Este é um espaço de reflexão e opinião de um improvável leitor... Ordinário em sua existência, às vezes transgressor em sua análise. Mas como eu disse, é apenas um espaço. E como tal, precisa ser eternamente preenchido...
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
CONTO: ORDINÁRIA LOUCURA
sábado, 21 de novembro de 2015
RESENHA DE LIVRO: O DIÁRIO DE SIBYL DANFORTH, PARTEIRA
terça-feira, 10 de novembro de 2015
CRÔNICA: O FIAT BRANCO
Sentado à mesa de uma
lanchonete perto de casa, vejo minha visão abrangente das frivolidades de uma
tarde de sábado serem bruscamente bloqueadas pela repentina presença de um carro branco, que parou bem diante da
calçada onde me encontrava. Era um modelo da FIAT, não muito novo, mas se
encontrava limpo e possuía uma aparência relativamente conservada.
O motorista abriu a porta e
saiu de sua caixa de metal ambulante, altivo, como se fosse um genuíno membro
da nobreza, recém-chegado do século XV e que acaba de descer de seu coche.
Constatei certa semelhança nos traços de seu rosto quando, ao passar por mim,
fez um leve aceno digno da realeza. Foi em direção ao balcão do bar e pediu uma
Coca-Cola. Após efetuar o devido
pagamento – que ele deve ter achado ultrajante o fato de um lorde ter que pagar
por sua bebida – voltou para a fachada do estabelecimento, onde eu me
encontrava visivelmente abrandecido, pois em instantes, me veria livre daquela
parede de lata ordinária e intrometida.
Acontece que sempre que vou
aos meus barzinhos prediletos, gosto de me sentar nas mesas que são colocadas
em frente à calçada, o que permite um despretensioso testemunho da vizinhança.
Porque se for para beber do lado de dentro do bar, cercado por paredes fóbicas que
impossibilitam meu senso de ociosidade, então eu prefiro beber no conforto de casa.
Mas para a infelicidade total
deste que vos escreve, o orgulhoso proprietário do FIAT branco resolveu apreciar sua Coca-Cola, sentando-se precisamente em uma mesa ao meu lado. Logo notei
seu olhar de admiração e orgulho para com o seu antiquado artefato de
locomoção, que certamente devia lhe conferir ganho de autoestima.
Inevitavelmente, iniciei um
embate interior com meu próprio ser, que pesava os prós e os contras de
continuar ali, sentado, tendo como única possibilidade de contemplação a
lataria rudimentar daquele veículo, estacionado indevidamente – ou quem sabe
propositalmente – para o meu minguado deleite.
Se eu fosse embora, estaria
livre do FIAT branco em toda sua
intromissão, e só isso já valeria à pena o esforço. Poderia levar umas cervejas
pra casa e, no conforto do lar, eu ainda teria o privilégio de poder escolher
uma boa música. No entanto, eu me veria outra vez confinado, acuado, escondido
dos inéditos encontros com o mundo do lado de fora do meu portão, que embora
sejam frustrantes em sua maioria, exatamente como estava sendo o encontro
inesperado com o FIAT branco, algumas
vezes nos fazem escapar do tédio. Também é válido salientar que a cerveja
estupidamente gelada colaborava com minha impossibilidade de fuga. E a cada
novo gole que eu dava, mais o meu corpo parecia acometer-se por uma redoma de amparo,
a me abrigar do incessante calor.
Com o termômetro intuitivo
batendo na extremidade do “seja forte e
fique no bar mais um pouco, porque o malquisto já deve estar de saída. Afinal,
os bebedores de Coca-Cola não costumam demorar em bares”, uma fagulha de
otimismo mental fez seu trabalho de recordar a expectativa de que a vida
algumas vezes nos surpreende com encontros alegradores... Contudo, eu admito
que perseverar pelos raros embates prazerosos é ato de gente obstinada e
insistente para além do que jamais conseguirei ser. E no meu caso, o resultado
desse tipo de pensamento acaba surtindo efeito contrário de sua pretensão, e eu
acabo sustentando o bordão de que nada é tão ruim que não possa piorar.
Cautelosamente olhei para o
lado e vi que o dono do detestável veículo estava a me devolver o fitar, agora
com um sorriso largo e ufano.
Não tardou a puxar conversa,
afinal, não havia mais ninguém por perto para ele importunar. Minha
insignificante presença deve ter lhe servido de consolo, porque quando se há
apenas uma única opção, o carecido se torna menos exigente. E como de praxe,
iniciou suas tolices verbais nos atentando para o tempo. Afinal, era uma tarde
de calor evidente demais para ser desprezada por uma forçosa conversa de bar.
Quanto a mim, apenas lhe dei
respostas em total conformidade com suas abordagens esquecíveis, tentando
dispor do máximo que minha já abalada paciência permitia. Pois eis que em meio
aos comentários sobre o calor escaldante, o sujeito resolveu conduzir nossa
enfadonha prosa ao rumo de seu desígnio:
– Sabe de uma coisa: deve
fazer até mal sair nesse calor assim, depois de sair de dentro do ar frio do
meu carro.
Tem toda razão! Então por que
você não volta pra lá e se protege de uma possível insolação, ao mesmo tempo
evita que meus ouvidos sejam bombardeados por suas imbecilidades orais? – por
muito pouco e eu o teria dado essa resposta, mas minha polidez irritante acaba
sempre por me vencer. E no lugar de repelir o indesejável, apenas concordei.
– Pois é... – respondi, em
suspiro profundo, já pensando em tirar o celular do bolso e fingir atender
alguma ligação.
– Comprei esse carro esta
semana, sabe... – continuou ele, com o peito estufado, feito um pardal no
poleiro, na esperança de arrancar de mim algum reconhecimento por sua obtenção
material – Achei que nestes tempos de crise seria melhor pagar à vista. Nunca
se sabe, né?
– Pois é... – Eu era um oceano
de melancolia. Mas então, fui acometido por um sentimento típico dos
derrotados: se não dá pra expurgar o calo, melhor que ficar parado é continuar
caminhando com ele no pé. Elaborei uma piada, fazendo uso de uma frase que
havia no para-brisa traseiro do FIAT branco.
