quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CONTO: INCONSONÂNCIA


– Oi, eu posso me sentar do seu lado? As outras mesas estão cheias.

– Pode. – só deixei porque eu já havia terminado de comer. Qualquer tipo de alimento perde totalmente o gosto quando se está comendo sob os olhares de um estranho.

Vasculhei ao redor e vi que era mentira. Havia outros lugares disponíveis, alguns até na companhia de gente mais agradável do que eu. Restou-me a perspicácia de tentar desvendar os motivos que o levaram a querer se sentar do meu lado.

Ele era velho. Pelo menos uns cinquenta anos. Poucos fios lhe restavam na cabeça, a maioria ladeando seu expressivo cocuruto. O rosto arredondado como um balão de festas; a barba grisalha e mal distribuída; os olhos pequenos e sôfregos, cercados por cavidades negras... O queixo movia-se pra frente quando ele mastigava.

Estava comendo um desses sanduíches enormes e coloridos com tantos ingredientes que um sabor acaba anulando o outro. Usava uma camisa de uniforme azul claro; no pescoço pendia um crachá onde pude ler o seu nome.

Baltazar.

O sobrenome continha cinco letras e apenas uma vogal. Era simplesmente impronunciável.
Muito delicadamente ele retirava alguma coisa que não gostava no lanche. Usando as pontas dos dedos como se fossem pinças, ele pescava o objeto indesejado e o deixava na bandeja.

Não devia ser um homem sedentário, pois tinha braços musculosos, ambos abertos feitos asas para melhor envolver o pobre sanduiche. Mordia com tamanha fúria, que cheguei a temer ele se enganar e arrancar um de seus dedos. O corpo aparentemente atlético não condizia nem um pouco com a idade avançada. Era o rosto cansado que lhe traía.

Não sei explicar as razões, mas eu fiquei o tempo inteiro olhando para ele comer, mesmo já tendo terminado com minha refeição. Eu fingia estar mexendo no celular e o olhava cautelosamente, por cima da tela, tentando entender minha inesperada atração pela repugnância.

– Posso usar a sua maionese? – perguntou.

– Pode. – Por que diabos eu sempre cedo a todas as vontades dos outros? Por que me é tão difícil dizer não para um estranho? Eu estava guardando os sachês de maionese para levar pra casa, portanto, ele não poderia usar. Mas lá estava eu lhe entregando a contragosto todos os meus sachês, que ele usou para lambrecar o lanche.

E por cima do telefone eu testemunhava um sanduíche ser destruído de maneira impiedosa e em pouquíssimos minutos. Devia se tratar de um consultor e talvez estivesse atrasado. Pra ajudar a descer o pão pela garganta ele virou um copo duplo de Coca-Cola. Verificou ao redor e constatou que não tinha pegado guardanapos, então usou as costas da mão para limpar a boca. Por um instante eu cheguei a pensar que ele fosse arrotar bem na minha cara.

Se ele estava me olhando de canto de olho, não deixou que eu visse. Na verdade não parecia nem um pouco interessado em mim. Enquanto havia um lanche em sua frente ele não fez cerimônias. E após descê-lo goela abaixo, ficou a olhar distraidamente para o cenário ao redor, como quem está desconectado com este mundo.

Outra vez tomada pela dúvida, eu não conseguia compreender qual era a daquele coroa. Se estivesse tentando uma aproximação furtiva, a estratégia esbarrou em sua incorrigível timidez. Se só procurava um lugar sossegado para lanchar, este era absurdamente desatento ou dotado de percepção elevada ao identificar que eu seria a pessoa a lhe arranjar mais maionese.

Ele fez movimentos estranhos com o pescoço. Ameaçou se levantar duas vezes e desistiu por alguma razão. Verificou algo no celular, afrouxou a gola da camisa por conta do calor, depois ameaçou uma terceira levantada.

Acho que exagerei no meu comportamento conspícuo. Porque o coroa estava em vias de ir embora sem sequer ter me notado. Sei que não sou uma mulher do tipo que faz o trânsito parar, mas eu sei que notam minha beleza quando conversam comigo.

Talvez tivesse sido legal conversar com aquele sujeito estranho.

Mas acho que definitivamente as coisas não são como nos filmes, porque se assim o fosse, ele teria usado seu charme e puxado um papo inteligente comigo. Eu lhe daria um sorriso discreto e iniciaríamos uma conversa sofisticada e sedutora. Marcaríamos outros encontros, cada vez mais estreitos e invasivos, até o dia em que encontraríamos a virtuosa intimidade. E vazios da descoberta, nós voltaríamos a ser solitários almoços na praça de alimentação, lugar em que o maior apetite é despertado pela diversidade de indivíduos com feições de possibilidade... A possibilidade de um dia alguém sedutor se sentar ao nosso lado e pedir os sachês de maionese emprestados.

***

O cheiro do lanche estava maravilhoso. Achei que seria capaz de devorá-lo com uma só bocada! A praça de alimentação estava bem cheia, então levei algum tempo até avistar uma moça que parecia já estar terminando sua refeição.

– Oi, eu posso me sentar do seu lado? – perguntei, tentando ser o mais discreto possível – As outras mesas estão cheias.

– Pode. – respondeu ela friamente.

Não foi nada inesperado, sei muito bem o tipo de homem que se reflete diante de mim no espelho. As mulheres costumam ter repulsa de mim no primeiro contato. Tudo bem, eu só precisava comer rapidinho e voltar ao trabalho.

Fiquei me perguntando o que eu diria praquela moça se ela fosse minha próxima cliente? Deixe-me ver: seus cabelos estavam presos num coque e as unhas não tinham esmalte, o que significava que era uma mulher que gostava de praticidade. Possuía o dom da curiosidade, pois desde que me sentei ela não parou de me olhar. Ficava despistando com o telefone na mão, mas eu sabia que ela me olhava. E por falar nisso, seus olhos estavam muito maquiados com sombra escura, condição que não contribuía para o seu disfarce de garota resolvida. Devia ter em torno de vinte e cinco, mas eu achei que isso era intencional, ela usava roupas que a fazia parecer mais velha... Talvez tivesse uns dezenove. O nariz era afinado e os lábios compridos. Apesar de enrustida, era uma bela jovem de pele amarronzada.

Enquanto eu dava mordidas monstruosas no pão, pairavam em minha mente quais seriam as possibilidades caso eu quisesse convencer a minha acompanhante de mesa a fazer um plano de saúde. Concluí que não deveria ser muito difícil, apesar de achá-la jovem demais. Talvez sugerir algo dessa natureza para alguém que quer se parecer mais velho, certamente atiçaria seu interesse, porque as pessoas não costumam oferecer planos de saúde para gente nova... Jovens acham que são imortais.

