Este é um espaço de reflexão e opinião de um improvável leitor... Ordinário em sua existência, às vezes transgressor em sua análise. Mas como eu disse, é apenas um espaço. E como tal, precisa ser eternamente preenchido...
sábado, 22 de outubro de 2016
RESENHA DE LIVRO: DEZ CONVERSAS
sábado, 24 de setembro de 2016
RESENHA DE LIVRO: TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
RESENHA DE LIVRO – RAZÃO E SENSIBILIDADE
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
CRÔNICA - A SUJEIRA DEFINIDORA
Hoje deu vontade de comer
macarrão. Veio bem temperado com alho e, apesar de considerar um pouco frio, o
sabor estava muito bom. Ao meu redor o cenário era a praça de alimentação do
Shopping Vitória, o tipo de lugar em que é inevitável nos depararmos com o
contraste social. E não me refiro especificamente ao contraste gustativo, onde
a culinária mineira mistura-se ao cheiro dos customizados hambúrgueres
americanos e o colorido alegre dos sushis enfeitando as louças.
Não. Aqui neste lugar a
mistura cultural tem uma aparência simuladamente benigna, mas que na realidade
esconde seu caráter separatista dogmático, que distribui indivíduos pelo
capital aquisitivo.
Mas isso não me faz
interromper a mastigação. Posso seguir com as garfadas no macarrão delicioso e
frio, enquanto contemplo a discrepância social.
Por todos os lados, pessoas se
empanturrando de alimentos preparados com dissimulada sofisticação que
justifique seu astronômico preço; a juventude detentora de uma costumeira
vontade de ser descolada; executivos encoleirados em seus aparelhos eletrônicos
de última geração; vendedores internos em horários de almoço; famílias que
saíram de suas casas para encontrar algo que já se perdera há décadas: o
sentido de se estar juntos... Todos dividem o improvável espaço com os
funcionários encarregados da limpeza do shopping; reles fantasmas que caminham
no meio da gente, sem serem notados, doutrinados a exercer função que é
desprezada pelo consumidor contemporâneo: higienizar o ambiente. Tratam-se de
seres adestrados à submissão, cuja incumbência essencial não é a manutenção do
recinto, propriamente, mas amaciar o ego dos preguiçosos clientes que infestam
nossos parques de diversões modernos.
Afinal, o primoroso sistema
capitalista, como se fosse uma madrasta zelosa, nunca se esquece de acolher a
cada um de seus filhos, colocando-os em seus devidos lugares... E desta ordem
criteriosa nasceram os miseráveis.
Sim, sou integrante deste
sistema moedor de carne humana, e o macarrão também fazia parte da sofisticação
alimentar que, mesmo proporcionando considerável prazer, era incapaz de
justificar o seu preço abusivo. Estou inserido no grupo dos que se acham
pertencentes a uma classe social superior, simplesmente por me encontrar
sentado na praça de alimentação, comendo numa bandeja, como fazem detentos de
uma penitenciária, em vez de estar em pé, usando vestes excêntricas, circulando
por todos os lados portando esfregão e vassoura.
Tal constatação fez com que eu
sentisse um pouco de vergonha por representar a classe sedentária que é incapaz
de cuidar da própria sujeira. Ou pior: achando que cuidar de uma bandeja vazia
e suja é coisa pra gente subalterna fazer.
Enquanto refletia sobre tal
discrepância, uma moça rudemente uniformizada surgiu em minha frente. Claro,
afinal de contas, o uniforme deve sempre ser identificador do tipo de gente com
que estamos lidando. E o brim grosso, cinzento e inconveniente, estava em plena
conformidade para que, tanto clientes quanto os próprios funcionários soubessem
que aquele é apenas um prestador de serviços ignóbil e substituível..., genuína
nulidade, transparente. Então diante de mim pairava este ser ordinário,
prontamente treinado para cuidar da bandeja vazia que eu havia deixado de lado
para poder rascunhar este texto.
Um pouco desconfortável por
constatar que faço mesmo parte do grupo dos imbecis, tentei amenizar a situação
agradecendo pela gentileza que a mim fora prestada. Mas a mulher praticamente
não notou e, conformada com sua condição de mal necessário, ela se foi,
certamente convicta de que um obrigado era mais do que merecia.
