segunda-feira, 12 de outubro de 2015

CRÔNICA: EM BUSCA DAQUELE SORRISO

Certa vez, tive minha manhã literalmente salva pelo impactante sorriso de uma desconhecida donzela, que ao olhar em minha direção, saudou-me com precioso gesto. Fiquei tão atônito por aquele sorriso, que fiz o que somente um introvertido poderia fazer: segui meu caminho, para posteriormente relatei os detalhes da forma mais fiel possível (essa breve transgressão pode ser conferida no texto “Aquele Sorriso”, nesta coletânea). O mesmo e velho romântico que jamais se manifesta ao fruto de seu encanto, só restou-me contar ao teclado o que me havia acontecido.

E após muitos adjetivos digitados numa vã tentativa de fidelizar a grandeza daquele sorriso, eu ainda tinha que resolver uma última questão, antes de postar o texto no blog:

Faltava encontrar a imagem que minimamente fizesse justiça ao encantamento que testemunhei naquela improvável manhã. Quisera eu ter congelado aquele instante numa foto ou filmagem, embora tenha plena certeza de que sua imagem está eternizada nos arquivos de minhas lembranças.

Mas eu ainda carecia de uma gravura que representasse o belo sorriso que ganhei. No entanto, a suspeita de que nada haveria de ser tão formoso, levou-me a constatação de que estava enfiado numa árdua e demorada busca; passei dias garimpando a internet, à procura de um sorriso equivalente.

Confesso que foi muito prazeroso me deparar com tantas e tão diversificadas expressões da angelical face feminina. Poderia até passar o resto de meus dias desempenhando esta agradável função: analisar sorrisos. E posso reafirmar, sem nenhum receio, tendo como álibi nosso saudoso Bob Marley, de que este gesto continua sendo a curvatura mais maravilhosa que podemos encontrar numa mulher: as curvas de seu majestoso sorriso.

Talvez nós, homens, seríamos mais felizes se aprendêssemos que um atalho prático para se encontrar alegria é conseguindo extrair um belo sorriso desta criatura detentora de insigne encanto denominada “Mulher”.

Então, após muita pesquisa, descobri que não procurava um sorriso, mas sim, a sensação que tive quando estive diante daquele belo rosto que me olhou com alegria. E este ato deu outro sentido à minha longa empreitada: permitiu que despendesse maior atenção aos mais variados tipos de sorrisos, como se eu estivesse em meio a um estudo intensivo da venustidade feminina. Encantei-me com admiráveis formas; sorri de volta ante a vastidão de delicadas faces; desdenhei frente às exibicionistas; odiei sorrisos forçados a ponto de achá-los mais agressivos do que feições rancorosas propositivas; suspirei profundamente ao deparar-me com os mais encantadores.

Mas talvez a grande lição que aprendi durante minha insistente busca, foi a constatação de que os melhores sorrisos eram frutos de damas singelas, pois eram aqueles que aconteciam de maneira inesperada, fazendo com que seu manifesto se tornasse ainda mais estonteante. A simplicidade sempre foi o principal atributo dos sorrisos mais incríveis.

Mentalmente eu tentava separar cada um deles por tipo. Não sei se nossas adoráveis mulheres são capazes de exibir a todos em suas particularidades, afinal, eu os via em imagens, que eram representações fiéis ao que vejo nos lugares em que frequento, nos rostos que admiro... Não sei se elas conhecem cada estilo de seus próprios sorrisos, mas talvez isso não importe.

E desse modo, se você me perguntasse eu diria que sim; toda mulher pode ser capaz de exibir qualquer um dos sorrisos que encontrei ao longo da pesquisa. Mas acredito que alguns sejam raros demais e, portanto, concedidos somente em ocasiões especiais, que não precisa se tratar de um encontro romântico. Estes tesouros expressivos estão por aí, nos ambientes mais improváveis..., e algumas vezes temos o privilégio de nos deparar com tais manifestos, reluzidos em trágicas manhãs, onde só parecia haver trevas no mundo...

Eis alguns dos tipos que mexeram bastante comigo:

O Belo: é o sorriso que nos faz suspirar! Que nos deixam completamente embasbacados; é aquele que não carece de mais nada para ser formoso, seu simples manifesto é a pura definição da beleza. Esse tipo é altamente sedutor, mas ele pode ser ensaiado, e sabemos bem que algumas mulheres são especialistas nessa arte. De qualquer forma, este modelo não deixa de ser espetacular em formosura..., mas está bem longe do sorriso que buscava.

O Terno: este é o tipo de sorriso que nos acolhe nos braços; um gesto leve e que vem sempre cheio de afeição. É um ato fácil de ser encontrado em mulheres que sabemos que gosta da gente. Sou bastante familiarizado com este tipo de sorriso, pois muitas vezes o encontro exibido na face de minha mãe.

O Formal: é um sorriso metódico, proposital, que por detrás dele há sempre um teor técnico. Um sorriso que denota cobiça, ambição, que quer algo em troca de seu manifesto. Este é um sorriso aprendido, não é nem um pouco espontâneo e se você for um homem minimamente observador, notará o quanto ele carece de brilho. Costuma estar sempre estampado nos rostos de mulheres que desempenham funções sociais que exigem esse tipo de formalismo. Aeromoças são especialistas...

O Ingênuo: é aquele que acontece de maneira casual, sempre na contramão de interesses; este é o sorriso que destrona a soberba e zomba do sarcasmo. Não é raro e posso dizer que o vejo muitas vezes, em diferentes tipos de mulheres. O ingênuo, embora seja lindo, muitas vezes pode ser confundido com modéstia. No entanto, acredito que este sorriso, que muitas vezes é encantador, necessita quase sempre de um pouco mais de alegria. Porque sua ingenuidade pressupõe ausência de discernimento. É como vislumbrar um gesto que pode ou não acontecer, mas não existe um determinador para tal... De qualquer forma, este sorriso é enormemente gracioso.

O Exagerado: também muito conhecido pelo nome de “gargalhada”, é um sorriso fácil, que geralmente acontece em instantes descontraídos ou que foram cômicos além do recato. Seria este um sorriso perfeito, no entanto, algumas mulheres aprenderam a usá-lo de forma menos impoluta; algumas fazem uso deste recurso para exibir insultos mordazes; ironias despóticas. Um gesto que tem o viés de ser virtuoso, mas que nem sempre é..., talvez o grande problema seja o fato de que é bem complicado distinguir aqueles que são genuinamente alegres dos sarcásticos.

O Triste: parece contraditório, mas o sorriso triste também existe. Trata-se daquele sorriso que não quer existir; que se esforça para ser, que impõe ao corpo uma postura contrária daquilo que a alma está de fato sentindo... O sorriso triste sempre acha que dissimula a palidez, que pensa conseguir esconder do mundo a própria vergonha em ser triste. Costuma não ter muita curvatura labial, insignificantes riscos nas maçãs e os olhos parecem sempre distantes (os olhos nunca enganam), para muito além de qualquer um que tente a proeza de alcançá-lo.

