sexta-feira, 14 de abril de 2017

RESENHA DE LIVRO: A NOITE MAIS ESCURA DO ANO


Confesso que sustentei certa desconfiança quando chegou a vez de ler este A NOITE MAIS ESCURA DO ANO. Sim, pois alguém havia comentado na internet que o livro era religioso demais. E embora o autor Dean Koontz não tenha nenhum pudor em inserir uma veia religiosa em seu trabalho, meu pessimismo foi se desfazendo ao longo da leitura, mesmo que a experiência final é de ter terminado de ler uma obra mediana.

A trama possui personagens relativamente bem construídos. Os diálogos são convincentes e coesos, vez ou outra o leitor encontra sacadas irônicas que nos permite certa proximidade identitária. Amy Redwing é uma mulher com um passado misterioso, que encontrou na função de resgatar Golden Retrievers vítimas de maus tratos, um sentido em sua vida. Ela é ajudada pelo namorado, Brian McCarthy, mesmo que este considere a moça um tanto imprudente e impetuosa. E como só poderia acontecer em enredos dotados de certa profundidade, o velho Brian também possui um passado espreitando ao seu redor.

Uma coisa que gostei muito neste autor é quanto ao seu detalhismo elegante. Dean Koontz sabe construir cenários escritos com tamanha eloquência que acabam grudando na mente do leitor. Outro aspecto que me agradou bastante é a forma como ele discorre sobre uma literatura na qual cães são quase que protagonistas principais, mesmo perante essa dificuldade de narrar seres que não verbalizam, a história se tornou enriquecida pelas situações protagonizadas pelos animais. Os cachorros parecem mesmo cachorros, se é que esta definição tenha algum sentido... Mas acredito que do ponto de vista literário, só mesmo grandes narradores são capazes de dar vida a seres dotados apenas de linguagem corporal ou comunicação limitada.

Mas infelizmente a obra não é dotada somente de aprazimentos. E alguns aspectos incomodaram um pouco. O primeiro deles fica por conta justamente dos cães. E se a você também pareceu estranha a menção sobre o ofício da protagonista ser, de fato, resgatar Golden Retrievers abandonados ou que foram vítimas de maus tratos, eu passei grande parte da leitura procurando entender a lógica de uma organização empenhada em cuidar de uma raça específica, em vez de se ater a cães abandonados de um modo geral.

É claro que a explicação para isso é óbvia: o autor tem elevado fascínio por Golden Retrievers. No entanto, esta especificidade me fez pensar nos personagens como sendo agentes em prol de uma raça peculiar, e que os mesmos passariam batido se cruzassem com um vira-lata abandonado na rua. É uma espécie de limite do altruísmo.

A linguagem religiosa de fato está inserida com certa frequência, como foi observado pelo comentário que li na internet. Mas os caprichos dialogais e os detalhes enriquecidos das situações narrativas ofuscam os conceitos dogmáticos do autor, impedindo que estes incomodem muito. Talvez pior do que a mera inclinação mística de Dean Koontz, seja sua tentativa de construir características claras do que distinguiriam pessoas boas de ruins; o autor procura separar o joio do trigo como se seres humanos fossem constituídos por identidades de fácil percepção; como se a maledicência fosse inerente a certo tipo de pessoa.

A NOITE MAIS ESCURA DO ANO é uma literatura de ampla mescla estrutural. Possui alguns elementos dramáticos, doses de misticismo, sequencias de suspense policial e diálogos concisos e bem elaborados. É uma salada que talvez não agrade a todo tipo de leitor. Além de um desfecho com cara de posfácio, o que achei desnecessário... Mas é uma leitura que não decepciona, é cheia de instantes bem narrados e que deve agradar até aos mais exigentes leitores.

quarta-feira, 15 de março de 2017

CRÔNICA - A PERDA DA GENTILEZA


Quando um entediado demônio perguntou ao próprio diabo por que ele não estava mais preocupado em corromper e desviar a bondade humana, o tinhoso respondeu sem titubeio: “Não é preciso nenhum esforço de minha parte. Os homens já fazem isso bem melhor do que eu”.

O impulso humano em se parecer maior desperta a comparação e atiça a disputa. Esta comparação sucede-se até virar vício e daí surge a vaidade, que depois se transformar em inveja. Então nesse ponto já se perdeu a possibilidade de harmonia e a capacidade de discernimento... Sim, senhor diabo, não precisamos de você para nos destruir.

Recentemente comecei a tirar carteira de habilitação. Foi um presente da minha namorada, ao constatar que jamais farei isso por vontade própria. Nunca tive interesse por veículos automotores, embora aprecie algumas de suas praticidades. Mas foi durante uma das aulas de legislação, que comecei a entender as razões por trás desta minha particular aversão ao trânsito: o ódio generalizado que este ambiente desencadeia. E eu só soube disso porque um medo incontrolável aflorou em meu ser, no instante em que o professor exibiu um vídeo que documentava a violência no trânsito. Não a violência causada pelos trágicos acidentes, mas a violência orquestrada pela cólera aflorada nas pessoas que precisam dividir espaço tão escasso, onde caixas motorizadas tentam subjugar umas as outras.

Literalmente é uma guerra diária.

Outro exemplo notório da proliferação do ódio é a internet. E embora se trate de um espaço estrutural infinitamente maior, a internet tem se mostrado um antro de intolerância desenfreada. Por toda a Web se propagam vídeos de ataques a ideias, conceitos ou qualquer veiculação que instigue alguma forma de contradição; comentários odiosos cheios de preconceitos; ofensas sem nenhuma restrição; o desrespeito subjugando a ética da convivência... Talvez porque através de uma tela de computador nos tornamos infinitamente mais corajosos em expor o nosso inconformismo frente ao que nos é diferente. Ou simplesmente porque através da internet criamos avatares que camuflam e escondem nossa verdadeira face.