Meu público alvo são os velhos! Estes sim apreciam qualquer negócio que os façam pensar que estão barganhando com a morte; os velhos sabem de seus limites existenciais e do tempo curto que lhes restam. E eu vendia o serviço que poderia assegurar sua estadia no mundo por mais algum tempo.

Passei o olhar rapidamente sobre ela e vi que seus olhos estavam concentrados na altura da gola da minha camisa, tentando ler o nome no crachá... Gosto de almoçar com o crachá porque isso facilita na hora de tentar proximidade.

Eu teria encarado diretamente nos seus olhos, mas isso pareceria deselegante demais pra alguém que só está dividindo a mesa de refeição. Mulheres não são nem um pouco ariscas, mas fazem de tudo para se parecerem assim.

Meu lanche estava seco demais. Ou isto, ou era eu que estava engolindo muito depressa. De qualquer forma, isso me deu uma ideia de aproximação. Ela não me parecia ser alguém muito inteligente, então talvez com uma bem elaborada abordagem eu conseguisse iniciar uma conversa que terminasse com outra assinatura pra ajudar a bater a meta do dia.

– Posso usar a sua maionese? – junto com a indagação expus um sorriso amigável, já armado para dar continuidade ao papo.

– Pode.

De maneira desajeitada, ela pegou todas as maioneses e colocou diante da minha bandeja. Imaginei que fosse me dar só uma ou duas, mas ela colocou todos os sachês ao meu dispor. Em seguida, tentou arrumar atrás da orelha um fio rebelde que se desprendeu do coque. O olhar se movendo muito rápido por todos os lados, como quem anseia por uma fuga.

Definitivamente ela era muito acanhada com estranhos. Talvez fosse casada, apesar de não ter nenhum anel em seus dedos. Voltou para a tela do celular, mas era nítido o desinteresse no objeto; ela estava usando o aparelho como escudo para se proteger de mim.

Por que ela não foi embora? Afinal, já havia terminado sua refeição há tempos.

Como manda a cartilha do bom vendedor, eu sei que devo evitar comportamentos que denotem minha audácia. Os caras que mais enriquecem no meu ramo sabem conduzir aproximação furtiva com requintes de desvelo. É preciso caçar feito um felino na minha profissão; saber encontrar o local certo para espreitar; esperar pacientemente o momento mais oportuno; dar o bote certeiro para que não haja desperdício de energia.

Um tigre sabe exatamente o que fazer quando está diante de uma suculenta gazela, mas eu não sei... Sou espécie treinada para morder, mas não possuo dentes. Então terminamos nossas refeições, mudos, de braços abanando, cientes da inconsonância da alma: a dela a olhar para as demais com elevada cautela; enquanto a minha só enxerga outros dos seus como se fossem meras mercadorias.

Ali naquela mesa tornamo-nos a escassez um do outro; a comprovação existencial de nossa própria precariedade. Isso causa desconforto... Sim, foi neste instante de renúncia que juntos, eu e ela, nos levantamos, cada um de um lado da mesa, e fomos embora, em direções opostas. Porque talvez mais difícil do que vender planos de saúde, seja promover a nossa própria existência...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

RESENHA DE LIVRO – CLARICE,


Sem medo algum de ser contestado, posso aqui me servir de opinião resoluta, a qual será extensamente comungada pela maioria dos amantes de literatura: uma vez envolvido no mundo de Clarice Lispector fica difícil imaginar a vida sem ela.

Eu atravessei o último mês de dezembro lendo calmamente este belíssimo e abundante tributo àquela que considero a maior escritora da língua portuguesa. O último mês do ano propositalmente teve como minha última leitura esta obrigatória biografia, a qual eu me vi apreciando de forma lenta e reflexiva, receando seu término a cada página que virava.

Dezembro é o mês de nascimento e também o de óbito desta esplendorosa autora. Clarice Lispector nasceu no dia 10 e no dia 09 (véspera de seu aniversário) ela deu seu último suspiro, mas por conta do Shabat só foi enterrada no dia 11, data do meu aniversário. Uma coincidência que, embora não tenha nenhum significado, acometeu-me de maior enfoque, como se meras semelhanças inevitavelmente tornasse meu eu leitor ainda mais próximo desta inigualável resgatadora da alma humana.

De qualquer forma, devo confessar que foi muito prazeroso viver este dezembro de Clarice, em que me vi amalgamado por algo que foi muito além de uma mera leitura; foi como ter posse de um estudo completo que revelou muitas particularidades de Clarice, como suas origens judaicas, seu universo literário, sua vida pessoal, seus traumas, seu brilhantismo...

Apesar de biografar uma escritora amplamente conhecida em vários países, Benjamim Moser, através de intermináveis pesquisas, conseguiu entregar um trabalho ainda mais profundo e detalhista, onde podemos acompanhar não somente a trajetória de Clarice, mas também a literatura que permeava seu tempo, a complexa política do Brasil naquela época e um tanto da vida dos amigos que estiveram próximos da escritora. Desse modo, este CLARICE, torna-se leitura obrigatória para quem admira e quer conhecer um pouco melhor a vida desta genuína autora.

Curiosamente o biógrafo desta obra é norte-americano, que incendiado pela escrita de Clarice Lispector, mergulhou profundamente em uma busca quase obcecada por compreender a vida e a literatura imortal de sua biografada. Portanto, no ano de 2009 nasceu nas livrarias americanas Why This World: a biography of Clarice Lispector, a qual no mesmo ano também seria publicada no Brasil pela editora COSAC NAIFY, sob o título: CLARICE,.

Contudo, dada relevante importância de Clarice Lispector para a literatura, pode-se levar em consideração um pertinente questionamento: por que ler mais este livro de uma autora que já foi tantas vezes biografada e estudada? E a minha resposta é definitiva, muito embora eu não tenha lido outros autores que exploraram o universo clariciano: Além de amante e leitor assíduo de Clarice, Benjamim Moser nos entregou o que pode ser considerado uma obra definitiva, mesmo sabendo que Clarice Lispector é um assunto inesgotável, uma página inacabada. E a conclusão a cerca deste livro permeia a opinião de outros críticos e estudiosos de Clarice. Moser entregou-se com tamanha devoção à sua heroína, que se prestou ao aprendizado da língua portuguesa para poder ler os originais da escritora em sua língua original. Tamanha obstinação só poderia mesmo resultar em uma obra singular e ilustre, cujas páginas exalam o afeto e a intensidade de Clarice Lispector.