– Você comprou mesmo esse
carro, ou foi Deus quem lhe deu?
Ele soltou um risinho que me
fez lembrar uma hiena abatendo a carniça. Exibiu uma comissão de frente
dentária tão amarela quanto a camisa da nossa Seleção. Olhou para a frase no
vidro e pareceu ter gostado da sugestão que joguei.
– Claro, claro! Você está
certo... Foi mesmo Deus quem me deu – assentiu ele, do alto de sua
religiosidade apalermada.
– Melhor dizendo, quem está
certo é a frase no vidro, né.
Mais risadas. Pensei que seria
melhor não o deixar tão à vontade, ou ele poderia acabar pedindo outra
Coca-Cola.
– Então você acredita mesmo
que Deus lhe concedeu um automóvel como forma de benção? – fiquei a me
perguntar como eram as dádivas antes da invenção da roda ou do motor.
– Com certeza! Deus tem
provido maravilhas em minha vida!
– Muito bem... – Pela primeira
vez, virei-me pra ele, fingindo interesse – Nesse caso, deixe-me ver se
compreendi direito essa lógica: está me dizendo que Deus lhe conferiu um bem
material que indiretamente contribui com a devastação dos recursos naturais que
estão cada vez mais escassos? – deixei que ele pensasse alguns segundos sobre a
pergunta – Isso significa que o seu Deus é totalmente conivente com o aumento
da emissão de CO2 na atmosfera, o que
tem sido causa deste catastrófico calor que estamos enfrentando neste exato
momento... – notei que ele se remexia na cadeira, desconfortável – Seu Deus lhe
abençoou com objeto que melhor simboliza o sistema capitalista vigente, maior
causador de desigualdade social, enquanto nega alimento básico para grande
parcela da população? – outra pequena pausa para ele respirar – O Altíssimo conferiu
um bem que está lhe dando a ilusão de status social, algo que visivelmente
atiça sua soberba, e que aumentará a distância entre você e esse mesmo
criador..., é isso o que está me dizendo?
Eu não havia me dado conta,
mas o FIAT branco deveria estar me
incomodando mais do que havia imaginado, pois fui capaz de proferir aquela breve
impugnação sem ao menos gaguejar... E como já esperava, não houve nenhuma
resposta imediata, além de uma parcimoniosa exclamação bovina:
– Hmmmm...
Embora minhas indagações
sustentassem requintes de crueldades, eu não tinha a intenção de parecer um
ateu fundamentalista que tenta humilhar a doutrina dos outros. De fato, o meu
verdadeiro objetivo era cessar com o explícito envaidecimento orquestrado por
aquele idiota, que então resolveu que havia se tornado alguém acima dos demais
com quem convive neste mundinho de perdedores, e agora era digno de ostentar
suas desprezíveis aquisições superficiais.
E para brindar a
espiritualidade daquela gloriosa tarde de calor, ele não me deixou sem
resposta, embora tenha sido um tanto evasivo:
– Vou lhe contar uma coisa
sobre o nosso pai que está no céu... – antes, foi até a lixeira, na base do
balcão, e jogou a lata vazia fora. Apesar de tudo, ele era mesmo asseado. Então
retornou para concluir com sua majestosa teoria – Deus é um ser justo,
misericordioso e que nos recompensa na hora certa. O pai sempre é generoso com
seus filhos mais fiéis e concede de acordo com o merecimento de cada um.
E tentou validar sua teoria,
lançando-me um olhar intimista.
– Mas se este seu Deus
meritocrático resolver dar um carro para cada um de seus cerca de seis bilhões
de filhos, atuais viventes deste plano, eu acho que não vai ter recursos
naturais no planeta para atender a toda essa demanda – achei essa bem fácil de
replicar.
– Eu sei... Mas Deus atende
somente aos justos, os que foram bons e seguem fielmente a sua palavra.
– O que nos leva à conclusão
de que você é parte desse seleto grupo de filhos prendados que está fazendo
exatamente a coisa certa, não é mesmo?
– É claro... Contribuo com o
dízimo e faço minhas orações todos os dias.
– E podemos também concluir
que um pagão, feito eu, deva estar agindo exatamente em oposição aos ditames
divinos. Afinal, eu ainda não fui agraciado com um extraordinário FIAT branco.
– Pode ser que sim... – ele já
estava dentro do carro, porta fechada, tentando escapar. Mas o vidro foi
abaixado para que cuspisse sua última lufada venenosa, que certamente me
derrotaria – Você é um homem religioso?
– Não, eu não sou.
– Pois é... – Fez aquela cara
de quem não precisa dizer mais nada.
– Sabe o que eu acho sobre
Deus? – juro que começava a invejar o proprietário do FIAT branco; gostaria muito de poder ver minha estima aumentada por
conta de uma bobagem como a compra de um carro. Mas aproveitei aqueles últimos
momentos na presença do filho bendito, para concluir rápido raciocínio – Acho
que Deus é uma criança com uma fazenda de formigas. Ele nunca toma nenhum
partido. Fica apenas observando, talvez um tanto entediado, tudo o que nós,
suas adoráveis formiguinhas, fazemos dentro da fazendinha de bobagens... Quem
sabe até se permitindo rir de algumas formigas que se acham merecedoras de
recompensas tolas, tomadas por elas como coisas divinas.
Ele ligou o FIAT branco e foi embora. Mas não sem
antes prometer que iria orar para que minha alma perdida encontrasse o caminho
da salvação.
Fiquei sentado em minha mesa,
agora completamente detentor de uma visão privilegiada do nada que acontecia no
tempo e espaço, imaginando onde estaria indo aquele sujeito cheio de verdades.
Será mesmo que ele acreditava
que uma divindade o havia ofertado objeto que só serve para suprir alguma
necessidade mundana? Ou talvez ele usasse o nome de Deus para camuflar sua
vaidade em afirmar aos quatro cantos que não possui capacidades de obtenção sem
o apoio divino?