Vivemos numa sociedade de ininterrupta competição, como se todos os seres humanos ao redor fossem adversários em potencial. Não podemos baixar a guarda em nenhum momento porque o descanso é sinal de fraqueza; escolher por uma vida de menos obtenções ou apenas ter o suficiente é atitude de gente submissa. Somos uma sociedade inserida numa panela de pressão, prestes a explodir...

Ver toda essa intolerância às vezes desperta sentimento semelhante ao ocasionado pelo vídeo promovido pelo instrutor de trânsito: suscita o medo em meu ser... Medo das pessoas. E mesmo confessando este medo, eu sei que também faço parte deste universo maledicente. Aliás, o medo é um poderoso combustível para alimentar o ódio.

O desencadeamento da cólera humana só poderia resultar (entre cenários por nós já tão conhecidos de violências urbanas e guerras) num lugar áspero de desconfiança e ressentimento, onde a gentileza deixou de ser parte de nossa constituição.

Sobre um vetusto dito popular que infelizmente parece equivocado de que “gentileza gera gentileza”, paira sobre minha cabeça algo discrepante. Eu só consigo notar nesta teoria aparentemente ingênua, mais da maldade humana. A ideia de que uma ação cortês sucederá noutra, parte do pressuposto de que até mesmo as ações altruístas do ser humano não passam de barganha coletiva. Faremos algo gentil esperando sempre que algo semelhante nos seja devolvido. Não há espaço para a intenção despretensiosa. E quando essa gentileza dissimulada não acontece, nós aprendemos rapidamente a manifestar o ressentimento na forma de revide.

Procurando fugir do isolamento, as pessoas desenvolveram seus métodos de convivência baseados em modelos sociais de grupos, geralmente identificados por renda, religião ou futebol, pela melanina ou simplesmente por forma física. Grupos que se odeiam mutuamente, mas que talvez convivessem em maior harmonia, desde que cada um permanecesse no seu quadrado. No entanto, grupos sociais são pequenas esferas de uma infinita floresta suburbana, na qual tais grupos se dispersam para disputar espaço, seja na escola, nas estradas, no ambiente de trabalho, no supermercado, na fila do banco, na praça pública. Indivíduos pertencentes a distintos grupos, que se veem difundidos, pois precisam resolver questões cotidianas, acabam fazendo a leitura do outro como sendo uma realidade que tenta subjugar a sua própria, desencadeando um egoísmo que gera faíscas pérfidas de desconfiança.

Então semelhantes desconhecem-se, tornam a convivência dispersa por meio da indiferença: um lugar no ônibus que não é concedido; um desconto obsequioso que é negado a um carecido; um objeto ignorado que caiu no chão; uma fila furada na cara dura; uma cortesia sumariamente negada; ouvidos fechados ao que está fora da bolha.

Pra piorar, um elemento aprofundou ainda mais a desconfiança coletiva. E se não era possível que houvesse gentileza por meio da boa vontade, então devíamos encarar um inimigo em comum para que odiemos de mãos dadas. Este inimigo se chamaria “Governo”. Mas nem mesmo a asquerosa corja dos políticos foi capaz de nos unir ao redor de um objetivo comum...

O Governo que causaria aproximação com o semelhante, por meio de sua veia opressora, organizou-se em políticas partidárias que só elevou a polarização das bolhas em conceitos de direita e esquerda.

O grande Tácito, na Roma clássica, dizia que “os homens apressam-se mais em retribuir um dano do que um benefício”. Parece-me atual, pois enquanto estamos a acompanhar o porco gordo do capitalismo minando nossas conquistas, bravejamos uns com os outros e viramos as costas para aquele sujeito que votou no candidato X. E no meio do apocalipse diário fazemos da incivilidade o nosso maior hábito.

Ao ler um texto que me pareceu utópico de um psicólogo pacifista, ele disse que a gentileza anda de mãos dadas com a educação. E embora esta ideia pareça um tanto pertinente, percebo que mesmo um verbo tão próspero quanto educar, parece estar se perdendo em conceitos contraditórios. Houve um relativismo na forma com que ensinamos a cortesia. Afinal de contas, nem todo mundo merece amabilidade e demonstrar isso o tempo inteiro se tornou sinal claro de fraqueza.

Porque o Sistema exige que você seja forte;

Porque o seu grupo social admira sua valentia;

Porque se frear com seus compromissos será ultrapassado por seu vizinho;

Porque o sucesso é a linha de chegada dos corajosos.

Gentileza virou coisa de indivíduo incapaz. Sim, pois somente quando se está acuado ou enfraquecido é que olhamos para o lado e lá estão as ameaças. É quando a nossa impotência se eleva a patamares degradantes que dissimulamos e assumimos uma postura cortês; pechinchamos em busca de apaziguar as relações; largamos o osso apenas quando não temos mais dentes para continuar mordendo. No entanto, só o que queremos é galgar topos maiores, e quando o semelhante se mostrar um obstáculo, este será tratado como tal.

Fomos ensinados que gentileza inferioriza, enfraquece e demanda humildade, algo que não sabemos mais o que significa. Melhor é ser odioso e insensível porque nos deixa com a aparência de espertos e soberanos. Num mundo de desafetos é vantajoso parecermos inabaláveis para que ninguém pense em fazer xixi na nossa horta.

Então, o mesmo psicólogo cita em seu dócil texto que o maior exemplo da gentileza humana está nas situações de grandes catástrofes; que é nos momentos de maior dor que o ser humano demonstra seu altruísmo e que, segundo o texto, este ato é intrínseco de nossa espécie.

