terça-feira, 31 de maio de 2016

CONTO: O PEDESTRE


De maneira cautelosa, o pedestre estacionou no meio-fio. Precavidamente olhou para os dois lados. Ponderou sobre as possibilidades... Esperou.

E tomado de extremo cuidado, conseguiu enxergar uma pequena oportunidade de travessia; um intervalo no meio do trânsito; um espaço de tempo que julgou ser propício... Mas havia certo risco de ser atropelado e, cauteloso, o pedestre hesitou.

Um pouco mais de espera era preciso e o nosso estimado caminhante teve paciência. A vida havia lhe ensinado a importância de ser perseverante. Sabia da dificuldade em se chegar ao tão desejado outro lado da pista, portanto, ele permaneceu ali, parado na lateral do asfalto, farejando a oportunidade ideal.

Pois eis que ela veio. Uma nova chance de travessia, desta vez, com muito mais folga, poucos carros vinham em sua direção e isso era sinal de relativa segurança... Mesmo assim, ainda existia alguma dose de risco, e o sempre prudente pedestre achou melhor não fazer seu tão aguardado cruzamento... Sim, o outro lado da pista estava logo ali, bem diante de seus olhos; a possibilidade de seguir em frente; o outro lado da vida cheia de ineditismos... O anseio de todo pedestre.

Só que antes era preciso fazer a travessia.

E outra vez estagnado, ele ficou a esperar por muito mais tempo. Até que finalmente o semáforo se fechou para o trânsito. Vermelho era a cor do desbravamento; os veículos parados em fila... Enfim, era chegado o momento da grande travessia, que agora poderia ser realizada em segurança. Sem que houvesse o menor resquício de lapso.

Contudo, o pedestre desconfiou dos carros alinhados em sua frente. Pareciam astutos e ferozes, com seus motores errantes fazendo conjuras à sua tão cobiçada estabilidade... E sentindo que não havia garantias de uma travessia confiável, o pedestre não se mexeu... Permaneceu imóvel, covarde.

Porque chegar ao outro lado era arriscado demais;
Porque a vida não lhe dava nenhuma certeza;
Porque o medo de mudar lhe era mais assustador do que a própria travessia.

E petrificado de temor, o amofinado pedestre esperou, não sabendo mais pelo quê... Até ser brutalmente atropelado por um veículo desgovernado, que invadiu o meio-fio onde nosso herói se encontrava.

domingo, 8 de maio de 2016

RESENHA DE LIVRO: A FELICIDADE É FÁCIL


Um mundo de incertezas permeia as páginas desta excelente obra, cujo título parece ironizar o leitor. No entanto, logo nos primeiros parágrafos, vemos um motorista particular, levando um garotinho no banco de trás que, entretido profundamente em seus lápis de cor e caderno, faz o homem pensar no quanto a felicidade é fácil. Poucos instantes depois, o garoto é sequestrado e o motorista brutalmente assassinado.

A Felicidade é fácil.

Talvez tenha faltado uma interrogação ao título deste livro. Mas fique certo de não inserir esta mesma interrogação em sua mente, caso esteja receoso quanto a adquirir este esplendoroso trabalho de Edney Silvestre. Á menos que você não seja apreciador de uma trama dotada de intensidade existencial; teores quebradiços a cada nova pagina virada... Um livro quase que dotado de alma.

O enredo é uma espécie de um romance policial sem muita inclinação ao suspense. Mas seu grande ponto de distinção está na profundidade que o autor insere em praticamente todos os seus personagens: após ser sequestrado de dentro de um carro de luxo, uma criança muda se vê nas mãos de sequestradores inconsequentes, intencionados em enriquecer com o dinheiro que querem receber pelo resgate do filho de um importante publicitário. Enquanto isso, podemos acompanhar a vida deste mesmo publicitário, que desfruta de uma existência de poder, atolada em meio à alta corrupção do governo; a solidão e incertezas de sua esposa, uma ex-acompanhante de executivos; os empregados domésticos da casa, que das profundezas de suas submissões tentam subsistir; os ressentimentos de um motorista particular e a incerta relação com sua filha...

Tudo se entrelaça numa rede de relações complexas, onde nada é o que parece ser e a complexidade humana salta aos olhos do leitor. Edney Silvestre sabe compor personagens com almas conflituosas, que vivem suas vidas trágicas e aparentemente imutáveis, até chegarmos há um desfecho um tanto previsível, ou no mínimo, nada inovador. Contudo, a grande sacada fica mesmo por conta da extrema sutileza de cada personagem. Faz-nos amar e odiar cada um deles ao longo da trama. Enfim, o que interessa durante a viagem através das páginas deste belo trabalho, não é a chegada ao fim da história, mas sua travessia.

Outro ponto interessante é que aqui podemos começar a vivenciar a trajetória de Barbara, personagem que o autor usará noutro brilhante trabalho de sua autoria, intitulado VIDAS PROVISÓRIAS; obra que já foi resenhada neste blog.

Edney Silvestre têm me surpreendido cada vez mais com sua sutileza e elevada sensibilidade textual. Sei que eu ainda careço de maior conhecimento sobre a literatura brasileira e, portanto, não vou afirmar que somos pobres do estilo de escrita destilada por Edney. Mas o fato é que é sempre muito bom descobrir um autor como este; profundo, de escrita requintada, cujo grande trunfo fica por conta de sua enorme habilidade em exorcizar o sofrimento humano.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

RESENHA DE LIVRO: CONFIE EM MIM


No alto de quase todos os livros de Harlan Coben publicados no Brasil, há a seguinte constatação ostensiva: “Mais de cinquenta milhões de livros vendidos em todo mundo”. Seja soberba ou mera estratégia de marketing, o resultado final é sempre o mesmo: Harlan Coben é um fenômeno de vendas de livros. E este mérito não lhe é conferido por acaso. O cara sabe mesmo como conduzir um bom thriller de suspense, mantendo quase todas suas obras em elevado nível de qualidade.

Coben dispensa apresentação (só aqui no blog ele já foi resenhado três vezes, sempre assinando autorias de bons trabalhos), suas obras são detentoras de suspense bem construído, dotados de ótimos diálogos, personagens distintos e reviravoltas surpreendentes, são algumas das marcas registradas deste monstro da literatura moderna.

