisto é um quarteto composto por um delegado e seu assistente, ambos brasileiros; uma repórter charmosa e também de nacionalidade brazuca; e por fim, um antigo inspetor da polícia de Portugal, que após um incidente escandaloso, se muda para o Brasil e acaba se tornando dono de uma rede de confeitarias.

A linguagem do texto é impecável, recheado de palavras rebuscadas, o que deixa o texto charmoso. As descrições do Rio de Janeiro da época são de fazer cair o queixo, tamanha vastidão de detalhes. E quanto ás cenas dos crimes, estas se mostram tão minuciosas em suas particularidades, que muitas vezes o leitor consegue ter intensos vislumbres mentais dos cenários.
Só que inesperadamente a grandiosidade de detalhes foi justamente o tiro que saiu pela culatra. Há momentos em que a minuciosidade é tamanha, que acaba comprometendo na fluência do texto, deixando a história cansativa em vários instantes. Outro aspecto que não pareceu positivo foram algumas tentativas de se inserir momentos cômicos á trama, os quais não funcionaram muito bem. O que é um pouco inusitado, pois Jô Soares tem grande intimidade com a comédia e sabe fazer o telespectador rir com maestria e inteligência. Era de se esperar que pudéssemos ver esta habilidade inserida em suas histórias.

Em resumo, As Esganadas não chega a decepcionar. É um volume literário genial até certo ponto, mas que acabou tropeçando em sua própria impecabilidade, tornando-se um trabalho mediano e esquecível.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

RESENHA DE LIVRO – VOÇÊ E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS


Passar horas vasculhando prateleiras e bancas de livrarias, á procura de um título distinto, é um trabalho semelhante ao de um garimpeiro. E a sensação de encontrar um livro de aparência inexpressiva, porém de valor inestimável, em meio á pilhas e pilhas de amontoados literários com suas capas convidativas, certamente proporciona a mesma sensação de um garimpeiro que exuma sua preciosidade do meio da lama.

E foi exatamente dessa maneira que encontrei este simpático livro intitulado Você e Suas Circunstâncias. Um trabalho muito legal, que reúne um aglomerado de textos, a maioria com teor de crônicas, contendo situações cotidianas das mais inusitadas. E tudo muito bem narrado por esse promissor autor chamado Artur Eduardo.
Pode parecer inusitado, mas foi justamente essa levada despretensiosa mesclada á pequenos contos corriqueiros do nosso dia-dia, o que fez com que eu sentisse como se estivesse lendo algo novo, diferente. Não diferente exatamente no teor literário, mas foi como se eu fosse uma espécie de assinante de uma veiculação literária que relatasse o cotidiano de alguém muito próximo... Talvez os relatos de mim mesmo, diante do espelho.

Essa ideia prevaleceu ao longo de toda a leitura, porque o autor parece ir justamente à contramão da normalidade, para fazer com que tenhamos prazer em ler coisas que singularmente nos pareceria absurdo. Então, Artur Eduardo nos entrega contos que facilmente caberiam numa conversa cotidiana, se estes não nos fossem tão íntimos... Alguns até nós os temos como indignos de serem revelados. Em outras palavras, aqui nós encontramos um elevado relato da natureza humana em seu próprio habitat. E talvez seja isso o que torne alguns textos engraçados.
Você e Suas Circunstâncias não é exatamente conto nem crônica; não é prosa nem poesia. Talvez seja um pedaço da vida testemunhado em papel. Com diálogos charmosos, alguns divertidos, outros que seriam até cômicos se não fossem trágicos. Mas o fato é que esta é uma pérola que por mim foi garimpada com muito custo. E agora eu a exponho, orgulhosa em minha estante.

Bem, como eu disse no início desta resenha: não seria tão precioso, se fosse fácil achar alguns tesouros literários... Desejo-lhe uma boa leitura, lembrando-lhe de que para chegar á isto é preciso antes ter a paciência e perseverança dos bons caçadores de livros.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

RESENHA DE LIVRO – NÃO NASCEMOS PRONTOS!


Exatamente em concordância com o título da obra aqui resenhada, sou consciente de que não nasci pronto. Por essa razão, ainda não me sinto a altura de resenhar um livro do Filósofo Mario Sergio Cortella. Contudo, escrever tem sido cada vez mais, uma paixão inevitável e diária. E dentro dessa minha diligência amorosa, às vezes eu me permito cometer alguns pecados.

