sábado, 24 de fevereiro de 2018

RESENHA DE LIVRO: RELIGIÃO PARA ATEUS


Conheci o autor deste excelente livro através de bons documentários que ele produziu na internet. Então, a curiosidade era forte e quando tive a chance, adquiri este ótimo volume filosófico.

RELIGIÃO PARA ATEUS é um preciso trabalho que se propõe a cutucar em casa de abelhas: grosso modo, quando se entra no assunto religião, parece só haver espaço para o antagonismo religioso versus ateu. No entanto, o suíço Alain de Botton, confesso ateu, nos entregou este belo conteúdo cuja premissa é manter a imparcialidade e nos atentar para os benefícios e problemas que carregam os grupos seculares e dogmáticos.

As perspectivas do livro dividem-se em capítulos distintos, que buscam esmiuçar temas que pouco são observados quando se fala do percurso das religiões. Alain propõe que se olhe para o rico e inegável legado construído pelas igrejas, analisemos temas como arquitetura, instituições, arte e educação. E a mensagem mais notória do autor talvez seja para os perigos de um fenômeno social que está crescendo de modo assustador: a noção de cada um por si.

O desprendimento secular em crenças afasta o ateu de algo fundamental para a base da convivência social: a noção de comunidade. E como deve ser uma boa leitura de filosofia (embora o autor sustente uma leve inclinação para autoajuda), as ideias se mantém sob pontos de interrogação ou apenas nos mostram aspectos distintos de pensamentos, deixando a cargo do leitor o ato da reflexão. Alain de Botton não quer sacudir galhos sensacionalistas; usa de uma linguagem documental que faz com que o texto flua com extrema facilidade e doçura; lança questionamentos pertinentes; faz observações sem ser agressivo; destaca dúvidas sem fazer nenhuma censura.

Meu capítulo favorito é intitulado “Pessimismo”. E embora em muitas vezes eu queira e carregue a vontade de ser um ser humano mais otimista, acho que o mundo sempre termina por me empurrar de volta para o meu senso de desconfiança... E apesar de evoluirmos como sociedade, eu ainda sustento a ideia de que inveja, preguiça, ansiedade e principalmente a vaidade humana, acaba dando razão ao meu inesgotável pessimismo.

Pensar religião de uma forma ampla e aberta, sem conceitos fundamentalistas ou determinismos impositivos, já valeria a leitura desta obra. E já que também dependo de elevar minha autoanalise sobre temas espinhosos como este, deixo à cargo do próprio Alain, a reflexão final desta resenha:

 “A Sabedoria das fés pertence à humanidade toda, até mesmo aos mais racionais dentre nós, e merece ser reabsorvida de forma seletiva pelos maiores inimigos do sobrenatural. As religiões são intermitentemente úteis, eficazes e inteligentes demais para ser deixadas somente para os religiosos”.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

RESENHA DE LIVRO – PEREGRINOS


Este é mais um daqueles livros que eu retiro da prateleira de promoções, sem sequer me dar conta de que estou diante de um autor aclamado por outra obra. PEREGRINOS veio parar em minhas mãos porque eu aprecio o gênero Contos, e dando uma breve analisada na contracapa e nos textos de orelha, resolvi comprá-lo.

A autora se chama Elizabeth Gilbert e ficou famosa mundialmente por uma obra de outro gênero que não li e nem tenho interesse, intitulada COMER, REZAR, AMAR (o marketing editorial não nos deixa esquecer, colocando uma lustrosa etiqueta na capa para que você saiba que está levando pra casa uma autora de sucesso). Portanto, bem diferente de muitos leitores brasileiros, eu não adquiri o livro aqui resenhado por conta de sucessos passados. De fato, eu não conhecia nenhum trabalho da autora.

A coletânea de contos nos remete ao que o título sugere: personagens em diferentes situações de transitoriedade, de migração existencial, algumas situações chegando a anunciar uma pegada mais subjetiva, algo que deixaria a reflexão a cargo do leitor... Mas infelizmente foi a ausência de intensidade no livro que não permitiu que o mesmo funcionasse.

Eu explico meu ponto de vista:

Elizabeth Gilbert narra seus contos de forma restrita; não parece haver nenhuma preocupação com linearidade, os textos parecem fragmentos extraídos de contos maiores. Tudo bem até aqui; penso que este tipo de narrativa atiça a imaginação e pode contribuir muito no quesito charme. Contudo, a autora exagera nos termos técnicos, faz muita referência geográfica e social, esquecendo-se de inserir aspectos particulares e intrínsecos em seus personagens. Por vários instantes fiquei com a sensação de estar lendo uma matéria de jornal ou revista, cujo conteúdo não vai além do meramente informativo.

Outra coisa que incomodou bastante foram os diálogos entre os protagonistas. Além de serem extremamente maçantes, as conversas parecem ter sido elaboradas por sistemas operacionais que tentam, sem sucesso, imitar o colóquio humano. Algumas falas soam tão artificiais que me fizeram rir, não pela situação em si, mas por conta das expressões robotizadas.

Já no primeiro conto, fui acometido de certa estranheza. Afinal, como se trata de uma coletânea é normal que alguns textos sejam melhores do que outros. Mas numa análise final, este é mais um livro esquecível, de textos que oscilam entre o mediano e ruim.

E caso você seja um amante de contos, como eu, certamente não será uma boa recomendação este PEREGRINOS. Aqui mesmo no Brasil está cheio de bons contistas contemporâneos, a preços bem mais generosos, mas que por ainda não terem em seus históricos bibliográficos uma obra antecessora campeã de vendas, acabam confinados ao anonimato.

sábado, 20 de janeiro de 2018

RESENHA DE LIVRO: FIM


O título exageradamente simplista quase me fez devolver este livro à prateleira da loja onde o encontrei por acaso. A autora exageradamente talentosa como atriz, remeteu-me à preconceituosa desconfiança do conteúdo. E o resultado exageradamente satisfatório me fez compreender que estava diante de uma das melhores obras que li ano passado.