O Tímido: é aquele sorriso que tenta se manter escondido; algumas vezes ele se manifesta por detrás de uma palma de mão a tentar ocultá-lo. Possui um aspecto avermelhado principalmente na região das bochechas e detém ruídos distintos, mas que em nada estragam sua formosura. Este talvez fosse o tipo que mais chegou perto daquilo que eu buscava, porque geralmente sorrisos tímidos conseguem ser impolutos em sua totalidade. São manifestações encorpadas de meiguices, prazer e costumam dizer à causa de sua manifestação que és bem-vindo. É um sorriso quase sempre inesperado, porém, valioso demais a quem o recebe.

O Afetado: é o sorriso que está bem longe de ser natural e, muitas vezes, soa pedante ou presunçoso. Este tipo só não é o mais feio de todos, porque pode haver situações em que ele aconteça como forma de amenizar ambientes, numa tentativa por deixar as coisas menos tensas; é um sorriso político sim, mas algumas vezes há por detrás a benéfica intenção de harmonia.

Vaidoso: Agora sim, este é o mais feio de todos os sorrisos que encontrei em minha pesquisa. Definitivamente não há nada de belo neste sorriso! Ele simplesmente é fútil e está o tempo inteiro tentando convencer de que é o melhor entre todos os sorrisos. O tipo que quer mostrar perfeição e superioridade...  É lamentável algo que constatei por quase todo o tempo de minha busca pelo sorriso perfeito: há incontáveis mulheres que adquiriram este como seu sorriso introdutório nas relações diárias. No conceito destas muitas desentendidas, este modelo seria o mais adequado para agraciar aqueles que amam. Pensam que através de um sorriso cheio de ensaio e soberba, conseguirão atrair maior atenção e aprovação..., pois estou convencido de que até mesmo um olhar de tristeza consegue ser mais atraente do que um sorriso vaidoso.

E finalmente, a grandeza altruísta que lutei tanto para encontrar:

O Visceral: era exatamente o tipo de sorriso que eu procurava. Aquele que acontece particularmente espontâneo; que vem natural, de dentro pra fora; que é leitura fácil da alegria feminina; que considerei a mais rara beleza que poucos homens têm a sorte de ver numa mulher. É o sorriso que te faz sentir saudade assim que ele termina. E quando nos damos conta, estamos conduzindo todos os nossos esforços diários apenas para reencontrá-lo..., uma vez mais. Porém, mesmo sendo um gesto, que assim como todos os outros, também morrerá desfeito na face da mulher, este sorriso será eterno na lembrança de cada homem que um dia foi digno de contemplá-lo.

Sim, mulheres. O sorriso só encantará quando vier de dentro de vocês; quando tudo o que há em volta deixar de ser mundo e vocês se tornarem a própria expressão da alegria. O gesto límpido que reduz homens à meninos; que nos faz perder toda a ilusão de controle; que causa orgulho desmedido em cavalheiros que foram capazes de cativar suas fontes...

Eu encontrei este sorriso poucas vezes em minha vida. Uma delas foi aquela inesperada manhã de segunda-feira, onde precisei parar e aguardar alguns instantes, completamente intimidado por tamanho primor. Outra vez foi no resultado de minha pesquisa, quando senti inveja do garotinho na foto que abre este texto (a foto no blog), que habilidosamente conseguiu ser recompensado por inesquecível instante de beleza feminina. E que tenho certeza absoluta, esse mesmo garotinho também se tornou um obcecado buscador dessa plenitude, que vez ou outra, nos é gentilmente concebida por esses anjos terrenos que chamamos de mulher.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

CONTO: A INSÔNIA

0h: 17min.

Perco os reflexos, as pálpebras ficando pesadas. O entorpecimento do corpo se elevando, os sentidos cada vez menos perceptíveis..., apago a luz e rendo-me, fecho os olhos. Deveria haver a imediata desconexão com o mundo...

Mas na penumbra algo continua aceso, agitado. Dentro da escuridão ouço vozes, penso em coisas incoerentes, relembro instantes idiotas e sem importância..., através das trevas recordo situações que vivi antes de estar ali, semi desplugado. Às vezes, tudo parece se projetar ao mesmo tempo, minha mente é uma snowglobe que alguém agitou freneticamente. E enquanto aguardo impotente no travesseiro, os pedacinhos de memórias voam de um lado para o outro, aleatoriamente.

Ainda mergulhado em trevas, ouço ruídos importunos, farfalhar de persianas, vozes abafadas ao longe, o volume de algum televisor ligado, cachorros latindo, fúrias entrecortadas, a manifestação de insetos que optam pela camuflagem noturna...

Contraditório ao sono, a insistência faz as pálpebras fechadas doerem e então abro-as. Não é assim que se dorme, o ato de fechar os olhos não garante nada! Então, nesse mesmo escuro ruidoso que o vejo, outra vez parado no marco da porta do quarto, me velando... Hoje ele está de terno, detém tons escuros e sua gravata bege não combina com o resto do figurino. A face esquelética dele me desaprova, sabe que novamente me será negada a transição para fora deste plano..., ele vira as costas e desaparece, em direção à cozinha. Nunca soube o que ou quem realmente é aquele sujeito, mas sempre me visita quando não consigo dormir. Se o faz nas raras noites em que estou desfalecido é difícil saber..., sinceramente eu acho que não. Ele é como um espectro vigia, que sabe com exatidão as noites em que não dormirei.

Acho que ele vem até meu quarto para apreciar meu desalento;

Para ver de perto o quanto sou incapaz de exercer ato tão ordinário;

Para ratificar a semelhança de nossa catástrofe;

Para me dizer com seu olhar gélido que meus esforços são inúteis...

Sempre pensei nele como uma alma que fora negado o sono, e agora perambula, acordado pelo mundo, à procura de mais dos seus.

 01h: 24min.

Derrotado, reacendo a luz. Sou um leitor antiquado, então no lugar de sofisticados meios tecnológicos, busco o livro no criado-mudo e o abro. Costumo ler por horas e horas..., nada acontece. Apenas mitoses e meioses que se recusam a se desprender da lucidez. Espero pelo instante em que serei vencido, o instante em que as frases do livro parecem cada vez mais disformes... O livro despencando no chão.

Apago a luz.

Aqui estou, desnudo..., desmascarado. Sem uniformes, sem roupas sofisticadas, sem camuflagens sociais. Nada de perfumes, gel capilar, loções corporais ou qualquer outro meio objetivo que ajude a despistar a natureza vulgar. Meu único anseio não exige ornamento. Só o que quero é pegar no sono! E transgressivamente desperto, sou estudado pela noite com seus olhos escuros e agigantados, cuja penumbra é como um holofote, que no lugar do clarão, emana trevas que profanam o sossego e roubam minha letargia.

Entretanto, a esperança ainda está por aqui em algum lugar... Talvez tenha escorregado pelos lençóis e foi parar debaixo da cama. Só que não me atrevo, pois é lá onde vivem os monstros. Debaixo da cama repousam as maiores fontes dos pânicos noturnos; Aranhas negras, serpentes malignas, insetos peçonhentos, espectros desenganados.

Se eu fosse menos covarde talvez apalpasse embaixo da cama para procurar pelo meu sono, mas não ouso fazê-lo. Em vez disso, encolho-me sobre o colchão para me proteger..., cada vez menor, até meu corpo reduzido suar, angustiado.

02h: 10min.