A trama, como sempre acontece nos trabalhos desse autor, conta a história de muita gente, mas vamos tentar fazer um breve resumo, uma vez que, nada mais do que um minúsculo vislumbre do estopim é o necessário para entendermos que impactantes desfechos nos aguardam, á cada nova pagina virada deste eficiente CONFIE EM MIM:

Tudo começa com o assassinato de uma moça chamada Marianne, fato que já nos deixa uma pista de que ela será peça chave do enredo, afinal, praticamente todos os personagens inseridos na história, mesmo os que já saem de cena no comecinho, acabam tendo considerável contribuição. Enquanto isso, o corpo de um adolescente é encontrado no telhado de uma escola, e sua mãe, traumatizada com o ocorrido, aos poucos vai desvendando coisas que irão deixar um ponto de interrogação naquilo que até então parecia se tratar de um óbvio suicídio do adolescente. Por fim, temos uma família comum onde os pais resolvem monitorar os passos do filho mais velho, instalando programas rastreadores em seu computador. No começo, tudo parece seguir sem nenhuma anormalidade. Mas eis que quando as coisas pairam dentro do habitual, eles identificam uma estranha mensagem, que mudará completamente o rumo das coisas.

Sim, todos esses distintos cenários de vidas ordinárias vão se entrelaçando aos poucos, aproximando a história de cada personagem, até desencadear num final surpreendente, ou mesmo que não lhe deixe atônito, certamente irá responder as muitas questões que o leitor fez ao longo de toda a leitura.

Bem-vindos ao mundo de Harlan Coben. Lugar onde o ar é escasso e tudo pode acontecer.

Não é a toa que as obras do cara sempre foram motivos de disputa acirrada entre os produtores da indústria cinematográfica, interessados em levar sua literatura para a telona.

Sim, são livros de um gênio do suspense, que podem ser retirados das livrarias sem nenhum medo de errar, com a certeza de que você estará levando pra casa uma ótima obra de suspense policial.

quinta-feira, 31 de março de 2016

RESENHA DE LIVROS – ADULTOS SEM FILTRO – E Outras Crônicas


Uma realidade ótima e que atualmente tem sido a principal razão de termos mais brasileiros interessados em ler – tá certo, eu concordo que a proporção relativa ao enorme tamanho deste país ainda parece pífia, só que mesmo melhorando a passos de tartaruga, é fato que estamos lendo mais. Outra pergunta cabível seria o que estamos lendo, mas estes são outros assuntos – o fato é que hoje se pode encontrar praticamente qualquer estilo de literatura, para todos os estilos e gostos.

Autores como Thalita Rebouças nos ajudam a enxergar com mais clareza essa pluralidade literária. Se neste país ainda falta o incentivo à leitura, pelo menos, a diversidade deixou de ser um problema. E o grande ponto de distinção da autora mencionada, talvez seja sua genuína simpatia. Nem é preciso ter lido algum de seus livros ou esbarrado com ela em algum aeroporto para que isso fique evidente. Basta um breve vislumbre sobre a figura desta sorridente carioca, para que se note, de imediato, que estamos diante de uma criatura que exala meiguice. E o mais perceptível é a capacidade de Thalita Rebouças em conseguir transmitir para o papel todo este seu lado mais terno, característica que torna sua escrita acessível e gostosa de ser lida. Em outras palavras, os livros dessa autora são opções de leitura ótima para quem gostaria de começar a ler, mas ainda olha com desconfiança para os livros, como se eles fossem instrumentos pertencentes à classe erudita.

E o livro alvo desta breve resenha é o primeiro trabalho de Thalita destinado ao público adulto. Contudo, creio que os jovens leitores também venham a apreciar a obra, uma vez que, não há linguagem pesada ou qualquer tipo de narrativa imprópria aos adolescentes, que seja mais agressiva do que o conteúdo no qual eles já estão habituados a ver nos programas televisivos e na internet.

As crônicas deste volume são recheadas de característica sutileza do começo ao fim. Uma leveza textual tão ampla que chega a incomodar um pouco no início, algo semelhante à escrita encontrada em revistas de fofoca de celebridades. Porém, caso o leitor ainda não tenha familiaridade com a forma de escrita, não se preocupe, pois logo a condução textual da autora nos remete à certo enternecimento que nos faz pensar que estamos no meio de uma gostosa prosa, de conteúdo coloquial, numa mesa de bar agradável ou em qualquer outro local de intensa informalidade. Dentro desse pacote, seus textos que mais me agradaram foram os sobre taxistas.

Entrando num aspecto negativo da obra eu só tenho a dizer que, em plena conformidade com o que acontece com todo livro publicado, certamente há pretensões comerciais por detrás da capa e do título. Pois somente ambições de editores sugeririam algo tão tosco e ordinário; tanto gráfico quanto o rótulo são fortemente bregas, fato que quase me fez desistir de comprar esta edição, que só não aconteceu porque sempre tive curiosidade em ler algo desta autora tão aclamada pelo público jovem.

Adultos Sem Filtro é um trabalho simpático e despretensioso, que certamente instigará a leitura em quem está tentando começar a ler, assim como nesta geração mirim, que enfeitiçada por recursos tecnológicos, carece de alguém que saiba invadir seu mundo miogizado para lhes mostrar que ler pode ser tão divertido quanto atualizar perfis em redes sociais.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

RESENHA DE LIVRO – GUERRAS ESTÚPIDAS


Ao ler o título inusitado deste livro, a primeira coisa que pensei foi na obviedade de sua afirmação. Á meu ver, toda e qualquer guerra declarada, talvez com raríssimas exceções, já é por si um ato estúpido.

E mesmo que você seja amante do pacifismo como eu, e esteja plenamente de acordo com a ideia de que toda violência, não importa a forma de sua manifestação, é uma estupidez descabida, este livro merece sua atenção, pois se trata de uma espécie de catálogo contendo as maiores imbecilidades humanas, que só poderiam resultar em mortes, destruições e perdas. E não apenas pelo triste fato de que numa guerra não há vencedores, mas também porque as razões que desencadearam os conflitos aqui reunidos são simplesmente bestiais e incompreensíveis. É um livro que traz à tona a realidade jamais revelada pela didática escolar de história: a ignorância humana e seus resultados catastróficos.

Desde os tempos das infundadas cruzadas, passando por Hitler e sua corja de egocêntricos, até chegarmos à famigerada guerra fria, a história retratada aqui possui uma ótica distinta, na qual o foco de reflexão aponta para os arquitetos dos grandes conflitos e os motivos que desencadearam os confrontos por eles arquitetados; quase todos forjados por ideias soberbas, conceitos banais e decisões irrisórias...