É difícil saber...
E eu é que não vou me meter no
discernimento alheio. Melhor pensar em coisas menos transcendentais, como a
cerveja que eu estava a degustar e que se encontrava mesmo deliciosamente
gelada. E se é errado dizer que minha bebida seja resultado de meus esforços
pela sobrevivência neste mundo pragmático, então tudo bem... Eu agradeço a
Deus, sem nenhum problema, pela cerveja gelada que ele pôs em minha mesa...
Afinal, como dizia Nietzsche:
terça-feira, 3 de novembro de 2015
RESENHA DE LIVRO: AS MULHERES NA GUERRA 1939-1945 VOL. 1
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
CRÔNICA: EM BUSCA DAQUELE SORRISO
Certa vez, tive minha manhã literalmente
salva pelo impactante sorriso de uma desconhecida donzela, que ao olhar em
minha direção, saudou-me com precioso gesto. Fiquei tão atônito por aquele
sorriso, que fiz o que somente um introvertido poderia fazer: segui meu
caminho, para posteriormente relatei os detalhes da forma mais fiel possível (essa
breve transgressão pode ser conferida no texto “Aquele Sorriso”, nesta coletânea). O mesmo e velho romântico que jamais
se manifesta ao fruto de seu encanto, só restou-me contar ao teclado o que me
havia acontecido.
E após muitos adjetivos
digitados numa vã tentativa de fidelizar a grandeza daquele sorriso, eu ainda
tinha que resolver uma última questão, antes de postar o texto no blog:
Faltava encontrar a imagem que
minimamente fizesse justiça ao encantamento que testemunhei naquela improvável
manhã. Quisera eu ter congelado aquele instante numa foto ou filmagem, embora
tenha plena certeza de que sua imagem está eternizada nos arquivos de minhas
lembranças.
Mas eu ainda carecia de uma
gravura que representasse o belo sorriso que ganhei. No entanto, a suspeita de
que nada haveria de ser tão formoso, levou-me a constatação de que estava enfiado
numa árdua e demorada busca; passei dias garimpando a internet, à procura de um
sorriso equivalente.
Confesso que foi muito
prazeroso me deparar com tantas e tão diversificadas expressões da angelical face
feminina. Poderia até passar o resto de meus dias desempenhando esta agradável função:
analisar sorrisos. E posso reafirmar, sem nenhum receio, tendo como álibi nosso
saudoso Bob Marley, de que este gesto
continua sendo a curvatura mais maravilhosa que podemos encontrar numa mulher:
as curvas de seu majestoso sorriso.
Talvez nós, homens, seríamos
mais felizes se aprendêssemos que um atalho prático para se encontrar alegria é
conseguindo extrair um belo sorriso desta criatura detentora de insigne encanto
denominada “Mulher”.
Então, após muita pesquisa,
descobri que não procurava um sorriso, mas sim, a sensação que tive quando
estive diante daquele belo rosto que me olhou com alegria. E este ato deu outro
sentido à minha longa empreitada: permitiu que despendesse maior atenção aos
mais variados tipos de sorrisos, como se eu estivesse em meio a um estudo
intensivo da venustidade feminina. Encantei-me com admiráveis formas; sorri de
volta ante a vastidão de delicadas faces; desdenhei frente às exibicionistas;
odiei sorrisos forçados a ponto de achá-los mais agressivos do que feições
rancorosas propositivas; suspirei profundamente ao deparar-me com os mais
encantadores.
Mas talvez a grande lição que
aprendi durante minha insistente busca, foi a constatação de que os melhores
sorrisos eram frutos de damas singelas, pois eram aqueles que aconteciam de
maneira inesperada, fazendo com que seu manifesto se tornasse ainda mais
estonteante. A simplicidade sempre foi o principal atributo dos sorrisos mais
incríveis.
Mentalmente eu tentava separar
cada um deles por tipo. Não sei se nossas adoráveis mulheres são capazes de
exibir a todos em suas particularidades, afinal, eu os via em imagens, que eram
representações fiéis ao que vejo nos lugares em que frequento, nos rostos que
admiro... Não sei se elas conhecem cada estilo de seus próprios sorrisos, mas
talvez isso não importe.
E desse modo, se você me
perguntasse eu diria que sim; toda mulher pode ser capaz de exibir qualquer um
dos sorrisos que encontrei ao longo da pesquisa. Mas acredito que alguns sejam
raros demais e, portanto, concedidos somente em ocasiões especiais, que não
precisa se tratar de um encontro romântico. Estes tesouros expressivos estão
por aí, nos ambientes mais improváveis..., e algumas vezes temos o privilégio
de nos deparar com tais manifestos, reluzidos em trágicas manhãs, onde só
parecia haver trevas no mundo...
Eis alguns dos tipos que
mexeram bastante comigo:
O
Belo:
é o sorriso que nos faz suspirar! Que nos deixam completamente embasbacados; é
aquele que não carece de mais nada para ser formoso, seu simples manifesto é a
pura definição da beleza. Esse tipo é altamente sedutor, mas ele pode ser
ensaiado, e sabemos bem que algumas mulheres são especialistas nessa arte. De
qualquer forma, este modelo não deixa de ser espetacular em formosura..., mas
está bem longe do sorriso que buscava.
O
Terno: este é o tipo de sorriso que nos acolhe nos braços; um
gesto leve e que vem sempre cheio de afeição. É um ato fácil de ser encontrado
em mulheres que sabemos que gosta da gente. Sou bastante familiarizado com este
tipo de sorriso, pois muitas vezes o encontro exibido na face de minha mãe.
O
Formal: é um sorriso metódico, proposital, que por detrás dele há
sempre um teor técnico. Um sorriso que denota cobiça, ambição, que quer algo em
troca de seu manifesto. Este é um sorriso aprendido, não é nem um pouco
espontâneo e se você for um homem minimamente observador, notará o quanto ele
carece de brilho. Costuma estar sempre estampado nos rostos de mulheres que desempenham
funções sociais que exigem esse tipo de formalismo. Aeromoças são
especialistas...
