sábado, 24 de setembro de 2016

RESENHA DE LIVRO: TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO


Este foi o último livro que acrescentei a uma compra que fiz ano passado, após já ter escolhidos aqueles que, de fato, eu queria levar. Sabe quando nos deparamos com uma capa simpática, de título sugestivamente cômico e, ao lermos a sinopse pensamos estar diante de um livro despretensioso, daqueles que servem puramente como entretenimento de diversão? E finalmente, já a caminho do caixa, eu o adicionei aos demais por conta do preço acessível. “Se não for bom, pelo menos não custou muito caro”, foi a justificativa que pesou a favor da compra desta obra incógnita... Escolhas desse tipo, na maioria das vezes, acabam dando certo e levo pra casa um bom volume, de desconhecidos e talentosos autores.

Infelizmente não foi bem o caso deste TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO, de um escritor com ar aparentemente buliçoso, chamado Simon Rich; jovem escritor, produtor e roteirista americano, detentor de um invejável e precoce currículo de carreira.

Mas também não chegou a ser necessariamente uma escolha infeliz, afinal, este livro passa longe de ser desprezível. A trama foi altamente desenvolvida para ser lida como comédia besteirol, e caso você seja um religioso bitolado, meu conselho é passar longe da obra. Aqui Deus é um ser entediado, inconsequente, cheio de vaidade, presidente e fundador da CÉU LTDA. Sim, o paraíso é uma empresa, pessimamente administrada pelo altíssimo, onde seus funcionários são anjos que atuam de forma tão ou mais irresponsável que o patrão. E neste ínterim, surge o intento do divino de destruir a Terra, ideia que ele adia por conta de uma aposta que faz com dois de seus anjos, protagonistas principais, de simplesmente unirem um casal improvável de humanos.

Bom, como comédia o livro é morno quase que o tempo inteiro (ou talvez seja eu que ao longo dos anos esteja me tornando um leitor ranzinza e sem paciência para piadas fáceis e sem originalidade). Achei que a química da trama com as situações não propiciaram muitos momentos hilários. Talvez o enredo funcionasse melhor com situações diferentes das que foram escritas, mas é apenas minha opinião.

Deus, apesar de não ser um personagem muito original, deveria ter sido mais aproveitado pelo autor, pois é nos raros instantes em que ele aparece que a comédia da obra parece dar um gás.

Obviamente a trama só funciona se você a ler de maneira imparcial e sem nenhum conceito sobre nada. Porque se levado à luz de qualquer ponto de vista teológico, mitológico ou filosófico, fará com que o leitor encontre e se incomode com as inevitáveis contradições e mancadas na estrutura do universo criado por Simon Rich. TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO é, antes de qualquer outra coisa, um entretenimento singelo, meio besteirol, o qual em nada agradará se o seu olhar for muito crítico.

Poderia então dizer que este tenha sido o meu caso?

Não exatamente, pois quando me propus a ler o livro, eu encontrei, de certa maneira, aquilo que buscava. Mas o que ocorreu ao longo da leitura, foi que eu não curti muito a trama como um todo; só que um todo por mim encarado sempre como comédia mesmo.
O livro às vezes tem um ar mais adolescente, noutros momentos, parece ser uma comédia adulta que logo destilará situações embaraçosas ou humor escrachado. Mas o enredo não aquece e segue seu meio termo por toda leitura.

E por falar em leitura, esta flui fácil, mesmo não sendo muito engraçada. A trama, que em alguns poucos instantes até chega a divertir, parece ser algo do tipo comédias de sessão da tarde, ou um episódio do Chaves no qual assistimos até o fim, mesmo sabendo que este se repete pela enésima vez.

Por fim, não sinto que desperdicei dinheiro adquirindo a este TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO, mas o considero um livro esquecível, cuja ideia poderia ter sido melhor aproveitada.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

RESENHA DE LIVRO – RAZÃO E SENSIBILIDADE


Antes mesmo de iniciar minha leitura de mais este clássico da literatura, constatei que alguns comentários pela internet alertavam a nós, leitores iniciantes em Jane Austen, de que esta não é a sua melhor obra. E mesmo deixando de lado a opinião da maioria dos internautas, devo dizer que eu esperava mais deste RAZÃO E SENSIBILIDADE. Afinal, é possível encontrar até críticos literários comparando as obras da moça com as de Shakespeare. Contudo, se ORGULHO E PRECONCEITO (livro mais famoso da autora) for, de fato, a obra perfeita de Austen, creio que estou no caminho certo, pois penso que todo autor deve ser lido do pior livro para o melhor. Porque começar a ler um autor por seu melhor trabalho pode ofuscar os demais.

A trama de RAZÃO E SENSIBILIDADE conta a história de duas irmãs que representam a dicotomia sugerida pelo título. Temos então duas protagonistas movidas pela intensidade de seus distintos afetos; a mais velha, Elinor, é amplamente sensata e comedida, enquanto Marianne se mostra excessivamente impetuosa e romântica. Jane Austen nos oferece um excelente panorama do mundo regrado das mulheres que viveram em sua época, nos mostra por meio da vivência de suas personagens, uma sociedade completamente submetida a conceitos rígidos no qual as mulheres são tratadas como se fossem mercadorias; meros objetos vazios de conteúdo e importância social, que precisam moldar sua realidade diminuta e desnecessária às imposições patriarcais da época.

Obrigadas a viver dentro de um mundo regido pelo dinheiro, posição social e interesses, as irmãs sofrem por conta de não possuírem fortuna e conexões com a alta burguesia, deixando-as à mercê da sorte, ou puramente fadadas ao incerto destino, que quase nada lhes reserva.

Os pontos altos da obra ficam por conta da bem elaborada personificação da razão em uma das personagens, e da sensibilidade na outra, características que foram muito bem construídas pela autora. Vez ou outra, podemos até cogitar certa inversão sentimental em ambas, mas conforme avançamos na leitura fica claro quem são e quais os sentimentos primordiais em Elinor e Marianne.

Outro ponto que agrada muito é a ambientação georgiana do texto, onde nos deparamos com detalhes enriquecidos daquela regrada época, que vão desde a inserção de ambientes sofisticados, os costumes e trajes formais, e até a linguagem exageradamente cerimoniosa, algo que deixa os textos desse período com um charme agradável.