FIM é um trabalho charmoso e delicioso de ser lido. De narrativa coloquial que ajudou a dar autenticidade aos personagens, a trama segue por uma linha expositora tão casual que é fácil criar empatia por cada indivíduo; os cinco amigos que narram seus instantes finais se assemelham na forma de suas oratórias, embora sustentem opiniões distintas. Ás vezes eu precisava voltar para rever quem era o narrador do capítulo que estava lendo, por conta da semelhança nas falas.

Mas isso não incomoda nem um pouco, pois como já mencionei: FIM é um livro delicioso de ser lido. Portanto, fosse um ou dez narradores, a agradável exposição altamente parcial e desembaraçada nos aproxima daquilo que parece ter se perdido nos espaços físicos de interação social: a boa conversa.

Alguns resenhistas pela internet discordam dessa ideia, alegando que Fernanda Torres criou de maneira categórica, cinco personagens distintos; há quem diga, inclusive, que alguns personagens são muito bons, enquanto outros um desastre. Mas eu insisto que, salvo alguns poucos aspectos que os diferem, ler cada um dos personagens me deixou com a sensação de que estava a ler um único narrador a relatar suas diferentes fases da vida, ou simplesmente se trata de um sujeito confuso e inconstante.

FIM coloca com pano de fundo a tragédia dos últimos instantes na vida de cinco amigos, com um capítulo dedicado a cada uma das finitudes, entremeados com subcapítulos de coadjuvantes que circundaram suas trajetórias. A trama segue uma linha crua e direta; acompanhamos os momentos finais de cada um, seus conceitos contraditórios ou não, e as perspectivas de gente que vive ou viveu próximo deles. É uma literatura bem encorpada pelo senso humano de análise desconexa, cujas situações se mesclam entre o humor ácido, distorções e escárnio.

Outro comentário que se pode encontrar facilmente pela internet são argumentos maldosos e infundados, alegando que a autora abusou de maneirismos e fez de seu texto um instrumento de ostentação de intelecto. Ela teria tentado aproximar sua narrativa de autores como Nelson Rodrigues... Tudo bobagem.

A meu ver, Fernanda Torres se mostrou uma excelente narradora; segura, madura e nos entregou uma obra que esteve a um passo de algo brilhante. Penso que para um livro de estreia, ela mostrou ser detentora de elevada sensibilidade criativa e absoluto controle de seus personagens. Restou-me, após os aplausos, ficar na torcida para que o fôlego de Fernanda não tenha se acabado. Era de se esperar que uma atriz talentosa como ela fosse alvo de críticas conservadoras, que custam a digerir a ousada inserção noutra plataforma cultural feita por algum artista.

Fica então mais do que evidenciada minha recomendação deste ótimo trabalho de Fernanda Torres; uma novidade literária eficiente, que espero eu, tenha surgido para ficar.

sábado, 30 de dezembro de 2017

CONTO - FOME QUE NÃO SACIA


A fome é condição que movimenta até o mais preguiçoso ser;

A saciedade freia, limita, entorpece;

A fome não te faz sossegar. É forno cheio de calor ansiando por mais lenha;

A saciedade é o tronco ainda estagnado e frio;

A fome é arroz com feijão fresquinho;

A saciedade é a sobremesa que engorda;

A fome se encanta com o mais corriqueiro;

A saciedade precisa do extraordinário para lhe arrancar um suspiro;

A fome é a vontade de consumir o mundo;

A saciedade é mundo consumido;

A fome é espaço vazio para que algo aconteça;

A saciedade é a completude tosca e imutável;

A fome vive desperta porque quer descobrir;

A saciedade dorme no tempo;

A fome é como as passadas velozes à procura de algo;

A saciedade já não procura por nada, pois acha que tem tudo;

A fome te faz mover-se rumo ao desconhecido;

A saciedade arrasta-se emburrada através de mundos sempre iguais;

A fome sabe que não precisa comer até se saciar por completo;

A saciedade é desapegada e preguiçosa, pois sabe que nunca tem fome;

A fome trás vida;

A saciedade mata...

Por essas e outras é que eu quero é a fome! Quero estar faminto de conhecimento, faminto de arte, faminto de frases, faminto de poesia! E você, também tem fome ou já se encontra saciado?

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

RESENHA DE LIVRO – ONZE


Enquanto permaneço sentado em frente ao computador, pensando em como iniciar esta resenha, vem-me a noção de que estou agora mesmo fazendo parte de um ciclo interminável de causa e efeito. E mesmo sozinho em casa, desempenhando função aparentemente inócua, os efeitos de qualquer frivolidade parecem inevitáveis. Sim, pois a inação também é uma escolha que surte em consequências. E toda consequências também é causa que gera mais efeito...

Afinal, enquanto me tranco em casa e me escondo do resto do mundo, situações seguirão determinado curso que poderiam ter sido diferente se eu fosse um sujeito menos fechado dentro de meu próprio universo.

Outro exemplo que me ocorre foi um acidente que quase me aconteceu. Eu estava dirigindo quando me lembrei de que estava sem o cinto de segurança. Parei no acostamento para afivelar e segui viagem. Minutos depois um carro enlouquecido cruzou em minha frente e tive que frear bruscamente. Por uma questão de centímetros a colisão não aconteceu, algo que talvez tivesse sido inevitável, caso eu não tivesse parado por alguns segundos para colocar o cinto.

As razões pelas quais fiz esta inusitada introdução, se devem ao fato de que estes três parágrafos iniciais são, basicamente, a essência por trás deste ótimo trabalho intitulado ONZE.

Como se fossem peças de dominó que despencam e atingem umas às outras, ações e inações das pessoas geram efeitos que se tornam mais ações, e assim sucessivamente.

O autor Mark Watson fez um ótimo trabalho no enredo, amarrando situações de seus personagens para nos mostrar o lado delicado da existência humana, onde um ato insignificante esbarra noutro até que uma enorme redoma de consequências inevitáveis transforma o mundo; é o bater de asa de uma borboleta que culmina num tornado do outro lado do planeta.

Exagero à parte, a história é bem contata. Xavier Ireland é um locutor de rádio que apresenta um programa que ajuda a aliviar a solidão durante as madrugadas da população londrina. E como qualquer ser humano que viveu traumas no passado, o personagem é o resultado existencial da tentativa de começar de novo. E embora as dores continuem a espreitar em seu ser, Xavier tentar levar sua existência de modo alheio, pois a experiência lhe ensinou que é mais seguro manter distância de outros indivíduos.