O
Ingênuo: é aquele que acontece de maneira casual, sempre na
contramão de interesses; este é o sorriso que destrona a soberba e zomba do
sarcasmo. Não é raro e posso dizer que o vejo muitas vezes, em diferentes tipos
de mulheres. O ingênuo, embora seja lindo, muitas vezes pode ser confundido com
modéstia. No entanto, acredito que este sorriso, que muitas vezes é encantador,
necessita quase sempre de um pouco mais de alegria. Porque sua ingenuidade
pressupõe ausência de discernimento. É como vislumbrar um gesto que pode ou não
acontecer, mas não existe um determinador para tal... De qualquer forma, este
sorriso é enormemente gracioso.
O
Exagerado: também muito conhecido pelo nome de “gargalhada”, é um
sorriso fácil, que geralmente acontece em instantes descontraídos ou que foram
cômicos além do recato. Seria este um sorriso perfeito, no entanto, algumas
mulheres aprenderam a usá-lo de forma menos impoluta; algumas fazem uso deste
recurso para exibir insultos mordazes; ironias despóticas. Um gesto que tem o
viés de ser virtuoso, mas que nem sempre é..., talvez o grande problema seja o
fato de que é bem complicado distinguir aqueles que são genuinamente alegres
dos sarcásticos.
O
Triste: parece contraditório, mas o sorriso triste também existe.
Trata-se daquele sorriso que não quer existir; que se esforça para ser, que
impõe ao corpo uma postura contrária daquilo que a alma está de fato
sentindo... O sorriso triste sempre acha que dissimula a palidez, que pensa
conseguir esconder do mundo a própria vergonha em ser triste. Costuma não ter
muita curvatura labial, insignificantes riscos nas maçãs e os olhos parecem
sempre distantes (os olhos nunca enganam), para muito além de qualquer um que
tente a proeza de alcançá-lo.
O
Tímido: é aquele sorriso que tenta se manter escondido; algumas
vezes ele se manifesta por detrás de uma palma de mão a tentar ocultá-lo. Possui
um aspecto avermelhado principalmente na região das bochechas e detém ruídos
distintos, mas que em nada estragam sua formosura. Este talvez fosse o tipo que
mais chegou perto daquilo que eu buscava, porque geralmente sorrisos tímidos
conseguem ser impolutos em sua totalidade. São manifestações encorpadas de
meiguices, prazer e costumam dizer à causa de sua manifestação que és
bem-vindo. É um sorriso quase sempre inesperado, porém, valioso demais a quem o
recebe.
O
Afetado: é o sorriso que está bem longe de ser natural e, muitas
vezes, soa pedante ou presunçoso. Este tipo só não é o mais feio de todos,
porque pode haver situações em que ele aconteça como forma de amenizar
ambientes, numa tentativa por deixar as coisas menos tensas; é um sorriso
político sim, mas algumas vezes há por detrás a benéfica intenção de harmonia.
Vaidoso: Agora
sim, este é o mais feio de todos os sorrisos que encontrei em minha pesquisa.
Definitivamente não há nada de belo neste sorriso! Ele simplesmente é fútil e
está o tempo inteiro tentando convencer de que é o melhor entre todos os
sorrisos. O tipo que quer mostrar perfeição e superioridade... É lamentável algo que constatei por quase
todo o tempo de minha busca pelo sorriso perfeito: há incontáveis mulheres que
adquiriram este como seu sorriso introdutório nas relações diárias. No conceito
destas muitas desentendidas, este modelo seria o mais adequado para agraciar
aqueles que amam. Pensam que através de um sorriso cheio de ensaio e soberba,
conseguirão atrair maior atenção e aprovação..., pois estou convencido de que
até mesmo um olhar de tristeza consegue ser mais atraente do que um sorriso
vaidoso.
E finalmente, a grandeza
altruísta que lutei tanto para encontrar:
O
Visceral: era exatamente o tipo de sorriso que eu procurava. Aquele
que acontece particularmente espontâneo; que vem natural, de dentro pra fora;
que é leitura fácil da alegria feminina; que considerei a mais rara beleza que poucos
homens têm a sorte de ver numa mulher. É o sorriso que te faz sentir saudade
assim que ele termina. E quando nos damos conta, estamos conduzindo todos os
nossos esforços diários apenas para reencontrá-lo..., uma vez mais. Porém,
mesmo sendo um gesto, que assim como todos os outros, também morrerá desfeito
na face da mulher, este sorriso será eterno na lembrança de cada homem que um
dia foi digno de contemplá-lo.
Sim, mulheres. O sorriso só
encantará quando vier de dentro de vocês; quando tudo o que há em volta deixar
de ser mundo e vocês se tornarem a própria expressão da alegria. O gesto
límpido que reduz homens à meninos; que nos faz perder toda a ilusão de
controle; que causa orgulho desmedido em cavalheiros que foram capazes de cativar
suas fontes...
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
CONTO: A INSÔNIA
0h:
17min.
Perco os reflexos, as
pálpebras ficando pesadas. O entorpecimento do corpo se elevando, os sentidos
cada vez menos perceptíveis..., apago a luz e rendo-me, fecho os olhos. Deveria
haver a imediata desconexão com o mundo...
Mas na penumbra algo continua
aceso, agitado. Dentro da escuridão ouço vozes, penso em coisas incoerentes,
relembro instantes idiotas e sem importância..., através das trevas recordo situações
que vivi antes de estar ali, semi desplugado. Às vezes, tudo parece se projetar
ao mesmo tempo, minha mente é uma snowglobe
que alguém agitou freneticamente. E enquanto aguardo impotente no travesseiro,
os pedacinhos de memórias voam de um lado para o outro, aleatoriamente.
Ainda mergulhado em trevas,
ouço ruídos importunos, farfalhar de persianas, vozes abafadas ao longe, o
volume de algum televisor ligado, cachorros latindo, fúrias entrecortadas, a
manifestação de insetos que optam pela camuflagem noturna...
