sábado, 29 de setembro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – FRACASSO


Nossa sociedade moderna privilegia e exalta quase que de modo obcecado a ideia de sucesso, o que nos faz querê-lo com a mesma obstinação que este dogma ressoa desde sempre. Ter sucesso todos os dias deve ser condição de vida boa e elevá-lo a se ter menos hoje do que teremos amanhã é obrigação do homem bem sucedido.

Afinal, a obtenção de sucesso nos é identitário do resultado de esforços, satisfaz por conta do reconhecimento externo de alguma virtude ou conquista por nós alcançados. Sucesso enobrece e nos faz querer continuar crescendo.

No entanto, apesar de ninguém o desejar e muito menos se sentir satisfeito quando de sua chegada, é talvez inegável que o fracasso eleve muito mais o ser humano do que o sucesso. É um pensamento conclusivo? Logicamente não, assim como nenhum outro deste quadro. Mas é pertinente para pensarmos se o fracasso de fato nos humaniza mais do que o sucesso. Porque embora pareça absurdo, o fracasso é talvez o ponto em que estamos mais inclinados a reconhecer a nossa falta de humildade, a perceber em quais aspectos estamos errando, e também a levar em consideração a inevitável contingência.

Enquanto isso, a progressão do sucesso pode elevar a vaidade, alterar nossa percepção de cuidados, nos deixar relapsos quanto à noção do esforço. Conquistas sucessivas e constantes podem nos dar a impressão de que somos maravilhosos e irreprováveis. E embora isso também não seja regra incontestável, algumas vezes um pouquinho de fracasso é bom para nos fornecer humildade.

É claro que a sucessão de fracassos também pode ter efeitos nocivos por nos deixar completamente desmotivados, derrubar toda a nossa estima, frustrar-nos a ponto de não querermos seguir por determinadas escolhas ou até mesmos nos fazer pendurar de vez as chuteiras.

Lucidez e discernimento perante este mal, porque é sim um mal estar no fracasso. Contudo, insucesso nos será útil no sentido de enxergarmos na derrota alguns conselhos sobre como lidar desse ponto em diante, trazer-nos a noção de nosso tamanho e até nos livrar da perigosa noção de achar que devemos ter sucesso ininterrupto.

Porque muito embora todos nós queiramos e trabalhemos em prol do sucesso, seja ele profissional, familiar, afetivo, social, sabemos bem que cada entrave com o qual esbarrarmos ao longo de nossa jornada, deveria ser interpretado como um estágio à reflexão. Estes intervalos são momentâneos e logo se abrem num sujeito ainda mais observador de si mesmo, mais cauteloso e, acima de tudo, menos iludido com a oratória moderna de que sucesso precisa ser estabelecido de modo sistemático e indefectível.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – O RETRATO DE DORIAN GRAY


Normalmente não me sinto à vontade em fazer resenhas dos clássicos que leio, por dois motivos: muitas vezes não detenho a sutileza que a obra merece ao ser lida; e também porque acho que seja desnecessário resenhar algo que já foi amplamente analisado por gente muito mais capacitada do que eu.

Mas resolvi abrir uma exceção para esta magnífica obra de Oscar Wilde, pelo simples fato de seu conteúdo ser tão atual aos nossos tempos. O RETRATO DE DORIAN GRAY é uma obra que nos remete à reflexão daquilo que nos é mais constante e infalível: a vaidade humana. O Dorian construído magistralmente por Wilde é o arquétipo perfeito do desejo pela juventude eterna.

Após ter sua imagem pintada num quadro, nosso herói lamenta profundamente a triste realidade de saber que, mesmo com o passar do tempo, a obra de arte permanecerá em eterno esplendor de sua beleza, enquanto Dorian obviamente envelhecerá como o limitado mortal que é. Desse ponto em diante, um pacto inesperado e misterioso tem início e o retrato passa a absorver a ação do tempo e miséria substancial de seu retratado. Dorian permanece jovem e belo, enquanto sua imagem no quadro envelhece sistematicamente.

O autor magistralmente cria um personagem notável em toda sua juventude ingênua e superficialidade aflorada. Dorian Gray fascina pela beleza, mas não é profundo ou sedutor, embora ambicione também o intelecto. O detentor do fascínio na obra fica com Lorde Henry, meu personagem favorito e principal influência na construção de um Dorian tomado pelo ego.