Sem exageros ou argumentos suspeitos, Moser nutre sua obra com seu olhar atento de leitor e pesquisador, lacunas da vida de Lispector que ainda não haviam sido contadas por ninguém. Por isso, o que há de mais inovador nesta biografia, é justamente a entrega do autor, que por meio de sua incansável pesquisa, conseguiu iluminar um pouco mais o vasto oceano clariciano.

O escritor Rui Castro, exímio biógrafo, costuma dizer que para se escrever uma biografia digna, o autor precisa “se casar” com o biografado. Pois este CLARICE, é prova de que Benjamim Moser acatou esta ideia e, mesmo declaradamente apaixonado por sua biografada, soube contar uma história imparcial, sem se deixar perder pela emoção.

CLARICE, é um trabalho estupendo, de longe a melhor leitura que fiz em 2016. E diante do incomensurável desafio de se contar a história de uma autora que, apesar de ser um fenômeno da literatura, sempre se mostrou uma mulher moderna e acessível na mesma proporção com que era silenciosa e inalcançável, mesmo assim, Moser soube fazê-lo com maestria e ousadia.

“No entanto eu já estou no futuro. Esse meu futuro que será para vós o passado de um morto. Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro de vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acaba bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar”.
(Clarice Lispector)

sábado, 31 de dezembro de 2016

CONTO - O CAMELO ALEIJADO


A fila era pequena, desorganizada e ruidosa. Sorridentes, seus integrantes alinhados de forma tumultuada, falavam muito e riam alto. Em comum, todos seguravam um livro de capa muito colorida, onde um animal quadrúpede e sorridente se esbaldava numa lagoa cristalina, cercada de verde natureza.

Não muito longe dali, uma mãe resoluta entregava ao filho o mesmo livro, satisfeita por conseguir compra-lo no dia de sua aguardada estreia. O pequeno menino apertou o objeto contra o peito e, em seguida, agradeceu a mãe com um estalado beijo no rosto.

Após o ato obsequioso, ela segurou na mão do menino e, juntos, caminharam felizes em direção à fila, cada vez maior e mais barulhenta.

– Mamãe, o que vamos fazer agora? – perguntou o menino, ao ver a mãe tomar o último lugar da fila – a senhora já não pagou?

– Vamos pedir ao autor para autografar.

– Ah, tá... – respondeu ele, sem entender o significado da palavra “autografar”, mas ele logo deixou esse assunto de lado, encantado demais que estava com as gravuras do despojado animal a encher as páginas da história.

O homem na frente se virou sem direção específica e notou aquela mãe com o filho. Sorriu simpaticamente; ambos haviam adquirido o mesmo presente aos seus rebentos e se encontravam na fila, em plena conformidade sobre a importância de se consagrar aquela bela obra infantil.

– Mãe, o nome do camelo é Calombo – o menino puxou a barra da saia da mãe para mostrar a novidade que havia descoberto, já no início da leitura.

– Isso não é um camelo, querido... É um dromedário.

– É um camelo sim, mãe. Olha aqui a montanha nas costas dele.

– Mas só tem uma montanha em suas costas, por isso é um dromedário – ela apontou com o dedo para uma das figuras, onde era possível ter um ângulo privilegiado da corcova do animal – Tá vendo só?

– É um camelo, mãe!

– Dromedário... Se fosse um camelo teria duas montanhas nas costas.

– Então eu não sei mais que bicho é esse, ora...

A mãe ignorou o inconformismo do filho. Logo, logo, ele aceitaria a existência de um dromedário na sua nova historinha. E talvez até se encantasse com a novidade e passaria a ensinar aos seus coleguinhas a verdadeira espécie protagonista do livro.

A fila avançava lentamente. E o filho voltou a interromper a leitura, pois ainda surgia em sua cachola questionadora, dúvidas que colocavam à prova os argumentos incontestáveis que recebera de sua genitora:

– Mamãe, eu estive pensando... E se ele for um camelo aleijado?

– Como assim, querido?

– Ué, faltando um pedaço. Que nem o nosso vizinho que tem uma perna só. Eu acho que esse é um camelo que só tem uma montanha nas costas.

– Isso é um dromedário, menino! – a mãe sentiu que era preciso dar ênfase em sua resposta, para eliminar as dúvidas do filho; a rispidez no tom de voz para censurar as incertezas.

Certamente o filho devia compreender a historinha do livro como sendo menos cativante tendo como protagonista um bicho detentor de nome tão estranho. Um camelo aleijado seria bem mais agradável, do que um ser cuja denominação “dromedário” soava estranha, comprida e dura de pronunciar. Ele fechou o livro, emburrado, e isso fez com que notasse, pela primeira vez, o desconforto de uma fila que pouco avançava.

– Vai demorar muito, mamãe? Eu tô cansado.

– Estamos quase lá, meu bem.

De fato, já estavam próximos. O menino até podia enxergar o que se passava na base da fila: havia um homem por trás de uma mesa. Era gordo, de barba cheia, com ar sério e pedante, perguntando o nome de cada um dos presentes. Em seguida, ele abria o livro do camelo/dromedário e fazia rabiscos grotescos com uma caneta sofisticada.

– Mãe, o que aquele homem tá fazendo?

– Já disse que ele está autografando.

– Mas ele tá rabiscando o livro das pessoas!

– Ele é o autor, meu filho. Está fazendo a dedicatória.

Assustado, o menino olhou para os rabiscos incompreensíveis no livro de uma das pessoas. Eram borrões feios, tortos e que enfestavam uma página inteira que ladeava o prefácio. O menino ainda não compreendia qual era a importância daquele ato, mas teve a certeza de uma coisa:

– Mãe, vamos embora!

– Espera! Já está quase na nossa vez.

– Mas mãe, eu não quero que esse homem rabisque o meu livro! – ele começou puxar a saia da mãe, numa tentativa de retirá-la da perigosa fila – Eu não quero!

– Para de escândalo, menino!

– Ele não vai otrogafar o meu livro!

– Me dá esse livro! – instintivamente, a mãe tentou arrancá-lo das mãos do menino – Não me faça vergonha, vamos!

– Eu não quero otrogafo!

Os dois começaram uma disputa acirrada pelo livrinho, cada um puxando de um lado. Mas ao notar que as pessoas começavam a demonstrar constrangimento em relação à cena, a mãe desistiu e soltou. Então o menino escapou, indo se afugentar no meio das prateleiras da loja.

Desconfortável, a mãe se virou e viu que já se encontrava diante do escritor, a lhe aguardar com a caneta sofisticada em prontidão. Ele emitiu um breve sorriso por trás de sua barba robusta.