Mas achei que Jane Austen peca em alguns aspectos. O primeiro deles é a constância. O livro demora muito sem que nada de relevante aconteça, deixando-nos receosos quanto a suas mais de quatrocentos e cinquenta páginas. A trama começa morna e não se eleva em momento algum. Nem mesmo em sua reta final, quando revelações e reviravoltas surgem, não há nada que nos faça delirar. O segmento do livro não chega a decepcionar, mas mantém sempre uma perigosa linha tênue entre o enfado e a mesmice.

Também fiquei um pouco incomodado com a considerável quantidade de coadjuvantes que a autora lança no texto sem esperar o leitor digerir com calma. Muita gente inserida em pouco tempo de leitura, nos deixando com certa dificuldade em nos familiarizar com personagens e suas linhas de importância no enredo. Alguns deles nos são apresentados logo no início, então ficamos com a sensação de que serão peças fundamentais da trama, mas só voltamos a vê-los ocasionalmente, quando já nem nos lembrávamos de seus nomes.

De qualquer forma, estamos falando de uma grande autora, cuja notoriedade não surgiu por acaso. Jane Austen sabe descrever cenários detalhados, é extremamente habilidosa em criar personalidade em seus personagens e consegue nos atrair para perto deles, condição que nos faz amar ou detestar suas particularidades. E embora os leitores online sugiram que comecemos a ler Austen por ORGULHO E PRECONCEITO, penso que vale muito à pena conferir esta obra, dotada de charme peculiar dos tempos georgianos, e de muita riqueza características da complexidade humana.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

CRÔNICA - A SUJEIRA DEFINIDORA

Hoje deu vontade de comer macarrão. Veio bem temperado com alho e, apesar de considerar um pouco frio, o sabor estava muito bom. Ao meu redor o cenário era a praça de alimentação do Shopping Vitória, o tipo de lugar em que é inevitável nos depararmos com o contraste social. E não me refiro especificamente ao contraste gustativo, onde a culinária mineira mistura-se ao cheiro dos customizados hambúrgueres americanos e o colorido alegre dos sushis enfeitando as louças.

Não. Aqui neste lugar a mistura cultural tem uma aparência simuladamente benigna, mas que na realidade esconde seu caráter separatista dogmático, que distribui indivíduos pelo capital aquisitivo.

Mas isso não me faz interromper a mastigação. Posso seguir com as garfadas no macarrão delicioso e frio, enquanto contemplo a discrepância social.

Por todos os lados, pessoas se empanturrando de alimentos preparados com dissimulada sofisticação que justifique seu astronômico preço; a juventude detentora de uma costumeira vontade de ser descolada; executivos encoleirados em seus aparelhos eletrônicos de última geração; vendedores internos em horários de almoço; famílias que saíram de suas casas para encontrar algo que já se perdera há décadas: o sentido de se estar juntos... Todos dividem o improvável espaço com os funcionários encarregados da limpeza do shopping; reles fantasmas que caminham no meio da gente, sem serem notados, doutrinados a exercer função que é desprezada pelo consumidor contemporâneo: higienizar o ambiente. Tratam-se de seres adestrados à submissão, cuja incumbência essencial não é a manutenção do recinto, propriamente, mas amaciar o ego dos preguiçosos clientes que infestam nossos parques de diversões modernos.

Afinal, o primoroso sistema capitalista, como se fosse uma madrasta zelosa, nunca se esquece de acolher a cada um de seus filhos, colocando-os em seus devidos lugares... E desta ordem criteriosa nasceram os miseráveis.

Sim, sou integrante deste sistema moedor de carne humana, e o macarrão também fazia parte da sofisticação alimentar que, mesmo proporcionando considerável prazer, era incapaz de justificar o seu preço abusivo. Estou inserido no grupo dos que se acham pertencentes a uma classe social superior, simplesmente por me encontrar sentado na praça de alimentação, comendo numa bandeja, como fazem detentos de uma penitenciária, em vez de estar em pé, usando vestes excêntricas, circulando por todos os lados portando esfregão e vassoura.

Tal constatação fez com que eu sentisse um pouco de vergonha por representar a classe sedentária que é incapaz de cuidar da própria sujeira. Ou pior: achando que cuidar de uma bandeja vazia e suja é coisa pra gente subalterna fazer.

Enquanto refletia sobre tal discrepância, uma moça rudemente uniformizada surgiu em minha frente. Claro, afinal de contas, o uniforme deve sempre ser identificador do tipo de gente com que estamos lidando. E o brim grosso, cinzento e inconveniente, estava em plena conformidade para que, tanto clientes quanto os próprios funcionários soubessem que aquele é apenas um prestador de serviços ignóbil e substituível..., genuína nulidade, transparente. Então diante de mim pairava este ser ordinário, prontamente treinado para cuidar da bandeja vazia que eu havia deixado de lado para poder rascunhar este texto.

Um pouco desconfortável por constatar que faço mesmo parte do grupo dos imbecis, tentei amenizar a situação agradecendo pela gentileza que a mim fora prestada. Mas a mulher praticamente não notou e, conformada com sua condição de mal necessário, ela se foi, certamente convicta de que um obrigado era mais do que merecia.

Ao meu lado, um grupo de estudantes, terminando de lanchar e olhando ao redor como se o mundo fosse um interminável tédio. Um deles usava na cabeça uma coroa de papelão, que ganhou de brinde numa lanchonete de nome ostensivo, justamente por ter escolhido o lanche “mais feliz”. Após algum tempo, vossa majestade foi embora, satisfeita, seguido por seus súditos burgueses, sem darem importância ao que será feito dos intermináveis restos espalhados na mesa onde se encontravam.

Enquanto isso, os fantasmas seguiam recolhendo bandejas, limpando mesas, devolvendo a decência ao ambiente para que ele continuasse sendo desfrutado pela classe superior. E apesar da pele escura que os distinguiam da clientela, eles não eram notados e talvez assim devesse proceder tal existência, porque a cegueira faz bem e ajuda a não pensarmos em diferenças sociais; serve para manter a ordem vigente, porque a desordem incomoda até mesmo aos que careceriam de serem vistos. Sim, pois quando um dos funcionários reparou o meu exagerado interesse em seus recônditos afazeres, logo tratou de assumir uma postura ainda mais servil, talvez até suplicante..., afinal, imaginavam que eu pudesse ser alguém da administração do shopping, a lhes fiscalizar enquanto trabalhavam.