Sim, eu comungo desta ideia. E sem pensar nós estamos lá, enfiando nossas caras na lama para retirar alguém que foi soterrado num desastre. Não sei se isto é atitude de nossa natureza, mas se for verdade, então eu estarei ainda mais convencido de que estamos assassinando até mesmo a generosidade da nossa essência, em detrimento de obtenções superficiais ou de vantagens efêmeras, enquanto caminhamos rumo ao mais profundo umbral de nossa alma; a maldade difundida numa ética do avesso, de convivência relativa e dissimulada...

sábado, 11 de março de 2017

RESENHA DE LIVRO – PEQUENA ABELHA


Minha segunda incursão numa obra de Chris Cleave serviu para confirmar o que eu já suspeitava: ele é mesmo um excelente contador de histórias contemporâneas. Desde que li Ouro, obra menos notória do cara (vide resenha aqui no blog), fiquei maravilhado com a precisa condução narrativa e ótimos personagens. E neste PEQUENA ABELHA a elevada dose criativa se repete.

Este é o livro mais famoso de Chris Cleave e, de fato, merece todo o prestígio. Mas confesso que gostei mais de Ouro. E embora aqui o preciosismo literário do autor também seja fascinante, eu achei que em certa altura da trama, esta acaba dando relativa amornada. No entanto, mesmo que esta leve queda seja sentida, a obra como um todo permanece formidável.

A trama conta a historia de uma garota refugiada da Nigeria que tentou entrar clandestinamente na Inglaterra, mas acabou indo parar numa casa de detenção de refugiados. Alternadamente também acompanhamos a trajetória de Sarah, uma editora de classe média que apesar do sucesso profissional, leva uma vida infeliz. Logo no início da história algumas revelações já começam a entremear as duas protagonistas principais. Portanto, não dá pra falar muito sobre a trama pra não cometer nenhuma gafe. Só o que posso adiantar é que Chris Cleave constrói um enredo arrebatador e cheio de revelações, onde ninguém é impoluto ou irreprovável.

Narrado em primeira pessoa, cada capítulo possui uma protagonista como contista, sendo que meus capítulos favoritos são os narrados pela heroína que dá título à obra. Abelhinha é um doce de garota e seu ponto de vista comparativo, ao falar diretamente com o leitor sobre as diferenças e semelhanças de seu país com a Inglaterra são geniais.

Pois é quando estamos acompanhando o dia-dia de Sarah que achei que o ritmo da história acabou perdendo um pouco de brilho. Mas creio que mesmo este ato fora proposital, afinal, a personagem denota traços depressivos, o que acaba respingando na leitura.

Os personagens secundários também possuem características distintas e interessantes, mas mesmo sobre estes detalhes não poderei falar muito, pois posso acabar revelando detalhes que tirariam a graça de quem ainda vai ler. Um único sujeito que dá pra falar é do Batman; o pequeno filho de Sarah que é fascinado pelo herói dos quadrinhos. O moleque vive enfiado em fantasias do morcegão e passeia pela sua infância à procura de malfeitores para derrotar.

PEQUENA ABELHA é uma obra estupenda! É delicada, de personagens bem construídos e enredo coeso. E dentre as muitas mensagens que o livro propositalmente passa ao leitor, a que mais gostei é quanto da fragilidade humana poder interferir no meio em que ele está inserido; que ações desencadeiam em intermináveis efeitos imprevisíveis, neste mundo onde não existe heroísmo fundamentado, apenas seres humanos falhos tentando sobreviver ao caos da melhor forma possível.

quinta-feira, 2 de março de 2017

RESENHA DE LIVRO: SECREÇÕES, EXCREÇÕES E DESATINOS


Genialidade narrativa é condição afiançada nos contos do mestre Rubem Fonseca. E embora esta não seja a melhor compilação deste autor, podemos encontrar um pouco da textualidade eloquente que se tornou marca registrada e fez deste contista um dos maiores escritores do nosso país. Tirar o velho Rubem das prateleiras é ato garantidor de se estar levando pra casa um livro extraordinário, ou no mínimo desconcertante.

Mas para o caso de você ser um leitor que ainda não conhece o universo Fonsequiano, creio que este SECREÇÕES, EXCREÇÕES E DESATINOS não venha à ser o livro ideal para se iniciar este grande autor, justamente porque aqui as coisas tendem a ser menos extraordinárias e mais desconcertantes.

Narrados em primeira pessoa, praticamente todos os contos dessa obra possuem uma pegada coloquial que discorre situações de difícil abordagem, principalmente do ponto de vista literário. O Grande Rubem pega o leitor pelo braço e o conduz a uma viagem através dos resíduos fétidos não utilizáveis do corpo humano. E para suportar esta ordinária leitura é preciso uma dose cavalar de desatino, como sugere o título.

Faço esta observação porque apesar de ser outro bom trabalho do autor, este me parece um pouco ácido, o que pode comprometer a análise do leitor de primeira viagem; aqueles que ainda não conhecem o cunho enxuto e erudito de Fonseca.

Mas é do cara que estamos falando, portanto, o brilhantismo fica por conta da sincronia entre Rubem e leitor. E talvez para que esta coletânea seja bem digerida, é preciso que se tenha certa imparcialidade frente à sua premissa ousada e indecorosa... Porque algumas artes carecem de um olhar passivo e sensato para que sua beleza seja reluzida.

Um grande volume para se ter na estante. Principalmente para os leitores já íntimos da genialidade de Rubem Fonseca, ou aos ousados que procuram obras que estejam muito longe da zona de conforto e da mesmice literária.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CONTO: INCONSONÂNCIA


– Oi, eu posso me sentar do seu lado? As outras mesas estão cheias.