Levanto-me e vou até o banheiro. Os pés descalços desbravam o piso fresco. A insanidade me faz pensar que não seria uma má ideia deitar no chão... Dou descarga, aperto a maçaneta da torneira que gotejava pecaminosamente, faço tudo sem acender a luz. Valho-me da familiaridade que me permite antecipar cada obstáculo sem ver... Faço tudo, e me esqueço de lavar as mãos. Sigo o caminho de volta, ciente de que inversamente a mim, a noite me enxerga com clareza.

Passo pela cozinha e abro a geladeira. A claridade irrompe no mármore, na pia, nas paredes esbranquiçadas..., e nele. A iluminação, mesmo fraca, permite que o veja de novo. É aquele sujeito! Está agachado num canto qualquer a me espreitar. Trocamos olhares mudos, silenciosos, como dois suspeitos. Ele agora parece um pouco constrangido com minha presença, como se eu o tivesse flagrado em alguma de suas transgressões noturnas. Para tornarmo-nos cúmplices, ele desce o olhar até a garrafa de água em minhas mãos e parece me condenar por ter bebido do gargalo... Agora não podemos mais nos delatar, tornamo-nos iguais, transgressores da madrugada.

Àquela altura, com a visão já completamente comparsa do negrume, consigo enxergar um pouco melhor. Ele está segurando uma caneta que usa pra escrever coisas no próprio braço. Vejo um amontoado desconexo de palavras riscadas em sua magricela página feita de epiderme. Assim como eu, ele também deve gostar de relatar as frivolidades consequentes da insônia. São apenas palavras..., palavras que vagueiam pelo tortuoso terreno de nossas mentes, indo e voltando; construindo imagens, fazendo conexões com situações ocorridas, outras inéditas, apontando pessoas... São apenas palavras.

Jornada, madrugada, precipício, linguagem, passos, casebre, lugubridade, oração, tristeza, inveja, astuciar, preguiça, maltrato, barulho, frase, rotina, luminária, termômetro, latido, precário, quarta-feira, asfalto, almoço, medo, tesão, minutos, administração, poder, insinuante, beleza, invisível, honestidade, calor, perdição, culpa, solavanco, refratário, inexistente, respeito, dívidas, rapidez, aurora...

Apenas palavras aleatórias... Não conheço o significado de algumas, mas sei o que todas juntas querem comigo. Elas se empenham em me manter acordado.

Com os olhos pesados eu volto pra cama. julguei que aquele jogo de contar palavras ajudou com o sono.

03h: 14min.

Sabe qual é o ponto mais severo da angústia? É aquela condição em que você tenta chorar e não consegue. Chorar seria como expurgar, colocar pra fora toda a raiva, todo desgosto... Nem mesmo este pequeno agrado a insônia me permite. E abrindo caminho através da noite, sigo desperto... É estranho estar acordado quando se tem a sensação de que o resto do mundo dorme. Sinto-me como se todos tivessem sido convidados para uma festa e eu tive que ficar aqui, sozinho, neste plano escurecido e dissimulado, que não sente piedade dos que não conhecem o caminho até o palácio de Hypnos, onde certamente todas as almas do mundo repousam agora.

Completamente desperto neste mundo de seres que dormem, só posso sustentar a expectativa dos primeiros clarões que expulsarão as trevas, dando lugar a uma nova manhã. Então, as pessoas despertarão amassadas de sono, letárgicas, com suas faces inchadas de tanto dormir...

Vê-los todas as manhãs caminhando, bêbados de preguiça e ausência de ânimo, característicos efeitos que acometem aqueles que dormem, mesmo aqueles que usam de meios artificiais para tal, estes sempre me causaram profunda inveja.

Mas a luz de uma nova manhã não costuma ser um socorro que surge fácil para aqueles que infortunadamente estão a lhe aguardar. E enquanto isso, o meu leito segue torturando-me. Mudo de posição constantemente. Nada do que faço parece proporcionar-me conforto por mais que dois ou três minutos...

04h: 49min.

A esta altura já existem sinais de vitalidade mundana. De gente que dormiu o suficiente, os de sono fácil... Ouço o cantarolar de uma mulher, motores de carros isolados, um casal conversando, acho que trocam detalhes sobre como será o dia de cada um. Talvez estejam fazendo uma oração de agradecimento pela noite bem dormida.

No meu quarto, os pensamentos se tornaram inteiramente coerentes. Como se ao longo da madrugada o quebra-cabeça de palavras soltas fora encaixando suas peças e finalmente consegui ter uma visão total do quadro. Penso em atividades que me esperam neste novo dia; numa garota que por incompetência deixei escapar e que ainda me faz falta; penso no céu, do lado de fora da janela, que por um instante achei que seria escuro para sempre; na possibilidade de estar indo novamente ao encontro da mesmice; no medo de voltar sozinho pra casa; na insônia que estará a minha espere para mais um encontro; no sujeito moribundo agachado na cozinha, riscando o braço...

Tenho medo de que as pessoas vejam o caos explicitado em minha face distorcida. Que elas notem o quanto sou incapaz de algo tão tolo quanto adormecer. Tentarei novamente evitar seus inúteis conselhos, os quais já foram todos testados... Por que toda pessoa que não sofre de determinado problema, tem a mania de achar que sabe o que deve ser feito?

Voltarei para casa no fim do dia, como sempre faço. Talvez me embriague para forçar a inércia, porque eu não aguento mais permanecer desperto. Querer a pausa deste mundo é pedir demais?

Quero fechar meus olhos e dormir. Por que me negas o intervalo acalentador da vida, ó despótica insônia?

Cessarei aqui o meu lamurio de incertezas... Dizem que é tudo culpa da cafeína... Estou com vontade de bocejar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

RESENHA DE LIVRO: RAPSÓDIAS EM BERLIM


Não raro sou abordado por pessoas que conhecem o meu insaciável apetite por livros, me pedindo dicas de leitura. O último acercamento aconteceu há algumas semanas, no ponto de ônibus. Um conhecido me indagou à cerca de uma boa dica de livro de contos. Diante de tal solicitude, eu poderia lhe sugerir vários títulos, inclusive alguns grandes mestres do gênero por ele desejado. Mas fazendo valer uma de minhas recentes leituras, eu, sem pestanejar, recomendei-lhe que lesse o livro alvo desta resenha.

Porque a diversidade de contos que compõem esta obra belíssima, certamente atenderá a gregos e troianos.

Devo confessar que precisei consultar um dicionário para compreender desusada palavra que concebe o título, o qual faz referência a um dos contos deste excelente volume.

Rapsódias em Berlim é outro livro que tive sorte em descobrir, discreto e despretensioso, no meio de uma enorme prateleira de um Sebo. O autor Pedro Stiehl, gaúcho de Montenegro, nos entrega uma extraordinária reunião de narrativas distintas e precisas, de personagens cuja proximidade com o humanismo é capaz de fornecer ao leitor fortes reflexões sobre inusitadas situações.

Enquanto vamos nos deparando com construções literárias que facilitam o processo imaginativo, um filme vai se passando na mente do leitor. De mim, foi arrancado à força uma das raras certezas de que tenho na vida: a enorme sucessão de encontros inéditos, que caracteriza este nosso conturbado mundo.