Contraditório ao sono, a
insistência faz as pálpebras fechadas doerem e então abro-as. Não é assim que
se dorme, o ato de fechar os olhos não garante nada! Então, nesse mesmo escuro
ruidoso que o vejo, outra vez parado no marco da porta do quarto, me velando...
Hoje ele está de terno, detém tons escuros e sua gravata bege não combina com o
resto do figurino. A face esquelética dele me desaprova, sabe que novamente me
será negada a transição para fora deste plano..., ele vira as costas e
desaparece, em direção à cozinha. Nunca soube o que ou quem realmente é aquele
sujeito, mas sempre me visita quando não consigo dormir. Se o faz nas raras
noites em que estou desfalecido é difícil saber..., sinceramente eu acho que
não. Ele é como um espectro vigia, que sabe com exatidão as noites em que não
dormirei.
Acho que ele vem até meu
quarto para apreciar meu desalento;
Para ver de perto o quanto sou
incapaz de exercer ato tão ordinário;
Para ratificar a semelhança de
nossa catástrofe;
Para me dizer com seu olhar
gélido que meus esforços são inúteis...
Sempre pensei nele como uma
alma que fora negado o sono, e agora perambula, acordado pelo mundo, à procura
de mais dos seus.
01h: 24min.
Derrotado, reacendo a luz. Sou
um leitor antiquado, então no lugar de sofisticados meios tecnológicos, busco o
livro no criado-mudo e o abro. Costumo ler por horas e horas..., nada acontece.
Apenas mitoses e meioses que se recusam a se desprender da lucidez. Espero pelo
instante em que serei vencido, o instante em que as frases do livro parecem
cada vez mais disformes... O livro despencando no chão.
Apago a luz.
Aqui estou, desnudo...,
desmascarado. Sem uniformes, sem roupas sofisticadas, sem camuflagens sociais.
Nada de perfumes, gel capilar, loções corporais ou qualquer outro meio objetivo
que ajude a despistar a natureza vulgar. Meu único anseio não exige ornamento.
Só o que quero é pegar no sono! E transgressivamente desperto, sou estudado
pela noite com seus olhos escuros e agigantados, cuja penumbra é como um
holofote, que no lugar do clarão, emana trevas que profanam o sossego e roubam
minha letargia.
Entretanto, a esperança ainda
está por aqui em algum lugar... Talvez tenha escorregado pelos lençóis e foi
parar debaixo da cama. Só que não me atrevo, pois é lá onde vivem os monstros.
Debaixo da cama repousam as maiores fontes dos pânicos noturnos; Aranhas
negras, serpentes malignas, insetos peçonhentos, espectros desenganados.
Se eu fosse menos covarde
talvez apalpasse embaixo da cama para procurar pelo meu sono, mas não ouso
fazê-lo. Em vez disso, encolho-me sobre o colchão para me proteger..., cada vez
menor, até meu corpo reduzido suar, angustiado.
02h:
10min.
Levanto-me e vou até o
banheiro. Os pés descalços desbravam o piso fresco. A insanidade me faz pensar que
não seria uma má ideia deitar no chão... Dou descarga, aperto a maçaneta da
torneira que gotejava pecaminosamente, faço tudo sem acender a luz. Valho-me da
familiaridade que me permite antecipar cada obstáculo sem ver... Faço tudo, e
me esqueço de lavar as mãos. Sigo o caminho de volta, ciente de que
inversamente a mim, a noite me enxerga com clareza.
Passo pela cozinha e abro a
geladeira. A claridade irrompe no mármore, na pia, nas paredes
esbranquiçadas..., e nele. A iluminação, mesmo fraca, permite que o veja de
novo. É aquele sujeito! Está agachado num canto qualquer a me espreitar.
Trocamos olhares mudos, silenciosos, como dois suspeitos. Ele agora parece um
pouco constrangido com minha presença, como se eu o tivesse flagrado em alguma
de suas transgressões noturnas. Para tornarmo-nos cúmplices, ele desce o olhar
até a garrafa de água em minhas mãos e parece me condenar por ter bebido do
gargalo... Agora não podemos mais nos delatar, tornamo-nos iguais, transgressores
da madrugada.
Àquela altura, com a visão já
completamente comparsa do negrume, consigo enxergar um pouco melhor. Ele está
segurando uma caneta que usa pra escrever coisas no próprio braço. Vejo um
amontoado desconexo de palavras riscadas em sua magricela página feita de
epiderme. Assim como eu, ele também deve gostar de relatar as frivolidades
consequentes da insônia. São apenas palavras..., palavras que vagueiam pelo
tortuoso terreno de nossas mentes, indo e voltando; construindo imagens,
fazendo conexões com situações ocorridas, outras inéditas, apontando pessoas...
São apenas palavras.
Jornada, madrugada,
precipício, linguagem, passos, casebre, lugubridade, oração, tristeza, inveja,
astuciar, preguiça, maltrato, barulho, frase, rotina, luminária, termômetro,
latido, precário, quarta-feira, asfalto, almoço, medo, tesão, minutos,
administração, poder, insinuante, beleza, invisível, honestidade, calor,
perdição, culpa, solavanco, refratário, inexistente, respeito, dívidas,
rapidez, aurora...
Apenas palavras aleatórias...
Não conheço o significado de algumas, mas sei o que todas juntas querem comigo.
Elas se empenham em me manter acordado.
Com os olhos pesados eu volto
pra cama. julguei que aquele jogo de contar palavras ajudou com o sono.
03h:
14min.
Sabe qual é o ponto mais severo
da angústia? É aquela condição em que você tenta chorar e não consegue. Chorar
seria como expurgar, colocar pra fora toda a raiva, todo desgosto... Nem mesmo
este pequeno agrado a insônia me permite. E abrindo caminho através da noite, sigo
desperto... É estranho estar acordado quando se tem a sensação de que o resto
do mundo dorme. Sinto-me como se todos tivessem sido convidados para uma festa
e eu tive que ficar aqui, sozinho, neste plano escurecido e dissimulado, que
não sente piedade dos que não conhecem o caminho até o palácio de Hypnos, onde certamente todas as almas
do mundo repousam agora.