– Pode. – só deixei porque eu já havia terminado de comer. Qualquer tipo de alimento perde totalmente o gosto quando se está comendo sob os olhares de um estranho.

Vasculhei ao redor e vi que era mentira. Havia outros lugares disponíveis, alguns até na companhia de gente mais agradável do que eu. Restou-me a perspicácia de tentar desvendar os motivos que o levaram a querer se sentar do meu lado.

Ele era velho. Pelo menos uns cinquenta anos. Poucos fios lhe restavam na cabeça, a maioria ladeando seu expressivo cocuruto. O rosto arredondado como um balão de festas; a barba grisalha e mal distribuída; os olhos pequenos e sôfregos, cercados por cavidades negras... O queixo movia-se pra frente quando ele mastigava.

Estava comendo um desses sanduíches enormes e coloridos com tantos ingredientes que um sabor acaba anulando o outro. Usava uma camisa de uniforme azul claro; no pescoço pendia um crachá onde pude ler o seu nome.

Baltazar.

O sobrenome continha cinco letras e apenas uma vogal. Era simplesmente impronunciável.
Muito delicadamente ele retirava alguma coisa que não gostava no lanche. Usando as pontas dos dedos como se fossem pinças, ele pescava o objeto indesejado e o deixava na bandeja.

Não devia ser um homem sedentário, pois tinha braços musculosos, ambos abertos feitos asas para melhor envolver o pobre sanduiche. Mordia com tamanha fúria, que cheguei a temer ele se enganar e arrancar um de seus dedos. O corpo aparentemente atlético não condizia nem um pouco com a idade avançada. Era o rosto cansado que lhe traía.

Não sei explicar as razões, mas eu fiquei o tempo inteiro olhando para ele comer, mesmo já tendo terminado com minha refeição. Eu fingia estar mexendo no celular e o olhava cautelosamente, por cima da tela, tentando entender minha inesperada atração pela repugnância.

– Posso usar a sua maionese? – perguntou.

– Pode. – Por que diabos eu sempre cedo a todas as vontades dos outros? Por que me é tão difícil dizer não para um estranho? Eu estava guardando os sachês de maionese para levar pra casa, portanto, ele não poderia usar. Mas lá estava eu lhe entregando a contragosto todos os meus sachês, que ele usou para lambrecar o lanche.

E por cima do telefone eu testemunhava um sanduíche ser destruído de maneira impiedosa e em pouquíssimos minutos. Devia se tratar de um consultor e talvez estivesse atrasado. Pra ajudar a descer o pão pela garganta ele virou um copo duplo de Coca-Cola. Verificou ao redor e constatou que não tinha pegado guardanapos, então usou as costas da mão para limpar a boca. Por um instante eu cheguei a pensar que ele fosse arrotar bem na minha cara.

Se ele estava me olhando de canto de olho, não deixou que eu visse. Na verdade não parecia nem um pouco interessado em mim. Enquanto havia um lanche em sua frente ele não fez cerimônias. E após descê-lo goela abaixo, ficou a olhar distraidamente para o cenário ao redor, como quem está desconectado com este mundo.

Outra vez tomada pela dúvida, eu não conseguia compreender qual era a daquele coroa. Se estivesse tentando uma aproximação furtiva, a estratégia esbarrou em sua incorrigível timidez. Se só procurava um lugar sossegado para lanchar, este era absurdamente desatento ou dotado de percepção elevada ao identificar que eu seria a pessoa a lhe arranjar mais maionese.

Ele fez movimentos estranhos com o pescoço. Ameaçou se levantar duas vezes e desistiu por alguma razão. Verificou algo no celular, afrouxou a gola da camisa por conta do calor, depois ameaçou uma terceira levantada.

Acho que exagerei no meu comportamento conspícuo. Porque o coroa estava em vias de ir embora sem sequer ter me notado. Sei que não sou uma mulher do tipo que faz o trânsito parar, mas eu sei que notam minha beleza quando conversam comigo.

Talvez tivesse sido legal conversar com aquele sujeito estranho.

Mas acho que definitivamente as coisas não são como nos filmes, porque se assim o fosse, ele teria usado seu charme e puxado um papo inteligente comigo. Eu lhe daria um sorriso discreto e iniciaríamos uma conversa sofisticada e sedutora. Marcaríamos outros encontros, cada vez mais estreitos e invasivos, até o dia em que encontraríamos a virtuosa intimidade. E vazios da descoberta, nós voltaríamos a ser solitários almoços na praça de alimentação, lugar em que o maior apetite é despertado pela diversidade de indivíduos com feições de possibilidade... A possibilidade de um dia alguém sedutor se sentar ao nosso lado e pedir os sachês de maionese emprestados.

***

O cheiro do lanche estava maravilhoso. Achei que seria capaz de devorá-lo com uma só bocada! A praça de alimentação estava bem cheia, então levei algum tempo até avistar uma moça que parecia já estar terminando sua refeição.

– Oi, eu posso me sentar do seu lado? – perguntei, tentando ser o mais discreto possível – As outras mesas estão cheias.

– Pode. – respondeu ela friamente.

Não foi nada inesperado, sei muito bem o tipo de homem que se reflete diante de mim no espelho. As mulheres costumam ter repulsa de mim no primeiro contato. Tudo bem, eu só precisava comer rapidinho e voltar ao trabalho.