Ao meu lado, um grupo de
estudantes, terminando de lanchar e olhando ao redor como se o mundo fosse um
interminável tédio. Um deles usava na cabeça uma coroa de papelão, que ganhou
de brinde numa lanchonete de nome ostensivo, justamente por ter escolhido o
lanche “mais feliz”. Após algum tempo, vossa majestade foi embora, satisfeita, seguido
por seus súditos burgueses, sem darem importância ao que será feito dos
intermináveis restos espalhados na mesa onde se encontravam.
Enquanto isso, os fantasmas
seguiam recolhendo bandejas, limpando mesas, devolvendo a decência ao ambiente
para que ele continuasse sendo desfrutado pela classe superior. E apesar da
pele escura que os distinguiam da clientela, eles não eram notados e talvez
assim devesse proceder tal existência, porque a cegueira faz bem e ajuda a não
pensarmos em diferenças sociais; serve para manter a ordem vigente, porque a
desordem incomoda até mesmo aos que careceriam de serem vistos. Sim, pois
quando um dos funcionários reparou o meu exagerado interesse em seus recônditos
afazeres, logo tratou de assumir uma postura ainda mais servil, talvez até
suplicante..., afinal, imaginavam que eu pudesse ser alguém da administração do
shopping, a lhes fiscalizar enquanto trabalhavam.
Dois ou três se uniram,
cochicharam entre si, certamente solidarizados à cerca da suposta ameaça que eu
agora representava. Então passaram a limpar mesas com maior zelo, sorrindo para
os arrogantes clientes, e mantendo cautela com o suspeito rapaz que inadequadamente
os observava e fazia anotações contundentes numa folha de papel.
Sim, os fantasmas temiam
perder o emprego mais insubsistente da sociedade. Sabiam que não lhes restava
mais o que fazer no meio de uma comunidade casta e elitista, que paga de bom
grado alguma esmola que leva o nome de salário, a troco de alguém que lhes
limpe o próprio rabo. Porque vivemos numa sociedade em que, olha só: a nossa
sujeira e preguiça gera empregos.
Mas os fantasmas da praça de
alimentação não são idiotas. Eles aquiescem frente ao menor risco de que
mudanças administrativas precisem ser tomadas. Receiam que a logística do
shopping perceba o quanto alguns consumidores, os raros mais atentos, sintam-se
desconfortáveis ao ter que conviver em meio a gente que cuida da sujeira por
eles deixada; o lado social mimado, que precisa de alguém que dê um jeito na
imundice, mas que não se sente à vontade vendo quem são essas pessoas. E como
um bando de Pilatos pós-modernos, lavam as mãos e sugerem furtivamente que os
fantasmas sejam sumariamente substituídos por máquinas inexpressivas, que sejam
capazes de lidar com a limpeza do consumismo, sem que sua presença metálica cause
algum tipo de culpa... Esta é a lógica do medo no olhar dos fantasmas.
Pois qualquer mudança radical
e moderna poderá lhes custar o emprego;
Meu grito interno de revolta
ao me deparar com o contraste social poderá desencadear em protestos que lhes
custará o emprego;
Pensar neles como
trabalhadores coitadinhos é uma ideia perigosa, que se levada ao pé da letra, resultará
em demissões. Porque o desenvolvimento científico moderno está aí, espreitando
para entrar no cenário e mudar isso tudo. Colocar aqueles que não são
capacitados, os que não tiveram as mesmas chances, os miseráveis, exatamente no
seu devido lugar: bem longe do consumidor que sabe que seus cartões de crédito
ditam o jogo, e ao menor sinal de culpa solicitarão que alguém tome uma
providência.
Esse deve ser o pesadelo dos
fantasmas: máquinas entrando em cena para lhes surrupiar o emprego. Ou mais
distante do provável, nossa educação e zelo se fazer presente em sociedade,
então não precisaremos mais que retirem nossa sujeira da mesa, pois nós mesmos
o faremos...
E no lugar de receber
contracheques irrisórios, os fantasmas passearão de um lado para o outro, com a
palma de suas mãos viradas para o céu, implorando por alguns trocados. Mas isso
eles terão que fazer bem longe da praça de alimentação. Porque ali estes seres
indignos não podem entrar.