Completamente desperto neste
mundo de seres que dormem, só posso sustentar a expectativa dos primeiros
clarões que expulsarão as trevas, dando lugar a uma nova manhã. Então, as
pessoas despertarão amassadas de sono, letárgicas, com suas faces inchadas de
tanto dormir...
Vê-los todas as manhãs
caminhando, bêbados de preguiça e ausência de ânimo, característicos efeitos
que acometem aqueles que dormem, mesmo aqueles que usam de meios artificiais
para tal, estes sempre me causaram profunda inveja.
Mas a luz de uma nova manhã
não costuma ser um socorro que surge fácil para aqueles que infortunadamente
estão a lhe aguardar. E enquanto isso, o meu leito segue torturando-me. Mudo de
posição constantemente. Nada do que faço parece proporcionar-me conforto por
mais que dois ou três minutos...
04h:
49min.
A esta altura já existem
sinais de vitalidade mundana. De gente que dormiu o suficiente, os de sono
fácil... Ouço o cantarolar de uma mulher, motores de carros isolados, um casal
conversando, acho que trocam detalhes sobre como será o dia de cada um. Talvez
estejam fazendo uma oração de agradecimento pela noite bem dormida.
No meu quarto, os pensamentos
se tornaram inteiramente coerentes. Como se ao longo da madrugada o
quebra-cabeça de palavras soltas fora encaixando suas peças e finalmente consegui
ter uma visão total do quadro. Penso em atividades que me esperam neste novo
dia; numa garota que por incompetência deixei escapar e que ainda me faz falta;
penso no céu, do lado de fora da janela, que por um instante achei que seria
escuro para sempre; na possibilidade de estar indo novamente ao encontro da mesmice;
no medo de voltar sozinho pra casa; na insônia que estará a minha espere para
mais um encontro; no sujeito moribundo agachado na cozinha, riscando o braço...
Tenho medo de que as pessoas
vejam o caos explicitado em minha face distorcida. Que elas notem o quanto sou
incapaz de algo tão tolo quanto adormecer. Tentarei novamente evitar seus
inúteis conselhos, os quais já foram todos testados... Por que toda pessoa que
não sofre de determinado problema, tem a mania de achar que sabe o que deve ser
feito?
Voltarei para casa no fim do
dia, como sempre faço. Talvez me embriague para forçar a inércia, porque eu não
aguento mais permanecer desperto. Querer a pausa deste mundo é pedir demais?
Quero fechar meus olhos e dormir. Por que me negas o intervalo acalentador da vida, ó despótica insônia?
Cessarei aqui o meu lamurio de incertezas... Dizem que é tudo culpa da cafeína... Estou com vontade de bocejar.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
RESENHA DE LIVRO: RAPSÓDIAS EM BERLIM
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
CONTO: O RASTRO DE ÉOLO
Que
tristeza…, justo agora que iria recitar para Éolo uma aprazível poesia, este
resolveu aflar para longe de mim. Talvez não queira ouvir minha declamação.
Desfez-se na atmosfera em segundos. Certamente percebeu que não tenho vocação para
poesias e, portanto, considera-me indigna de seu manifesto.
Sem
sua presença, restou-me um sol entre nuvens inchadas, dessa manhã suspensa e
estagnada. As folhas das árvores não se
mexem, a poeira repousada de cor marrom, adorna quase toda a superfície, o
capinzal parou de fazer reverência. E tudo isso compõe o cenário no qual a
natureza tomou-me como sua mera expectadora..., um joguete desprezível, sufocada
por sua acinesia. Pois quando minha nova fonte de veneração resolveu repousar,
e ele repousa, sua ausência fez com que eu me sentisse ainda mais alheia ao
ambiente.
Aqui
sozinha, em meio aos escombros, sinto-me um equívoco dentro de um molde
congelado, uma intrusa desconexa e impotente perante o cenário rígido..., a
insignificância antes manifesta em instantes de halos em brasas, sem sopro
algum para me acalentar, fez com que me sentisse confusa. Não sei se esta
redução da natureza se trata de punição ou apenas uma contingência. Ocorre que meus
equívocos se devem ao fato de que estava a ler poesia nesta manhã. Joguei-me
numa avalanche de palavras escritas por Fernando Pessoa e, em meio a tanta
beleza, encontrei um texto que me pareceu pertinente.
Estava
pronta para declamá-lo ao caos.
Mas
então, eis que sou repentinamente engolida por um sopro gelado, envolvente e,
pouco depois, deixada na mesma campina de outrora..., queria que Éolo
devolvesse o meu livro, mas acho que eu e ele gostamos do mesmo autor.
Deve
estar inspirando poesias neste exato instante.
Foi
aqui, neste mesmo tronco velho, onde agora sou consumida por um calor amarelo e
vicejar, que Éolo me fez perder todo meu senso de comprometimento com o recato
social e, menos ainda, com o mundo moral vigente. Tomei como recíproco o rumo
do seu manifesto, que nesta incrível manhã de frescor, se fez onipresente em
toda sua vastidão e vaidade. E eu, vivente frágil e destinada à concretude,
quis cometer o insolente delito de seguir os passos de meu querido Éolo, que
sem consentir, mas a exibir sorrisos e gentilezas, deu-me de bom grado toda a
sua brutalidade, sem dizer nada, sem me esperar... Apenas veio e soprou; atiçou
meus cabelos de um jeito que eu pensei jamais pudessem voltar à sua passividade
gravitacional. E com barbárie doce, Éolo me tomou em seus braços..., eu não
me fiz de rogada, apenas me deixei ser conduzida.
No
entanto, ele, meu querido amante, não está mais aqui.
Não
tenho o acalento pungente de seu toque em meu rosto; sua brisa a me inspirar; sua
grandiosidade a encorajar meus exageros. Não tenho sua familiaridade que me
tornou bailarina a rodopiar no meio da poeira alta. Um instante em que eu,
inocentemente obstinada, o seguia de olhos fechados e lábios esticados num
sorriso enternecido..., teria ido com ele até as nuvens mais altas e lá,
deixaria que consumisse toda a minha carne.