Fiquei me perguntando o que eu diria praquela moça se ela fosse minha próxima cliente? Deixe-me ver: seus cabelos estavam presos num coque e as unhas não tinham esmalte, o que significava que era uma mulher que gostava de praticidade. Possuía o dom da curiosidade, pois desde que me sentei ela não parou de me olhar. Ficava despistando com o telefone na mão, mas eu sabia que ela me olhava. E por falar nisso, seus olhos estavam muito maquiados com sombra escura, condição que não contribuía para o seu disfarce de garota resolvida. Devia ter em torno de vinte e cinco, mas eu achei que isso era intencional, ela usava roupas que a fazia parecer mais velha... Talvez tivesse uns dezenove. O nariz era afinado e os lábios compridos. Apesar de enrustida, era uma bela jovem de pele amarronzada.

Enquanto eu dava mordidas monstruosas no pão, pairavam em minha mente quais seriam as possibilidades caso eu quisesse convencer a minha acompanhante de mesa a fazer um plano de saúde. Concluí que não deveria ser muito difícil, apesar de achá-la jovem demais. Talvez sugerir algo dessa natureza para alguém que quer se parecer mais velho, certamente atiçaria seu interesse, porque as pessoas não costumam oferecer planos de saúde para gente nova... Jovens acham que são imortais.

Meu público alvo são os velhos! Estes sim apreciam qualquer negócio que os façam pensar que estão barganhando com a morte; os velhos sabem de seus limites existenciais e do tempo curto que lhes restam. E eu vendia o serviço que poderia assegurar sua estadia no mundo por mais algum tempo.

Passei o olhar rapidamente sobre ela e vi que seus olhos estavam concentrados na altura da gola da minha camisa, tentando ler o nome no crachá... Gosto de almoçar com o crachá porque isso facilita na hora de tentar proximidade.

Eu teria encarado diretamente nos seus olhos, mas isso pareceria deselegante demais pra alguém que só está dividindo a mesa de refeição. Mulheres não são nem um pouco ariscas, mas fazem de tudo para se parecerem assim.

Meu lanche estava seco demais. Ou isto, ou era eu que estava engolindo muito depressa. De qualquer forma, isso me deu uma ideia de aproximação. Ela não me parecia ser alguém muito inteligente, então talvez com uma bem elaborada abordagem eu conseguisse iniciar uma conversa que terminasse com outra assinatura pra ajudar a bater a meta do dia.

– Posso usar a sua maionese? – junto com a indagação expus um sorriso amigável, já armado para dar continuidade ao papo.

– Pode.

De maneira desajeitada, ela pegou todas as maioneses e colocou diante da minha bandeja. Imaginei que fosse me dar só uma ou duas, mas ela colocou todos os sachês ao meu dispor. Em seguida, tentou arrumar atrás da orelha um fio rebelde que se desprendeu do coque. O olhar se movendo muito rápido por todos os lados, como quem anseia por uma fuga.

Definitivamente ela era muito acanhada com estranhos. Talvez fosse casada, apesar de não ter nenhum anel em seus dedos. Voltou para a tela do celular, mas era nítido o desinteresse no objeto; ela estava usando o aparelho como escudo para se proteger de mim.

Por que ela não foi embora? Afinal, já havia terminado sua refeição há tempos.

Como manda a cartilha do bom vendedor, eu sei que devo evitar comportamentos que denotem minha audácia. Os caras que mais enriquecem no meu ramo sabem conduzir aproximação furtiva com requintes de desvelo. É preciso caçar feito um felino na minha profissão; saber encontrar o local certo para espreitar; esperar pacientemente o momento mais oportuno; dar o bote certeiro para que não haja desperdício de energia.

Um tigre sabe exatamente o que fazer quando está diante de uma suculenta gazela, mas eu não sei... Sou espécie treinada para morder, mas não possuo dentes. Então terminamos nossas refeições, mudos, de braços abanando, cientes da inconsonância da alma: a dela a olhar para as demais com elevada cautela; enquanto a minha só enxerga outros dos seus como se fossem meras mercadorias.

Ali naquela mesa tornamo-nos a escassez um do outro; a comprovação existencial de nossa própria precariedade. Isso causa desconforto... Sim, foi neste instante de renúncia que juntos, eu e ela, nos levantamos, cada um de um lado da mesa, e fomos embora, em direções opostas. Porque talvez mais difícil do que vender planos de saúde, seja promover a nossa própria existência...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

RESENHA DE LIVRO – CLARICE,


Sem medo algum de ser contestado, posso aqui me servir de opinião resoluta, a qual será extensamente comungada pela maioria dos amantes de literatura: uma vez envolvido no mundo de Clarice Lispector fica difícil imaginar a vida sem ela.

Eu atravessei o último mês de dezembro lendo calmamente este belíssimo e abundante tributo àquela que considero a maior escritora da língua portuguesa. O último mês do ano propositalmente teve como minha última leitura esta obrigatória biografia, a qual eu me vi apreciando de forma lenta e reflexiva, receando seu término a cada página que virava.

Dezembro é o mês de nascimento e também o de óbito desta esplendorosa autora. Clarice Lispector nasceu no dia 10 e no dia 09 (véspera de seu aniversário) ela deu seu último suspiro, mas por conta do Shabat só foi enterrada no dia 11, data do meu aniversário. Uma coincidência que, embora não tenha nenhum significado, acometeu-me de maior enfoque, como se meras semelhanças inevitavelmente tornasse meu eu leitor ainda mais próximo desta inigualável resgatadora da alma humana.

De qualquer forma, devo confessar que foi muito prazeroso viver este dezembro de Clarice, em que me vi amalgamado por algo que foi muito além de uma mera leitura; foi como ter posse de um estudo completo que revelou muitas particularidades de Clarice, como suas origens judaicas, seu universo literário, sua vida pessoal, seus traumas, seu brilhantismo...