Os autores procuraram fugir dos conceitos tacanhos que geralmente permeiam os livros de história, quase sempre escritos para exaltar os “heróis” vencedores dos conflitos ou simplesmente para denotar que houve em determinado tempo uma guerra entre fulano contra ciclano. Sendo assim, Ed Strosser e Michael Prince, montaram um guia que reconstrói a história das guerras, golpes e revoluções, a partir de uma visão imparcial. E o resultado não poderia ser mais óbvio: praticamente todos os conflitos mundanos não passam de deliberações idiotas que só resultaram em perdas humanas.

Estes minuciosos autores, além de relatar os grandes centros do mundo, também não se esqueceram deste cantinho latino do planeta. A obra se envereda pela América do Sul, onde descobriremos o que parece ser o lado mais esdrúxulo dos conflitos armados. E é nesta canja de imbecilidade coletiva, que finalmente encontramos o nosso querido Brasil, que também teve sua dose de estupidez, ao participar, entre outros conflitos não citados, da Guerra da Tríplice Coroa.

Um aspecto que me incomodou um pouco durante a leitura, foi o leve teor cômico que os autores optaram em usar na condução textual da obra. Achei que a tentativa de fazer com que as situações narradas se tornassem hilárias não deu muito certo. No entanto, este resultado falho pode ter sido oriundo de uma tradução pouco eficiente. Mas mesmo este pequeno problema não chega a incomodar muito.

O livro possui um eficiente grau de detalhes históricos, aprofunda onde pouco se falou em outros livros, e é assertivo quanto a ideia de retratar o lado mais imbecil dos homens: fazer guerras para solucionar questões que poderiam facilmente ser resolvidas de maneira menos dolorosa. Afinal, se guerras fossem a resposta para o bem comum da humanidade, certamente nós já teríamos erradicado a dor e o sofrimento deste mundo conflituoso.

É leitura indispensável, pois talvez se aprendermos a nos tornar conhecedores de nossa ignorância, poderemos ser menos estúpidos ao tomarmos decisões.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

CRÔNICA: INEVITÁVEL EVOLUÇÃO

Em meio a uma desordenada multidão de corpos andantes, eu tentava encontrar o portão de embarque do meu voo, quando de repente, sou abordado por uma voz metálica, cujas doses de estáticas se assemelhavam aos brinquedos eletrônicos que me faziam delirar na infância. Bem no meio do salão principal do Aeroporto Santos Dumont, assustei-me perante inusitada recepção, feita por uma máquina ambulante de mais ou menos um metro e vinte de altura. Era sorridente e, para meu completo desespero, totalmente solícita.

Inteiramente intimidado por aquela coisa – que imaginei se tratar de um totem de atendimento que conseguiu escapar da tomada e saiu perambulando pelo salão do aeroporto, como se entidades sobrenaturais o tivessem possuído – cambaleei tentando desviar de seu caminho. E num gesto tipicamente humano, minha covarde massa corpórea fugiu de sua investida, afinal, modernidades tecnológicas frequentemente me assustam..., e sem cessar os passos, virei-me, dando receosa olhadela no objeto inusitado que, embora não viera em meu encalço, continuava a me saudar com aquele sorriso largo em cores, provindo de uma tela onde se lia: “Posso Ajudar?”.

Se no lugar daquela máquina houvesse um ser humano desempenhando sua tarefa de abordagem, amparado por uma carteira de trabalho e benefícios previdenciários, certamente ele já teria ido se queixar junto ao departamento de RH à cerca da forte rejeição que aquele trabalho proporciona. Talvez até fosse submetido a intensas sessões de terapia, no intuito de se livrar dos constantes traumas sofridos na ingrata profissão.

Mas não era uma pessoa... Era um robô! E alguns minutos depois, já sob a improvável segurança dos bancos de espera, no meu portão de embarque, pude conferir com mais atenção qual era a função daquele frigobar sorridente.

Era um simpático robozinho a passear de um lado para o outro, abordando as pessoas e oferecendo sua tela em forma de rosto, onde uma discreta interface exibia uma série de auxílios e, dessa forma, aliviar dos ombros humanos o tedioso fardo de correr pelas necessidades alheias dos muitos passageiros que por ali transitavam.

Cheguei a pensar que não teria sido ruim se ele se encarregasse de levar minhas malas, mas logo suspeitei de que as tarefas que o intrépido androide oferecia eram escassas demais para dar conta da bagagem dos preguiçosos. Limitava-se a consultas em sua alegre tela dos horários dos próximos voos, um mapa instrutivo para localização dos serviços no interior do recinto, informações sobre transportes coletivos, previsão do tempo e esclarecimentos sobre o funcionamento do aeroporto.

No entanto, mesmo carente de sofisticados recursos, aquele fliperama com rodas, passeando no meio do salão, fez com que eu me sentisse inserido numa realidade insólita de ficção científica, bem ao estilo Isaac Asimov.

Se um singelo robozinho com uma tela limitada de expressão, abordando pessoas sem a necessidade da supervisão humana, já me causou estupefação, o que dizer então do fabuloso Eugene? A primeira máquina na história da inteligência artificial a passar no teste de Turing...

O computador batizado de Eugene foi criado pelos programadores Vladimir Veselov, Eugene Demchenko e Sergey Ulasen. O teste de Turing é constituído por um júri preparado para verificar as habilidades da inteligência artificial. Eugene deveria imitar um adolescente com tal perfeição que os juízes não pudessem perceber que estavam falando com uma máquina. E o próspero Eugene conseguiu convencer nada menos que 33% dos jurados, um feito inédito.

O teste de Turing visa estabelecer um critério que determine o que ou quem pode ser considerado um ser pensante. Basicamente este teste considera que a característica distintiva dos seres humanos é a linguagem, e por isso, o teste sempre se baseou em critérios linguísticos.

Eugene foi capaz de enganar um terço dos jurados de Turing. E embora este seja um número considerado insuficiente por alguns pesquisadores, ele nos prova que estamos no inevitável caminho de uma realidade não muito distante. Um futuro no qual algumas vezes o cinema nos fez ter algum vislumbre com lágrimas nos olhos. E embora meu inusitado encontro com aquela geladeira sorridente tivesse sido menos emocionante do que os personagens criados na telona, eu pude ter uma noção da inevitável evolução... Falo de um futuro não muito distante, que foi belamente retratado num filme de 2013, o qual eu assisti recentemente, intitulado “Ela” (Her – de Spike Jonze).

A trama desta fabulosa comédia dramática gira em torno de Theodore, que inusitadamente se apaixona por seu novo sistema operacional de alta tecnologia – talvez uma espécie de versão definitiva de Eugene – um sistema capaz de compreender o universo à sua volta e se comunicar com seu dono, usando todo um arsenal de anseios, desejos, cacoetes e até mesmo a fragilidade sentimental de um verdadeiro humano.