– Á quem devo dedicar a obra? – perguntou ele, enquanto seus olhos percorriam toda a dimensão estrutural da mulher, procurando por algum livro para autografar.

– Desculpa, mas o meu filho fugiu com ele na mão – ela tentou devolver o sorriso, mas desajeitada, mal conseguiu mover os lábios – Ele disse que não quer o seu autógrafo.

– Tudo bem... Vá falar com ele e depois volte.

– Certo, obrigada... – com o rosto corado, a mãe já estava se afastando, quando resolveu parar e fazer meia-volta – Com licença moço, mas eu posso te fazer uma perguntinha?

– Claro que você pode. – respondeu o escritor, solícito.

– O personagem principal do seu livro é um dromedário, não é mesmo?

Os dentes do autor surgiram todos, por detrás dos escurecidos pelos de sua face rechonchuda.

– Não é não, moça... Na verdade, o bicho da história é um camelo que nasceu diferente dos outros; é um camelo aleijado.

domingo, 18 de dezembro de 2016

RESENHA DE LIVRO – A PROFECIA DO PARAÍSO


Meu eu rabugento desconfiou imediatamente deste livro de nome pretensioso e capa requintada, no exato instante em que coloquei minhas mãos nele: certamente estaria levando pra casa mais do mesmo. Mas como gosto de, vez ou outra, conhecer o universo obscuro de autores dotados de mentes altamente imaginativas para o suspense ficcional, achei que seria pertinente dar uma chance a este A PROFECIA DO PARAÍSO.

E a experiência da leitura trouxe a amarga comprovação de minha desconfiança: trata-se de uma obra sem nenhuma singularidade, e um autor que parece optar pelo lugar-comum.

Na trama, acompanhamos a agente de um departamento secreto chamado “Seção” (uma espécie de CIA, só que no lugar de siglas, temos um nome mais tosco mesmo) que é intimada a investigar a morte de uma famosa cantora brasileira. A investigadora não demora a perceber que está trabalhando num imbricado quebra-cabeça sobrenatural, o qual fará cair por terra todo o seu ceticismo inabalável. E por se tratar de aparente caso relacionado a ocultismos, a “misteriosa” Seção lhe envia uma ajuda: um historiador perito em religiões, entediado, alcoólatra e sabe-tudo, que perdeu o gosto pela vida após sofrer uma grande perda.

Certamente os amantes de ficção já devem ter notado evidentes familiaridades no enredo. Pois como eu disse: temos aqui um autor que opta pelo lugar-comum.

O início da história se passa no Brasil, mais precisamente em São Paulo, onde ocorreu a morte da cantora Gabriela Soares. E na mesma proporção em que o autor ROBERT BROWNE não parece muito interessado em esclarecer alguns eventos de sua trama, ele faz questão de dar certas pinceladas na trama que parecem propositivas, como retratar os policiais brasileiros como sendo um bando de supersticiosos incompetentes que nada sabem fazer, além de demonstrarem seu temor irracional.

A investigadora Callahan é a construção da heroína perfeita: inteligente, segura, habilidosa, arrogante e o tempo inteiro parece ser o único profissional ponderado, capaz de enxergar o óbvio nas cenas dos crimes. Quanto ao seu improvisado parceiro, Sebastian LaLaurie, é um intelectual frustrado, que vive uma vida precária de dor após perder sua amada. É a personificação do enfado, entregue ao vício pelo álcool e que parece ter perdido o gosto pela vida.

Ambos os personagens, cujas construções de suas individualidades seguem o modelo padrão de sujeitos que se tornarão pessoas melhores quando chegarmos ao final feliz, acabam por remeter o leitor ao característico texto desgastado que torna o desfecho dos acontecimentos um tanto previsível.

Mas apesar dessa concepção maçante, a interação da dupla principal até chega a funcionar em alguns momentos de bons diálogos e suspense razoável.

Já os demais personagens parecem estar ali apenas para encher parágrafos; eles são todos, sem exceção, minimamente sem-graças; vilões passeando ao redor do mundo cheios de diálogos insossos e ações dignas de sessão da tarde; e mocinhos gélidos que se comportam de modo aleatório e vazio, até desencadearem num final chato e cheio de clichês.

Sei que esta resenha certamente desagradará aos leitores que gostaram do livro, mas sinceramente, por toda boa vontade que dispendi ao longo da leitura, eu não consegui encontrar nada louvável nesta ficção que se alterna do confuso ao previsível, no qual o autor tentou contar uma história, mas acabou deixando a impressão de que, na verdade, ele apenas recontou as memórias dos livros que já leu... Uma pena.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

RESENHA DE LIVRO – SOB A PELE


Talvez a editora Record tenha cometido um equívoco ao nominar o agradável trabalho a que se refere esta resenha, cujo título certamente foi ofuscado pelo sucesso de outro livro de mesmo nome. E para quem duvida desta constatação, basta fazer uma rápida pesquisa através do Google para verificar uma chuva de informações e resenhas à cerca da obra Sob a Pele, escrita por Michel Faber; um sucesso que foi ainda mais acentuada depois que Scarlett Johansson encarnou a personagem do livro no cinema.

Mas aqui a conversa é sobre o título-xará menos famoso, porém, a escassez de notoriedade não condiz com o conteúdo da obra. Sob a Pele, dos escritores Nicci e French, é um trabalho agradável de ler e narrado sob a ótica de personagens eficientemente humanizados.

A trama, que não é lá essas coisas, conta a história de três mulheres distintas, mas com algo em comum: são alvos do mesmo assassino em série. Zoé é uma professora que vê sua vida banal ser popularizada pelo envolvimento numa inusitada prisão de um ladrão de rua; Jennifer é uma modelo de mãos aposentada, que vive o tédio de um casamento aparentemente perfeito; e por fim temos Nádia, uma animadora de festas que leva sua vida de forma despretensiosa e ciente da carência de perspectivas.

Aqui nada é inovador, a narração é em primeira pessoa e dividida em capítulos que mostram o cotidiano ordinário das personagens no exato tempo cronológico em que suas vidas são tumultuadas por cartas anônimas que chegam cheias de ameaças de morte. Essa montagem do livro feita por partes nos oferece o ângulo de visão de cada uma das três mulheres. E é exatamente este o ponto forte da trama.

Os autores constroem personalidades distintas em cada uma de suas protagonistas, de modo a nos permitir proximidade ou distanciamento em diferentes perspectivas quanto ao que elas sentem diante das progressivas ameaças. A leitura discorre fácil e macia, fazendo suas quatrocentas e quarenta páginas fluir de maneira insinuante; uma história narrada por personagens dotados de inseguranças, incertezas e irreverências, características comuns que inevitavelmente nos acomete de empatia.