Éolo
deve ser o tipo de amante que se permite apenas um encontro; um sedutor que me
fez rastejar, dominada pelo aroma de sua hipnose inelutável. Depois me levou
aonde quis, para mostrar que sou vulnerável perante sua majestade. Se
cruzaríamos os mares, ou se desbravássemos novos mundos; talvez nos intrometeríamos
nas curvaturas longínquas da Terra.
Onde
foi que se meteste meu peregrino malévolo?
Temia
que a manhã continuasse enraizada. Mas eis que volto a ouvir a manifestação de
um sussurro que não sei se provém de uma realidade escapadiça, ou se é fruto de
minha libertina imaginação..., já não sei identificar o que é confiável em meu
julgamento.
Um
brado ríspido e autoritário..., sem me saudar, desceu em halo cinzento do céu,
chocou-se no solo com fúria e exigiu-me explicação.
Sua
imposição despótica me causou arrepio. Automaticamente minha insignificância se
converteu num instrumento destinado à obediência covarde. Agora eu só queria
concordar, torcer pelo argumento recíproco, mas se não fosse possível, assentiria
de bom grado, afinal, não possuo audácia para defrontar a ira daquele que detém
os meus impulsos. Talvez após sua rispidez ele me tome de novo em seus braços.
Mas
ignorando completamente minha submissão, o sopro se ergueu opressor. Encheu-se
de arrogância e narrou, acusou-me de ter feito tudo errado! Que sou criatura
burra e não deveria seguir aquilo que não entendo... Éolo rodopiou colérico,
parecia arrependido de ter me mostrado sua travessia de possibilidades; censurou-me
por não usufruir do precioso vislumbre que me ofereceu, disse que deixei
evidente minha cegueira patológica...
Sentada
no tronco velho, eu me vi no núcleo de um redemoinho feroz, tomado por folhas,
galhos e imundices. Quis dizer algo em minha defesa, mas Éolo estava possesso
demais..., soube que ele não me escutaria.
“Por
que me queres, mulher?” – escutei sua indagação arrastada e cheia de eco – “Se tudo o
que fizeste foi apenas copiar o meu rastro..., por que eu permitiria tal
insolência, se era apenas para ficar a rodopiar pelo ar, como uma pena
desprezível que foi expelida da plumagem? Por que não soltaste de minhas
amarras e planasse com tua própria leveza, almejando o mundo por outra
perspectiva? Por que quiseste juntar-se a mim, se sabia que eu não desviaria de
meu caminho ante nenhuma vontade alheia? Achavas mesmo que eu iria interromper
minha triunfante trajetória, apenas para poupar teu lugar insignificante? Achas
que tua vivenda é mais digna do que um formigueiro?”.
Meus
cabelos esvoaçando, quase arrancados do couro. O que estás dizendo, querido
Éolo?
“Não
o fizeste porque és uma covarde!” – condenou ele, ainda me tendo em seu centro
– “Nasceste presa à um cordão e nele estás arraigada até os dias de hoje.
Queres o mundo, mas apenas se for entregue a ti numa bandeja, cozido e cortado
em fatias. Foste tão vulgar, que em vez de nutrir-se com minha transformação
virtuosa, preferiu a tola busca por minha presença. O que querias encontrar?
Meu rosto? Sua tola humana! Saibas que não constituo nenhuma das tuas quimeras.
Não existo para seu deleite, e em vez de querer o que não podes verificar, por
que não aprendes com a ininterrupta manutenção da vida?”.
“Tua
existência medíocre é a tua máxima!”.
“Tua
covardia é pesada demais para insinuar-se na gravidade. Como poderá me seguir
se és incapaz de se livrar de teus próprios escombros e voar? Como poderá ser
forte para jornadas infinitas, se com facilidade deixas que atravessem a tua
carne? Como poderás alegrar-se se desconhece o valor do risco suave que faço em
tua epiderme com meu sopro imponente? Pois saibas que quem semeia vento, colhe
tempestade...”.
Então,
um repentino silêncio engoliu aquela voz... Éolo se foi. Expeliu-se no ar,
transformando o redemoinho num enorme e infinito nada;
Folhas
secas e galhos podres caíram ao meu redor;
A
poeira se assentou lentamente sobre páginas espalhadas de Fernando Pessoa;
O
firmamento se abriu para a serenidade reluzente do Sol;
E
onde antes havia os alicerces de minha morada, restaram apenas destroços
coloridos;
Eram
como confetes emergentes do caos;
sábado, 5 de setembro de 2015
RESENHA DE LIVRO – FACE @ FACE
sábado, 22 de agosto de 2015
CRÔNICA: MATÉRIA DESCARTÁVEL
Sou
acordado pelo ruído importuno do despertador. O som faz com que eu me lembre de
que já são 07h30min. de uma manhã de domingo. Ainda com os olhos fechados,
apalpo a lateral direita, à procura do banquinho improvisado como criado-mudo,
onde supostamente estaria o celular vibrante. Meus dedos só encontram uma
protuberância retangular e elevada, cujo toque na superfície é macio, porém,
inesperado. A surpresa de que não estou no meu quarto, mas sim, no sofá-cama da
sala, faz com que sucessivos eventos da noite anterior se reproduzam na memória.
Agora sei onde estou situado e, por consequência, sei também onde desativar o alarme
do celular, que se encontra um pouco mais acima, precisamente na cabeceira do
sofá-cama.
Ocorre-me
outra lembrança pertinente: eu não durmo sozinho, mas divido o cobre-leito com
outro corpo que se abriga do friozinho matinal. Viro-me para o outro lado e
fico de frente com a distinta presença, afundada até o topo da cabeça,
profundamente apagada. Vejo apenas algumas mechas de cabelos loiros,
transbordando para fora da colcha.
Inesperadamente
sinto uma espécie de desencaixe, a constatação daquele ser me causa
constrangimento. Não pela pouca familiaridade em estar aconchegado ao lado de
uma bela mulher, mas talvez por vivenciar o resultado de atitudes impetuosas…,
ao meu lado permanece a consequência de uma aventura que deveria ter chegado ao
fim horas atrás.