Confesso que conforme o filme avançava, eu também me via igualmente apaixonado pela doce voz que rouba o coração do personagem vivido pelo ator Joaquin Phoenix. Um trabalho que traz à tona, mesmo que de maneira um pouco contraditória, a complexidade na relação entre homem e inteligência artificial.

Certamente as mentes por trás da indústria desenvolvedora de tecnologia inteligente já notaram o quanto irão encher ainda mais os seus cofres, caso coloquem as mãos em tamanho avanço tecnocientífico, como mostrado neste no citado filme. Porém, tal futuro, temivelmente não muito distante, talvez precise ser analisado com um pouco mais de cautela.

Se as consequências dessa realidade vindoura já podem ser sentidas nos dias atuais, o que diremos em algumas décadas, quando de fato tivermos as nossas malas gentilmente carregadas por um simpático androide, que nos recepcionará com um cumprimento metálico e cordialidade fluente?

Se os nossos atuais celulares e smartphones já são sedutores o suficiente para fazer com que os andantes das grandes cidades percam total atenção à urbanização existente ao redor; aparelhinhos que fazem com que nos comportemos feito altistas tecnológicos, que caminham com suas cabeças baixas, fixadas numa tela que cabe na palma da mão, o que dizer do tempo em que poderemos ter diálogos complexos e profundos, com objetos artificiais que imitam o real no seu comportamento, capazes de nos aproximar do tato com um humanismo jamais alcançado em anos de entrosamento com outros seres humanos... Exatamente como nos provoca o filme citado.

O pobre Theodore teve sua carência e solidão amainada por uma placa de circuitos. E além de não o condenar, reitero que também poderia me ver vitimado pelo mesmo mal, frente a tamanha sedução de uma voz que, mesmo oriunda de um sistema operacional, causa encanto que nos leva à cegueira da sanidade... Ou será que o filme nos faz o retrato de um futuro improvável?

A meu ver, tem sido cada vez mais difícil duvidar da evolução tecnológica.

Imaginem os consultórios terapêuticos do futuro, lotados de gente em busca de ajuda para superar aquele relacionamento terminado de forma trágica com um sistema operacional. “Leve-o na loja de informática do Zé, e mande trocar a placa mãe por outra que seja mais próxima do seu temperamento apegado”, dirá o terapeuta que, aliás, será um circunspecto robô, de feições imparciais e usando jaleco branco.

Tomemos outro exemplo cinematográfico que gosto muito de trazer à tona para pensarmos sobre o que estamos fazendo de nós mesmo, ou melhor, o que a tecnologia está fazendo conosco: o filme de 2008 Wall-e (Wall-e – de Andrew Stanton) nos mostra uma sociedade que passou a viver em colônias espaciais por conta da elevada destruição da Terra. Mas o ponto que quero atentar é quanto ao padrão desta sociedade; pessoas obesas que se locomovem por meio de cadeiras flutuantes, onde uma grande tela fixada bem próxima à face humana atrai 100% da atenção do cadeirante. Neste mundo imaginário da ficção – ou seria visionário? – O ser humano se tornou definitivamente um escravo tecnológico, incapaz de se relacionar com coisas triviais, como vislumbrar os detalhes do lugar em que vive (isso nos é mostrado numa rápida cena em que um humano cai de sua cadeira voadora e, pela primeira vez, se vê encantado com a grandeza ao redor, a qual ele jamais havia reparado).

Notou certa familiaridade com nosso mundo atual, caro leitor? Se sua resposta for não, basta olhar com mais atenção para os ambientes sociais: transporte coletivo, bares noturnos, escolas, e certamente você irá se deparar com uma sociedade literalmente adormecida por uma telinha que cabe na palma da mão. No entanto, se você é incapaz de perceber mesmo isso, talvez seja tarde e você já esteja devidamente inserido nesta sociedade adoecida, que bestialmente fora dominada pela tecnologia.

Outro dia, perguntei a uma moça que subia as escadas do prédio onde trabalho, como ela conseguia subir degraus e digitar no celular ao mesmo tempo. Por breves dois segundos ela desviou a atenção da tela para me dizer que já estava acostumada.

Pois é... Estamos nos acostumando à domesticação tecnológica; a vivermos feito escravos pós-modernos. E o que é pior: a obviedade deste nosso umbroso presente parece ter desabado sobre nossas cabeças.

Talvez o grande problema não seja a chegada dessa tecnologia assustadoramente sedutora, mas sim, a nossa própria alienação. Porque não sei ao certo se sou antiquado demais para este mundo moderno, ou se tem sido cada vez mais comum me deparar com mesas de bares lotadas de pessoas interagindo umas com as outras pelo celular; seres reais que estão perdendo o interesse no mundo físico que lhes rodeiam, para continuar vivendo dentro de uma rede social editável, onde podemos nos vestir de deuses majestosos, felizes e belos, camuflando assim a nossa realidade ordinária e menos atraente.

Estamos enfim, diante de uma assustadora evolução? Pode ser que sim, mas talvez, ela não seja tão desastrosa como nos mostra o imaginário cinematográfico. Contudo, o grande aprendizado que infelizmente ainda nos escapa, é a eficiência de dominarmos as nossas admiráveis máquinas, antes que sejamos dominados por elas..., mas será que ainda há tempo?

Parece que nosso atual encantamento diante dos recursos tecnológicos tem deixado bem claro que já é tarde demais para a humanidade, emburrecida por sua própria criação..., mas agora chega dessa conversa de evolução tecnológica, porque já passou da hora de eu dar uma checada em meus estimulantes e irresistíveis perfis online.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

CONTO: DESPREZÍVEIS MIGALHAS


Eu compreendo todo o meu medo de seguir em frente, porque sei que acabará chegando um momento em que não poderei mais parar. Também temo pela ideia de parar, justamente porque seguir em frente é o que me livra da aflição.

Conceitos contraditórios...

Sempre achei bacana a ideia de poder voltar. O regresso pressupõe humildade e não é sempre que dispendemos desse atributo. Mas talvez por pura covardia de meu ser, eu nunca consegui voltar... No entanto, eu acho que nunca voltei nessa vida, porque de fato, eu nunca fui.