 Zoé é uma mulher meiga e sensual, que mantém um relacionamento improvável cuja única sustentação parece ser o sexo. Jennifer é a menos agradável das três, mas mesmo seu jeito arrogante e entediado parece ter sido propositalmente inserido, uma mulher que largou a carreira para administrar o casamento defasado, o qual ela parece se ocupar para não ter que enxergar a evidente decadência. Quanto a Nádia (a minha favorita do livro) é uma mulher alegre, harmonizada e que não encuca com os estorvos da vida.

De modo geral, só acompanhar de perto o dia a dia das três moças já valeria a leitura. Nem era preciso haver um assassino para apimentar o enredo, que pouco ou nada segue uma linha de suspense ou clássica de romances policiais. Quanto ao assassino, o achei um pouco insosso, mas isso não chega a incomodar.

Contudo, é no aspecto coadjuvante que os autores escorregam um pouco.

O livro é harmonioso em sua narrativa na primeira pessoa, mas os personagens secundários parecem não comungar do mesmo ritmo. Praticamente todos são medíocres, como se tivessem sido esquecidos por seus criadores. Os investigadores de polícia são atrapalhados, vão de um lado para o outro e nada solucionam; eles sequer se aproximam do famigerado assassino (cometo aqui uma pequena gafe). Há também uma psicóloga designada pelas autoridades; uma profissional séria, que até parece querer engrenar, mas sua notoriedade logo é posta de lado. E ainda sobre o vilão, este não foge a regra do abandono secundário, tendo como sua única virtude a mera construção de cartas que denotam uma libido confusa e o anseio por orquestrar seus intentos psicopatas.

Sob a Pele não é um livro brilhante, mas é simpático e de leitura fácil, que talvez não agrade aos fãs de suspense... Bom, pelo menos até o dia em que uma versão cinematográfica, contendo Scarlett Johansson no elenco principal, surja para exumar esta obra de sua injusta esquife literária.

sábado, 26 de novembro de 2016

CONTO - DEVIR ANUNCIADO

Hiperativa sobre o colo afetivo, a menina brincava, pulava, balbuciava sons indecifráveis com sua língua ainda virgem de idioma. Saltava do colo para o assento no corredor e de volta para o colo da mãe, que do assento da janela dedicava cuidados à sua cria com instinto materno e protetor, de mãos afáveis que não se cansavam de impedir que a pequena massa rechonchuda e buliçosa sofresse uma queda desastrosa no chão. E quando o colo já lhe parecia tediosamente aconchegante, a menina sacolejava de volta ao banco vazio.

A mãe era pequena e morena, feições delicadas e quase tão miúda quanto à filha arteira. Os cabelos lisos desciam-lhe para além dos ombros, ladeando um rosto ossudo e sem maquiagem. Tinha belos lábios grossos que raramente sorriam. Parecia obstinada e audaz, como quem tenta convencer a si mesma de que poderá cuidar das coisas, sozinha, com uma força que ela não sabia bem de onde invocar. Mas aprenderia a ser forte sozinha, porque sempre que confiou na força de outras pessoas, ela terminou machucada e triste.

Uma bolsa aparentemente pesada sob seus pés a delatava: havia dado tempo de pegar o que pôde ou coube na mala, mas era insignificante se comparado ao que deixara pra trás; estava fugindo de algo ou de alguém... Mal sabia ela que se estivesse fugindo do mundo, propriamente, achando que uma passagem comprada às presas lhe serviria como portal de transição existencial, enganava-se. Pois era o mundo o que ela encontraria quando desembarcasse pela porta do ônibus... Aliás, o ônibus também era o mundo; os demais passageiros eram mundos; eu a lhe observar era mundo... Mesmo a filha sapeca era o mundo inflexível e constante a lhe consumir sutilmente.

Mas ela parecia não se dar conta disso. E olhava pela janela como quem acredita estar deixando pra trás mundos velhos e despedaçados, que desapareceriam tão rápido quanto a paisagem sumia de seu campo de visão. Tentaria se convencer de que mundos destrutivos que ficaram no passado não poderiam voltar... Só que eles costumam voltar, infelizmente. No entanto, eu é que não seria indelicado a ponto de lhe apunhalar com minhas invasivas convicções.

Seus olhos eram tristes, pareciam enxergar ao inverso, de fora pra dentro. Eram tão túrbidos que pareciam exalar conformidade quanto a qualquer lugar em que virem a ser deixados no desembarque, será mais do que eles merecem... Olhos que viram além do que puderam suportar; que testemunharam mais quedas do que reerguidas.

No antebraço onde agora a filha dormia, havia um nome gravado. Uma tinta ordinária que marcara a insígnia do mundo que ficou para trás. Era um nome de caráter bíblico, masculino, porém, nem um pouco merecedor de tal honraria. É provável que fizera a tatuagem numa época de certezas ingênuas, de amores escapadiços. Certamente a definição existencial da qual fugia... Sim, pois se aquele sinal em seu antebraço fosse algo ansiado, um mundo em que ela estivesse indo ao encontro, provavelmente o olhar daquela dama seria menos congelado numa infelicidade que se reproduzia na janela por onde ela olhava hipnoticamente.

A viagem foi interrompida para o embarque de passageiros. Um casal muito jovem, que vivia o auge de seus anos de apogeu, se sentou nos assentos em minha frente. Também traziam no colo o fruto de sua união. Esta era miúda e preguiçosa; dormia sossegada nos braços da mãe.

Já estávamos de volta à estrada, quando o casal olhou despercebidamente para a mulher em fuga, que devolveu o fitar. Mas logo aquela breve conexão se perdeu, pois constrangida, a mãe solitária não quis ter sua dor desnudada. Contudo, o casal continuou mapeando-a. Então o homem perdeu o interesse e adormeceu..., só que a esposa não.

A mulher seguiu intrigada, observando a outra até conseguir atravessar a carapaça fragilizada daquela mãe. E na proporção em que o olhar perdurava, a mãe recém-chegada foi perdendo o brilho de esperança que carregou até aquele instante raro que a possibilitou vislumbrar a materialização de seu próprio porvir. Seus olhos agora eram um misto de comiseração e ansiedade, resultado do encontro com o inevitável.

Talvez, e somente talvez, num passado não muito distante, aquela mãe fugitiva também embarcou ao lado de um homem que, carinhosamente dividia a responsabilidade em zelar pelo pequeno fruto hiperativo que juntos conceberam; eles riam de qualquer coisa, apaixonados, o discernimento rendido à sutileza da ilusão amorosa que os fez ver apenas a existência efêmera do ser.