Dois ou três se uniram, cochicharam entre si, certamente solidarizados à cerca da suposta ameaça que eu agora representava. Então passaram a limpar mesas com maior zelo, sorrindo para os arrogantes clientes, e mantendo cautela com o suspeito rapaz que inadequadamente os observava e fazia anotações contundentes numa folha de papel.

Sim, os fantasmas temiam perder o emprego mais insubsistente da sociedade. Sabiam que não lhes restava mais o que fazer no meio de uma comunidade casta e elitista, que paga de bom grado alguma esmola que leva o nome de salário, a troco de alguém que lhes limpe o próprio rabo. Porque vivemos numa sociedade em que, olha só: a nossa sujeira e preguiça gera empregos.

Mas os fantasmas da praça de alimentação não são idiotas. Eles aquiescem frente ao menor risco de que mudanças administrativas precisem ser tomadas. Receiam que a logística do shopping perceba o quanto alguns consumidores, os raros mais atentos, sintam-se desconfortáveis ao ter que conviver em meio a gente que cuida da sujeira por eles deixada; o lado social mimado, que precisa de alguém que dê um jeito na imundice, mas que não se sente à vontade vendo quem são essas pessoas. E como um bando de Pilatos pós-modernos, lavam as mãos e sugerem furtivamente que os fantasmas sejam sumariamente substituídos por máquinas inexpressivas, que sejam capazes de lidar com a limpeza do consumismo, sem que sua presença metálica cause algum tipo de culpa... Esta é a lógica do medo no olhar dos fantasmas.

Pois qualquer mudança radical e moderna poderá lhes custar o emprego;

Meu grito interno de revolta ao me deparar com o contraste social poderá desencadear em protestos que lhes custará o emprego;

Pensar neles como trabalhadores coitadinhos é uma ideia perigosa, que se levada ao pé da letra, resultará em demissões. Porque o desenvolvimento científico moderno está aí, espreitando para entrar no cenário e mudar isso tudo. Colocar aqueles que não são capacitados, os que não tiveram as mesmas chances, os miseráveis, exatamente no seu devido lugar: bem longe do consumidor que sabe que seus cartões de crédito ditam o jogo, e ao menor sinal de culpa solicitarão que alguém tome uma providência.

Esse deve ser o pesadelo dos fantasmas: máquinas entrando em cena para lhes surrupiar o emprego. Ou mais distante do provável, nossa educação e zelo se fazer presente em sociedade, então não precisaremos mais que retirem nossa sujeira da mesa, pois nós mesmos o faremos...

E no lugar de receber contracheques irrisórios, os fantasmas passearão de um lado para o outro, com a palma de suas mãos viradas para o céu, implorando por alguns trocados. Mas isso eles terão que fazer bem longe da praça de alimentação. Porque ali estes seres indignos não podem entrar.

Melhor deixar esse assunto de lado; melhor me esquecer de toda essa besteira e não mais apontar com meu dedo sujo com molho de macarronada as lacunas sociais; melhor manter distância dos meios urbanos, porque olhar muito de perto para eles faz com que eu sinta o cheiro da podridão...

E viva a sujeira empregatícia deixada pela burguesia gorda e preguiçosa!

sábado, 23 de julho de 2016

RESENHA DE LIVRO: EU ROBÔ


Dando sequencia a maratona de clássicos que venho me propondo a ler, resenho aqui outra bela obra. Eu, Robô é um brilhante trabalho que serviu de inspiração para muitos autores que produzem ficção nos dias atuais. Isaac Asimov é um dos pioneiros em discorrer sobre a inteligência artificial com sua introdução sobre as leis da robótica.

Para quem ainda não conhece as três leis fundamentais da robótica são:

1º - Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja ferido;
2º - Um robô deve sempre obedecer as ordens dadas por um ser humano, a menos que tal ordem entre em conflito com a primeira lei;
3º - Um robô deve zelar por sua existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira ou a segunda lei.

O objetivo destas aparentemente impolutas leis era, segundo o próprio autor, uma maneira de tornar possível a coexistência entre robôs inteligentes e seres humanos, impedindo assim, a possibilidade de um robô se rebelar contra os homens.

E de posse destas leis, Isaac Asimov constrói enredos que contam toda a evolução, interpretação e possíveis problemáticas dos fundamentos da robótica. Através de seus textos, que julgo um tanto modernos para sua época, o autor narra situações em que a inteligência artificial inserida em diversos ramos da sociedade, se mostra característica que está longe de ser irreprovável. Acompanhamos a evolução de diferentes períodos em que maquinas traziam problemas e conflitos inesperados, permeados sempre sobre a luz das três leis.

Susan Calvin é a personagem principal do livro, e é ela quem faz as introduções de todos os contos, interligando-os como se fossem capítulos, mas que podem ser lidos tranquilamente de forma isolada. A moça é especialista em psicologia robótica (seria este o presságio de uma futura profissão?), e constantemente solicitada, precisa compreender a dinâmica das máquinas e sua relação com as famigeradas leis. Susan às vezes se encontra em situações complexas, as quais máquinas dotadas de cérebros positrônicos, estão causando conflitos existenciais e contraditórios de funcionamento, levando assim, à queda de desempenho de função como máquina, ou mesmo colocando em perigo vidas humanas.

Asimov se mostra perspicaz em narrar situações onde a tão ambicionada evolução da robótica se mostra falha e detentora de ineditismo contraditório, que somente por meio da experiência prática é que pôde ser identificada. E neste mundo futurista e complexo, em que máquinas interagem em diversos campos sociais com os seres humanos, ninguém se mostra mais qualificado do que Susan Calvin para esmiuçar e solucionar as limitações de robôs programados para seguirem religiosamente as três leis.