Um texto que li e reli com especial carinho, foi “O Diabinho e a Sereia”, maravilhoso conto de uma garotinha questionadora e seu paciente avô, que em uma de suas constantes cavalgadas matinais, entram em embates filosóficos, existenciais e folclóricos. Uma prosa gostosa de ler, hilária em alguns instantes, reflexiva noutros. Este conto está logo no comecinho do livro, o que fez com que o autor me ganhasse para o resto da obra.

Ah, e se você está se perguntando, vai aqui a explicação para lhe poupar recorrer ao dicionário: Rapsódia é o nome dado a certas composições musicais e poéticas; Na Grécia antiga, dava-se o nome de Rapsódia, poemas épicos a serem recitados.

Rapsódias em Berlin é um trabalho que nos serve de exemplo de que, mesmo sem nos atermos aos grandes nomes da literatura, podemos encontrar talentos fabulosos procurando por espaço. Pedro Stiehl representa este talento, que nos trás a certeza de que no meio da salada referencial da literatura mundial, podemos ficar por aqui mesmo, nos autores brazucas, afinal, aqui tem gente muito boa, produzindo material de peso e qualidade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

CONTO: O RASTRO DE ÉOLO


Mas que Droga! Justo agora que eu ia recitar para Éolo uma doce poesia, este resolveu aflar para longe de mim.

Talvez não queira ouvir a minha declamação... Vai ver ele percebeu que eu não tenho nenhum cacoete de poetiza e, portanto, me considera indigna de recitar.

Sem sua presença, restou-me uma manhã ensolarada, quieta, suspensa, estagnada.  As folhas das arvores não se mexem; a poeira assentada e retida, de cor marrom, adorna quase toda a superfície; o capinzal parou de fazer reverência. E tudo isso denota um cenário no qual a natureza fora abreviada, reduzida... Como se tivesse sido expurgada de mim, sufocada por sua acinesia. Porque quando a minha mais nova fonte de veneração resolve repousar, e ele repousa, sua ausência faz com que eu me sinta ainda mais externa à existência.

Aqui sozinha, sinto-me uma simples mobilidade dentro de um molde congelado; uma intrusa desconexa que viola a eternidade quieta... E minha insignificância manifestada neste instante de halos em brasas, sem sopro algum para me acalentar, faz-me sentir confusa. Não sei se esta redução da natureza se trata de punição ou apenas precipitação. Acontece que as minhas transgressões se devem ao fato de que estava a ler poesia esta manhã... Deparei-me com Fernando Pessoa e sua manifestação literária me fora sedutora, atraente demais.

Mas então, eis que sou repentinamente raptada por um sopro envolvente e, pouco depois, deixada na mesma campina de outrora... Queria que Éolo devolvesse o meu livro, mas acho que eu e ele gostamos do mesmo autor.

Deve estar inspirando poesias neste exato instante.

Foi aqui, neste mesmo tronco velho, onde agora sou consumida por um calor amarelo e vicejar, que Éolo me fez perder todo meu senso de comprometimento com o recato social, e menos ainda com o mundo moral vigente. Tomei como meu intento o rumo do seu manifesto, que nesta incrível manhã de frescor se fez vindouro, onipresente em toda sua vastidão e vaidade. E eu, vivente frágil e destinada à concretude, quis cometer o insolente delito de seguir os passos de meu querido Éolo, que sem consentir com meu ato, mas a exibir sorrisos e gentilezas, deu-me de bom grado toda a sua existência, sem dizer nada, sem me esperar... Apenas veio e soprou; atiçou meus cabelos de um jeito que eu pensei jamais pudessem voltar à sua passividade gravitacional... E com sua brutalidade doce, Éolo me levou pelos braços... Eu não me fiz de rogada, apenas me deixei ser conduzida.

No entanto, ele, meu querido amante, não está mais aqui.

Não tenho o acalento suave de seu toque em meu rosto; sua brisa a me inspirar; sua grandiosidade para me encorajar a cometer exageros. Não tenho sua familiaridade que me tornou bailarina a rodopiar no meio da poeira alta. Um instante em que eu, inocentemente obstinada, o seguia de olhos fechados e lábios esticados num sorriso enternecido... Teria ido com ele até as nuvens mais altas e lá, deixaria que consumisse toda a minha carne.

Éolo deve ser o tipo de acompanhante que se permite apenas um encontro; um sedutor que me fez rastejar, dominada pelo aroma de sua hipnose inelutável. Depois me levou aonde quis, apenas para ver até quando eu aguentaria sua envolvência; se cruzaríamos os mares; se desbravaríamos novos mundos; se intrometeríamos nas curvaturas longínquas da Terra.

Onde foi que se meteste meu peregrino malévolo?

Temia que a manhã continuasse enraizada. Mas eis que volto a ouvir a manifestação de um sussurro que não sei se provém de uma realidade escapadiça, ou se é fruto de minha irrefreável imaginação... Já não sei identificar o que é confiável em meu julgamento.

O brado é suave, porém autoritário... Sem saudar-me exigiu explicação.

Sua imposição despótica me causou arrepio. Automaticamente meu ser se converteu num instrumento destinado à obediência covarde. Agora eu só quero concordar, torcer pelo argumento semelhante, mas se não for possível, assentirei de bom grado, afinal, não possuo audácia para defrontar a ira daquele que detém os meus impulsos... Talvez após sua rispidez ele me tome de novo em seus braços.

Mas ignorando completamente minha submissão, o sopro se ergueu opressor. Encheu-se de arrogância e narrou; acusou-me de ter feito tudo errado; que sou uma mulher burra e não deveria seguir aquilo que não entendo... Éolo rodopiou colérico, parecia arrependido de ter me mostrado sua travessia de possibilidades; condenou-me de ter negado o precioso vislumbre que me propôs; disse que eu deixei evidente minha cegueira patológica...

Sentada no tronco velho, eu me vejo no núcleo de um redemoinho cinzento, cheio de folhas e gravetos. Quero dizer algo em minha defesa, mas Éolo está possesso demais... Sei que ele não me escutará.

Por que me seguiste?” – escuto sua indagação arrastada e cheia de eco – “Se tudo o que fizeste foi apenas copiar o meu rastro... Por que eu permitiria tal insolência, se era apenas para ficar a rodopiar pelo ar, como uma pena desprezível que foi expelida da plumagem? Por que não soltaste de minhas amarras e planasse com tua própria coragem, almejando o mundo por outra perspectiva? Por que quiseste juntar-se a mim, se sabia que eu não desviaria de meu caminho ante nenhuma vontade alheia? Achavas mesmo que eu iria evitar minha triunfante trajetória, apenas para poupar teu lar insignificante? Achas que tua vivenda é mais digna do que um formigueiro?”.

Meus cabelos esvoaçando... O que estás dizendo, querido Éolo?

Não o fizeste porque és uma covarde!” – condenou ele, ainda me tendo em seu centro –  “Nasceste presa à um cordão e nele estás arraigada até os dias de hoje. Queres o mundo, mas apenas se for entregues a ti numa bandeja, cozido e cortado em fatias. Foste tão desprezível, que em vez de olhar para a virtude de minha transformação, preferiu a tola busca por minha presença. O que querias encontrar? Meu rosto? Sua tola humana... Saibas que não constituo nenhuma das tuas quimeras; não existo para seu deleite; e em vez de querer o que não podes verificar, por que não aprendes com a ininterrupta manutenção da vida?”.