Em determinado momento seu passado nos é revelado, e junto à consternação inevitável, o leitor passa a entender sua natureza indiferente. Enquanto isso, a avalanche de causa e efeito segue seu rumo irrefreável, metamorfoseando algumas vidas e anulando outras.

Talvez a resenha esteja soando um pouco abstrata, mas acredito que esta belíssima obra deva ser degustada exatamente desse modo, pois há vários personagens entremeados sem que quase nada se conte sobre eles; como se pudéssemos ver apenas a ponta do iceberg. E desse ponto de vista ONZE funciona como leitura intensa e refinada; um romance sobre seres humanos seguindo com suas tomadas de decisões impensadas, dentro de um ciclo interminável e sutil de prejuízos que serão causas de outros mais...

É um livro simplesmente fascinante!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

CRÔNICA - OPORTUNA FIDELIDADE


Minha constituição de fidelidade se sustenta a partir de bases moralistas. Pressupõe uma existência cuja exclusividade se atrela à ideia de irredutibilidade e inflexibilidade, dentro de concepções por mim estabelecidas, o que me torna um truculento fundamentalista, talvez pelo fato de que o fiel seja o maior dos conservadores. Porém, costumo me vestir de uma fidelidade a qual seu manifesto precisa ser enaltecido, embora eu saiba que isso seja inútil... Mesmo assim, eu a exerço sob falácias na intenção mordaz de receber legitimidade, pois é preciso que este ato seja vangloriado, como se fosse um recipiente furado que carece de ser reenchido a todo instante.

Pensando em circunstâncias coletivas, creio que tendemos a seguir modelos sociais institucionalizados e, portanto, a padronização existencial tende a ser, em grande medida, igual ou parecida. E a vontade de correr na contramão da maioria é o que desperta minhas ambições de lealdade. Em outras palavras, eu não sou fiel por respeito genuíno à instituição que estabeleci relações, mas faço por vaidade de poder me afirmar como ser distinto; para exaltar minha exclusividade regrada e cheia de autocontrole. Se isso soa confessional ou não, o fato é que seria muito provável que se vivêssemos num mundo de completo comprometimento ético, eu talvez me tornasse um transgressor, puramente para me ver desenquadrado do senso comum. Como se minhas escolhas não pudessem ser convenientes ou mesmo combatidas.

Não tenho meios de garantir fidelidade eterna a nada nem a ninguém. Mas enquanto eu identificar neste ato elementos legitimadores do meu árduo autocontrole, tudo farei para fundamentar a integridade de minha ação, através da promoção obstinada dos valores que foram convencionados a outrem. No entanto, tais valores se mostram nocivos a partir do instante em que oprimo meu ser em detrimento de ajustes ilegítimos, pois é impossível sanar desejos por meio da intenção deliberada... Este ato, quando bem executado, apenas os adormecem temporariamente.

Anseios só podem ser eliminados quando da obtenção de seu objeto; quando alcançamos o escopo desejante. E o fiel só poderá ser considerado como tal, se porventura se encontrar diante de uma situação a qual ele tenha 100% de certeza de que não está sendo vigiado. Caso contrário, seu comportamento não será de fidelidade, mas sim, de medo de ser flagrado.

Desejos são inevitáveis, porém, passíveis de ser controlados dependendo de sua intensidade. E acredito que uma mente lúcida e conhecedora da própria fraqueza é uma mente menos suscetível ao prejuízo resultante de ações impetuosas. Só que esta conclusão nos remete a duas problemáticas: o controle dos próprios impulsos; e a conclusão do verdadeiro ato fiel.

Oscar Wilde nos diria que se conseguirmos resistir a uma tentação é porque ela não foi forte o suficiente. Este pensamento elucubra o quanto de nossa incapacidade frente aos impulsos do desejo. Ser fiel aos próprios princípios pressupõe a perda de outras oportunidades que são incompatíveis com a nossa conduta.

O mundo contemporâneo transformou toda a forma de relação em objeto mercadológico. Isso nos deixa com a sensação de que ao levarmos nossa constância ao pé da letra estamos abrindo mão de infinitas possibilidades. Desse modo, ser fiel a algo nos causa desconforto; uma sensação de redução existencial. Afinal, por que manter lealdade em X se há todo um alfabeto que parece esperar por nossa predileção. A convivência num meio social escasso nos atrai para uma ética de conveniência, em que tudo se pode e tudo se justifica. Então a adaptabilidade do ser depende do mundo em que nos será apresentado daqui a pouco.

Muitas foram às vezes em que deliberei sobre como controlar os impulsos, e embora eu mantenha certos princípios intactos, seja por vaidade ou não, creio ainda não ter encontrado nenhuma solução definitiva para este problema.

Quanto a definição do ato de fidelidade, este também é assunto espinhoso, porque envolve diversos elementos como conceitos, opiniões, predileções e a própria ética. Com tantas particularidades mescladas, penso que ser fiel pressupõe o ininterrupto ato de zelar pelas formas de convivência estabelecidas, embora nenhuma imutável. Só se pode ser fiel a algo a partir de juízos instituídos entre as parte envolvidas. E a quebra desses acordos é o que chamamos de infidelidade.

Mas uma fidelidade só pode de fato se tornar um hábito quando se a leva como um comportamento fechado, cego... É o moralismo que menciono no início desta reflexão. Partindo desse ponto, podemos afirmar que seremos fieis aos nossos conceitos, não importando que tipo de realidade nós estejamos inseridos. Contudo, mostrar-se fiel a uma escolha, quando esta é a decisão moralmente aceita ou comungada pelo urro da sociedade dissimulada em que estamos inseridos, não passa de puro decoro; a predileção ajustada ao mesmo sentido do interesse comum.

O grande desafio de ser fiel seria bradar este valor quando tudo parecesse nebuloso ou se estivéssemos indo contra a maioria do senso comum. Se nossas inclinações poligâmicas fossem vistas com benevolência, então a fidelidade monogâmica tornar-se-ia um ato verdadeiramente corajoso.

Alguma vez você já parou pra pensar no tipo de informação que fornece quando lhe é perguntado quem é você?