Este volume reúne nove contos que foram publicados nas décadas de 1940 e 1950. Todos são cronológicos para que o leitor possa acompanhar a forma genial em que o autor relatou a evolução das máquinas e suas leis. Asimov nos faz refletir sobre os perigos de se pensar na construção da inteligência artificial regida pela mente humana incapaz de antecipar sua problemática. Relata o quanto pode ser perigoso limitar a segurança da vida, apenas inserindo leis supostamente incontestáveis no processador de máquinas pensantes.

E talvez a grande dificuldade de se resenhar clássicos da literatura, como é o caso deste brilhante Eu, Robô, seja justamente a ausência de palavras que possa justificar o quanto este volume vale à pena ser lido. Mesmo para leitores que como eu, não curtem muito contos de ficção. Isaac Asimov não é um gênio por acaso. E este livro, de fácil linguagem e elevada erudição, atiça o leitor a perseguir mais sobre o tema... Porque somente mentes engenhosas, como a de Asimov, são capazes de nos provar que não existe tema ruim na literatura. O que de fato existe é autores que sabem entreter e outros que não sabem.

terça-feira, 12 de julho de 2016

CRÔNICA: FELIZ DIA MUNDIAL DO ROC... “DA LIBERDADE”!

Certa feita, eu entrei numa dessas lojas que vendem roupas de grifes. Sabe aqueles estabelecimentos que oferecem aquilo que de melhor existe no mercado do vestuário; as indumentárias que te fazem ficar inteiramente em concordância com o sistema relacional vigente nas grandes metrópoles, onde o capital simbólico é reflexo daquilo que você veste.

Raramente me dou ao trabalho de ir além da porta desse tipo de estabelecimento, porque sustento desconfiança de que quase tudo o que encontrarei, custará valor substancial que vai muito além do meu senso de realidade financeira. Em outras palavras, considero praticamente tudo o que se vende numa loja de grife irracionalmente caro demais e sem nenhum fundamento que justifique aquele valor.

Infelizmente quase sempre tenho razão.

Mas naquela manhã, eu havia visto uma camisa aparentemente legal na vitrine. E como sou detentor de certa peculiaridade tosca e restrita, que esporadicamente faz com que me sinta atraído por uma peça de roupa, adentrei para olhar de perto aquela singularidade em malha. Os dedos cruzados para que ela não custasse o valor equivalente a uma Smart TV de tela plana.

Pois eis que fui prontamente atendido por uma vendedora sorridente, simpática e muito solícita. Afinal, cortesia é o mínimo que ela pode despender, porque se depender somente dos valores impressos nas etiquetas, será pouco provável que ela consiga bater sua meta mensal. De praxe, devolvi-lhe a amabilidade e, sorrindo discretamente, pedi para dar uma olhadinha na referida camisa.

– Não gostou dela? – perguntou a vendedora, ao ver a careta que eu havia feito quando analisei o produto mais de perto.

– Ela é bonita, sabe..., mas tem uma marca enorme bem aqui – apontei a região onde havia letras robustas e em alto-relevo, explicitando enormemente o nome da grife, na parte detrás da peça.

– Eu tenho esse outro modelo – disse a moça, pensando se tratar de uma questão geográfica. Ela ergueu diante de mim outra camisa, cuja estampa da marca agora estava na lateral do tecido, contrário da que eu havia olhado, de estampagem na vertical.

─ Não gostei também... O problema é que eu não gosto de uma marca infestando toda a dimensão da peça de roupa. Sinto-me como se estivesse usando um macacão da Formula 1.

– Ah, sim... Nós temos outras marcas, vem cá que eu te mostro.

Deduzi que ela não havia compreendido a piada.

– Desculpe, mas você não entendeu. Eu não disse que não gosto dessa marca. Quis dizer que não gosto de marcas encobrindo todo o tecido de minhas camisas.

– Mas acontece que se você quiser comprar roupas de boa qualidade, só encontrará nas grandes marcas do mercado – ela tentava a todo custo defender o patrimônio em que trabalhava.

– Eu concordo plenamente com você – disse em tom de encerramento, enquanto devolvia gentilmente a camisa ao cabide – Aliás, o tecido dessa camisa aqui tem uma textura maravilhosa.

– Então vamos levar, ora...

– O que me incomoda é o porquê dessa obsessão de uma grife em fazer questão de expor seu nome largamente nas roupas, como se fossem outdoors.

– Ah, mas você deve saber muito bem que uma camisa com essa marca lhe proporcionará muita presença em qualquer lugar que esteja.

Ela se referia ao status. Ao estatuto emblemático que eventualmente eu iria adquirir caso me tornasse usuário da grife vendida em sua loja. E a inflexível vendedora tinha razão. Porque ela não estava tentando me vender apenas uma camisa. Na verdade, ela me oferecia a oportunidade de obter reconhecimento social, coisa que só é possível quando nos rendemos aos símbolos consagrados pela sociedade contemporânea.

– Não, obrigado..., mas acho que vou ficar com o caminho mais difícil: vou tentar ser reconhecido por meus méritos e não por minhas escolhas.

– E o que você acha que é isso que está tatuado em seu braço? – Ainda dentro da loja fui surpreendido por uma questão incomum. A vendedora não havia se dado por vencida.

Olhei para minha tatuagem do Metallica, como se estivesse a vendo pela primeira vez. A manga do meu uniforme estava dobrada, permitindo que partes da tattoo ficassem expostas.

– Ué, isso é uma tatuagem... – tive que dar uma resposta imbecilizada, porque ainda não sabia o que dizer diante da inesperada afronta.

– Isso é um símbolo! – eu havia tido o azar de ser atendido pela vendedora mais obstinada da cidade – Você carrega no braço o símbolo de uma marca, que de certa maneira, possui o mesmo efeito que as roupas desta loja.

– Espere um pouco aí... É claro que uma banda de rock é diferente.

– Diferente como?

É difícil responder quando se está com os dentes soltos na boca, após lancinante bofetada.

Então eu saí da loja de mãos vazias e sem nenhum argumento para combater o ataque da vendedora contra o meu idealismo fajuto. No entanto, aquela conversa me fez pensar sobre o assunto... Costumo ser assim: às vezes preciso de algum tempo para discernir sobre o que as pessoas me dizem. E esse tempo pode levar até anos.