A primeira vez em que vislumbrei um pouco do talento desse autor, eu assistia á uma de suas palestras no youtube. Fiquei simplesmente boquiaberto com o alto nível de intelecto exposto de forma simples, porém altamente erudita. Desde então, tenho acompanhado seus muitos trabalhos espalhados pela internet, além de ter me tornado admirador, adquirindo seus livros que são volumes recheados de provocações filosóficas.
Não Nascemos Prontos! trás crônicas que nos ajudam a refletir sobre nossa vida e nos ajuda a manter o foco a todo instante, para que não percamos o brio e a dignidade em nossa contínua e ininterrupta busca por nós mesmos.

Definitivamente a grande mensagem deixada aqui por Cortella é para com o risco de algo que paira constante em nossa vida: a monotonia. Um estado que nos condiciona a mesmice, a ausência de variação... É sacolejo na alma, para que continuemos buscando exatamente aquilo que o título propõe. Porque precisamente como o autor narra: objetos como sapatos ou geladeiras são coisas que nascem prontas e vão se desfazendo. Enquanto os homens são seres que nascem não pronto e vão se fazendo.

***

RESENHA DE LIVRO – NÃO ESPERE PELO EPITÁFIO!


A premissa das crônicas desse volume é a de nos ajudar em algo que parece óbvio, mas muitas vezes, sem que percebamos, ficamos parados no mesmo lugar. Quantas coisas nós deixamos de fazer porque julgamos não termos tempo, porque não é de nosso interesse, ou simplesmente porque não nos diz respeito?


Como não poderia ser diferente, Mario Sergio Cortella conduz seus textos de forma impecável, com prosas gostosas, algumas portando doses de bom humor e quase sempre carregadas de referências filosóficas que nos ajudam a pensar. Em alguns textos nos deparamos com temas corporativos ou educacionais. E mesmo estes, que são assuntos teoricamente complexos, o autor consegue manter sua mesma linha narrativa um tanto característica: a linguagem acessível.
É muito fácil fazer com que as inquietações do autor passem a ser a nossa inquietação. Porque são provocações filosóficas que nos fazem pensar o novo, a partir de referências e estudos os quais Mario Sergio Cortella esmiuçou ao longo de uma vida dedicada á busca pelo conhecimento.
Talvez o que eu mais goste nos livros do Cortella, é que todos os que já li inevitavelmente aguçam os meus pensamentos. Seus textos me fazem pensar quase que automaticamente; despertam em mim a vontade de querer encontrar as mesmas fontes que o autor estudou; faz-me sair do comodismo e ir buscar aprendizado. E com este Não Espere Pelo Epitáfio! não aconteceu diferente.
É um volume que recomendo sem medo de errar. Por ser um trabalho rico, criado por este que é um dos maiores filósofos brasileiro do meu tempo, e que o faz sem nenhuma empáfia ou exibicionismo.

sábado, 27 de dezembro de 2014

CRÔNICA: OBTENÇÃO VERGONHOSA

Immanuel Kant, grande filósofo alemão do século XVIII, afirmou que: “Tudo aquilo que não puder contar como fez, não faça. Porque os motivos para não contar, são exatamente as razões para não fazer”. Infelizmente existem atos na vida dos quais nos faltam maturidade para evitar, ou quem sabe seja questão de conhecer um pouco melhor aquilo de que somos capazes? O fato é que este texto será uma espécie de confidência de um feito que sempre julguei irrevelável; algo que não sinto orgulho, porém, não me arrependo...

Foi ato no qual jamais o teria feito se tivesse o discernimento precedente de Kant, ou mesmo melhores conceitos éticos de convivência. Minha ação não denegriu, empobreceu ou feriu pessoas diretamente. Mas foi atitude deliberada que existiu unicamente em proveito do meu anseio individual, em detrimento do restante da comunidade em que convivo.

Era uma tarde de quinta-feira, de um inverno incomum e preguiçoso. Eu seguia com minha vida rotineira de sempre, que se resumia em escola, trabalho e leituras. Apenas uma ideia permeava a mente e contrastava com a mesmice cotidiana: havia passado os últimos dias arquitetando o plano que estava prestes a cometer. E precisamente no meu horário de almoço, saí em busca de minha obtenção vergonhosa...

Meus passos pouco firmes adentraram a recepção da Biblioteca Municipal de minha cidade. Cumprimentei a moça do balcão e disse que iria fazer uma das coisas que mais aprecio na vida: vasculhar com calma a seção de literatura.

– Sinta-se à vontade, Michel – disse ela, descontraída, quase nem me olhou, habituada que estava com minhas visitas.