Tua existência medíocre é a tua máxima!”.

Tua covardia é pesada demais para insinuar-se na gravidade. Como poderá me seguir se és incapaz de arrancar teus próprios escombros e voar? Como poderá ser forte para jornadas longínquas, se com facilidade deixas que atravessem a tua carne? Como poderás alegrar-te se desconhece o valor do risco suave que faço em tua epiderme com meu sopro invisível? Pois saibas que quem semeia vento, colhe tempestade...”.

Então, um repentino silêncio engoliu aquela voz... Éolo se foi;

Expeliu-se no ar, transformando o redemoinho num enorme e infinito nada;

As folhas secas caindo no chão ao meu redor;

A poeira se assentando lentamente sobre as páginas de Fernando Pessoa;

O firmamento voltou a serenidade reluzente do Sol;

E onde antes havia alicerces de minha morada, restaram apenas destroços coloridos;

Eram como confetes emergentes do caos;

Perguntei por minha mãe e meus irmãos. Mas Éolo se fora em definitivo...

Talvez os tenha levado consigo, para perto das nuvens.

sábado, 5 de setembro de 2015

RESENHA DE LIVRO – FACE @ FACE


Estava demorando a que meu recente faro aguçado literário finalmente falhasse. Sim, pois este ano tive uma mão ditosa nas livrarias e praticamente só encontrei livros que mantiveram uma média variando entre bom e ótimo. Pois eis aqui a queda drástica desta realidade.

Face @ Face não possui praticamente nada que possa servir de estímulo à sua leitura. É um livro de roteiro simplista, de situações previsíveis, diálogos ruins, personagens insossos, uma narrativa fadigosa e que não funciona em momento algum, nem como suspense e nem como ação policial.
Que me perdoem aqueles que curtiram a obra.

Sempre levo comigo o ideal motivador de que todo livro vale ao menos pela leitura. Mas sinceramente, este volume poderia até se encaixar neste viés, caso sua história nos fosse contada em no máximo 120 páginas. Contudo, o que você terá pela frente, estimado leitor, é um interminável conto, munido de longínquas 330 páginas. E acredite: Lá pela página 50 já era forte a ânsia por abandonar a leitura. Mas tentei acreditar que o autor Phillip Finch, fosse dar uma extraordinária reviravolta em sua tediosa trama, transformando-a em algo que pudesse ao menos entreter. E quando entrava na reta final, eu, já desacreditado, comecei a torcer pela competência do assassino, simplesmente para que ele matasse logo aquele bando de chatos que infestavam a trama. Então, finalmente lendo o capítulo final, completamente frustrado, eu desejei por ser presenteado com pelo menos um desfecho que fosse minimamente inovador...

Doce ilusão.

A trama conta a história de um serial killer que escolhe suas vítimas por meio de redes sociais, e usa todo o seu conhecimento de informática para abranger seu arsenal maléfico e selecionar seus alvos. E assim que ele compõe seu mosaico macabro, vai ao encontro dos escolhidos e os mata, fazendo uso de sua criatividade tosca.

Visto de fora, o enredo até poderia ter amplitude para montar boas situações assustadoras ou recheadas de adrenalina. Mas quase nada acontece em momento algum. O assassino é apagado, suas vítimas são estúpidas, e ninguém ao longo de toda a trama consegue reluzir, nem ao menos para ajudar o pobre leitor a atravessar algum capítulo sem bocejar.

Talvez a única pegada relativamente bacana é que este trabalho, que foi lançado em 1997, nos trouxe um vislumbre de um tempo no qual a tecnologia da informática ainda engatinhava. Então temos a oportunidade de nos deparar com algumas situações que nos causam nostalgia, como internet de conexão discada, arquivos de imagem carregados lentamente como se fosse uma cortina se abrindo, redes de relacionamento desprovidas de itens básicos como fotos de perfil, e a óbvia ausência de aparelhos móveis como celulares e tablets, tão comuns nos dias atuais. Mas mesmo toda essa naftalinidade não funciona, porque o autor exagera na dose, se concentrando demasiadamente em conteúdos técnicos, deixando de lado seus personagens e a trama; um bando de gente inserida no texto para virar presa de um matador medíocre, que é menos assustador que o Puro Osso; jocoso vilão do simpático anime As Terríveis Aventuras de Billy e Mandy.

Sinceramente não sinto nenhum prazer em avacalhar o trabalho literário de ninguém. E aqui deixo apenas a opinião de um amante de leitura, que sabe reconhecer o quanto é leigo na hora de expressar o que pensa. Mas este Face @ Face simplesmente não agradou em nada; e talvez eu o tenha como um dos piores livros que li nos últimos anos.

sábado, 22 de agosto de 2015

CRÔNICA: MATÉRIA DESCARTÁVEL


Sou acordado pelo ruído familiar do despertador. O som faz com que eu me lembre de que já são 08h30min de uma nova manhã de domingo. Ainda com os olhos fechados, apalpo a lateral direita, à procura do banquinho improvisado como criado-mudo, onde vibra o celular inquieto. Meus dedos só encontram uma protuberância retangular e elevada, forrada com tecido grosso. O toque inesperado me faz recordar que não estou dormindo no meu quarto, mas sim, no sofá-cama da sala. Agora sei onde desativar o alarme do celular, que se encontra um pouco mais acima, precisamente na mureta da sala.

A situação também me faz lembrar de que não durmo sozinho, mas dividindo a colcha king size com outro corpo que se abriga do friozinho matinal. Meu tronco se vira para o lado e eu fico de frente para ela, afundada até o topo da cabeça. Vejo apenas algumas mechas de cabelos loiros, transbordando para fora da colcha.

A constatação daquele ser me causa constrangimento. Não pela pouca familiaridade em estar aconchegado ao lado de uma bela mulher, mas talvez por estar vivenciando o resultado de atitudes impetuosas, ao meu lado uma aventura que deveria ter chegado ao fim horas atrás.

Eu me levanto e ando pela casa. Tudo me parece confuso, desconexo.

Vou até o banheiro. Sirvo-me da privada. Sirvo-me da pia.

Meu rosto, no reflexo do espelho não condiz com a previsão que eu tinha dele. E no lugar do que deveria ser feições de satisfação por uma noite de sexo recém-vivida, eu só vejo resquícios de tédio e desorientação. Esfrego a face com as mãos cheias de sabonete, numa tentativa de apagar traços de um evidente desprezo. Mas concluo que ostento uma realidade absoluta demais para ser desfeita por algo tão ineficaz quanto sabonete líquido... Não sei como esfregar a verdade até ela se transformar em cumplicidade.

Vou até a cozinha... Preparo um café.

Na sala, vejo o rosto amarrotado dela, finalmente emergido da colcha. Espreguiça-se demoradamente, depois olha pra mim e sorri, timidamente. Admito que é um sorriso meigo e cheio de ternura... quase sublime.

Sinto-me na obrigação de perguntar e ela diz que teve uma ótima noite de sono. Ela não devolve a mesma pergunta, mas acho que é melhor assim, pois certamente não iria gostar da resposta. Se é que eu teria coragem de dizer exatamente o que se passava em minha mente.