Eu tenho certeza de que neste instante só o que preenche sua mente são seus valores, deixando suas imperfeiçoes a cargo da capacidade do outro de identificá-las ou não. E como uma ética de relações está sendo formada naquele exato instante em que se está diante de uma nova relação, deve-se valer muito expor para o outro somente os vínculos em que você foi capaz de ser fiel ao longo de sua existência, pois são estes que irão lhe conferir o arsenal capaz de lhe proporcionar orgulho; que atestarão o tipo de indivíduo que você é. Portanto, se fidelidade fosse conceito mal visto por nossas relações atuais, certamente inundaríamos os ouvidos de nossos postulantes com intermináveis argumentos em prol da deslealdade.

Mas caso você já tenha sido dominado pelo mundo materialista em toda sua gama de sedução, é muito possível que só o que tenha a dizer sobre si mesmo sejam suas conquistas materiais; sua vida explicada por meio de “coisas” que conseguiu acumular, e que lhe conferirão a certeza de que você é o produto adquirido; desejante voraz identificado por objetos sem alma... Fiel aos símbolos de consagração social ou simplesmente pela própria arrogância.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

RESENHA DE LIVRO – E NÓS CHEGAMOS AO FIM


A primeira coisa que encontrei pela internet sobre o livro de estreia de um autor americano chamado Joshua Ferris foram comentários apontando para a tonalidade cômica de sua obra (inclusive nas notas de críticos inseridas na contracapa do livro).

Contudo, isso foi o que menos encontrei ao ler este decente E NÓS CHEGAMOS AO FIM. Deleitei-me com bons diálogos criados por um escritor promissor e acompanhei um universo de trabalho bem construído no sentido de retratar situações reais, como as constantes intrigas e fofocas que acontecem no meio proletário; o dia-a-dia cheio de frivolidades e falta do que fazer; o terror imaginário que paira na mente de todos sobre a chefia; o medo possível e real da eminente demissão. Mas as situações engraçadas passaram longe, pelo menos de minha leitura. Talvez pelo fato de se tratar de obra que aborda tão espinhosa e atual problemática: a queda de corporações capitalistas e as inevitáveis consequências que caem sobre seus empregados (um modo menos ardiloso de mencionar o tema: demissões).

E o enredo é apenas isso. O livro é narrado em primeira pessoa e o personagem relata tudo usando sempre o pronome pessoal “nós” para contar a história. Mas estranhamente ele parece se comportar como um mero documentarista; alguém que acompanha tudo de perto, está em todos os lugares, mas jamais toma algum partido, age ou fornece opiniões. Isso pode até incomodar um pouco, mas não chega a prejudicar a trama.

Incomodou-me bem mais os inúmeros personagens que são jogados logo de cara, dificultando na familiaridade ou quando precisamos nos lembrar de quem era esse ou aquele indivíduo.

O ponto alto fica por conta da narrativa. E NÓS CHEGAMOS AO FIM é um livro bem escrito, de sacadas dialogais bem elaboradas e apesar da quantidade de personagens exagerado, alguns deles possuem características bem atraentes; o capítulo dedicado à chefa da agência de publicidade Lynn Mason é o meu favorito. Primeiramente acompanhamos basicamente apenas os rumores sobre ela, oriundos de suposições dos funcionários; comentários sempre cautelosos, cheios de medo e receio. Mas quando temos a chance de ver a moça um pouco mais de perto, o autor nos faz tatear seu lado mais congênito; sua simplicidade, sua fragilidade e sua ternura.

O ambiente de trabalho também foi um ótimo tema porque geralmente estes lugares são ricos em abrigar sujeitos tipicamente exóticos e distintos, o que talvez até colaborasse para arrancar algumas risadas frente às situações bizarras, confissões absurdas e especulações das mais inusitadas... Mas como eu disse: não achei um livro muito engraçado, embora conseguisse reconhecer aspectos cômicos da leitura.

De qualquer modo, E NÓS CHEGAMOS AO FIM superou minhas expectativas, pois sustentava relativa desconfiança com seu título fraseado. Mas é um trabalho aprazível, de bons diálogos e que soube manter uma linha narrativa assertivamente atual aos tempos modernos da labuta.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

RESENHA DE LIVRO – CASÓRIO


Quando iniciei a leitura deste CASÓRIO, outra divertida obra de uma autora que aprendi a gostar por conta de sua narrativa humorística, eu imaginei que Marian Keyes houvesse perdido o fôlego. No entanto, logo descobri que o livro aqui resenhado foi a segunda obra escrita pela autora irlandesa (o livro é de 1996, mas só foi lançado no Brasil em 2005).

Tal informação era indício de que a verdade era precisamente o contrário de minha suspeita: Marian Keyes não estava perdendo o fôlego. Estava, de fato, ganhando-o.

De qualquer forma, o decorrer da leitura me fez perceber que eu estava duplamente enganado. Não havia nada de errado com a criatividade cômica da autora. O que acontece é que a leitura de CASÓRIO demora pra divertir e agradar.

As primeiras dezenas de páginas me pareceram um tanto repetitivas. Eu que sou leitor dos livros de Marian Keyes há muitos anos, tive essa impressão. Era como se eu estivesse lendo um aglomerado de outros pedacinhos dos livros dela; uma mescla de suas demais obras. Os personagens também não ajudavam muito a compor uma distinção; desde a neurótica Lucy até os perfis coadjuvantes, tudo aqui parecia ser mais do mesmo.

Mas como eu disse: o problema é que CASÓRIO demora muito pra funcionar como comédia (passei a preferenciar esta definição, pois chamar o estilo literário de Marian Keyes simplesmente de chick-lit soa um tanto preconceituoso). Eu cheguei a pensar que o fato de não ter achado nenhuma graça, mesmo após ter lido um terço da obra, fez com que voltasse a crescer a suspeita de que estou me tornando um leitor ranzinza.

Por sorte o livro demora, mas não decepciona. E embora o enredo seja, de fato, banal e previsível, CASÓRIO é uma comédia simpática e jocosa, que me fez dar boas risadas.