Enquanto caminhava pelos corredores de enormes prateleiras, senti o suor frio que antecede o ato ilícito, exalando em meus poros. Fui até a seção de literatura estrangeira, passeei com os dedos através dos volumes empoeirados, até encontrar o objeto de meu desejo; um distinto livro, cujo título é “O Beijo”, de uma autora chamada Kathryn Harrison.

Livro em mãos, eu, no coração central da moral humana, olhei para os dois lados. Não havia ninguém que pudesse me flagrar. Olhei para o teto, para os cantos, e nenhuma câmera para me intimidar. Então levantei a camisa, enfiei o livro por baixo, e saí apressadamente, em passadas ainda mais irresolutas.

– Ué, Michel... Não vai levar nenhum hoje? – quis saber a moça da recepção.

– Eu volto noutra hora... Aconteceu um imprevisto e preciso ir – e assim eu escapei da biblioteca, levando na cintura, o livro ansiado.

Para eliminar os vestígios que pudessem me desqualificar como novo dono daquela obra, passei dias tentando, em vão, apagar os muitos carimbos da biblioteca, espalhados por várias páginas do livro.

Do agora meu livro...

“Por que você fez uma coisa dessa?”, foi a intimada que escutei da primeira pessoa que contei o que havia feito. E seu questionamento me soava justificável. Afinal, subtrair do patrimônio municipal um objeto que serve para proporcionar cultura, além de ser propriamente caracterizado como roubo, também pode, por puro cabimento, levar o rótulo de egoísmo. Porque além da ilicitude em si, hoje sou possuidor de algo que não tenho a menor pretensão em passar adiante, devolver ou doar. Em outras palavras, sou a pior das espécies: o acumulador..., detentor de um conteúdo cultural que não se expandirá.

Porque jamais empresto meus livros!

Sou um confesso colecionador de livros. E após este asqueroso episódio, pude, por experiência própria, concluí que integro a pior categoria de ser humano que existe. Porque colecionadores roubam a beleza do mundo, subtraem a arte, e as aprisionam para sempre; as condicionam a um confinamento eterno que ofusca sua preciosidade.

Qualquer objeto de consagração, quando cai nas mãos de alguém que coleciona, torna-se uma forma oprimida, objeto sem cor, arte inalcançável, a redução intelectual do mundo...

Colecionadores são seres que roubam para si toda a beleza cultural. E não raro as exibe como troféus pessoais, como se o mérito daquela venustidade pudesse ser transferido para si próprio... Sim, eu sou mais que leitor; sou um colecionador de livros cuja alma é cinzenta, por isso acumulo títulos em minha estante, numa desesperada tentativa em reluzir esta mesma alma apagada.

Ah, mas é só um livro, quem liga para um livro? Você deve estar se perguntando.

Ok, não irei tornar esta reflexão dissimulada com argumentos que justifiquem meu ato transgressor, pois eu mesmo já o tenho como injustificável. Mas permita-me pelo menos salientar que a deliberação pelo roubo, embora não devesse ser algo a se cogitar em nenhuma hipótese, este foi o último recurso, dado que eu havia feito de tudo para conseguir aquele título: o busquei em diversas livrarias; procurei pela internet; conversei com membros de sites de leitura caso alguém tivesse alguma ideia que pudesse ajudar; vasculhei por alguns Sebos do Estado; cheguei até mesmo a ligar para a Biblioteca e perguntar se havia alguma forma de obter o livro, e acabei por receber um sentencioso “Não” como resposta...

Enfim, eu havia tentado de tudo e, frustrado, acabei por concluir que não haveria um meio de adquiri-lo de forma honesta. E para um colecionador irrefreável, capaz de atropelar a moral para alcançar seu objeto de consagração, quanto maior a dificuldade em obtenção, maior a noção de preciosidade e valor. E alienado à dificuldade em encontrar rara obra, compreendi a importância de sua posse. Uma raridade que corria imenso risco de perder-se para sempre; invisível no meio de tantos outros livros populares, mais procurados e culturalmente mais lidos.

O Beijo, e aqui não faço nenhuma sinopse, conta a história de uma mulher que teve uma relação de incesto com o pai. É um tema forte, contado na íntegra pela autora que alegou ser um caso baseado em sua própria realidade. Tão intenso, que às vezes causa certo desconforto no leitor. Mas é uma literatura que sustenta requintes de leveza, de diálogos sutis e profundos, sentimentos explicitados de maneira a tirar todo o julgamento moral; que desnuda a alma da narradora de dentro das páginas... Algo que por si tornou a obra uma espécie de bestseller da minha insignificante coleção.