No caso deste episódio, levou apenas alguns dias. Mas quando finalmente encontrei razões que pudessem convencer a mim e aquela vendedora insistente de que eu tenho razão, juro que fiquei com vontade de voltar em sua loja, só para dar continuidade ao nosso embate sobre marcas.

Mas se há uma coisa benéfica no avanço do tempo, é que abandonar o orgulho faz com que deixemos disputas conceituais de lado. Além do mais, a vendedora também poderia ter feito a lição de casa dela, e talvez eu voltasse a sair de sua loja derrotado.

O fato é que aquela mulher vendia produtos que (mesmo que isso pareça uma ideia meio irracional) ajudava as pessoas a se sentirem melhores; mais aceitas. E quando optei por fazer uma tatuagem que exibisse o nome de uma de minhas bandas favoritas, talvez não fosse mesmo uma forma de homenagear, como sempre tentei me convencer.

O que queria era exibir minha preferência; mostrar ao mundo minhas aptidões musicais. E quando uma pessoa se identifica comigo ao reparar o que há estampado em meu braço, inevitavelmente me sinto bem, como se aquilo fosse a constatação do sucesso de minha intenção vaidosa.

Sim, o Metallica é uma banda que admiro e curto desde os tempos de minha adolescência. No entanto, nunca tatuei no braço o nome do meu livro favorito, a receita do meu prato predileto ou o nome de minha querida mãe. E isso talvez signifique que tatuar uma banda no corpo, mesmo que me doa tal averiguação, é sim, fazer propaganda gratuita usando a própria pele para isso.

Não me arrependo de ter feito a tattoo do Metallica ou qualquer outra, de jeito nenhum. Eu o faria de novo se pudesse voltar no tempo. O que gostaria com esta reflexão é rever a atitude de meu julgamento preconceituoso, que acusa de idiota alguém que curte sair por aí exibindo roupas de marca... Creio que seja esse tipo de conceito fundamentalista um dos grandes males de nossa sociedade; não conseguimos largar de uma vez por todas, a mania de metermos os nossos narizes na vida alheia. Achamos que somos referência, a medida do que é certo ou errado.

Não, meus amigos... Somos todos iguais, cuidamos somente de nossa própria vida e precisamos dar parecer apenas a nós sobre ela. Eu notei meu disparate quando comecei a construir essa crônica, que inicialmente possuía o viés de ser uma argumentação em defesa de meus ideais em detrimento das decisões dos outros.

Ainda bem que deu tempo de mudar de rumo e deixar uma mensagem menos destrutiva para este Dia Mundial do Rock... Que ele seja festejado sob a bandeira da harmonia, sem que haja comparações ou distinções ideológicas. Que cada um faça de sua vida o que desejar desde que seja respeitada a vida do próximo...

Eu vou curtir esse dia tomando minha cerveja gelada, ao som de “And Justice for All”, porque se em meu braço assim está escrito, acho que não fará mal nenhum tentar ser um pouco menos intolerante; porque talvez “justiça para todos” seja exatamente a possibilidade de se viver num lugar onde liberdade é algo tão óbvio quanto comprar uma camisa ou fazer aquela tatuagem favorita... E feliz Dia Mundial do Rock, cheio de esperança de um mundo menos determinista!

quinta-feira, 30 de junho de 2016

RESENHA DE LIVRO – QUASE MEMÓRIA


Tudo começa quando o autor, Carlos Heitor Cony, ilustre membro da academia brasileira de letras, repentinamente recebe um envelope que estava na recepção de um hotel. À respeito do pequeno embrulho há diversos indícios de que ele fora enviado por seu pai. O grande problema é que o pai do autor já falecera há dez anos. Começa aí um livro de memórias, ou como diz o título: de quase memórias, onde Carlos Heitor Cony narra as aventuras de seu velho genitor, sob o olhar de admiração e respeito, oriundos dele mesmo, o filho.

A sacada é bem legal, justamente porque ao longo da leitura, o leitor entende porque de se tratar de um “quase” e não de memórias categóricas. É que as lembranças do autor misturam-se à mente inventiva do pai, tornando difícil para ele mesmo, testemunha dos feitos de seu genitor, distinguir o que era fato da mera ampliação dos ocorridos.

No entanto, não esperem encontrar um livro cheio de estórias fantásticas, onde a narrativa de um autor que amou incondicionalmente seu pai seja comprometida por um entusiasmo nostálgico. Não! Neste livro, destila-se o charme de um conto doce, que não tem a pretensão de identificar o que foi verdade ou puro esnobismo do herói homenageado.

Ernesto Cony, personagem principal e pai do autor, que foi jornalista, entre outras ocupações, tem aqui o relato divertido de sua trajetória, ora em formato romancista, e às vezes, numa pegada mais cronista.

De imediato conseguimos sentir a profundidade detalhista do filho, que tomado por uma imensa estima por seu velho, discorre sobre as façanhas do pai com tanta eloquência, que nos faz crer que cada instante na vida daquele homem simples, foi de intensidade profunda. Narrativa que é, acima de tudo, concebida pelo fruto do amor de um filho.

Carlos Heitor Cony, o filho, se mostra estupefato ao receber o envelope que teria sido deixado pelo pai. Ele vai para o escritório, se tranca em sua sala, e começam seus devaneios à cerca das aventuras de seu velho guerreiro; causos que mesclam emoções e inventividade. Algumas são comoventes, outras hilárias, mas praticamente todas acentuam o lado obsequioso do filho. Em nenhum momento conseguimos distinguir onde está a crueza ou as pinceladas imaginativas do personagem, o pai. O próprio autor explica o título:

“Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes do registro civil. Uns e outros são fictícios. Repetindo o anti-herói da história, não existem coincidências, logo, as semelhanças, por serem coincidências, também não existem”.

A condução literária e o charme do livro começam muito bem e só vão melhorando. O meio da leitura chega a dar uma leve caída em alguns capítulos menos brilhantes, mas logo o fôlego é retomado nas partes finais, terminando de maneira fabulosa (o capitulo dedicado ao roteirista Mario Flores, o qual é relatado sua dor ao ser sumariamente afastado do jornal por conta da idade, é de nos levar às lágrimas).