Apesar de biografar uma escritora amplamente conhecida em vários países, Benjamim Moser, através de intermináveis pesquisas, conseguiu entregar um trabalho ainda mais profundo e detalhista, onde podemos acompanhar não somente a trajetória de Clarice, mas também a literatura que permeava seu tempo, a complexa política do Brasil naquela época e um tanto da vida dos amigos que estiveram próximos da escritora. Desse modo, este CLARICE, torna-se leitura obrigatória para quem admira e quer conhecer um pouco melhor a vida desta genuína autora.

Curiosamente o biógrafo desta obra é norte-americano, que incendiado pela escrita de Clarice Lispector, mergulhou profundamente em uma busca quase obcecada por compreender a vida e a literatura imortal de sua biografada. Portanto, no ano de 2009 nasceu nas livrarias americanas Why This World: a biography of Clarice Lispector, a qual no mesmo ano também seria publicada no Brasil pela editora COSAC NAIFY, sob o título: CLARICE,.

Contudo, dada relevante importância de Clarice Lispector para a literatura, pode-se levar em consideração um pertinente questionamento: por que ler mais este livro de uma autora que já foi tantas vezes biografada e estudada? E a minha resposta é definitiva, muito embora eu não tenha lido outros autores que exploraram o universo clariciano: Além de amante e leitor assíduo de Clarice, Benjamim Moser nos entregou o que pode ser considerado uma obra definitiva, mesmo sabendo que Clarice Lispector é um assunto inesgotável, uma página inacabada. E a conclusão a cerca deste livro permeia a opinião de outros críticos e estudiosos de Clarice. Moser entregou-se com tamanha devoção à sua heroína, que se prestou ao aprendizado da língua portuguesa para poder ler os originais da escritora em sua língua original. Tamanha obstinação só poderia mesmo resultar em uma obra singular e ilustre, cujas páginas exalam o afeto e a intensidade de Clarice Lispector.

Sem exageros ou argumentos suspeitos, Moser nutre sua obra com seu olhar atento de leitor e pesquisador, lacunas da vida de Lispector que ainda não haviam sido contadas por ninguém. Por isso, o que há de mais inovador nesta biografia, é justamente a entrega do autor, que por meio de sua incansável pesquisa, conseguiu iluminar um pouco mais o vasto oceano clariciano.

O escritor Rui Castro, exímio biógrafo, costuma dizer que para se escrever uma biografia digna, o autor precisa “se casar” com o biografado. Pois este CLARICE, é prova de que Benjamim Moser acatou esta ideia e, mesmo declaradamente apaixonado por sua biografada, soube contar uma história imparcial, sem se deixar perder pela emoção.

CLARICE, é um trabalho estupendo, de longe a melhor leitura que fiz em 2016. E diante do incomensurável desafio de se contar a história de uma autora que, apesar de ser um fenômeno da literatura, sempre se mostrou uma mulher moderna e acessível na mesma proporção com que era silenciosa e inalcançável, mesmo assim, Moser soube fazê-lo com maestria e ousadia.

“No entanto eu já estou no futuro. Esse meu futuro que será para vós o passado de um morto. Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro de vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acaba bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar”.
(Clarice Lispector)

sábado, 31 de dezembro de 2016

CONTO - O CAMELO ALEIJADO


A fila era pequena, desorganizada e ruidosa. Sorridentes, seus integrantes alinhados de forma tumultuada, falavam muito e riam alto. Em comum, todos seguravam um livro de capa muito colorida, onde um animal quadrúpede e sorridente se esbaldava numa lagoa cristalina, cercada de verde natureza.

Não muito longe dali, uma mãe resoluta entregava ao filho o mesmo livro, satisfeita por conseguir compra-lo no dia de sua aguardada estreia. O pequeno menino apertou o objeto contra o peito e, em seguida, agradeceu a mãe com um estalado beijo no rosto.

Após o ato obsequioso, ela segurou na mão do menino e, juntos, caminharam felizes em direção à fila, cada vez maior e mais barulhenta.

– Mamãe, o que vamos fazer agora? – perguntou o menino, ao ver a mãe tomar o último lugar da fila – a senhora já não pagou?

– Vamos pedir ao autor para autografar.

– Ah, tá... – respondeu ele, sem entender o significado da palavra “autografar”, mas ele logo deixou esse assunto de lado, encantado demais que estava com as gravuras do despojado animal a encher as páginas da história.

O homem na frente se virou sem direção específica e notou aquela mãe com o filho. Sorriu simpaticamente; ambos haviam adquirido o mesmo presente aos seus rebentos e se encontravam na fila, em plena conformidade sobre a importância de se consagrar aquela bela obra infantil.

– Mãe, o nome do camelo é Calombo – o menino puxou a barra da saia da mãe para mostrar a novidade que havia descoberto, já no início da leitura.

– Isso não é um camelo, querido... É um dromedário.

– É um camelo sim, mãe. Olha aqui a montanha nas costas dele.

– Mas só tem uma montanha em suas costas, por isso é um dromedário – ela apontou com o dedo para uma das figuras, onde era possível ter um ângulo privilegiado da corcova do animal – Tá vendo só?

– É um camelo, mãe!

– Dromedário... Se fosse um camelo teria duas montanhas nas costas.

– Então eu não sei mais que bicho é esse, ora...

A mãe ignorou o inconformismo do filho. Logo, logo, ele aceitaria a existência de um dromedário na sua nova historinha. E talvez até se encantasse com a novidade e passaria a ensinar aos seus coleguinhas a verdadeira espécie protagonista do livro.

A fila avançava lentamente. E o filho voltou a interromper a leitura, pois ainda surgia em sua cachola questionadora, dúvidas que colocavam à prova os argumentos incontestáveis que recebera de sua genitora:

– Mamãe, eu estive pensando... E se ele for um camelo aleijado?