Se serei perdoado por subtrair objeto do patrimônio cultural da cidade, não sei dizer. Os moralistas certamente dirão que não. E dentro dessa ideia, posso alegar que sou o maior desses moralistas. Mas o objetivo desta reflexão não é o de obter redenção nenhuma, mas esboçar minha sincera confissão de que sempre que olho para a estante e vejo o livro antiteticamente adquirido, não sinto a menor culpa. Eu o entendo como uma conquista, preciosidade que apenas eu enxergo...

Contudo, não somente como colecionador, mas também como eterno apaixonado por livros, minha estante só aumenta de quantidade, ano após ano. E como não tenho herdeiros direto, como sei que vivo numa sociedade onde quase ninguém liga para livros, pode ser que um dia, quando eu já não for mais parte desse mundo, meus amados livros sejam doados para a Biblioteca Municipal, então meu cobiçado roubo retornará para as prateleiras empoeiradas de onde foi subtraído.

domingo, 21 de dezembro de 2014

CONTO: ELA E O TÉDIO


E quando me dei conta, estava sentado á mesa da lanchonete do trem em movimento, vendo-me ser circunstanciado pela fineza do acaso, que tão habilmente condicionou-me a um ambiente propício á reflexão. Do lado de fora, uma chuva forte salpicava a janela com pequenos cristais incolores, que escorregavam feito lágrimas pelo vidro.

Em minha frente, um casal nitidamente apaixonado trocava ternuras. Falavam baixinho ao pé do ouvido um do outro; achavam graça de quase tudo; tiravam fotos, sorridentes, aproveitando para usar como pano de fundo, o espetáculo torrencial proporcionado por uma natureza ostensiva que adora variar sua arte.
Foi como se toda essa ambientação tivesse se ajustado minuciosamente, para me instigar á pensar. E eu pensei... Trouxe a tona lembranças de algumas poucas horas atrás, quando eu conversava com Ela, na estação ferroviária.

Juro que não sei explicar, e acho que jamais saberei. Mas algo que Ela revelara sobre si mesma me deixou triste. Um desalento que me veio tardio, quando Ela já não se fazia mais presente.
Devo confessar que seu relato me foi entregue de forma refinada, numa canção da cantora Ana Carolina. Canção esta que descrevia com impecável precisão os sentimentos que acometiam sua perturbada e misteriosa mente... E Ela o cantou pra mim:

“Olho a cidade ao redor
E nada me interessa

Eu finjo ter calma
A solidão me apressa”

Só que aquele verso saiu da boca Dela carregado por uma beleza estranha e quase mórbida. Como se estivesse destinado á um fim trágico. Ela descreveu seu desinteresse total por qualquer forma de ação existencial... E com dificuldade, fez-se revelar aquele seu incômodo Tédio.
Eu me perguntei o porquê daquela minha repentina recordação. Sim, pois até aquele instante, sentado na lanchonete aguardando o meu pedido, minha mente transitava em relativa paz. Lembrei-me de Nietzsche, quando afirmou assertivamente que “Algo pensa em mim”. Pois algo estava á refletir em minha mente, e como o filósofo descreveu, eu não tinha o menor controle sobre aquilo.

Mas as dúvidas continuavam a pairar.
Por que a confissão Dela, proferida de maneira quase corriqueira enquanto esperávamos pelo atrasado trem, de repente me causou tanta perda de potência?

Com elevada facilidade, eu á trazia para meus pensamentos. Aquele ser encantador, que passara o fim de semana inteiro ao meu redor, destilando naturalmente sua inteligência, sua admirável humildade, seu jeito de me olhar afetuoso e ás vezes um pouco acanhado, sua sinceridade invejável... Dava-me de bom grado, um pouco do seu mundo, imaculado por sua simplicidade.
Mas o tempo inteiro Ela ainda sustentou algo mais na superfície de seu ser, o qual o único jeito para que eu notasse foi ter de revelar á mim... Algo que estava diante dos meus olhos o tempo todo, mas cego pelo meu egoísmo e arrogância, não pude ver. E quando eu finalmente deixei que Ela falasse, não havia mais tempo... O trem havia chegado.

Assim que embarquei, olhei pela janela, na direção da estação... Ela não estava mais lá. Perdi totalmente do meu campo de visão aquele ser portador do Tédio mais palpável que já estive perto.
E agora, olhando pela janela da lanchonete do trem, me dei conta de que estou longe demais, enquanto a paisagem lúgubre do lado de fora, me acusa impiedosamente de negligência...