É quase a cereja que se degusta no final do delicioso bolo.

A cumplicidade do narrador, o amor pelo pai, os sentimentos contraditórios, as dores vividas, a imaginação e otimismo de seu velho... Todas essas peculiaridades de uma vida compartilhada entre pai e filho resultam nesta belíssima obra que, acima de tudo, é o relato de amor incondicional.

Mais do que um romance, Quase Memória é uma espécie de homenagem; uma ode irreverente das reminiscências de um filho sobre seu pai, que culminou neste belo raconto, no qual nós, os agraciados leitores, nos vemos privilegiados, por ter a chance de degustar este ilustre tesouro literário, o qual nem mesmo o homenageado, o velho Ernesto Cony, pôde contemplar.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

CONTO: A CARTA DE LÚCIFER


(O texto a seguir não tem origem conhecida, não possui autor e nada se sabe à cerca de sua veracidade).

Eu jamais entenderei algumas decisões do Criador.

Como pode ele deixar as maravilhas incomensuráveis deste mundo sob os cuidados de criatura tão repugnante, feito o Ser Humano? Uma espécie dotada de relativo discernimento, mas que deixa sua sobriedade ser ofuscada pela vaidade, condição totalitária de suas ações... O Ser Humano foi uma obra bestial. Um equívoco que o Criador jamais teve a humildade de admitir.

Há muito eu não o vejo... Distanciei-me desde quando Ele designou as tarefas do universo conforme seu próprio arbitramento. Ao homem foi dada a Terra para que ele pudesse desenvolver suas capacidades e crescer como criatura. No entanto, e antes de virar as costas, eu avisei ao Criador que isso não era prudente.

Perdi-me no tempo por eras. Vagueei absorto, através das mais distintas ambientações do cosmos. Conheci outros seres, outras raças dotadas de inteligência superior. Pude notar que o Criador acertara com maestria em quase todas as suas empreitadas. Ele designou responsabilidades à suas criações de forma assertiva. Tudo funcionou de maneira plena e virtuosa.

Menos o Ser Humano.

À esta espécie deveria recair toda a desgraça. O erro deve ser exterminado em sua totalidade. Não deveria ter sido dada a condição de livre escolha á um ser que é incapaz de fazer de sua própria vivenda, um lugar menos pernicioso.

Mas eu não me importo com isso...

Eu nada tenho que ver com a podridão que cai sobre eles. Mesmo assim, os homens usaram de seus frívolos engenhos para atribuir a mim todo o mal que desaba sobre suas cabeças... Inventaram-me um nome, orquestraram uma mitologia, deram-me feições tão toscas que só mesmo a minguada mente humana seria capaz de tamanha inépcia. Mesmo afundado no abismo viscoso de trevas, o homem continua arrogante e incapaz de admitir a própria ineficácia.

São tolos em achar que ambiciono algo tão irrisório quanto vossas almas. Se juntassem todas as almas que estão, mais aquelas que já estiveram na Terra, ainda assim, seria uma riqueza tão valiosa quanto uma fossa de excremento.

Os que se dizem sábios; aqueles que destilam pedantismo, falsearam minha existência de acordo com suas ambições fúteis. E a inegável demonstração da estupidez mundana, é que isso deu certo e todos acreditaram. Hoje, a humanidade trêmula caminha pela Terra, barganhando sua existência à troco de fugir daquilo que não existe.

A dimensão da realidade lhes escapa... A minha realidade lhes escapa. Não há na natureza humana perspicácia para compreender aquilo que não se presta à contemplação.

E mesmo se algum deles conseguisse, de forma muito peculiar, clamar pelo meu manifesto a uma audiência, ainda sim isto seria impossível. Mesmo que eu me visse acometido pela improvável curiosidade à cerca de raça tão medíocre, minha grandeza não poderia ser vislumbrada por olhos tão turvos. Se comparado a mim o seu mundo tem a mesma proporção de um grão de areia, o que dizeres de tua pequenez, criatura repugnante?

  À sua indecorosa existência que presto essa breve advertência.

Deleitem seus dias ao que lhes parecer auspicioso, porém, sem a interferência da vaidade. Deem algum significado à suas realidades tolas, alimentem suas construções mitológicas, mas desistam de entender aquilo que lhes escapa.

Pois eu nada quero de ti, Ó vermiforme criatura!

segunda-feira, 20 de junho de 2016

RESENHA DE LIVRO – O COLECIONADOR


Uma das melhores coisas quando falamos em livros é que se trata de uma mídia que não envelhece. A riqueza substancial proporcionada pelos livros é tão vasta que raramente encontramos uma obra que não acrescente nada ao leitor. Sabemos bem que, com a evolução tecnológica proporcionando considerável adesão ao mercado editorial, tem muita gente por aí enfiando na cabeça a ideia de que sabe escrever, como se vomitar meia dúzia de parágrafos no word fosse condição única para se tornar um Dostoievsky pós moderno.

Mas mesmo vivendo nesta atual realidade onde quantidade parece ser algo mais notório do que qualidade, sempre existe tempo de descobrir um clássico da literatura que ainda não nos era conhecido. Uma prova de que o mundo dos livros é uma dimensão que beira o infinito... Portanto, sejamos desbravadores das bibliotecas e livrarias.

O Colecionador é uma obra clássica da literatura britânica. E tê-lo encontrado por acaso numa sebo, faz-me ter a certeza de que descobrir grandes autores da literatura pode ser uma incógnita; eles podem estar a um passo de distância, como numa improvável Sebo, basta garimpar as prateleiras com um pouco mais de atenção.

O autor da obra aqui resenhada se chama John Fowless. O cara nasceu em 1926, em uma cidadezinha chamada Leigh-on-Sea, no leste da Inglaterra. Apaixonado por literatura, O Colecionador foi sua primeira publicação. O romance virou sucesso rapidamente, tornando-se assim, um best-seller em vários países do mundo.

A trama conta a história de um colecionador de borboletas, que após ganhar uma inesperada fortuna, coloca em prática sua inusitada ambição: sequestrar para si a bela Miranda; seu objeto de descontrolado amor platônico. Passamos então a acompanhar as peripécias de um sequestrador extremamente tímido e acanhado, cuja submissão quase que intrínseca lhe deixa a mercê dos encantos de sua prisioneira. De repente, ele entra em contradição consigo mesmo, e então, temos um homem cheio de conflitos psicológicos, que usa as incertezas de sua mente confusa para justificar atos cruéis.