Henry é reflexivo, erudito, possui aspectos misteriosos e quase sempre é capaz de convencer com seus conceitos impudicos. Ele consegue ser genial e irritante ao mesmo tempo, justamente por fazer convencer através de seu sofismo; possui o verdadeiro charme e elegância de um lorde, mas inveja arduamente a beleza de Dorian, assim como também lamenta a perda de sua juventude.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1890 e, ao que parece, os editores temiam que a história fosse indecente demais. Quando se lê a edição de nosso tempo é difícil pensar que este fora considerado indecoroso. Não há nada de grave, além da temática contumaz do apreço humano pela juventude. Mas Oscar Wilde chegou a ter problemas por conta desta obra que a crítica da época a considerou obscena e imoral. Um ano depois, o autor fez uma extensão do texto e o publicou como romance, inserindo um ótimo prefácio aforístico sobre a impecabilidade da arte.

A versão da obra que eu li corresponde a publicada por Nicholas Frankel no ano de 2011 e que é baseada no datiloscrito de Oscar Wilde que permaneceu inédito por mais de 120 anos. As versões anteriores tiveram suas publicações atenuadas em diversas referências consideradas impróprias para a época. A tradução para o português é de Jorio Dauster e ficou enxutinha e atual.

Aos meus olhos, este livro só poderia ser um clássico por se tratar de uma narrativa contínua em teor e premissa; um conteúdo perfeito de construção sutil da vaidade de um jovem rapaz, que igualmente ao mito de Narciso, faz de sua beleza estética o objeto primordial de idolatria. Perfeito!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIAS DA NOITE


A sinopse desta obra promete narrativa com ares das 1001 Noites e uma linguagem repleta de poesia. O autor nasceu em Damasco, cenário de toda a trama, contudo, cresceu na Alemanha onde se dedicou a literatura e atualmente é membro da Academia de Belas-Artes da Baviera.

Bom, diante de referências excepcionais como estas, é difícil pensar que iremos nos enganar quanto ao bom conteúdo da obra. No entanto, se as referências árabes estão de fato permeando a história e o autor detém consagração já sendo traduzido para várias línguas, devo dizer que este HISTÓRIAS DA NOITE, quando atingiu instantes elevados, não passou de uma leitura morna, prolixa, sem nenhuma poesia e creio que 1001 noites era um temor imaginário de que esse seria o tempo que eu levaria para chegar ao término da leitura.

Que me desculpem os leitores que gostaram da obra, mas por maior que fosse minha paciência e boa vontade, houve um instante, já perto do capítulo final, que eu ansiava, quase implorava pelo final da maçante trajetória de um cocheiro de Damasco chamado Salim.

Considerado pelo povo local o melhor contador de histórias da região, o velho Salim se encontra em apuros quando, ao ver-se inserido em situação tão utopista quanto os causos que sempre contou, é acometido por uma mudez incurável. Então sete de seus amigos (o autor sustenta certa obsessão com o número sete) resolvem fazer de tudo para devolver a voz à Salim e, como deve acontecer numa boa premissa de fantasia, eles resolvem fazer isso contando histórias “maravilhosas” que magicamente destravarão a língua do amigo.

Desse modo, o leitor é levado a acompanhar sete histórias cheias de misticismo, mitologia regional e incursões fabulosas contadas pelos personagens. Daí se explica o título da obra.

O aclamado autor, Rafik Schami, quase consegue engatar um bom texto logo no início, quando nos entrega um conto decente narrado pelo amigo de Salim que inicia a proposta de ajuda (veja que aqui os contos são narrados pelos personagens sem que estes estejam na primeira pessoa); trata-se de uma história encorpada e cheia de fantasias legais, as quais até nos permite relevar o teor um pouco cansativo da narrativa. Contudo, os demais personagens contistas são chatos, previsíveis e beiram o insuportável quando tentam ser engraçados, salvo apenas o amigo conhecido como “O Imigrante” que por ter vivido noutro país, faz uma breve, porém agradável comparação entre as diferenças culturais entre os Estados Unidos e a Síria.