Melhor deixar esse assunto de
lado; melhor me esquecer de toda essa besteira e não mais apontar com meu dedo
sujo com molho de macarronada as lacunas sociais; melhor manter distância dos
meios urbanos, porque olhar muito de perto para eles faz com que eu sinta o
cheiro da podridão...
sábado, 23 de julho de 2016
RESENHA DE LIVRO: EU ROBÔ
terça-feira, 12 de julho de 2016
CRÔNICA: FELIZ DIA MUNDIAL DO ROC... “DA LIBERDADE”!
Raramente me dou ao trabalho
de ir além da porta desse tipo de estabelecimento, porque sustento desconfiança
de que quase tudo o que encontrarei, custará valor substancial que vai muito
além do meu senso de realidade financeira. Em outras palavras, considero
praticamente tudo o que se vende numa loja de grife irracionalmente caro demais
e sem nenhum fundamento que justifique aquele valor.
Infelizmente quase sempre
tenho razão.
Mas naquela manhã, eu havia
visto uma camisa aparentemente legal na vitrine. E como sou detentor de certa
peculiaridade tosca e restrita, que esporadicamente faz com que me sinta
atraído por uma peça de roupa, adentrei para olhar de perto aquela singularidade
em malha. Os dedos cruzados para que ela não custasse o valor equivalente a uma
Smart TV de tela plana.
Pois eis que fui prontamente
atendido por uma vendedora sorridente, simpática e muito solícita. Afinal,
cortesia é o mínimo que ela pode despender, porque se depender somente dos
valores impressos nas etiquetas, será pouco provável que ela consiga bater sua
meta mensal. De praxe, devolvi-lhe a amabilidade e, sorrindo discretamente, pedi
para dar uma olhadinha na referida camisa.
– Não gostou dela? – perguntou
a vendedora, ao ver a careta que eu havia feito quando analisei o produto mais
de perto.
– Ela é bonita, sabe..., mas
tem uma marca enorme bem aqui – apontei a região onde havia letras robustas e
em alto-relevo, explicitando enormemente o nome da grife, na parte detrás da peça.
– Eu tenho esse outro modelo –
disse a moça, pensando se tratar de uma questão geográfica. Ela ergueu diante
de mim outra camisa, cuja estampa da marca agora estava na lateral do tecido,
contrário da que eu havia olhado, de estampagem na vertical.
─ Não gostei também... O
problema é que eu não gosto de uma marca infestando toda a dimensão da peça de
roupa. Sinto-me como se estivesse usando um macacão da Formula 1.
– Ah, sim... Nós temos outras
marcas, vem cá que eu te mostro.
Deduzi que ela não havia compreendido
a piada.
– Desculpe, mas você não
entendeu. Eu não disse que não gosto dessa marca. Quis dizer que não gosto de
marcas encobrindo todo o tecido de minhas camisas.
– Mas acontece que se você
quiser comprar roupas de boa qualidade, só encontrará nas grandes marcas do
mercado – ela tentava a todo custo defender o patrimônio em que trabalhava.
– Eu concordo plenamente com
você – disse em tom de encerramento, enquanto devolvia gentilmente a camisa ao
cabide – Aliás, o tecido dessa camisa aqui tem uma textura maravilhosa.
– Então vamos levar, ora...
– O que me incomoda é o porquê
dessa obsessão de uma grife em fazer questão de expor seu nome largamente nas
roupas, como se fossem outdoors.
– Ah, mas você deve saber
muito bem que uma camisa com essa marca lhe proporcionará muita presença em
qualquer lugar que esteja.
Ela se referia ao status. Ao
estatuto emblemático que eventualmente eu iria adquirir caso me tornasse
usuário da grife vendida em sua loja. E a inflexível vendedora tinha razão.
Porque ela não estava tentando me vender apenas uma camisa. Na verdade, ela me
oferecia a oportunidade de obter reconhecimento social, coisa que só é possível
quando nos rendemos aos símbolos consagrados pela sociedade contemporânea.
– Não, obrigado..., mas acho
que vou ficar com o caminho mais difícil: vou tentar ser reconhecido por meus
méritos e não por minhas escolhas.
– E o que você acha que é isso
que está tatuado em seu braço? – Ainda dentro da loja fui surpreendido por uma
questão incomum. A vendedora não havia se dado por vencida.