Um estímulo interno, que apontava para o fato de que a recente noite de sexo fez com que eu me tornasse um ser totalmente liberto das necessidades do corpo. Porém, eu continuava um completo miserável no que se refere a recursos que enriquecem a alma.

Não, ela não poderia ser condenada por isso... Talvez também me achasse fútil e dissimulado; apenas um objeto fálico e descartável, que apenas serviu para aplacar momentaneamente seus impulsos lascivos. E eu desejava que assim ela estivesse pensando, pois dessa forma minha mente poderia continuar censurando sua insignificância, sem que a culpa me torturasse.

Não se trata de uma manhã romântica, mas sim, confusa, na qual dois seres estranhos estudam as conexões primordiais um do outro, com elevada cautela, no intuito de parecermo-nos o menos excêntrico possível. E no meio desta insistente exibição de normalidade fingida, eu não me lembro de levar o café para ela na cama.

Aliás, eu não preciso fazer isso. Afinal, não é uma manhã romântica. É uma manhã confusa... E em manhãs confusas não precisamos levar café para ninguém. Além disso, eu não sei como ela gosta do café; eu não sei se ela gosta de café; eu não sei se ela gosta do cheiro do café; eu não sei se ela gostará do meu café; eu não sei...

Ela não diz absolutamente nada. Como alguém que é plenamente acostumada ao desprezo daquele com quem dividiu a cama, ela se levanta, vai até o banheiro e fecha a porta. E sem esperar por ela, eu me sento à bancada e inicio meu dejejum.

Sirvo-me de pão, biscoito, leite... Quero repor parte das energias que perdi com o sexo, num eterno ciclo de renovação de energia para posteriormente ser gasta com cópulas frívolas.

Ouço os sons abafados que vem do banheiro. Ela se serve de chuveiro, sabonete, creme dental... Livra-se de todos os vestígios meus que ficaram em seu corpo.

Quando a porta se abre, noto que ela está mais bela. Parece aliviada por ter se livrado do meu cheiro; como quem odeia estar impregnada com a essência da matéria descartável.

Descubro que sim, ela gosta de café. Também testemunho que a bebida, quando não está aos seus auspícios, lhe desperta a franqueza. Está fraco demais o seu café, é o que diz... Eu respondo que gosto de café fraco.

Isso resume toda a conversa que tivemos ao longo do café da manhã.

Depois ela arruma suas coisas na bolsa, enquanto eu desfaço o sofá-cama, transformo o quarto improvisado em sala novamente.

Ela comunica que precisa ir embora. Noto certa aflição em seu comportamento; parece ávida por fugir logo de minha casa, de minha presença. Igualmente sou acometido por um alívio crescente, após escutar tal anunciação.

Somos dois espectadores de nossa crueza. Talvez por isso nossa presença incomode tanto. Não gostamos de ser observados por alguém que sabe de nossa recíproca necessidade em usar outro ser humano. Tememos o olhar condenador daquele que aprendeu a reconhecer que somos nada mais do que buscadores da saciedade concupiscente.

Ela sai pelo portão... Não olha pra trás.

Eu o fecho e dou duas voltas na chave... Como se temesse que apenas uma volta fosse insuficiente.

Faremos isso de novo? Provavelmente...

Mas não será com ela, assim como ela não buscará por mim. Porque somos assim: nacos de carne descontrolados e excessivos; gananciosos que buscam suprir as próprias necessidades... Somos apenas Matéria descartável.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

RESENHA DE LIVRO – IVAN VÊ O MUNDO


Pela internet só o que se encontra é elogios inflados ao autor deste livro. E embora os méritos possam ser, de fato, dignos de sua majestade Ivan Lessa, vai aqui uma opinião, digamos, um pouco fora do conceito coletivo.

A leitura desta compilação, feita pela jornalista Helena Carone, teria sido um pouco mais agradável, caso o autor não parecesse tão entediado; sensação que tive em quase todos os textos reunidos nesta obra, intitulada IVAN VÊ O MUNDO. Esta é minha primeira experiência nos textos deste autor, portanto, não sei dizer se são marcas registradas de suas crônicas seguir sempre numa linha narrativa que oscila entre o enfado e o ordinário. Achei que a condução literária, embora detentora de uma linguagem inteligente, não consegue cativar em nenhum momento e o autor não parece fazer muita questão disso.

Outro aspecto relevante fica com os breves instantes de teor cômico intencional, que salpicam alguns textos. Mas na realidade estes momentos me soaram como anedotas remotas e que talvez tenham feito rir na década de 50. Só que o teor do contexto novamente parece não se preocupar se elas causam este efeito nos leitores. Como se fossem textos escritos intrinsecamente para não serem lidos, ou mesmo sem nenhuma premissa de agradar a quem lê.

Instantes bons da obra ficam por conta de um toque satírico que muitas vezes funciona. Como se Ivan fosse uma espécie de libertário que escreve com a premissa de tentar nos confundir. E os últimos textos narram sequencias de viagens, as quais o autor nos relata tudo o que viu e o que vê; com detalhes ricos e ágeis, percorrendo por cidades como Lisboa, Paris, Viena e outras... Do meu ponto de vista, este foi os melhores instantes da obra. É gostoso poder conhecer regiões europeias através da ótica de um autor que sabe enriquecer seus textos com detalhes que nos instiga a imaginação.

Ivan Lessa nasceu em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro e se mudou para Londres, onde viveu por mais de duas décadas, colaborando para a BBC londrina. Ele morreu em junho de 2012. Entre muitos trabalhos, o autor também colaborava com publicações brasileiras, nas revistas Playboy e Piauí, e foi um dos fundadores do extinto jornal “O Pasquim”. Autor de quatro obras, este IVAN VÊ O MUNDO é seu segundo volume, publicado originalmente em 1999.

Não vou cometer o disparate de afirmar que esta coletânea de crônicas seja ruim, até porque eu mesmo não sei bem ao certo o que dizer sobre a obra. Mas talvez o que possa ser ressaltado é que Ivan Lessa é um cronista um pouco diferente do que estou acostumado a ler. E embora seja sempre bom visitar o novo, satisfação nem sempre é algo garantido dentro dessa premissa. IVAN VÊ O MUNDO é um livro de crônicas que não me agradou, mas que está longe de ser desprezível... E talvez o que me falte seja um pouco mais de experiência como leitor... Sim, pois pode ser que eu não esteja preparado para invadir o universo dos veteranos da literatura, ou simplesmente ainda não consegui enxergar com os olhos do velho Ivan.

sábado, 8 de agosto de 2015

RESENHA DE LIVRO – OS PRISIONEIROS


Se assim como eu, você for um amante de contos, então vai uma previsão assertiva: tornar-nos-emos prisioneiros deste livro, quase ao ponto de alça-lo a condição de livro de cabeceira. Rubem Fonseca é um escritor estupendo, e sua obra digna de adjetivos distintos: vibrante, desconcertante, realista, surrealista, coerente, abstruso, cruel, deliciosa...

Poderia continuar com as atribuições, mas talvez seja um ato desnecessário e infinito. Por que eu começo esta resenha rasgando elogios á este Os Prisioneiros? Bem, talvez a melhor resposta seja dada a você, por meio do simples ato de ler a obra.