 A trama não foge do universo da autora: moça em início de sua fase adulta, que divide um apartamento em Londres com outras duas jovens. No meio de neuras e inconstâncias, Lucy vai com algumas amigas do trabalho a uma cartomante que prevê um vindouro casamento na vida da moça. O problema é que ela não tem namorado, e muito menos perspectivas de arranjar um, já que sua natureza submissa e insegura a mantém afastada de bons partidos.

A personagem principal, que é também narradora de sua própria trajetória, é mesmo uma chata. Muitas vezes beirando o insuportável. Uma mulher teimosa, de raciocínio lento e indulgente frente às mazelas de sua vida, cuja autocomiseração nos faz ter náuseas. E embora este seja praticamente o perfil padrão das personagens de Marian Keyes, creio que Lucy acaba sendo, de longe, a protagonista mais intragável já criada pela autora.

Contudo, creio que até mesmo isso se deve a um talento genuíno de Marian em despertar inúmeras emoções no leitor. Porque embora as histerias de Lucy incomodem bastante, é inevitável não nos pegarmos torcendo por ela no decorrer da trama.

CASÓRIO terminou de modo a confirmar todas as apostas que fiz sobre o desenrolar da história, fazendo com que a previsibilidade também se confirme como insígnia dessa autora. Mas as piadas hilárias estão lá, pelo menos da metade em diante. E talvez esta seja a primeira obra que valide o que muita gente diz sobre a literatura de Marian Keyes: uma história que funciona, mas que poderia facilmente ter sido contada em menos da metade de suas longínquas 644 páginas.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

RESENHA DE LIVRO: CEM MELHORES CRÔNICAS (que, na verdade, são 129)


Por cerca de pouco mais de uma semana eu estive na agradável companhia de Mario Prata (calma, não precisa morrer de inveja. É que tem cronistas de cunho tão palpável, que não há outro jeito de expressar a prazerosa companhia de seus livros). Funcionava assim: eu me sentava no banco da praça, retirava o marcador de página e então, ouvia (lia) suas divertidas vivências.

Vez ou outra era feito uma pausa na prosa, meu eu inserido no mundo físico precisando olhar um pouco para o cenário, intencionado em vislumbrar aquilo que meu periódico companheiro tinha dito (escrito). Neste instante, eu viajava para dentro da subjetividade, e via o mundo a partir da perspectiva pratiana;

Refleti sobre os TIPOS DE HOMENS, indignei-me com A PERUCA, dancei no BAILE DE DEBUTANTES, babei horrores vendo A MULHER QUE FUMA, senti-me culpado perante a CULPA, quis dar uma tecladinha com A MÁQUINA DA CANABRAVA, concordei com a ideia de que FILHO É BOM, MAS DURA MUITO, acenei entusiasmado NA ESTRADA COM DANUZA, descobri então que FOI O CRIADO MUDO QUEM CONTOU, aproveitei o intento para atestar com O CARIMBO, irritei-me por causa do PERNILONGO, procurei por todos os cantos por ONDE ANDARÁS O PEREIRA, assenti quanto da intimação para que OREMOS, MICTEMOS E SAREMOS... E só então eu resenhei meus instantes com o Mário, pois também vivo um AMOR SÓ DE LETRAS...

Mario Prata é um sujeito simpático, expectador de bem com a vida, fotógrafo sem câmera da existência. Seu instrumento é apenas a boa e velha máquina de escrever em sincronia com seu divertido ponto de vista.

Desse modo, a inesgotável genialidade pratiana começa desde o princípio que era o verbo, passando por uma análise sobre Deus que não tinha com quem conversar. Metemo-nos entre suas criações mais distintas, fomos aos lugares mais inusitados e dentro destes, o altíssimo encheu o mundo de coisas... E finalmente desembarcamos no Brasil, onde a divindade nos ofereceu a famigerada Copa do Mundo, para que nos deleitemos de verde e amarelo...

Sim, já seria um livro fantástico se fossem apenas as cem melhores crônicas. Mas no universo de Mario Prata não dá pra apertar tudo numa escassa centena... Portanto, entregou-nos aqui esta fabulosa CEM MELHORES CRÔNICAS (QUE NA VERDADE, SÃO 129).

Ah, droga! O horário de almoço acabou... Desculpa aê, Mario! Só que eu tenho que voltar pro escritório. Mas relaxa que amanhã a gente continua com o nosso papo...

domingo, 10 de setembro de 2017

CRÔNICA: UMA BELEZA DE CANETA


Sempre que vou para alguma praça fazer minhas leituras, carrego comigo algumas folhas em branco e uma caneta ensebada no bolso, caso eu precise anotar alguma informação pertinente, alguma ideia que surja... Uma frase pairando sobre o vendaval conturbado de minha mente.

Abro a folha em meu colo e faço uso do belíssimo instrumento que deu título a esta crônica. Enganou-se se você pensava que eu estava me referindo ao ostensivo lance futebolístico em que o jogador passa sutilmente com a bola por entre as pernas do adversário (aliás, se alguém souber me dizer o porquê da nomenclatura deste lance fazer referência com a caneta, eu ficarei muito agradecido).

Não senhor. A caneta aqui é aquele pequeno instrumento mágico, que imprime diretamente no papel sem o uso de uma impressora, em tempo real. Desenha palavras e formas ao gosto de seu usuário. E quando o combustível chega ao fim, precisamos fazer exatamente como os motoristas fazem com seus possantes motorizados: temos que levá-la até um posto e abastecer.

Vez ou outra, durante algumas de minhas constantes anotações, eu reparo certos olhares curiosos sobre mim. São pessoas que passam pela praça e estranham aquele meu ato antiquado demais para este mundo moderno. Gente me observando com algum espanto, transeuntes que quase não acreditam no que veem. Afinal, por que cargas d’água este sujeito não usa o aplicativo do celular para escrever? Onde foi parar o seu tablet? Será que ele não tem computador em casa? Será que ele tem casa? Céus, onde foi que ele conseguiu uma caneta?