Vou tatuar seu nome bem aqui” – disse ela, exalando ternura, mostrando-lhe o antebraço imaculado. Seus olhos ainda não eram esferas cinzentas e sôfregas, mas portadores da paixão cálida, a contemplar a própria família constituída e perfeita, merecedora de uma viagem de férias.

A esposa recém-embarcada sentiu medo. Inquietava-se de seu assento, pediu água ao marido semiacordado. Não queria mais assistir ao prenúncio de sua ruina; o interior do ônibus a lhe sufocar; o futuro diante dos olhos a lhe consumir.

O mundo consegue ser ainda mais cruel quando anuncia, quando antecipa seus métodos implacáveis, quando nos faz ler a página seguinte sem ter nos dado chance de terminar a página atual..., o mundo sorri de nossa prepotência quando nos fornece o testemunho do provável amanhã.

A mãe solitária estava novamente com os olhos no casal. Sua sensibilidade mais do que testada lhe permitia ver o pânico na outra, entender que sua viagem solitária simbolizava o medo de toda mulher esperançosa. Ela apertou os lábios, compreensiva.

Não se preocupe... Vai ficar tudo bem” – ela mentiu com os olhos, tentando fazer o que todos fizeram consigo; enganaram-na achando que assim doeria menos.

Depois ela se virou, voltando para o cenário seco e cheio de mundos vazios, que avançava veloz através da janela.

O casal aquiesceu, aguardou a trajetória, em silêncio formal. Não mais riam, não conversavam, tão pouco se tocavam. Passavam a criança para o colo do outro, como se fossem soldados transferindo a vez de zelar pelo estandarte. O homem sabia que a quietude inesperada da esposa era indício de alteração de perspectiva em sua mente confusa. A mulher torcia para que o consentimento de seu amado não fosse prenúncio de sua conivência.

O que será daquele casal ao término dessa viagem rumo ao desconhecido? Continuarão outras viagens sustentando suas recíprocas condutas de amor e ódio? Serão impotentes expectadores das próprias existências a desabar num lugar qualquer em que se encontrarão separados, vingados e infelizes?

Sobreviverão ao despotismo do mundo, mas as experiências os tornarão desconfiados, desiludidos e sozinhos, a olhar este mesmo mundo através de uma janela de sonhos, onde a vida surge quase ao alcance das mãos, mas passa rápido demais para ser enlaçada.

sábado, 22 de outubro de 2016

RESENHA DE LIVRO: DEZ CONVERSAS


O autor deste plausível livro de entrevistas intitulado DEZ CONVERSAS – Diálogos com Poetas Contemporâneos é um sujeito inteirado e preciso, que parece mesmo fazer sua lição de casa antes de encarar os bons autores abordados em sua obra. Com destreza e segurança, Fabrício Marques consegue administrar agradáveis bate-papos com os poetas convidados.

As conversas entremeadas neste volume são, em sua maioria, dotadas de um tom altamente erudito, tanto do entrevistador quanto do entrevistado, sempre seguros e entendedores do assunto primordial: a poesia contemporânea. No entanto, algumas entrevistas me foram mais agradáveis do que outras, com destaque para aquelas em que os autores pareciam usar de simplicidade nas suas respostas; diálogos que foram enriquecidos totalmente por suas experiências como criadores de literatura, e não meramente tratando a mídia (aqui me refiro ao livro) como se fosse um prático instrumento de pedantismo exacerbado (destaque para a ótima entrevista com a única poetiza abordada na obra, Maria do Carmo Ferreira).

Não há muito que resenhar sobre este livro, apenas ressalto que vale muito à pena conferir o que alguns grandes poetas têm a nos dizer sobre suas vivências, suas opiniões e até receber alguma dica. Principalmente se algum dos entrevistados for um de seus autores favoritos.

sábado, 24 de setembro de 2016

RESENHA DE LIVRO: TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO


Este foi o último livro que acrescentei a uma compra que fiz ano passado, após já ter escolhidos aqueles que, de fato, eu queria levar. Sabe quando nos deparamos com uma capa simpática, de título sugestivamente cômico e, ao lermos a sinopse pensamos estar diante de um livro despretensioso, daqueles que servem puramente como entretenimento de diversão? E finalmente, já a caminho do caixa, eu o adicionei aos demais por conta do preço acessível. “Se não for bom, pelo menos não custou muito caro”, foi a justificativa que pesou a favor da compra desta obra incógnita... Escolhas desse tipo, na maioria das vezes, acabam dando certo e levo pra casa um bom volume, de desconhecidos e talentosos autores.

Infelizmente não foi bem o caso deste TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO, de um escritor com ar aparentemente buliçoso, chamado Simon Rich; jovem escritor, produtor e roteirista americano, detentor de um invejável e precoce currículo de carreira.

Mas também não chegou a ser necessariamente uma escolha infeliz, afinal, este livro passa longe de ser desprezível. A trama foi altamente desenvolvida para ser lida como comédia besteirol, e caso você seja um religioso bitolado, meu conselho é passar longe da obra. Aqui Deus é um ser entediado, inconsequente, cheio de vaidade, presidente e fundador da CÉU LTDA. Sim, o paraíso é uma empresa, pessimamente administrada pelo altíssimo, onde seus funcionários são anjos que atuam de forma tão ou mais irresponsável que o patrão. E neste ínterim, surge o intento do divino de destruir a Terra, ideia que ele adia por conta de uma aposta que faz com dois de seus anjos, protagonistas principais, de simplesmente unirem um casal improvável de humanos.

Bom, como comédia o livro é morno quase que o tempo inteiro (ou talvez seja eu que ao longo dos anos esteja me tornando um leitor ranzinza e sem paciência para piadas fáceis e sem originalidade). Achei que a química da trama com as situações não propiciaram muitos momentos hilários. Talvez o enredo funcionasse melhor com situações diferentes das que foram escritas, mas é apenas minha opinião.

Deus, apesar de não ser um personagem muito original, deveria ter sido mais aproveitado pelo autor, pois é nos raros instantes em que ele aparece que a comédia da obra parece dar um gás.

Obviamente a trama só funciona se você a ler de maneira imparcial e sem nenhum conceito sobre nada. Porque se levado à luz de qualquer ponto de vista teológico, mitológico ou filosófico, fará com que o leitor encontre e se incomode com as inevitáveis contradições e mancadas na estrutura do universo criado por Simon Rich. TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO é, antes de qualquer outra coisa, um entretenimento singelo, meio besteirol, o qual em nada agradará se o seu olhar for muito crítico.