Os arrependimentos estão sempre ao meu lado. Sentam-se comigo no banco da praça e esperam, pacientemente, por alguma solução, respostas... Muitas vezes esta dor toma emprestado um avatar, então ela adquire forma e sua aparência se torna ainda mais angustiante. Nesta tarde cinzenta e onerosa, a dor está vestida de menino. Têm seis anos de idade, a pele branca como a areia que cerca o nosso banco, os cabelos lisos cortados bem curtos, bochechas avermelhadas de ternura, os olhos amendoados que ele coça constantemente, talvez por conta da poeira sem gravidade a respingar em nossa face. Ou pode ser apenas um tique nervoso que antecipa os acontecimentos que estão por vir.

O menino não da muita importância para a minha presença ao seu lado. Prefere observar os pombos, que perambulam sob nossos pés. Um deles estaciona bem em nossa frente. Seu pescoço hiperativo pende de um lado para o outro, questionando-nos à cerca de onde estão as migalhas.

Eu as jogo para ele, que degusta avidamente, usando a ponta do bico para destilar seus modos formais de ave submissa. Passado alguns minutos, eu me dou conta de que não posso estar jogando migalhas, simplesmente porque eu não tenho nenhuma em que esteja pronta a me desfazer... O pobre pombo também não demora a compreender que seu bico só encontra aquilo que eu não joguei.

A realidade é uma brincadeira sarcástica e cruel.

Sei que sou um ser constituído de sobras e farrapos, mas não tenho nem mesmo isso a oferecer. Ou talvez minhas migalhas sejam tão desprezíveis que não sirvam nem mesmo para saciar a fome de um pequeno pombo.

O garotinho se cansa da ave faminta e finalmente olha para mim. Talvez me reprovando por eu não ter feito nada pela fome do pobre animal alado. Condena-me por deixar que a pomba vá à procura de outros bancos onde outros seres talvez tenham migalhas degustáveis.

As minhas são amargas demais para servir de alimento.

– Vamos pra casa agora? – o menino quer saber.

Eu balanço a cabeça negando. Evito o brilho de expectativa em seus olhos.

Desvio o olhar rápido para não ver a dor. Eu sei o que o termo “casa” quer dizer para aquela pequena vida; sei o significado de sua pergunta aflitiva; sei também que a mochila pendurada em suas costas pode responder melhor do que eu àquela pergunta.

Mas inevitavelmente sou traída pelo meu silêncio. Ele é a transparência que eu tento evitar...
Um homem idoso se aproxima de nós. Ele arrasta com certa dificuldade um carrinho pela alça, mas acho que de certa maneira, é o carrinho que o puxa pelas mãos.

– Você quer um picolé? – Pergunto ao menino, quando o velho claudicante para em nossa frente e sugere que a tarde é quente e propícia a uma iguaria gelada.

Dessa vez é o garoto quem balança a cabeça negando. Outra vez eu não me atrevo a olhá-lo por completo. Mas meio de canto, eu vejo que ele está emburrado.

Quer voltar pra casa, eu entendo. Mas como posso levá-lo para um lugar que eu não sei onde fica? Pelo menos nunca encontrei no mundo um lugar onde me sentisse abrigada; um lugar em que eu pudesse chamar de lar.

O velho também se afasta carrancudo. Para ele deve ser inaceitável o fato de que um moleque de seis anos acabara de recusar um de seus deliciosos picolés... No fim das contas, parece que todos nós queremos alguma coisa.

A pomba quer migalhas;
O garotinho quer ir pra casa;
O velho quer que as pessoas consumam;
E eu quero que tudo termine logo...

Foi aqui, neste mesmo banco de praça, de assento desconfortável, áspero e rachado pelo tempo, que fui confrontada por uma das questões mais difíceis que alguém já me fez na vida:

– Por que você sempre se senta neste banco? – Perguntou Lucinda, uma amiga dos tempos de escola. Naquele dia, ela parecia distraída, como se não direcionasse sua questão a mim.

– O que? – eu tentei ganhar tempo. Dizem que responder com outra pergunta denota que não temos resposta e, por isso, tentamos delongar. E eu costumo fazer isso quando sou questionada à cerca de algo sobre mim que nunca parei para refletir – Como assim?

– Ué, sempre que vem nesta praça, você se senta aqui.

– Isso não é verdade – Respondi categórica. O que Lucinda queria dizer com aquilo? Que eu era previsível? Neurótica? Que eu era incapaz de sair da minha regrada rotina?

– Bom, eu sempre vejo você sentada aqui – reforçou ela, convicta.

– É porque eu gosto de me sentar neste banco. Mas se ele não estiver disponível, eu me sento noutro, sem nenhum problema.

Ela não quis combater o meu argumento, mas acho que era porque sabia que eu não conseguiria lhe convencer de nada. Permaneceu sentada ao meu lado, observando uma formiga passear pelo seu braço. Perseguia o inseto que dava voltas em seu cotovelo, como se aquilo fosse ato mais coerente do que minha defesa.

– Era aqui que você se sentava pra dar uns pegas no Edgar; e quando ele te deu um pé na bunda, você veio pra cá e ficou chorando... Sempre que saímos da escola a gente se senta aqui.

– Achei que era você quem escolhia este lugar – Tive que mentir, porque aquelas constatações estavam me deixando nervosa. Era claro que eu já havia me sentado noutros bancos!

– Eu apenas te seguia – completou Lucinda, com ar de indiferença – Mas depois de um tempo, passei a fazer isso no automático, porque entendi que você só fica relaxada quando está neste banco...

Fiquei em silêncio, tentando pensar numa única vez em que eu pudesse ter me sentado em outro lugar... Só consegui me Recordar de uma manhã chuvosa na qual eu insisti em me sentar no mesmo local pelo qual sou acusada de fidelidade, mesmo estando ele molhado e escorregadio. Nas raras vezes em que encontrava alguém aqui, eu me sentia desconfortável, ficava rodando pela praça, feito uma tonta, e acabava indo embora. Acho que até as pessoas que ocasionalmente frequentavam a praça já haviam aprendido que este banco me pertencia. Porque tem sido cada vez mais raro encontrar alguém sentado nele.

A maioria das pessoas evita automaticamente aquilo que foi proclamado por alguém...

E a incapacidade de encontrar justificativa para tamanha obviedade me consumiu por toda a vida.
A complexidade em responder certas questões pressupõe a fragilidade da existência. Talvez este banco velho seja, de fato, o único lugar do mundo onde eu consegui me sentir aconchegada, protegida...

Minha armadura particular.