Já ouvi falar em escolas na Europa que estão alfabetizando seus filhos sem o uso de canetas ou lápis. As crianças aprendem a escrever e ler através da tela de um aparelhinho.
E por falar em crianças, o João Lucas vinha perigosamente em rota de colisão com o meu banco de praça. Sua atenção completamente submersa em um aparelho celular que trazia nas mãos, e seguia passos sem rumo, quando uma voz salvadora lhe resgatou daquilo que seria um acidente trágico. “João Lucas! Preste atenção por onde anda, menino!”. E foi através do grito daquela mãe angustiada que eu aprendi o nome daquela rechonchuda massa desgovernada que avançava cegamente em minha direção. Ele tinha não mais do que três anos e já fazia atualizações em seus aplicativos tecnológicos.

Quanto a mim, anotava tudo o que via do meu banquinho, descrevendo cada pormenor com minha eficiente e inseparável caneta.

Outro dia, lendo a entrevista de um escritor das antigas, ele disse que escrever no computador é bom. Mas nada substituirá o charme de uma caneta tinteiro... Ok, senhor escritor. Concordo plenamente com você! E embora minha caneta esferográfica não venha a ser tão charmosa quanto a sua tinteiro, considero minhas queridas rabiscadoras bem mais elegante do que dedos ciscando num teclado.

Caneta é sinônimo de charme, de ostentar erudição. Não sei quanto aos engenheiros contemporâneos, mas os das antigas costumavam colocar suas canetas na orelha, num gesto que denotava presteza. Oradores adoravam gesticular ostensivamente com os braços, num ato de intensificar suas opiniões. Entre os dedos, havia sempre uma caneta para assoberbar seus discursos pedantes.

Pois um dos presentes mais originais que já ganhei na vida, foi justamente uma caneta com meu nome lustrosamente gravado em letras douradas. Tão lindo, que meu demasiado ciúme faz com que eu a mantenha confinada dentro do quarto, repousando em sua caixinha sobre a mesa de trabalho.

– Você não gostou da caneta que te dei, né? – perguntou certa vez minha namorada, o ser por trás da ótima ideia de me presentear com uma caneta.

– É claro que eu gostei amor! – respondi entusiasmado. E embora me ver usando a caneta fosse prova muito mais contundente do que uma mera resposta, acho que bem lá no fundo minha amada sabe que sou tão apaixonado por aquela caneta, que temo tirá-la do quarto e acabar se perdendo.

A situação é meio como naquele texto da Clarice Lispector em que ela narra as reações distintas de seus filhos a cerca de uma caneta de ouro que ela havia ganhado. Pois nesta história eu me identifico plenamente com o filho ambicioso que deseja a caneta.

E mesmo sustentando a plena consciência de que terei que transcrever para meu computador tudo o que foi rabiscado no papel, isso não me é empecilho nenhum. E você poderia redarguir que este é sim, um trabalho desnecessário, repetitivo e saudosista... Mas sou um amante da escrita. E continuarei muito feliz em poder transcrever para o mundo virtual, minhas ideias que primeiramente foram registradas por uma caneta... Marca que ficou registrada neste mundo real e cada vez menos manuscrito.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

RESENHA DE LIVRO: WINSTON S. CHURCHILL – COMO CHEGUEI AO PODER


Quatro são as lideranças mais comentadas, biografadas e estudadas da segunda guerra mundial. E Winston Leonard Spencer Churchill é uma delas. Primeiro ministro britânico durante quase todo o conflito mundial, Churchill é, de fato, um homem da guerra. E embora tenha sido nomeado pela cúpula inglesa, como sendo a mente mais qualificada para conduzir a terra da rainha através de anos de trevas, Sir Winston não foi apenas isso.

Além de seu nome inesquecivelmente ligado ao grande conflito, Churchill também foi um estadista notável, oficial do exército britânico durante a primeira guerra, historiador, artista e escritor. Ele é o único primeiro ministro britânico a ter recebido um prêmio Nobel de Literatura.

E esta natureza do cara é o que mais interessa aqui neste ótimo COMO CHEGUEI AO PODER; relatos narrados pelo líder britânico dos tempos que antecederam sua ascensão ao poder.

O livro nos apresenta a visão do autor no que concerne à natureza política, os jogos de poder, a crises na Europa, especulações rivais, seus principais antagonistas e suas formas tradicionais de governo. Churchill especula sobre o cenário politico de sua época e usa de uma linguagem acessível e direta, permitindo ao leitor um ganho de compreensão sobre os eventos que culminaram no maior conflito armado do mundo.

A partir de 1933, após a subida de Hitler ao poder na Alemanha, e quando parecia evidente que o partido nazista empenhava-se na fortificação bélica do país, Churchill foi das poucas vozes que se levantou contra aquilo que considerava uma séria ameaça à estabilidade da Europa Central. Ele vinha constantemente à público alertar sobre a necessidade de o Reino Unido se armar.

No dia 10 de maio de 1940, poucas horas antes da invasão alemã da França, e diante do vergonhoso fracasso britânico na defesa da Noruega, o governo do então ministro Chamberlain não resistiu e caiu, abrindo caminho para a nomeação de Winston Churchill para o cargo político máximo, o de primeiro ministro.

Igualmente a qualquer figura pública no cenário geopolítico mundial, Churchill também tem atribuído à sua imagem manchas irreparáveis, justificáveis ou não, como por exemplo, a decisão do ataque aéreo à cidade de Dresden, ato que resultou na total devastação da região e matou mais de vinte e cinco mil civis.

Opiniões à parte, COMO CHEGUEI AO PODER é um livro que tem como ponto forte a apresentação de uma visão pessoal de mundo, narrada pelo autor; um homem que, além de importante figura política da Europa, também deixou explicitada através de sua literatura, o quanto era habilidoso na composição textual. É um livro que agradará tanto aos leitores que querem aprofundar seus conhecimentos sobre a segunda guerra mundial, quanto àqueles que gostam de esmiuçar os conturbados cenários geopolíticos mundiais.

sábado, 5 de agosto de 2017

RESENHA DE LIVRO – WATERLOO


Este livro é parte de uma recente empreitada que me propus: aprender um pouco sobre a trajetória de um dos maiores nomes da história militar mundial, o famigerado imperador Napoleão Bonaparte.

Separei artigos, salvei endereços na Web, busquei matérias em revistas de história, assisti diversos documentários, e finalmente deleitei-me na leitura deste decente WATERLOO; obra que narra a mais icônica batalha que decretou o fim da admirável carreira de Bonaparte.