Levanto-me
e ando pela casa. Tudo parece confuso, desconexo, há roupas pelo chão, uma
garrafa de vinho vazia, outra de vodca pela metade, duas taças esquecidas na
bancada.
Vou
até o banheiro. Sirvo-me da privada. Sirvo-me da pia.
Meu
rosto no reflexo do espelho não condiz com a memória que eu tinha dele. E no
lugar do que deveriam ser feições de satisfação por uma noite de sexo
recém-vivida, só percebo resquícios de enfado e desorientação. Esfrego a face
com as mãos cheias de sabonete líquido, numa tentativa de camuflar traços de um
evidente desprezo. Mas concluo que ostento na cara realidade absoluta demais
para ser desfeita por algo tão ineficaz quanto sabonete..., não sei como
esfregar a verdade até que ela se transforme em cumplicidade.
Vou
até a cozinha. Preparo um café.
Da
pia eu observo a sala e vejo o rosto amarrotado dela, finalmente emergir da
colcha. Espreguiça-se demoradamente, depois olha pra mim e sorri, timidamente. É
um sorriso amassado, mas meigo e terno..., algo quase sublime.
Sinto-me
na obrigação de perguntar e ela diz que teve uma ótima noite de sono. Alguns
protocolos precisam ser respeitados. Ela não devolve a mesma pergunta, mas acho
que é melhor assim, pois certamente não iria gostar da resposta. Se é que eu
teria coragem de salientar que sexo e sono são dois prazeres que, quando feitos
sob efeito de muito álcool, têm seu êxtase comprometido.
Mas
é como dizem: alguns protocolos precisam ser respeitados.
Havia
naquela cena um ímpeto secreto, que apontava para o fato de que a recente noite
de sexo fez com que eu me tornasse um ser parcialmente liberto das necessidades
do corpo. E como ocorre com qualquer animal saciado, isso provoca certo
distanciamento.
Não,
ela não poderia ser submetida ao escrutínio de alguém que certamente não lhe
interessava. Talvez também me achasse fútil e dissimulado; fui apenas um objeto
fálico e descartável, que apenas serviu para aplacar momentaneamente seus
impulsos carnais. E eu desejava que assim ela estivesse pensando, pois dessa
forma minha mente poderia continuar censurando sua insignificância, sem que a
culpa me torturasse.
Aquilo
estava longe de ser uma manhã romântica. Na verdade, era inesperada, embaraçosa,
na qual dois seres estranhos estudam os maneirismos matinais um do outro, com
elevada cautela e, pela primeira vez, sem o auxílio do álcool que relativiza
tudo e faz parecermo-nos o menos excêntrico possível. E no meio desta
insistente exibição de normalidade fingida, eu me esqueço de levar o café para
ela na cama.
Mas
logo percebo que eu não precisava fazer isso. Afinal, não é uma manhã
romântica. É uma manhã confusa. E em manhãs confusas não precisamos levar café
para ninguém. Além disso, eu não sei como ela gosta do café, eu não sei se ela
gosta de café, eu não sei se ela gosta do cheiro do café, eu não sei se ela
gostará do meu café…, eu não sei.
Sento-me
na bancada da cozinha e observo sua taciturnidade. Como alguém que é plenamente
habituada ao desprezo daquele com quem dividiu fluídos corporais e a cama, ela
se levanta, completamente nua, vai até o banheiro e fecha a porta. E sem
esperar por ela, inicio meu dejejum.
Sirvo-me
de café, pães, biscoitos, leite..., tudo parece menos apetitoso e diria até um
pouco repugnante. Mas isso é efeito colateral de muitos etílicos consumidos
recentemente. Não tem nada a ver com cópulas casuais cometidas com baixo
critério e quase nenhum discernimento.
Ouço
os sons abafados que vem do banheiro. Ela se serve de chuveiro, sabonete, creme
dental... Livra-se de todos os vestígios meus que impregnaram seu corpo.
Quando
a porta se abre, noto que ela está mais bela, vestida apenas com calcinha e
soutien. Parece aliviada por ter expulsado meu cheiro de sua pele; como quem odeia
estar impregnada com a essência da matéria descartável.
Descubro
que sim, ela gosta de café. Também percebo que a bebida, quando não está aos
seus auspícios, lhe desperta a franqueza. Está muito fraco esse café, é o que
diz... Limito-me a devolver o óbvio: aquilo não foi um erro de preparo, mas
simplesmente gosto de café fraco.
Isso
resume toda a conversa que tivemos ao longo do café da manhã.
Depois
ela terminar de se arrumar e apanha a bolsa em algum canto da sala. Nesse
entremeio, eu desfaço o sofá-cama, tornando-o novamente um assento comum…,
transformo o motel improvisado em sala ordinária.
Nossas
atitudes eram comunicações não verbais que informavam para ambos que não
pertencíamos ao mundo do outro. Ela sinaliza que precisa ir embora. Eu deixo
explícito que anseio por isso.
Noto
certa aflição em seu comportamento…, parece ávida por fugir de minha casa, de
minha presença. Igualmente sou acometido por um alívio crescente, após escutar a
anunciação que não precisava ser dita com palavras.
Somos
dois espectadores da crueza humana, e talvez por isso nossa presença incomode
tanto. Não gostamos de ser observados por alguém que agora sabe de nossa
recíproca necessidade em usar outro ser humano. Tememos o olhar condenador da
sociedade que aprendeu a reconhecer que somos nada mais do que buscadores da
saciedade concupiscente.
Ela
sai pela porta..., não olha pra trás.
Eu o
fecho e dou duas voltas na chave..., como se temesse que apenas uma volta fosse
insuficiente.
Faremos
isso de novo? Provavelmente…
Mas não será com ela, assim como ela não buscará por mim. Porque a espécie humana é assim: nacos de carne descontrolados e excessivos; egoístas em busca de suprir as próprias necessidades..., somos apenas matéria descartável.