Mas aquela questão me fez pensar, e do alto de meu amedrontamento, eu procurei justificação. E a cada novo pretexto formulado, uma nova rachadura se fazia em meu concreto quebradiço e frágil. Eu era o meu próprio banco de pedra, o qual eu recusava a aceitar sua majestade ordinária e explícita. Inquietantes e suspeitas eram as minhas conclusões, o que dizer então de meus atos medíocres? De como eu me arrumava toda, sob a alegação de que iria sair para curtir a noite. E no lugar de fazer isso, eu vinha pra cá, me sentar no banco; dos instantes de descontrole porque alguém havia derramado alguma coisa gosmenta no assento e eu tive que ir embora, pensando em voltar com água para lavar o meu minguado pedaço de mundo; dos dias em que eu esperava de longe e em pé, até que os intrusos levantassem e fossem embora, para eu finalmente poder me sentar.

Era estranho pensar no quanto aquele pedaço velho de concreto era presente em minha existência. No quanto eu me encontrava obcecada por isso, e o pior, o quanto as pessoas já haviam notado; comentavam pelas minhas costas...

Eu era a maluca do banco da praça. E talvez temendo que eu os enxotasse ninguém se sentava mais aqui.

Lucinda foi a única que tentou me avisar sobre minha paranoia. Devia ser mesmo uma grande amiga, pois mesmo diante da imensa dificuldade em relatar algo constrangedor, ela foi corajosa e tentou fazê-lo. Focou sua atenção numa formiguinha para fazer parecer que aquela abordagem não era nada demais; que era só uma pergunta sem importância.

Mas o banco da praça era a minha teimosia; o meu hábito pecaminoso...

E outra vez eu estou sentada nele, pois somente aqui sou capaz de resolver questões cruciais de minha desprezível existência. Ou pelo menos, porque eu preciso pensar em como dar algum significado à vida de alguém. E já que eu não sei voltar de nenhum lugar por jamais ter ido, acho que tal ideia acabou se tornando um acalento, porque sou alguém que desconhece o caminho do regresso, e isso me impede de dar espaço ao arrependimento.

O casal que eu aguardo surge ao longe. Adentram timidamente na praça e não precisam procurar por mim, pois sabem em qual banco eu estou sentada.

Os passos dos dois se tornam imprecisos conforme se aproximam. A mulher caminha grudada ao homem; está usando saia longa e blusa de manga curta. Apoia-se com as duas mãos no braço do marido, num gesto que denota toda a sua apreensão. Ele está usando calça social e camisa de manga longa; trajes formais demais para um passeio na praça.

– Estamos no horário – disse o homem, mas eu não soube interpretar se aquilo foi uma pergunta ou se ele está só exaltando sua pontualidade. Sorriu para o garotinho ao meu lado e o cumprimentou, fazendo uma tosca vozinha de criança.

– Nós trouxemos o seu dinheiro – disse a mulher, sem fazer cerimônias. Parece cada vez mais desconfortável. Cada segundo ali, perto de mim, faz aumentar a angústia em seu olhar. Ela teme que eu possa desistir.

– Não, eu não quero mais o dinheiro de vocês.

– Como assim você não quer? – indagou o homem – Nós já havíamos combinado tudo... Quer que aumentemos a oferta?

– Esse dinheiro é sujo. Não é certo receber por uma vida...
– Você vai desistir, não vai? – perguntou a mulher, melindrada. As mãos a apertar cada vez mais o braço do marido.
– Não. Eu não vou voltar atrás... Não sei como fazer isso.

Os olhos dela são duas bolas redondas e brilhantes. Parecem bestificados por testemunhar minhas constatações, ao mesmo tempo em que se sentem aliviados por eu ser louca. Um segundo de lucidez e eu estragaria todos os sonhos de maternidade daquela pobre mulher... Sonhos que foram depositados numa realidade que teme a manifestação da salubridade.

Eu devia mesmo me parecer com uma louca desvairada. Mas contraditoriamente, minha loucura se fez necessária para a felicidade daquele casal.

– Se você quiser podemos fazer um depósito – insistiu o homem, certamente convicto de que importâncias monetárias lhe serviriam como uma espécie de garantia; um seguro contra possíveis arrependimentos – Talvez você não esteja à vontade em pegar o dinheiro assim, dessa maneira.

Assim, dessa maneira... Que maneira ele se referia? Escrota? Vulgar? Canalha?

– Se você me oferecer isso mais uma vez, eu pego o garoto e sumo daqui para sempre!

– Desculpa – ele resolve assumir uma postura submissa, chegou até a baixar a cabeça... Mas eu sei que toda essa encenação é só pra me humilhar; pra fazer transparecer o lixo de ser humano que eu sou; que ele jamais seria alguém capaz de fazer o que eu estou fazendo; seu gesto é pra mostrar o quanto ele se considera melhor do que eu – Por favor, me desculpa. Eu só achei que você estivesse desconfort...

– Já terminamos o que viemos fazer aqui! – ignoro seu apelo e ergo a voz, talvez sejam resquícios do orgulho que ainda me resta. Concentro meu foco nos olhos daquela vindoura mãe, para que ela entenda o que está acontecendo.

Corajosamente, ela permanece firme, encarando-me. Parece conseguir ler tudo o que meu silêncio quer lhe dizer. E seus olhos me retornam respostas que me ajudam a concluir com o ato final:

“Sei que o que está fazendo não é culpa sua... Pelo menos, não é somente culpa sua. Sei que mulher é sinônimo de dor. Sei que o fardo sempre fica por nossa conta... Deixe-me te ajudar a carregar este fardo. Prometo que darei a ele tudo o que você tentou e não conseguiu, mas sempre o lembrarei de sua enorme coragem”.

O casal foi embora, levando aquela pequena vida no colo. O pai lhe retirou a mochila para aliviar o peso de suas costas, enquanto a mãe o envolvia em seus braços com terna firmeza... Ninguém olhou para trás e isso é um bom final.

Ao meu entendimento, significa que agora eles são uma família que seguirá sempre em frente. Mesmo quando o adiante não lhes parecer tão nítido.

Por que eu sempre me sento aqui neste banco?

Dizem que cada um tem da vida aquilo que merece. Talvez eu não mereça mais do que um banquinho trincado e velho, cuja estrutura desgastada assemelha-se ao meu coração...

Um lugar cimentado, feio e endurecido.

sábado, 16 de janeiro de 2016

RESENHA DE LIVRO: O ANDAR DO BÊBADO


Durante os dias em que eu estava afundado na leitura deste fabuloso livro, um colega de trabalho, ao vê-lo sobre minha mesa, olhou-me com certo sarcasmo e garantiu, com base no título metafórico da obra, que eu estava a ler o livro certo pra mim.