– Como assim, querido?

– Ué, faltando um pedaço. Que nem o nosso vizinho que tem uma perna só. Eu acho que esse é um camelo que só tem uma montanha nas costas.

– Isso é um dromedário, menino! – a mãe sentiu que era preciso dar ênfase em sua resposta, para eliminar as dúvidas do filho; a rispidez no tom de voz para censurar as incertezas.

Certamente o filho devia compreender a historinha do livro como sendo menos cativante tendo como protagonista um bicho detentor de nome tão estranho. Um camelo aleijado seria bem mais agradável, do que um ser cuja denominação “dromedário” soava estranha, comprida e dura de pronunciar. Ele fechou o livro, emburrado, e isso fez com que notasse, pela primeira vez, o desconforto de uma fila que pouco avançava.

– Vai demorar muito, mamãe? Eu tô cansado.

– Estamos quase lá, meu bem.

De fato, já estavam próximos. O menino até podia enxergar o que se passava na base da fila: havia um homem por trás de uma mesa. Era gordo, de barba cheia, com ar sério e pedante, perguntando o nome de cada um dos presentes. Em seguida, ele abria o livro do camelo/dromedário e fazia rabiscos grotescos com uma caneta sofisticada.

– Mãe, o que aquele homem tá fazendo?

– Já disse que ele está autografando.

– Mas ele tá rabiscando o livro das pessoas!

– Ele é o autor, meu filho. Está fazendo a dedicatória.

Assustado, o menino olhou para os rabiscos incompreensíveis no livro de uma das pessoas. Eram borrões feios, tortos e que enfestavam uma página inteira que ladeava o prefácio. O menino ainda não compreendia qual era a importância daquele ato, mas teve a certeza de uma coisa:

– Mãe, vamos embora!

– Espera! Já está quase na nossa vez.

– Mas mãe, eu não quero que esse homem rabisque o meu livro! – ele começou puxar a saia da mãe, numa tentativa de retirá-la da perigosa fila – Eu não quero!

– Para de escândalo, menino!

– Ele não vai otrogafar o meu livro!

– Me dá esse livro! – instintivamente, a mãe tentou arrancá-lo das mãos do menino – Não me faça vergonha, vamos!

– Eu não quero otrogafo!

Os dois começaram uma disputa acirrada pelo livrinho, cada um puxando de um lado. Mas ao notar que as pessoas começavam a demonstrar constrangimento em relação à cena, a mãe desistiu e soltou. Então o menino escapou, indo se afugentar no meio das prateleiras da loja.

Desconfortável, a mãe se virou e viu que já se encontrava diante do escritor, a lhe aguardar com a caneta sofisticada em prontidão. Ele emitiu um breve sorriso por trás de sua barba robusta.

– Á quem devo dedicar a obra? – perguntou ele, enquanto seus olhos percorriam toda a dimensão estrutural da mulher, procurando por algum livro para autografar.

– Desculpa, mas o meu filho fugiu com ele na mão – ela tentou devolver o sorriso, mas desajeitada, mal conseguiu mover os lábios – Ele disse que não quer o seu autógrafo.

– Tudo bem... Vá falar com ele e depois volte.

– Certo, obrigada... – com o rosto corado, a mãe já estava se afastando, quando resolveu parar e fazer meia-volta – Com licença moço, mas eu posso te fazer uma perguntinha?

– Claro que você pode. – respondeu o escritor, solícito.

– O personagem principal do seu livro é um dromedário, não é mesmo?

Os dentes do autor surgiram todos, por detrás dos escurecidos pelos de sua face rechonchuda.

– Não é não, moça... Na verdade, o bicho da história é um camelo que nasceu diferente dos outros; é um camelo aleijado.

domingo, 18 de dezembro de 2016

RESENHA DE LIVRO – A PROFECIA DO PARAÍSO


Meu eu rabugento desconfiou imediatamente deste livro de nome pretensioso e capa requintada, no exato instante em que coloquei minhas mãos nele: certamente estaria levando pra casa mais do mesmo. Mas como gosto de, vez ou outra, conhecer o universo obscuro de autores dotados de mentes altamente imaginativas para o suspense ficcional, achei que seria pertinente dar uma chance a este A PROFECIA DO PARAÍSO.

E a experiência da leitura trouxe a amarga comprovação de minha desconfiança: trata-se de uma obra sem nenhuma singularidade, e um autor que parece optar pelo lugar-comum.

Na trama, acompanhamos a agente de um departamento secreto chamado “Seção” (uma espécie de CIA, só que no lugar de siglas, temos um nome mais tosco mesmo) que é intimada a investigar a morte de uma famosa cantora brasileira. A investigadora não demora a perceber que está trabalhando num imbricado quebra-cabeça sobrenatural, o qual fará cair por terra todo o seu ceticismo inabalável. E por se tratar de aparente caso relacionado a ocultismos, a “misteriosa” Seção lhe envia uma ajuda: um historiador perito em religiões, entediado, alcoólatra e sabe-tudo, que perdeu o gosto pela vida após sofrer uma grande perda.

Certamente os amantes de ficção já devem ter notado evidentes familiaridades no enredo. Pois como eu disse: temos aqui um autor que opta pelo lugar-comum.

O início da história se passa no Brasil, mais precisamente em São Paulo, onde ocorreu a morte da cantora Gabriela Soares. E na mesma proporção em que o autor ROBERT BROWNE não parece muito interessado em esclarecer alguns eventos de sua trama, ele faz questão de dar certas pinceladas na trama que parecem propositivas, como retratar os policiais brasileiros como sendo um bando de supersticiosos incompetentes que nada sabem fazer, além de demonstrarem seu temor irracional.