Neste mesmo ínterim, o leitor também pondera sobre a sequestrada; uma mulher bela e consciente de sua formosura. Que usa seus modos formais para dar a si um requinte que talvez sua baixa-estima, vez ou outra, lhe tolha. Uma garota que pensa saber exatamente o que deve ser feito todo o tempo; que se recusa a acreditar que, na verdade, seja incapaz de lidar com a própria fragilidade. O ato em que a moça faz uma comparação si mesma, afirmando que ela se trata de mais uma borboleta raptada pelo sequestrador (definição do personagem que dá o título ao livro) é simplesmente magistral.

E essa é a grande genialidade por trás da obra prima: a condução textual.

John segue uma narrativa em primeira pessoa, na qual o sequestrador discorre seus sentimentos, suas emoções, seus delírios. Em seguida, mudamos de capítulo e também de narrador, então passamos a acompanhar o diário feito pela sequestrada, no qual ela conta seus medos, suas estratégias para fugir, seu ponto de vista sobre o estranho carcereiro, sua raiva e seus limites.

Foi, de fato, uma pegada inteligente, mas nada disso teria funcionado se o autor não soubesse dominar com maestria seus dois personagens. John Fowless consegue dar alma a cada um; insere-lhes personalidade de tal maneira, que acompanhamos os mesmos entrando em contradição com suas próprias fronteiras existenciais.

O Colecionador é um livro irresistivelmente bem escrito, condutor de narrativa problematizadora que coloca duas visões de mundos diferentes em confronto... Talvez seja a melhor obra que li este ano.

sábado, 11 de junho de 2016

CRÔNICA: A HORA CERTA


Já parou pra pensar que nós temos horário pra tudo? Mesmo aqueles momentos em que aparentemente podemos deliberar sobre o que fazer com o tempo; os raros instantes de ócio, mesmo esses, tem hora para acontecer. E nestas raras ocasiões em que permeamos horários totalmente dispersos de qualquer compromisso marcado, acabamos tomados por um mal cada vez mais frequente: o tédio.

Somos dependentes de compromissos com hora marcada. Sem isso, nos tornamos vitimados pelo sentimento de enfado.

Desde o nascimento somos adestrados a não sermos autônomos, mas sim, doutrinados a respeitar as horas; a hora da mamadeira, a hora dos remédios, hora de tomar banho, hora de almoçar, hora de ganhar atenção dos pais, hora de largar a chupeta, hora de o bebê ir dormir.

E assim, vamos crescendo sob a doutrina da hora certa das coisas. Desde os tempos de berço havia um tutor, mestre ou responsável, destinado à nos ensinar que existe momento certo para vivermos as experiências da vida; havia a hora ideal para desfrutar e para sofrer; aprendemos a reconhecer o momento exato de nos tornarmos escravos servis; o tempo preciso de nos ajustarmos aos ditames sociais que, ao longo da vida, se transformam em incontestáveis obviedades.

Portanto, não me venha com choradeira e nem perca seu tempo, porque a vida tem hora certa pra tudo... E não durma no ponto, nem espere sentado! Sim, pois alguém um dia nos disse que o tempo é um relógio resoluto, cuja cronologia marca a hora certa do nosso momento. É prudente que saibamos reconhecer cada traço que o ponteiro alcança. E assim vamos seguindo com nossas vidas convencionadas naquelas coisas que estão ali, bem diante de nossos olhos, mas que não podem ser desfrutadas ou vividas porque ainda não é a hora certa:

A hora certa de acordar e de dormir. E medique-se caso o sono não venha nesta elaborada hora ideal;

A hora certa de tomar o café da manhã, almoço e jantar. E caso o seu organismo clame por energias fora destes horários convencionais, trate de adestrá-lo;

A hora certa para ir ao trabalho. E não se esqueça de registrar no ponto, porque esta hora você precisa comprovar que cumpriu;

A hora certa de fazer a coisa certa. Mesmo quando isso lhe parecer relativo;

A hora certa de falar e a de fazer silêncio. Não queremos parecer inconvenientes;

A hora certa de ler o jornal. Porque não podemos perder o tempo de fazer outras coisas;

A hora certa de esperar e, se for o caso, espere o tempo que for preciso;

A hora certa de sorrir. Porque sorriso na hora errada pode insultar e denegrir;

A hora certa de abrir a janela. Porque pode ter alguém olhando do lado de fora;

A hora certa de alimentar o cachorro. Porque os animais são nossas propriedades;

A hora certa de tomar sol. Mas apenas se você vive em regiões onde o clima seja propício. Do contrário, programe outras coisas pra fazer com esse horário;

A hora certa de fazer sexo. Porque espontaneidade é coisa de gente irresponsável;

A hora certa de tomar decisões. Porque elas requerem o bom discernimento;

A hora certa de escolher a pessoa que irá viver ao nosso lado. Porque sabemos que há certas fases na vida em que não sabemos fazer escolhas;

A hora certa de mentir. Porque aprendemos que nem todo mundo está preparado para ouvir a verdade. Aliás, aprendemos também que verdade é algo relativo;

A hora certa de ignorar e ser ignorado. Porque faz parte de aprender a selecionar aqueles que farão parte de nosso ciclo social;

A hora certa de servir. Porque um dia nos foi ensinado que aqueles que servem, um dia serão servidos;

A hora certa de viajar. Porque o lazer precisa ser disciplinado, ou pareceremos desleixados e fora do controle;

A hora certa de fazer um convite. Porque convite nas horas erradas podem gerar encontros inadequados;

A hora certa de dizer que é a hora certa. Porque quando nossa idade avançar, teremos a experiência de ensinar aos mais jovens a boa disciplina da cronologia regrada;

A hora certa de demonstrar seu afeto. Não me vá parecer piegas na frente dos outros!