De fato, meu estimado colega tinha razão. Mas não pela intenção de seu maldoso comentário, pressupondo que eu precisava ler livros relacionados aos desequilíbrios etílicos. Ele acertou, porque eu aprecio ler trabalhos que trazem à tona, a ideia de que não existe no mundo fórmula generalizada de se obter sucesso. No caso deste livro, o autor vai esmiuçar à cerca do quanto a aleatoriedade é ampla e inevitável na vida daqueles que conseguiram chegar ao auge do sucesso, assim como é crucial na triste realidade dos que sempre estiveram afundados na lama pegajosa do fracasso.

Portanto, O Andar do Bêbado, nada mais é do que uma alegoria que descreve o movimento aleatório; uma expressão popular que serve para nos ajudar a compreender os acontecimentos da vida diária.

O combustível que impulsiona o autor, Leonard Mlodinow, é justamente ir à busca dos princípios que governam o acaso, do desenvolvimento dessas ideias e da maneira pela qual elas atuam em nossa existência. Mlodinow também busca compreender porque o modo como tomamos algumas decisões, podem nos levar a julgamentos equivocados e resultados ruins frente ao determinismo da aleatoriedade.

Com competência elevada diante de um assunto que facilmente nos escapa, o autor consegue nos mostrar o papel do acaso no mundo em que vivemos e nos revela de que modo podemos reconhecer tal atuação nas questões de nosso dia-dia. Nesta obra, poderemos transitar através da crítica em relação à doutrina do determinismo, que pressupõe que nossas qualidades pessoais e propriedades de situações, levam direta e inequivocamente a consequências precisas. Passamos também pelo fenômeno conhecido como Efeito Borboleta, baseado na ordinária ideia de que o bater de asas de uma borboleta, poderia ter grandes efeitos nos subsequentes padrões atmosféricos.

Atenta-nos para os perigos de se crer que os erros do passado devem ser consequências da ignorância ou da incompetência. Acreditamos, irracionalmente, que pessoas ricas e de sucesso são heróis, enquanto pobres e fracassados não passam de bodes expiatórios. Temos o pragmático conceito de que o brilhantismo de algumas pessoas é proporcional a seus ganhos substanciais. Deixamos que nosso minguado discernimento não enxergue o potencial individual, somente o resultado final em si.

E fechando o enriquecido conteúdo da obra, temos o último capítulo, cujo título é o mesmo do livro e que para mim foi a melhor e mais motivadora parte da leitura. Aconselha-nos a nunca desistir de algum projeto, baseado no julgamento dos outros, que o melhor a se fazer é acreditar em nós mesmos. O autor recomenda que sigamos em frente, pois a grande sacada é que, como o acaso efetivamente participa do cotidiano, um dos mais importantes fatores que determinam o sucesso está sob o nosso controle: “o número de vezes que nos arriscamos, ou seja, o número de oportunidades que aproveitamos”.

Reconhecer que eventos aleatórios são contributivos ao nosso destino é, além de uma realidade efetivamente motivadora, também nos ajuda a perceber o quanto estamos em iguais condições com aqueles que já estão alguns degraus em nossa frente.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CONTO: O NOME DELA


Deitada em meu peito, eu notava seu rosto subir e descer levemente ritmado por minha respiração lenta. Ela olhava atentamente para a foto que eu havia lhe mostrado; um garotinho assustado, as canelas à mostra parecendo dois palitos, em cima de uma bicicleta.

– Você era feio – comentou ela, entre o que imaginei ser uma mistura de sorriso e comedimento.

O quarto era um templo silencioso e isso fazia com que a voz dela enchesse o ambiente. Paredes brancas, manchadas pelo tempo, eram espectadoras de frases curtas e desenvoltas. Às vezes, as cortinas balançavam anunciando a entrada de uma brisa leve que gostava de passear pelo recinto, para surrupiar aquelas palavras soltas no ar e as levar para longe de mim, deixando restar apenas a incômoda quietude.

– Me fala o seu nome – pedi, enquanto acariciava a maciez dos seus cabelos.

Ela não respondeu nada. Apenas ficava olhando para a foto de minha infância, como se sua mente estivesse emersa, tentando desvendar aquele instante congelado que lhe era desconhecido.

De repente, ela sorriu para a foto de um jeito meio diferente de poucos instantes atrás. Quase deu para ter um vislumbre do filme que se passava em sua cabeça. Agora eu era agraciado pela imagem de seus dentes surgindo por detrás dos lábios esticados, abertos até quase os molares. Seu dedo indicador tocou levemente no papel fosco, fazendo uma leve carícia na bicicleta do garoto.

Naquele momento, eu senti inveja de mim mesmo. Queria voltar no tempo e ser de novo aquele moleque feio e magricela. Porque embora toda fragilidade estivesse exposta, a singeleza daquele menino era completamente capaz de raptar para si toda a atenção daquela dama. Conseguira fazer com que ela sorrisse de um jeito que eu jamais conseguirei.

– Nunca soube andar de bicicleta – confessou ela, o olhar desmanchado em anseios.

– Ainda há tempo... Eu posso te ensinar se quiser.

– Não quero mais – ela ergueu o tronco e sentou na beirada. Deu uma última olhada para o passado irrecuperável em sua mão, depois para os arranhões em meu peito, apertando os lábios – Tenho vergonha.

Tive vontade de insistir e dizer que era possível recuperar coisas que se perderam, mas havia algo que eu julgava mais precioso. Aulas de bicicletas serviriam apenas como uma boa razão para nos reencontrarmos. No entanto, eu ainda precisava arrancar o essencial dela. E não sabia direito como fazer...

– Posso ficar com essa foto pra mim? – ela ergueu o olhar até encontrar o meu. Eram olhos redondos e grandes. Um castanho tão profundo que eu pensei que fosse me perder para sempre. Minha coragem pífia fixada em suas esferas brilhantes até eu ser engolido em questão de segundos... A alma, antes equilibrada e soberba, havia sido totalmente subjugada dentro de seu precipício de ternura.

Uma vez eu li num livro velho que uma alma nunca se perde, ela sabe parar na hora certa, na beira do abismo, e deixar apenas que o corpo caia sozinho, para que um dia ele retorne mais forte e impávido. Como uma fênix que nasce das próprias cinzas... E embora livros velhos sustentem a premissa de parecerem detentores de incontestável sabedoria, acho que o abismo tem esse nome porque ele nos engole em definitivo;

Abismo é sinônimo de queda infindável;

Parado na beira do despenhadeiro, eu desafiei os olhos castanhos com toda a minha desprezível audácia:

– Eu troco a foto pelo seu nome – propus um acordo que considerei razoável. Pelo menos, foi o que tentei transparecer. Porque dentro de mim, eu sabia que aquele nome me era precioso e valeria muito mais do que um retrato de minha infância banal.