Neste trabalho maravilhoso nos deparamos com um vasto universo de personagens imaginários, onde o mestre Rubem Fonseca nos mostra toda sua maestria em construir diálogos e equilibrar a condução literária. Difícil é identificar o melhor conto desta coletânea. Só a título de exemplo, eu citaria “Teoria do Consumo Conspícuo”, belo trabalho dotado de um viés misterioso e até um pouco mórbido, e meio como uma cereja no topo do glacê, ela termina com um final inusitado.

O autor é munido de talento inquietante, ou melhor dizendo, este se mostrou capaz de narrar a inquietação decorrente do ser humano. Sua condução textual é composta por uma crueza de linguagem que nos exterioriza de forma quase palpável.

É sempre muito bom descobrir grandes autores, como fiz ao ler, pela primeira vez, o sr. Rubem Fonseca, embora seja dolorosa a realidade de se estar lendo algo que em muito breve chegará ao seu final, uma vez que, a literatura ideal é aquela em que degustamos devagar, temendo o seu término. O consolo ficaria na realidade de podermos rele-lo e, com este gesto meio amplificador, fazer deste Os Prisioneiros, aquele bom e velho livro de cabeceira. Só os amantes de livros entenderão o que quero dizer com isso.

Outro ponto que me soa confessional é a realidade de se estar diante de um gênio da literatura, o que inevitavelmente contrasta com a minha pequenez. E para este caso, aqueles que têm o hábito de escrever saberão do que estou falando.

Nascido em Juiz de Fora, no ano de 1925, Rubem Fonseca teve uma existência, eu diria, um tanto variada; foi office boy, escriturário, nadador, ajudante de mágico, revisor de jornal, comissário de polícia... Até que se formou em direito, virou professor da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e, por fim, executivo da Light do Rio de Janeiro. Mas sua melhor contribuição a este país certamente foi como escritor, talento que só foi descoberto em 1960, com duas publicações de sua autoria para as revistas O Cruzeiro e Senhor. Os Prisioneiros é sua primeira coletânea de contos, que logo foi reconhecida pela crítica nacional como a mais criativa obra da literatura brasileira em décadas.

Sem nenhuma demagogia posso dizer que sou um leitor privilegiado, por ter tido a chance de conhecer mais este mestre da nossa literatura; um audacioso em incisivo cronista, que de fato, nos entregou esta obra genial, cujo título premonitório, fez deste leitor, mais um prisioneiro de sua brilhante ficção urbanista. O título Os Prisioneiros certamente deve referir-se á nós, porque não há outra condição para aqueles que se atreverem á viajar por esta deliciosa coletânea de contos.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

RESENHA DE LIVRO: A VIDA QUE VALE A PENA SER VIVIDA


Não se deixe enganar pelo título com cara de autoajuda desta obra. Fórmulas prontas ou qualquer direcionamento que lhe garanta a obtenção de soluções imediatas, que supostamente lhe ocorreu ao ler a capa, é o que menos você encontrará neste volume. Os próprios Clovis de Barros Filho e Arthur Meucci, autores da obra, fazem questão de deixar isso bem claro, já no início da leitura. Nas próprias palavras deles:

“... Saiba que você está equivocado. Este livro não atende às suas expectativas. Sua leitura não trará soluções. Nele você não encontrará nenhuma dica ou artifício para se dar bem. Por ele, o sucesso continuará dos outros, fora do seu alcance”.

E os professores não estão mesmo mentindo. Acho até que a leitura deste livro deixará você com mais dúvidas do que tinha antes de se atrever a viajar através de suas páginas. Talvez o título sugestivo seja mero golpe de marketing. Não à toa, este trabalho, filosófico por excelência, costuma ser encontrado em livrarias, justamente na seção de autoajuda, a qual a obra tanto ataca e condena.

Portanto, se sua intenção for encontrar respostas tirânicas, que impõe o que você precisa fazer para alcançar a vida boa, esqueça. Outros títulos certamente atenderão melhor sua necessidade pragmática. Porque frente à constante incerteza que se agiganta em nossas vidas, costumamos achar mais fácil obter garantias formuladas minuciosamente no sentido de direção, seja ideologias políticas ou mesmo a literatura de autoajuda.

Mas aqui a viagem é na contramão das certezas incontestáveis. Aqui temos conteúdo filosófico, escrito por professores de filosofia, que se consideram inimigos jurados da metodologia moderna que alega existir meios irrefutáveis de excelência existencial capaz de servir para qualquer pessoa.
Este livro, simplesmente fascinante de ser lido e relido, não se reduz, apenas, a uma simples tabela metodológica. Possui amplo conteúdo teórico com base no pensamento de grandes filósofos da história da humanidade, os quais podemos nos servir, e a partir desta leitura, ir mais à fundo naquelas ideias que mais nos agradem.

A título de conteúdo, Clovis de Barros, ao longo de toda obra, traz de maneira leve e ensaística, passagens com tonalidade prosaicas. Temos então, um agradável livro de filosofia, que segue uma linha de raciocínio facilitado e que tenta trazer reflexões de acordo com aquilo que poderia ser as dúvidas dos leitores. Como se estivéssemos assistindo a uma aula do professor.

E pra ficar ainda mais interessante a leitura deste livro, eu recomendo que você assista também à palestra de mesmo título, que pode ser facilmente encontrada no Youtube ou no Espaço Ética, o site do professor. É claro que o livro é bem mais rico em conteúdo, mas creio que as chances de você se tornar um buscador dos ensinamentos deste, que considero um dos homens mais inteligentes desse país, seja grande. Clóvis de Barros Filho é um sujeito dotado de didática fácil; que sabe tornar conteúdos eruditos em ensinamentos simples, como se estivéssemos papeando em um bar.

É leitura obrigatória para qualquer amante de filosofia. E para aqueles que se interessam pela disciplina, mas que olham com desconfiança para este caminho aparentemente intrincado e cheio de gente culta, este livro certamente será sua porta de entrada para o mundo da filosofia. Além de ser um excelente indicador de que a Vida que Vale à Pena Ser Vivida é exatamente esta que você desfruta, neste exato instante.

domingo, 26 de julho de 2015

HOMENAGEM: O FIM DA JORNADA?


O grande filósofo Aristóteles nos deu uma definição fantástica sobre o sentido da palavra amizade. Segundo o pensador grego, “A amizade é uma alma com dois corpos”.

Embora esta ideia nos pareça imaculada demais pra ser enriquecida, ainda assim, eu gostaria de circunstanciar, nesta breve reflexão, que ao longo de muitos séculos, houve um progresso na ideia deste grande filósofo.

E essa evolução aconteceu aqui, dentro dessa sala de aula.

Era uma sexta-feira treze de abril, do ano de 2012. Nunca tive crendices supersticiosas, mas aquela foi uma trágica sexta-feira 13 em minha vida. Durante uma despretensiosa pelada com os amigos do trabalho, eu me acidentei seriamente e precisei fazer uma cirurgia complicada. E entre muitas medidas que precisei tomar por conta disso, uma delas foi o meu afastamento do curso de inglês por quase um ano.