A hora certa de quitar as dívidas. Essas jamais poderão ser esquecidas, pois elas tornarão o tempo excedido, em chagas no seu orçamento;

A hora certa de bajular. Porque existe a hora e a pessoa certa pra isso, é claro;

A hora certa de envelhecer. E você pode até achar que engana o tempo, mas as toxinas da estética não tardarão a chegada da hora certa do apodrecimento físico;

A hora certa de ir ao cinema. Pra não ter que ficar na primeira fila, tendo que torcer o pescoço;

A hora certa de brincar. E faça isso o quanto puder na infância, porque quando for adulto irão lhe chamar de irresponsável;

A hora certa de aproveitar a vida. Á esse tempo, chamamos fins de semana;

A hora certa de ser sério. Porque há lugares em que não podemos parecer alegres;

A hora certa de orar. Porque não importa qual seja a sua doutrina, seu Deus não pode estar o tempo inteiro à sua disposição;

A hora certa de pedir. Porque pedir na hora errada pode fazer com que pensem que fracassamos na vida;

A hora certa de adoecer? Bom, essa realidade não costuma ter hora certa, mas se cuidares direitinho de si mesmo, tu serás por longo tempo um cadáver adiado;

A hora certa de morrer. E pode parecer que não, mas acredite que há a hora certa até para isso. E quando a morte finalmente chegar, todas as horas anteriores passarão diante dos seus olhos...

E os olhos... Ah, os nossos olhos!

Eles foram testemunhas das nossas horas. Acompanharam vidrados de ansiedade a nossa vida sendo posta em perspectivas, as quais alguém que nem sabemos identificar, determinou-nos a hora certa de tudo. E nossos olhos contemplaram toda a existência devidamente sendo pontuada para ter algum sentido; olhares cheios de remorso e arrependimento... Sim, pois quando chegar a hora final, eles saberão que não há mais tempo pra nada.

Se nossos olhos pudessem prever o que estaria por vir dentro dessa vida minuciosamente regrada pelos compromissos marcados, eles teriam feito a hora certa da maneira que lhes conviessem. Porque talvez, e só talvez, a hora certa de qualquer coisa, seja exatamente aquela em que cada um de nós deliberarmos.

Porque hora certa serve apenas para manter você adestrado aos interesses de alguns interessados... E quem seriam esses interessados?

Bom... Talvez ainda não seja a hora certa pra pensarmos sobre isso.
***

“O tempo é relativo e não pode ser medido do mesmo modo e por toda parte”
                                                                                                (Albert Einstein)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

RESENHA DE LIVRO – MENTES PERIGOSAS, O PSICOPATA MORA AO LADO


Em 1993, no norte da Inglaterra, dois garotos sequestraram, torturam e deixaram na linha de trem uma criança de dois anos que foi estraçalhada pela locomotiva. Após serem detidos pelas autoridades fora perguntado aos garotos o porquê de terem cometido tamanha barbárie. Em resposta, um deles disse serenamente, para o choque ainda maior da sociedade: “só queríamos ver como é o crânio de uma criança explodindo”.

O crime que deixou o mundo estarrecido retrata com distinta clareza a premissa por trás desta decente obra da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva: tentar compreender um pouco melhor como funciona a mente de um psicopata.

A notícia ruim, segundo pesquisas intensas da autora, é que isso não é tarefa muito simples. No entanto, se a identificação talvez seja complexa, a constância dos famigerados psicopatas pode ser mais corriqueira do que se imagina. Exatamente como diz o subtítulo da obra: “O psicopata mora ao lado”; ou pior: talvez ele esteja dentro da sua própria casa, sem que você mesmo note isso.

A autora procura discorrer para uma visão, digamos, menos fatalista de um psicopata, dando ao temido gênero algo mais ordinário; os psicopatas podem estar em qualquer lugar, e os crimes brutais tão definidores deste gênero – como foi o caso dos garotos ingleses – seria apenas a máxima desta maledicência, algo que nos faz pensar que matar é a inevitável máxima desse tipo de criminoso, afinal, somente quando chegam a matar é que psicopatas vão parar nas capas dos jornais de nosso dia-dia. Mentes Perigosas trás para o termo psicopata definições que, embora caracterizem aquele tipo de ser humano inteiramente capaz de causar na sociedade, níveis consideráveis de estarrecimento e trauma, ainda são bem menos atrozes do que a óbvia associação deles com assassinatos e crimes brutais: trata-se de pessoas frias, manipuladoras, ausentes de consciência. São “predadores sociais”, nas palavras de Ana Beatriz. Gente que anda por ai, normal e liberta, camuflada de falsa ética, aparentemente incógnita. São pessoas comuns, de qualquer cor ou credo, que trabalham, estudam e levam suas vidas “normalmente”.

Um aspecto que me deixou levemente incomodado foi o uso de referências dos noticiários das franquias Globo, excessivamente usados pela autora. Penso que, de uma maneira infeliz, Ana Beatriz acabou deixando suas notas de rodapé um pouco restritivas. Mesmo diante da possibilidade de vermos a bibliografia de pesquisa, feita pela autora, no final da obra, talvez ela devesse ter feito variados usos referenciais em suas notas, ou pelo menos, ter diversificado os meios midiáticos, se era esse o intento.

Veja bem: não é uma questão de colocar em dúvida a qualidade do livro nem o intelecto evidente da autora, o qual eu já pude apreciar em palestras. Muito menos pretendo discorrer sobre assunto tão complexo, o qual eu possuo a mesma profundidade de um pires. Mas minha observação aponta para certa escassez de coerência na hora de mencionar meios de aprofundamento reflexivo; repetição constante das mesmas referências pode fazer com que o livro pareça limitante, ou pior, podem dar ao leitor a sensação de que tais menções de nota sejam propositais.

Quanto ao que de melhor podemos encontrar neste livro, é a textualização direcionada ao público leigo. Ana Beatriz discorre sua reflexão de maneira informal e acessível, permitindo que nós, leitores não acadêmicos, tenhamos a oportunidade de estudar sobre assunto tão intrincado.

Mentes Perigosas é um livro que interessa a todos nós, porque o tema é socialmente amplo, delicado e importante. De leitura simples e objetiva, nos deixa um pouco mais próximos da mais temível das atrocidades humanas; aquela que ainda temos pouca ou nenhuma compreensão: a psicopatia.