No entanto, minha dama se levantou e andou em direção ao banheiro. Sua silhueta nua era fabulosa; seu andar ereto e gracioso... Um corpo que se deixava ser violado para só então violar. Eu me perguntava quanto outros homens haviam sucumbido aos encantos daquele inebriante pecado. Quantos como eu, quiseram arrancar coisas dela, como algozes gananciosos, porém, reconhecidamente fracos e incapazes frente à tentação de sua carne curva e envolvente. Eu não havia sido o primeiro e certamente não era o único, mas queria ser o último a explorar sua sublime caverna; queria tê-la só para mim, sem nenhum pudor, deixando-me perecer às mais impensadas loucuras.

A verdadeira insanidade é reconhecer o veneno e, mesmo assim, desejá-lo em toda sua sedução.

Mas para me perder definitivamente eu precisava da chave do castelo... Eu necessitava de um nome. Mesmo sabendo que tê-lo seria a minha definitiva e total ruína.

Quando ela saiu do banheiro, com o corpo escondido numa toalha, notei que seus ombros à mostra ainda estavam molhados. Ela andou pelo quarto, verificou alguma coisa no telefone, abriu o frigobar... Ouço o estalo da lata de cerveja sendo aberta, enquanto um medo inesperado vem até meu ouvido e sussurra palavras ardilosas.

E recostado na cabeceira da cama, eu sou intimidado pelo receio e me torno pequeno, até ser seguro pelo pescoço e ter o ar escasseado. Eu sabia que tinha hoje e somente hoje para arrancar o nome dela. Precisava daquilo porque isso daria aos nossos encontros um significado, uma existência. Seria como lhe tornar parte de minha realidade; deixaríamos de ser subjetivos para mergulharmos na objetividade segura e acalentadora.

Sem o seu nome eu não poderia contar o que sinto; não poderia falar dela para os amigos no bar; não poderia relatar para ela como foi o meu dia após voltar do trabalho; não massagearia seus delicados dedos com minhas mãos grossas, enquanto me deixava cair novamente no precipício castanho... A falta daquele nome a isentava de uma identidade e eu não gostava da ideia de amar um fantasma.

– Tem um cara tocando violão perto da piscina – disse ela, entre um gole da cerveja, enquanto admirava o mundo lá fora, recostada na janela.

Levante-se e vá até lá, seu covarde!

Mas não adiantava exigir à minha frágil existência que fizesse algo. Eu estava sendo enforcado literalmente pelo medo e falar já não era mais uma opção. Toquei em meu pescoço, num ato desesperado de encontrar as garras maléficas do pânico a me estrangular. Com extrema dificuldade consegui me livrar do aperto que certamente me levaria à desfalecer. O ar voltou a invadir o meu peito, eu transpirava bicas, o coração acelerado bombeando angústia através da corrente.

Ela continuava a olhar pra fora e não notou a minha intensa luta em cima da cama.

Tomado por uma coragem inusitada, talvez oriunda de minha recente bravura em superar o que me parecia invencível, eu me levantei e fui até o encontro dela. Abracei-a por trás e apertei sua cintura contra o meu corpo.

Lambi seus ombros molhados e subi com a boca até o pescoço e o beijei avidamente. Senti seus pelos eriçarem. Como ela não me dava nenhuma resposta, eu a segurei forte pelo braço e a virei, até ficar de frente para mim.

– Você sabe que eu não posso – concluiu ela, antecipando minha insistência.

– Eu só quero saber o seu nome... Isso não é um pedido de casamento.

– Por que temos que fazer deste, um encontro igual a todos os outros? – seus lábios a poucos centímetros do meu – Sem nossos nomes podemos ser quem nós quisermos.

– Eu não quero ser um a cada dia; não quero ser nenhum dos outros... Quero ser eu! Exclusivamente para você. E quero que você seja minha.

– E quem disse que você é o seu nome? Isso é apenas uma definição que te deram; uma marca social para que suas transgressões pudessem ser identificadas com mais facilidade – Ela me beijou levemente. Seus lábios humedeceram saliva e cevada em minha boca – Tudo o que fazemos em nossas vidas é encher os nossos nomes com a podridão que acumulamos ao longo dela – Ela falava com sua boca dentro da minha.

Então, lábios foram separados;

Meus olhos procuraram o teto;

Os dela procuravam encontrar minha aprovação em algum canto do quarto.

Sempre que um argumento vem em forma de justificativa, há por trás dele uma ruptura; uma divisão que nos deixa mais distantes daquilo que seria a obtenção do objeto desejado. Por três dias daquele inesquecível carnaval havíamos compartilhado praticamente tudo; nossa solidão, os abraços, os beijos, os lençóis do hotel, os cigarros, a mesa do café, os delirantes orgasmos... E de repente, ela não parecia mais disposta a repartir nem mesmo a lata de cerveja que estava bebendo. O que dizer então de dividir seu nome comigo?

Sim, eu havia passado aqueles três dias implorando por ele.

As pessoas olhavam para nós e viam um casal de namorados vivendo o apogeu da paixão. Sempre de mãos dadas, beijos ardentes e demorados, risos soltos e fáceis, proximidade quase ininterrupta...

E ao fim do terceiro dia, a recusa definitiva da identidade sob a bandeira do ineditismo que parecia lhe excitar, enquanto minava as minhas esperanças.

– Sabe o que acontece? – ela já estava enfiada em seu vestido de estampas leve de carnaval. Calçou as sandálias e chacoalhou os cabelos molhados com as mãos, num gesto que anunciava que ela iria escapar urgentemente, sem nem escová-los – Eu sei que você é como todos os outros; não quer uma namorada... Homens não gostam de carteira assinada.

Sua beleza era magnífica pela simplicidade.

Ela veio até mim e beijou meus lábios cerrados.

– O que você quer é que este feriado dure para sempre... Mas isso eu não posso lhe dar.

As palavras ficaram soltas novamente no ar, mas desta vez, não havia nenhuma brisa para apará-las. Ou talvez o vento entendesse que era a minha vez de fazer isso.

Minha dama sem nome escorregou pelos meus dedos e saiu pela porta.

Sobre a cama restara um garotinho derramado e perdido. Sendo observado por outro garotinho, que sentado em sua bicicleta, contemplava a maravilha do milagre de um passado transformado de volta em presente... Uma timidez muda e isolada, que teve a doce ilusão de que seria digna de obter um nome para si.