Poderia então dizer que este tenha sido o meu caso?

Não exatamente, pois quando me propus a ler o livro, eu encontrei, de certa maneira, aquilo que buscava. Mas o que ocorreu ao longo da leitura, foi que eu não curti muito a trama como um todo; só que um todo por mim encarado sempre como comédia mesmo.
O livro às vezes tem um ar mais adolescente, noutros momentos, parece ser uma comédia adulta que logo destilará situações embaraçosas ou humor escrachado. Mas o enredo não aquece e segue seu meio termo por toda leitura.

E por falar em leitura, esta flui fácil, mesmo não sendo muito engraçada. A trama, que em alguns poucos instantes até chega a divertir, parece ser algo do tipo comédias de sessão da tarde, ou um episódio do Chaves no qual assistimos até o fim, mesmo sabendo que este se repete pela enésima vez.

Por fim, não sinto que desperdicei dinheiro adquirindo a este TRABALHAR NO PARAÍSO PODE SER UM INFERNO, mas o considero um livro esquecível, cuja ideia poderia ter sido melhor aproveitada.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

RESENHA DE LIVRO – RAZÃO E SENSIBILIDADE


Antes mesmo de iniciar minha leitura de mais este clássico da literatura, constatei que alguns comentários pela internet alertavam a nós, leitores iniciantes em Jane Austen, de que esta não é a sua melhor obra. E mesmo deixando de lado a opinião da maioria dos internautas, devo dizer que eu esperava mais deste RAZÃO E SENSIBILIDADE. Afinal, é possível encontrar até críticos literários comparando as obras da moça com as de Shakespeare. Contudo, se ORGULHO E PRECONCEITO (livro mais famoso da autora) for, de fato, a obra perfeita de Austen, creio que estou no caminho certo, pois penso que todo autor deve ser lido do pior livro para o melhor. Porque começar a ler um autor por seu melhor trabalho pode ofuscar os demais.

A trama de RAZÃO E SENSIBILIDADE conta a história de duas irmãs que representam a dicotomia sugerida pelo título. Temos então duas protagonistas movidas pela intensidade de seus distintos afetos; a mais velha, Elinor, é amplamente sensata e comedida, enquanto Marianne se mostra excessivamente impetuosa e romântica. Jane Austen nos oferece um excelente panorama do mundo regrado das mulheres que viveram em sua época, nos mostra por meio da vivência de suas personagens, uma sociedade completamente submetida a conceitos rígidos no qual as mulheres são tratadas como se fossem mercadorias; meros objetos vazios de conteúdo e importância social, que precisam moldar sua realidade diminuta e desnecessária às imposições patriarcais da época.

Obrigadas a viver dentro de um mundo regido pelo dinheiro, posição social e interesses, as irmãs sofrem por conta de não possuírem fortuna e conexões com a alta burguesia, deixando-as à mercê da sorte, ou puramente fadadas ao incerto destino, que quase nada lhes reserva.

Os pontos altos da obra ficam por conta da bem elaborada personificação da razão em uma das personagens, e da sensibilidade na outra, características que foram muito bem construídas pela autora. Vez ou outra, podemos até cogitar certa inversão sentimental em ambas, mas conforme avançamos na leitura fica claro quem são e quais os sentimentos primordiais em Elinor e Marianne.

Outro ponto que agrada muito é a ambientação georgiana do texto, onde nos deparamos com detalhes enriquecidos daquela regrada época, que vão desde a inserção de ambientes sofisticados, os costumes e trajes formais, e até a linguagem exageradamente cerimoniosa, algo que deixa os textos desse período com um charme agradável.

Mas achei que Jane Austen peca em alguns aspectos. O primeiro deles é a constância. O livro demora muito sem que nada de relevante aconteça, deixando-nos receosos quanto a suas mais de quatrocentos e cinquenta páginas. A trama começa morna e não se eleva em momento algum. Nem mesmo em sua reta final, quando revelações e reviravoltas surgem, não há nada que nos faça delirar. O segmento do livro não chega a decepcionar, mas mantém sempre uma perigosa linha tênue entre o enfado e a mesmice.

Também fiquei um pouco incomodado com a considerável quantidade de coadjuvantes que a autora lança no texto sem esperar o leitor digerir com calma. Muita gente inserida em pouco tempo de leitura, nos deixando com certa dificuldade em nos familiarizar com personagens e suas linhas de importância no enredo. Alguns deles nos são apresentados logo no início, então ficamos com a sensação de que serão peças fundamentais da trama, mas só voltamos a vê-los ocasionalmente, quando já nem nos lembrávamos de seus nomes.

De qualquer forma, estamos falando de uma grande autora, cuja notoriedade não surgiu por acaso. Jane Austen sabe descrever cenários detalhados, é extremamente habilidosa em criar personalidade em seus personagens e consegue nos atrair para perto deles, condição que nos faz amar ou detestar suas particularidades. E embora os leitores online sugiram que comecemos a ler Austen por ORGULHO E PRECONCEITO, penso que vale muito à pena conferir esta obra, dotada de charme peculiar dos tempos georgianos, e de muita riqueza características da complexidade humana.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

CRÔNICA - A SUJEIRA DEFINIDORA

Hoje deu vontade de comer macarrão. Veio bem temperado com alho e, apesar de considerar um pouco frio, o sabor estava muito bom. Ao meu redor o cenário era a praça de alimentação do Shopping Vitória, o tipo de lugar em que é inevitável nos depararmos com o contraste social. E não me refiro especificamente ao contraste gustativo, onde a culinária mineira mistura-se ao cheiro dos customizados hambúrgueres americanos e o colorido alegre dos sushis enfeitando as louças.

Não. Aqui neste lugar a mistura cultural tem uma aparência simuladamente benigna, mas que na realidade esconde seu caráter separatista dogmático, que distribui indivíduos pelo capital aquisitivo.

Mas isso não me faz interromper a mastigação. Posso seguir com as garfadas no macarrão delicioso e frio, enquanto contemplo a discrepância social.

Por todos os lados, pessoas se empanturrando de alimentos preparados com dissimulada sofisticação que justifique seu astronômico preço; a juventude detentora de uma costumeira vontade de ser descolada; executivos encoleirados em seus aparelhos eletrônicos de última geração; vendedores internos em horários de almoço; famílias que saíram de suas casas para encontrar algo que já se perdera há décadas: o sentido de se estar juntos... Todos dividem o improvável espaço com os funcionários encarregados da limpeza do shopping; reles fantasmas que caminham no meio da gente, sem serem notados, doutrinados a exercer função que é desprezada pelo consumidor contemporâneo: higienizar o ambiente. Tratam-se de seres adestrados à submissão, cuja incumbência essencial não é a manutenção do recinto, propriamente, mas amaciar o ego dos preguiçosos clientes que infestam nossos parques de diversões modernos.