A investigadora Callahan é a construção da heroína perfeita: inteligente, segura, habilidosa, arrogante e o tempo inteiro parece ser o único profissional ponderado, capaz de enxergar o óbvio nas cenas dos crimes. Quanto ao seu improvisado parceiro, Sebastian LaLaurie, é um intelectual frustrado, que vive uma vida precária de dor após perder sua amada. É a personificação do enfado, entregue ao vício pelo álcool e que parece ter perdido o gosto pela vida.

Ambos os personagens, cujas construções de suas individualidades seguem o modelo padrão de sujeitos que se tornarão pessoas melhores quando chegarmos ao final feliz, acabam por remeter o leitor ao característico texto desgastado que torna o desfecho dos acontecimentos um tanto previsível.

Mas apesar dessa concepção maçante, a interação da dupla principal até chega a funcionar em alguns momentos de bons diálogos e suspense razoável.

Já os demais personagens parecem estar ali apenas para encher parágrafos; eles são todos, sem exceção, minimamente sem-graças; vilões passeando ao redor do mundo cheios de diálogos insossos e ações dignas de sessão da tarde; e mocinhos gélidos que se comportam de modo aleatório e vazio, até desencadearem num final chato e cheio de clichês.

Sei que esta resenha certamente desagradará aos leitores que gostaram do livro, mas sinceramente, por toda boa vontade que dispendi ao longo da leitura, eu não consegui encontrar nada louvável nesta ficção que se alterna do confuso ao previsível, no qual o autor tentou contar uma história, mas acabou deixando a impressão de que, na verdade, ele apenas recontou as memórias dos livros que já leu... Uma pena.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

RESENHA DE LIVRO – SOB A PELE


Talvez a editora Record tenha cometido um equívoco ao nominar o agradável trabalho a que se refere esta resenha, cujo título certamente foi ofuscado pelo sucesso de outro livro de mesmo nome. E para quem duvida desta constatação, basta fazer uma rápida pesquisa através do Google para verificar uma chuva de informações e resenhas à cerca da obra Sob a Pele, escrita por Michel Faber; um sucesso que foi ainda mais acentuada depois que Scarlett Johansson encarnou a personagem do livro no cinema.

Mas aqui a conversa é sobre o título-xará menos famoso, porém, a escassez de notoriedade não condiz com o conteúdo da obra. Sob a Pele, dos escritores Nicci e French, é um trabalho agradável de ler e narrado sob a ótica de personagens eficientemente humanizados.

A trama, que não é lá essas coisas, conta a história de três mulheres distintas, mas com algo em comum: são alvos do mesmo assassino em série. Zoé é uma professora que vê sua vida banal ser popularizada pelo envolvimento numa inusitada prisão de um ladrão de rua; Jennifer é uma modelo de mãos aposentada, que vive o tédio de um casamento aparentemente perfeito; e por fim temos Nádia, uma animadora de festas que leva sua vida de forma despretensiosa e ciente da carência de perspectivas.

Aqui nada é inovador, a narração é em primeira pessoa e dividida em capítulos que mostram o cotidiano ordinário das personagens no exato tempo cronológico em que suas vidas são tumultuadas por cartas anônimas que chegam cheias de ameaças de morte. Essa montagem do livro feita por partes nos oferece o ângulo de visão de cada uma das três mulheres. E é exatamente este o ponto forte da trama.

Os autores constroem personalidades distintas em cada uma de suas protagonistas, de modo a nos permitir proximidade ou distanciamento em diferentes perspectivas quanto ao que elas sentem diante das progressivas ameaças. A leitura discorre fácil e macia, fazendo suas quatrocentas e quarenta páginas fluir de maneira insinuante; uma história narrada por personagens dotados de inseguranças, incertezas e irreverências, características comuns que inevitavelmente nos acomete de empatia.

 Zoé é uma mulher meiga e sensual, que mantém um relacionamento improvável cuja única sustentação parece ser o sexo. Jennifer é a menos agradável das três, mas mesmo seu jeito arrogante e entediado parece ter sido propositalmente inserido, uma mulher que largou a carreira para administrar o casamento defasado, o qual ela parece se ocupar para não ter que enxergar a evidente decadência. Quanto a Nádia (a minha favorita do livro) é uma mulher alegre, harmonizada e que não encuca com os estorvos da vida.

De modo geral, só acompanhar de perto o dia a dia das três moças já valeria a leitura. Nem era preciso haver um assassino para apimentar o enredo, que pouco ou nada segue uma linha de suspense ou clássica de romances policiais. Quanto ao assassino, o achei um pouco insosso, mas isso não chega a incomodar.

Contudo, é no aspecto coadjuvante que os autores escorregam um pouco.

O livro é harmonioso em sua narrativa na primeira pessoa, mas os personagens secundários parecem não comungar do mesmo ritmo. Praticamente todos são medíocres, como se tivessem sido esquecidos por seus criadores. Os investigadores de polícia são atrapalhados, vão de um lado para o outro e nada solucionam; eles sequer se aproximam do famigerado assassino (cometo aqui uma pequena gafe). Há também uma psicóloga designada pelas autoridades; uma profissional séria, que até parece querer engrenar, mas sua notoriedade logo é posta de lado. E ainda sobre o vilão, este não foge a regra do abandono secundário, tendo como sua única virtude a mera construção de cartas que denotam uma libido confusa e o anseio por orquestrar seus intentos psicopatas.

Sob a Pele não é um livro brilhante, mas é simpático e de leitura fácil, que talvez não agrade aos fãs de suspense... Bom, pelo menos até o dia em que uma versão cinematográfica, contendo Scarlett Johansson no elenco principal, surja para exumar esta obra de sua injusta esquife literária.