Mas a vida é mesmo uma estrada indecifrável, e as consequências daquele acidente, que só pareciam destinadas a frear minha vida, me conduziram até uma nova turminha do CCAA. Turma esta, a qual eu conhecia apenas a professora Maísa.

De início, a relação era de extrema cautela; de um lado, havia eu tentando me afeiçoar com aqueles desconhecidos rostos. E do outro, a maioria deles buscando entender quem era aquele estranho novato, que usava roupas pretas e cabelos compridos.

E a reciprocidade veio aos poucos. Até porque não poderia ter sido diferente; tínhamos apenas um encontro semanal onde o único instante em que havia a possibilidade de nos relacionar, era durante o intervalo da aula. Bom, dentro da sala a gente até poderia tentar, mas a Maísa nos obrigava a fazê-lo em inglês, o que para nós era praticamente impossível.

O tempo foi avançando e as noites de quartas se transformando em encontros cada vez mais familiares, entre alunos intencionados a se tornar bilíngues. Galgamos cada semestre, numa briga incessante por compreender um inglês que nos soava escapadiço; éramos um amontoado de mentes travadas, olhares receosos e línguas presas... Bom, talvez não para o Silvério, com sua audição sempre aguçada e uma pronúncia irritantemente impecável.

Mas o que aqueles contínuos encontros não nos deixavam notar era o quanto levávamos nosso intrincado progresso com respeito, harmonia, serenidade e compreensão um pelo outro. Até chegarmos ao auge dessa virtude coletiva, quando estávamos diante das deliberações de nossa formatura, e mesmo frente a condições contraditórias que nos foram impostas, nossa turma, consolidada e forte de união, optou por ficar junta. Mesmo isso implicando em não fazermos parte dos festejos de encerramento.

Ora, meus amigos, se estes não são resquícios da construção de um grupo forte e afetuoso, sinceramente eu não sei o que mais poderia ser.

Dessa nossa harmonia evolutiva, só abandonou o barco aqueles que não se viram encaixados; os que se sentiram desconexos, ou simplesmente não olhavam para o nosso grupo como prioridade... Portanto, temos aqui, nesta reta final da jornada, o molde concluído de uma turma que aprendeu a se gostar e se respeitar... E acreditem: não seria melhor se fosse com outros alunos. E de jeito nenhum este seleto grupo altruísta existiria se faltasse você, Florinda, Isabelle, Heitor, Lara, Luiz, Maísa, Marcus, Natália, Scarlat, Silvério.

Despeço-me aqui, tomado por certo pesar por estarmos no fim de nossas aventuras de quartas-feiras. Mas e quem disse que tinha de ser pra sempre, né? Afinal, tudo aquilo que nunca se acaba, acaba perdendo a graça e a notoriedade... De mim, sairei pela última vez por essa porta, um sujeito melhor do que quando entrei, pois aprendi a me sentir parte deste bando de aspirantes da língua universal. Sim, pois mais do que aprender uma língua, eu levo comigo valiosas lições de companheirismo e apreço.

Mas espera um pouco aí: e quanto a Aristóteles? O que a frase no início do texto tem á ver com tudo isso?

Bem, se um dia o velho pensador nos disse que a amizade é uma alma com dois corpos, acho que a adorável relação desta nossa turma de inglês conseguiu, ao longo desses dois anos e meio, provar que a amizade pode ir além. Porque nos tornamos diversidade harmoniosa; o caos decifrado... Sim, eu acho que hoje nos tornamos uma alma com onze corpos.


***
(Esta é uma singela homenagem à todos os meus colegas que se formaram comigo na última quarta-feira, dia 22/07/215)

sábado, 18 de julho de 2015

RESENHA DE LIVRO – O DIÁRIO DE ANNE FRANK – Edição Definitiva


A vantagem de se ter o blog menos lido do mundo, como é o caso deste, é que jamais serei apedrejado por expressar minha opinião. E esta opinião vai justamente à contramão da crítica comum sobre o DIÁRIO DE ANNE FRANK, porque este livro é unanimidade de aprovação entre leitores de qualquer língua que fora contemplada com a tradução desta obra. Realidade que se mostra claramente em seu preço de venda, sempre tão exorbitante. Mas eu achei a leitura deste O DIÁRIO DE ANNE FRANK cansativa e entediante. Contudo, creio que o problema não seja da pequena autora, a própria Anne Frank, que narrou em seu diário os difíceis dias vividos em confinamento, para escapar da truculência nazista. A questão aqui é que estamos lidando justamente com um diário, e como não poderia ser diferente, é o relato cotidiano de pessoas que vivem presas num pequeno espaço, onde suas vidas estão limitadas, deixando claro que não há muito para se narrar sobre essa sobrevivência, além da constante busca por superar mais um dia.

A edição de que fala esta resenha trás na integra o diário de Anne, contendo agora, todos os trechos que foram cortados ou editados por seu pai, quando da primeira publicação, feito em 1947. Mas achei que os trechos retirados, que na época foram considerados inadequados, hoje praticamente passam despercebidos, frente ao seu conteúdo corriqueiro.

Na internet, eu leio muita gente afirmar que este livro é um relato histórico riquíssimo como poucos o são. Mas do meu ponto de vista, o livro é apenas um diário, com poucas passagens narrativas dos acontecimentos ao redor do mundo na época. Até porque tudo o que a família Frank sabia, era o que as pessoas de fora lhes relatavam, ou através dos noticiários, que acompanhavam por um rádio velho.

A maior parte do livro são relatos de uma garota adolescente, tendo que enfrentar os conflitos comuns desta fase da vida, e os constantes confrontos entre as pessoas que junto com ela estiveram enclausuradas; óbvias discórdias que certamente acontece quando se vive confinado em pequeno espaço, providos de pouquíssimos recursos, e que precisa ser dividido por muitas pessoas.

Eu me pergunto se O DIÁRIO DE ANNE FRANK seria esse sucesso estrondoso, caso ela, Anne Frank, não tivesse sua vida abreviada no holocausto. Será mesmo que este livro causaria tanta comoção, se Anne e sua família tivessem conseguido escapar ilesos do nazismo? Sinceramente eu acho que não.

Novamente afirmo que Anne Frank não é culpada pelo conteúdo insosso deste volume. O fato é que não há muito que se narrar no cotidiano de pessoas que estão escondidas, além das dificuldades como escassez, conflitos entre indivíduos, o tédio constante, e claro, os problemas existenciais enfrentados pela narradora adolescente.

Apesar disso, Anne Frank sabe escrever muito bem, para alguém com pouca idade. Ela narra de maneira coerente, é corajosa quando precisa confessar suas particularidades e não se importa em expor tudo para Kitty, nome que ela deu ao seu diário.

É chocante o que aconteceu naqueles tempos, e começar a leitura sabendo da dolorosa realidade, pode causar certo desconforto. Anne e quase todos que estavam no anexo secreto, são mortas pela barbárie nazista. E talvez a maior lição que este livro possa deixar é a lembrança de que o preconceito é a mais terrível e destrutiva ideia já criada pela mente humana.

Relato histórico ou não, acho que isso não importa. Só espero que jamais cesse a vergonha de nossa maledicência destrutiva, que tirou precocemente do mundo, esta garotinha inteligente e simpática, chamada Anne Frank.