E justamente partindo de minhas pesquisas é que me atrevo a dizer que, embora Napoleão houvesse assistido sua queda definitiva sacramentada na inexpressível Waterloo (pequena cidade situada na Bélgica), este cenário fora apenas efeito de outras causas, pois muito antes de seu exílio na minúscula ilha de Elba, o imperador teve seu vasto e temido exército francês dizimado pelo frio e agressividade em terras russas. Desde que as tropas de Napoleão ultrapassaram a fronteira, em junho de 1812, a Rússia mostrou seu lado mais inóspito. Pelo menos do ponto de vista das leituras que fiz sobre as fatalidades vivenciadas pelo exército francês contra os Russos, creio que elas me parecem infinitamente mais devastadoras do que a derrocada final em Waterloo.

Então, ao chegar ao derradeiro confronto contra as forças britânicas em 1815, Napoleão trazia consigo um exército recomposto e fiel, mas agora era infinitamente menor, inclusive em larga desvantagem numérica em relação aos aliados que enfrentaria. Tinha como seus trunfos a fidelidade de um exército que o amava e o admirava; homens que mesmo cientes da desvantagem numérica no campo de batalha, sabiam que já haviam enfrentado situações semelhantes e vencido graças à genialidade de seu imperador.

Contudo, em Waterloo as adversidades foram cruciais no desfecho da guerra. E mesmo sabendo da complexidade em se analisar batalhas, talvez o vencedor neste caso, foi aquele que menos errou. Aqui nos deparamos com uma narrativa de sucessivos equívocos de estratégias, mensagens confusas ou imprecisas, o clima torrencial que não colaborava, a hesitação de comandantes, atitudes impensadas, um Napoleão aparentemente doente e enfraquecido, o líder britânico, Duque de Wellington, que mesmo receoso, soube manter sua defesa concisa e firme.

Por falar em Wellington, o Duque de Ferro provavelmente fora aquele que mais se beneficiou com os erros e empecilhos transcorridos na batalha. E embora fosse reconhecido por ser um exímio estrategista, quase foi pego com as calças curtas, enquanto se divertia no baile da duquesa de Richmond. O exército Francês marchava em seu encontro, e o duque recebia o relato de seu mensageiro em meio a um pomposo salão de dança.

O ponto forte da obra fica por conta da montagem textual feita pelo autor, repleta de relatos dos homens que vivenciaram a batalha. Narrativa de gente que esteve lá e disseram o que viram. Tais conteúdos denotam a obstinada busca do autor por material inédito para compor seu livro.

Em contrapartida, o que me incomodou um pouco foi um demasiado preciosismo deste mesmo autor em relação aos britânicos. E mesmo sustentando aspectos de imparcialidade, como quando relata o elevado envaidecimento do duque de Wellington ao se empenhar na exclusiva exaltação de si mesmo sobre a batalha, Bernard Cornwell parece não conseguir esconder seu patriotismo, atitude que certamente comprometeu suas pesquisas sobre o evento para a documentação histórica.

De qualquer forma, WATERLOO é um rico trabalho, cheio de referências, relatos pessoais daqueles que vivenciaram a guerra, e um olhar mais próximo de testemunhas que ali estiveram. Uma agradável leitura, que acertou em fugir da mera narrativa didática dos livros de história.

terça-feira, 25 de julho de 2017

CRÔNICA – NEUROSISMO

Sexta-feira, final de expediente. Vou para o bar que ainda se encontra vazio, escolho uma mesa com vista privilegiada para as frivolidades da cidade. Peço uma cerveja que, para meu agrado, está trincando de gelada. Pronto! Agora é só relaxar, enquanto espero pela chegada de meu melhor amigo e companheiro de copo.

E a mansidão fora rapidamente superada. Ele logo surge atravessando a rua, ainda de uniforme do trabalho, as mãos ensebadas nos bolsos denotando aparente descontração e um olhar atento e discreto. Cumprimentamo-nos e ele sentou na outra extremidade da mesa.

Eu encho o copo que já estava a sua esperar, brindamos para selar nosso protocolo e, antes que ele desse seu primeiro gole, algo aconteceu para romper com a costumeira rotina:

– Parceiro... – ele devolveu o copo à mesa sem ter dado sequer uma bicadinha – Antes que você diga qualquer palavra, eu tenho que te pedir umas paradas.

Remexi-me na cadeira, nervoso. O que será que ele tinha pra me dizer que não poderia esperar nem mesmo pelo sagrado gole de cerveja?

– Eu quero te contar uns lances sobre meu casamento, mas não começa a pegar no meu pé por causa de algumas paradas que ficaram sem resolver.

Ainda estupefato, tentei balbuciar algo, mas ele seguiu com suas recomendações:

– Aliás, eu acho melhor você não fazer nenhum comentário sobre problemas...

Minha boca permanecia aberta, porém, nem mesmo o ar escapava dela, totalmente emudecida.

– Aliás, é melhor você não fazer nenhum tipo de comentário hoje.

E assim, ele foi me dando detalhes do que havia sido aquela sua árdua sexta-feira de problemas conjugais, o que logo me fez compreender duas coisas: a eminente fragilidade que o obrigou a fazer advertências imediatas pelo bem da harmonia; e a certeza de que meu amigo sabe muito bem com quem divide a mesa do bar.

Sim, pois a inegável realidade é que sou um genuíno neurótico. E antes que eu pudesse enchê-lo com meus conselhos toscos e ineficazes, meu amigo já antecipou que era preciso prevenir o manifesto de uma nova oratória obsessiva, que certamente eu começaria a bombardear em seus ouvidos.

Portanto, não houve alternativa de minha parte, senão concordar plenamente com ele, fechar o bico e tentar desligar o neurosismo, deixando meu ser apenas no modo ouvinte.

Vivo os meus dias tentando controlar tudo, desde as coisas mais corriqueiras, os acontecimentos diários, até a vida pessoal daqueles que amo. Tento levar uma vida regrada, minuciosamente dentro de padrões que acredito ser possuidor de total comando. Maneirismo que só quem convive mais perto de mim, tem consciência do enorme chato que sempre fui.