Afinal, o primoroso sistema capitalista, como se fosse uma madrasta zelosa, nunca se esquece de acolher a cada um de seus filhos, colocando-os em seus devidos lugares... E desta ordem criteriosa nasceram os miseráveis.

Sim, sou integrante deste sistema moedor de carne humana, e o macarrão também fazia parte da sofisticação alimentar que, mesmo proporcionando considerável prazer, era incapaz de justificar o seu preço abusivo. Estou inserido no grupo dos que se acham pertencentes a uma classe social superior, simplesmente por me encontrar sentado na praça de alimentação, comendo numa bandeja, como fazem detentos de uma penitenciária, em vez de estar em pé, usando vestes excêntricas, circulando por todos os lados portando esfregão e vassoura.

Tal constatação fez com que eu sentisse um pouco de vergonha por representar a classe sedentária que é incapaz de cuidar da própria sujeira. Ou pior: achando que cuidar de uma bandeja vazia e suja é coisa pra gente subalterna fazer.

Enquanto refletia sobre tal discrepância, uma moça rudemente uniformizada surgiu em minha frente. Claro, afinal de contas, o uniforme deve sempre ser identificador do tipo de gente com que estamos lidando. E o brim grosso, cinzento e inconveniente, estava em plena conformidade para que, tanto clientes quanto os próprios funcionários soubessem que aquele é apenas um prestador de serviços ignóbil e substituível..., genuína nulidade, transparente. Então diante de mim pairava este ser ordinário, prontamente treinado para cuidar da bandeja vazia que eu havia deixado de lado para poder rascunhar este texto.

Um pouco desconfortável por constatar que faço mesmo parte do grupo dos imbecis, tentei amenizar a situação agradecendo pela gentileza que a mim fora prestada. Mas a mulher praticamente não notou e, conformada com sua condição de mal necessário, ela se foi, certamente convicta de que um obrigado era mais do que merecia.

Ao meu lado, um grupo de estudantes, terminando de lanchar e olhando ao redor como se o mundo fosse um interminável tédio. Um deles usava na cabeça uma coroa de papelão, que ganhou de brinde numa lanchonete de nome ostensivo, justamente por ter escolhido o lanche “mais feliz”. Após algum tempo, vossa majestade foi embora, satisfeita, seguido por seus súditos burgueses, sem darem importância ao que será feito dos intermináveis restos espalhados na mesa onde se encontravam.

Enquanto isso, os fantasmas seguiam recolhendo bandejas, limpando mesas, devolvendo a decência ao ambiente para que ele continuasse sendo desfrutado pela classe superior. E apesar da pele escura que os distinguiam da clientela, eles não eram notados e talvez assim devesse proceder tal existência, porque a cegueira faz bem e ajuda a não pensarmos em diferenças sociais; serve para manter a ordem vigente, porque a desordem incomoda até mesmo aos que careceriam de serem vistos. Sim, pois quando um dos funcionários reparou o meu exagerado interesse em seus recônditos afazeres, logo tratou de assumir uma postura ainda mais servil, talvez até suplicante..., afinal, imaginavam que eu pudesse ser alguém da administração do shopping, a lhes fiscalizar enquanto trabalhavam.

Dois ou três se uniram, cochicharam entre si, certamente solidarizados à cerca da suposta ameaça que eu agora representava. Então passaram a limpar mesas com maior zelo, sorrindo para os arrogantes clientes, e mantendo cautela com o suspeito rapaz que inadequadamente os observava e fazia anotações contundentes numa folha de papel.

Sim, os fantasmas temiam perder o emprego mais insubsistente da sociedade. Sabiam que não lhes restava mais o que fazer no meio de uma comunidade casta e elitista, que paga de bom grado alguma esmola que leva o nome de salário, a troco de alguém que lhes limpe o próprio rabo. Porque vivemos numa sociedade em que, olha só: a nossa sujeira e preguiça gera empregos.

Mas os fantasmas da praça de alimentação não são idiotas. Eles aquiescem frente ao menor risco de que mudanças administrativas precisem ser tomadas. Receiam que a logística do shopping perceba o quanto alguns consumidores, os raros mais atentos, sintam-se desconfortáveis ao ter que conviver em meio a gente que cuida da sujeira por eles deixada; o lado social mimado, que precisa de alguém que dê um jeito na imundice, mas que não se sente à vontade vendo quem são essas pessoas. E como um bando de Pilatos pós-modernos, lavam as mãos e sugerem furtivamente que os fantasmas sejam sumariamente substituídos por máquinas inexpressivas, que sejam capazes de lidar com a limpeza do consumismo, sem que sua presença metálica cause algum tipo de culpa... Esta é a lógica do medo no olhar dos fantasmas.

Pois qualquer mudança radical e moderna poderá lhes custar o emprego;

Meu grito interno de revolta ao me deparar com o contraste social poderá desencadear em protestos que lhes custará o emprego;

Pensar neles como trabalhadores coitadinhos é uma ideia perigosa, que se levada ao pé da letra, resultará em demissões. Porque o desenvolvimento científico moderno está aí, espreitando para entrar no cenário e mudar isso tudo. Colocar aqueles que não são capacitados, os que não tiveram as mesmas chances, os miseráveis, exatamente no seu devido lugar: bem longe do consumidor que sabe que seus cartões de crédito ditam o jogo, e ao menor sinal de culpa solicitarão que alguém tome uma providência.

Esse deve ser o pesadelo dos fantasmas: máquinas entrando em cena para lhes surrupiar o emprego. Ou mais distante do provável, nossa educação e zelo se fazer presente em sociedade, então não precisaremos mais que retirem nossa sujeira da mesa, pois nós mesmos o faremos...

E no lugar de receber contracheques irrisórios, os fantasmas passearão de um lado para o outro, com a palma de suas mãos viradas para o céu, implorando por alguns trocados. Mas isso eles terão que fazer bem longe da praça de alimentação. Porque ali estes seres indignos não podem entrar.

Melhor deixar esse assunto de lado; melhor me esquecer de toda essa besteira e não mais apontar com meu dedo sujo com molho de macarronada as lacunas sociais; melhor manter distância dos meios urbanos, porque olhar muito de perto para eles faz com que eu sinta o cheiro da podridão...

E viva a sujeira empregatícia deixada pela burguesia gorda e preguiçosa!