Olhei para minha tatuagem do Metallica, como se estivesse a vendo pela primeira vez.
A manga do meu uniforme estava dobrada, permitindo que partes da tattoo
ficassem expostas.
– Ué, isso é uma tatuagem... –
tive que dar uma resposta imbecilizada, porque ainda não sabia o que dizer
diante da inesperada afronta.
– Isso é um símbolo! – eu
havia tido o azar de ser atendido pela vendedora mais obstinada da cidade –
Você carrega no braço o símbolo de uma marca, que de certa maneira, possui o
mesmo efeito que as roupas desta loja.
– Espere um pouco aí... É
claro que uma banda de rock é diferente.
– Diferente como?
É difícil responder quando se
está com os dentes soltos na boca, após lancinante bofetada.
Então eu saí da loja de mãos
vazias e sem nenhum argumento para combater o ataque da vendedora contra o meu
idealismo fajuto. No entanto, aquela conversa me fez pensar sobre o assunto... Costumo
ser assim: às vezes preciso de algum tempo para discernir sobre o que as
pessoas me dizem. E esse tempo pode levar até anos.
No caso deste episódio, levou
apenas alguns dias. Mas quando finalmente encontrei razões que pudessem
convencer a mim e aquela vendedora insistente de que eu tenho razão, juro que
fiquei com vontade de voltar em sua loja, só para dar continuidade ao nosso
embate sobre marcas.
Mas se há uma coisa benéfica
no avanço do tempo, é que abandonar o orgulho faz com que deixemos disputas
conceituais de lado. Além do mais, a vendedora também poderia ter feito a lição
de casa dela, e talvez eu voltasse a sair de sua loja derrotado.
O fato é que aquela mulher
vendia produtos que (mesmo que isso pareça uma ideia meio irracional) ajudava
as pessoas a se sentirem melhores; mais aceitas. E quando optei por fazer uma
tatuagem que exibisse o nome de uma de minhas bandas favoritas, talvez não
fosse mesmo uma forma de homenagear, como sempre tentei me convencer.
O que queria era exibir minha
preferência; mostrar ao mundo minhas aptidões musicais. E quando uma pessoa se
identifica comigo ao reparar o que há estampado em meu braço, inevitavelmente
me sinto bem, como se aquilo fosse a constatação do sucesso de minha intenção
vaidosa.
Sim, o Metallica é uma banda que
admiro e curto desde os tempos de minha adolescência. No entanto, nunca tatuei
no braço o nome do meu livro favorito, a receita do meu prato predileto ou o
nome de minha querida mãe. E isso talvez signifique que tatuar uma banda no
corpo, mesmo que me doa tal averiguação, é sim, fazer propaganda gratuita
usando a própria pele para isso.
Não me arrependo de ter feito
a tattoo do Metallica ou qualquer outra, de jeito nenhum. Eu o faria de
novo se pudesse voltar no tempo. O que gostaria com esta reflexão é rever a
atitude de meu julgamento preconceituoso, que acusa de idiota alguém que curte
sair por aí exibindo roupas de marca... Creio que seja esse tipo de conceito
fundamentalista um dos grandes males de nossa sociedade; não conseguimos largar
de uma vez por todas, a mania de metermos os nossos narizes na vida alheia.
Achamos que somos referência, a medida do que é certo ou errado.
Não, meus amigos... Somos
todos iguais, cuidamos somente de nossa própria vida e precisamos dar parecer
apenas a nós sobre ela. Eu notei meu disparate quando comecei a construir essa
crônica, que inicialmente possuía o viés de ser uma argumentação em defesa de meus
ideais em detrimento das decisões dos outros.
Ainda bem que deu tempo de
mudar de rumo e deixar uma mensagem menos destrutiva para este Dia Mundial do Rock... Que ele seja
festejado sob a bandeira da harmonia, sem que haja comparações ou distinções
ideológicas. Que cada um faça de sua vida o que desejar desde que seja
respeitada a vida do próximo...
quinta-feira, 30 de junho de 2016
RESENHA DE LIVRO – QUASE MEMÓRIA
sexta-feira, 24 de junho de 2016
CONTO: A CARTA DE LÚCIFER
Pois eu nada quero de ti, Ó vermiforme criatura!