Sei que isso foi o que desencadeou em observações restritivas de meu já nem tão paciente amigo. Mas sei que em breve, as poucas pessoas que ainda se atrevem a conviver comigo, certamente tomarão medidas extremas, como elaborar um guia contendo dez passos para deixar de se meter na vida alheia para me presentear no natal. Afinal, quem foi que disse que quando um amigo precisa falar sobre a vida dele, significa que é hora de dar conselhos? E de onde eu tirei essa ideia de que sou um bom conselheiro?

Neuróticos nunca são bons em recomendações.

Talvez tenha chegado a hora de me perguntar de onde veio esta minha interminável neuropatia. Será que a condição de chato irredutível faz parte de minha natureza ou fui acometido por uma espécie de possessão de uma entidade enfadonha que se recusa a deixar este corpo?

Objetos fora do lugar me deixam incomodado, manchas em superfícies que julguei deviam estar limpas, ciscos nas roupas das pessoas, seus hábitos que considero ruins, o cansaço dos outros que interpreto como preguiça, o ócio das pessoas que sempre julgo como mal aproveitado... Tudo me incomoda!

Basta apenas que eu chegue num ambiente e já começo a olhar pelos cantos, vasculhar coisas, investigar tudo aquilo que não está como eu acho que deveria. Doutrinar a existência em geral para que o mundo fique em plena conformidade com os meus auspícios. E quem vive sob o mesmo teto comigo sofre dobrado:

“Meu pai! Quem deixou essas coisas jogadas aqui?”;

“Por que a cama está desarrumada até essa hora?”;

Quem deixou a válvula do fogão aberta?”;

“Quem tirou meus livros do lugar?”;

“Onde está aquela cueca que sempre deixo pra usar no sábado?”;

“Não é melhor limpar a cozinha primeiro e depois assistirmos o filme?”;

“Por que têm dois sabonetes abertos?”;

“Alcatra é carne pra se fazer nos fins de semana!”;

“Quem pegou o meu chinelo?”;

“Não consigo descansar em casa suja!”;

Minha voz irritante fica ressoando dentro da mente dos meus pobres familiares. As pessoas que amo certamente são seres extraordinariamente perseverantes. A coexistência diária comigo certamente é provação capaz de valer a entrada no paraíso de qualquer religião. Sou um insuportável fiscal da natureza humana... Não por acaso morei sozinho por anos, sei muito bem que não existe altruísta capaz de conviver por muito tempo comigo. E para aliviar este drama, minto pra mim alegando que gosto de ter minha independência.

Certa feita, meu irmão mais velho, recém-separado, pediu para ficar uns tempos em minha casa... Coitado. Não suportou dividir o mesmo teto comigo nem por uma semana.

E o pior é que não sou um ranzinza que olha apenas externamente para o que ocorre com a vida alheia. Acima de tudo, sustento irrefreável comportamento analítico sobre minha própria existência. Afinal, quem mais sofre a cobrança nesta história toda sou eu mesmo.

Tornei-me um eterno escravo de minhas próprias regras. Tenho um itinerário mental para as atividades de meus dias. E nas raras vezes em que preciso sair deste confinamento militar, sinto culpa. Como se eu estivesse me tornando um desleixado, incapaz de cumprir com os deveres ilusórios, existentes apenas dentro da trevosa mente que me pertence.

Minhas camisas são arrumadas no guarda-roupa de modo a serem usadas em ordem de chegada. Aquelas que acabaram de sair da máquina de lavar vão para o final da fila, esperar sua vez de serem usadas;

Leio meus livros em plena concordância com a ordem em que eles foram comprados, sem jamais antecipar algum que gostaria de ler primeiro;

Minhas revistas são guardadas por tipo, e separo aquelas que ainda não li das que já foram devoradas;

Desde a infância que eu deixo a carne no prato para comer só no final;

Os perfumes possuem datas específicas. Tenho fragrância para usar no trabalho, durante o dia, nos fins de semana e aqueles para ocasiões especiais;

Até o cachorro aqui em casa sofre. Os biscoitos e guloseimas que sempre compro, uso um critério balanceado: dois bifinhos pela manhã e os ossinhos recheados são para os fins de semana.

Levo uma vida amplamente pautada pelas regras... Regras que estabeleci e não sei dizer de onde vieram.

No livro “O Poder do Hábito”, o autor Charles Huhigg diz que quase tudo o que fazemos durante o nosso dia parece ser oriundo de decisões tomadas com muito cuidado, porém, tudo não passa de um aglomerado de hábitos. Contudo, creio que no meu caso, a coisa tende a ser um pouco mais grave, pois além de ter uma série de comportamentos habituais, sei muito bem que nada disso foi por mim revisado... Tudo foi construído numa enorme teia de normas que estabeleci, há muito tempo em minha vida sem-graça. E se isso tem facilitado os meus dias ou não, é algo que não delibero. É que simplesmente considero infrutífero viver fora dos meus padrões de rotina.

Faço com que minhas normas se transformem em algo automático, sem que precise ficar pensando em como será meu dia amanhã. Quando planejo um passeio ou viagem, determino todos os pormenores, antecipo os pagamentos, vasculho itinerários, procuro minimizar as chances de que imprevistos aconteçam. No entanto, e este é o grande problema de minha neurose, os imprevistos acontecem, queira eu controlá-los ou não.

Como eu posso querer dirigir tudo, sistematicamente, se o tempero básico da vida é o ineditismo?

Pelo menos ainda consigo suportar minha própria realidade regrada, mas suspeito de que logo estarei a gastar uma fortuna com terapeutas. No entanto, o propósito desta reflexão não é deliberar sobre minhas manias em relação a mim mesmo. Na verdade, o que mais quero é deixar registrado minhas desculpas para todas aquelas corajosas existências que convivem comigo; gente que faz vista grossa de minhas neuras em prol de boa harmonia...

Pessoal, eu não sou assim porque os odeio, mas justamente por saber que são partes fundamentais de minha vida, é que tento colocar vocês dentro dos meus padrões rígidos de disciplina... Porque se estou a pegar no seu pé, saiba que apenas o faço porque gosto de você. Pois do contrário, minha natureza bizarra teria o comportamento que lhe é típico quando não gosta de alguém... Ela simplesmente ignora.