Não chega a ser uma obra de todo ruim. HISTÓRIAS DA NOITE consegue funcionar em alguns instantes em que expõe sua literatura fantástica. Só que é uma pena o fato de que em sua maior parte o texto é maçante e nos deixa com a sensação de que o autor é inseguro em sua premissa; ele não sabe o que quer contar e, por consequência disso, seus personagens contistas herdam esta mesma dificuldade.

sábado, 4 de agosto de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – DESEJO


Quando eu era bem jovem, lá no início da adolescência, escutava meus prazerosos rocks em fitas cassetes, muitas delas gravadas de programação de rádio com direito até aquelas malditas vinhetas que o locutor insistia em soltar antes do término da canção. Depois vieram os dvds e aí a coisa ficou bem mais agradável; não havia mais vinhetas horríveis, músicas quebradas, eu agora poderia comprar meus discos favoritos, mas como a grana era sempre curta, eu mandava gravar e ficava tudo ótimo... Então, eis que surgiu a internet, e com ela vieram vídeos, as mídias em MP3, os recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados... Atualmente, tenho um vasto acervo de música cuja maior notoriedade é mostrar o quanto continuo desejando acumular rock, e cada vez mais insatisfeito ou deprimido por pensar que está me faltando algo...

Ou seja, minha antiga precariedade que se resumia em algumas fitas K7 gravadas sem nenhuma qualidade notória, foi substituída por arquivos de alta qualidade, vídeos em HD, shows com áudio que fidelizam a precisão das guitarras, e eu continuo querendo mais.

Os budistas têm razão quando dizem que desejar incessantemente traz um grande problema: impede que eu note a beleza do lugar em que me encontro.

O desejo irrefreável nos torna infeliz. Porque dentro dessa perspectiva interminável do querer, eu deixo de apreciar o que está ao meu alcance, torna meu olhar inclinado a ver apenas o pior de cada situação, por melhor que ela tenha se transformado em relação há outros tempos, exatamente como ocorreu com a evolução das mídias de rock que eu tanto amo.

É claro que a ausência total de desejo, ou seja, uma pessoa que não cobiça absolutamente nada está fadada a passar a vida inteira estagnada num lugar perigoso conhecido como zona de conforto; pessoas desprovidas de desejo não avançam, não realizam nada...

Portanto, se sempre haverá algo a se desejar, se sabemos de nossa eterna insatisfação com tudo, então o problema não está em querer algo, mas como quase costumeiramente ocorre, somos nós o grande empecilho de nós mesmo, simplesmente pela falta de equilíbrio.

Precisamos nos livrar da ânsia por consumir de forma desenfreada e irracional, pois somente desse modo conseguiremos adentrar na apreciação daquilo que temos, sejam virtudes, conquistas ou bens materiais. Pois como advertia o filósofo Nietzsche: “Em última análise, ama-se o nosso desejo, e não o objeto desejado”. Tomara que consigamos superar isso.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

RESENHA DE LIVRO – UMA MULHER EM BERLIM


As guerras não são apenas o resultado fatal da ganância de um povo. Conflitos bélicos significam a hecatombe máxima orquestrada por tiranos idealistas que de algum modo chegaram ao poder deste mesmo povo. E como resultado quase que inescapável testemunha-se a miséria total de nações devastadas por ideais sempre, mesquinhos, ilógicos e desumanos.

Esta definição propositalmente totalitária tem por intuito demonstrar o quanto penso ser injustificável a violência entre nações. E embora possam ter existido exceções ao longo da história da humanidade (não consigo pensar em nenhum caso no momento), talvez a natureza caótica dos homens pudesse ser consideravelmente amainada se antes de levantar armas, eles pudessem ler os relatos de pessoas comuns que vivenciaram a desgraça de perto.

UMA MULHER EM BERLIM possui exatamente esse poder: o de fragilizar o leitor a ponto de fazer com que a noção de ganância e vaidade humana paire constante na superfície de sua mente; faz-nos sentir o asco perante a maledicência desnudada dos homens.

Trata-se do diário catastrófico de uma berlinense que relatou seus dias de trevas, entre as datas de 20 de abril até 22 de junho de 1945, a indescritível miséria de se viver numa cidade devastada pela guerra. As precárias condições em que pessoas (principalmente mulheres e crianças) precisam lidar diariamente causa vergonha porque estamos vendo de muito perto o resultado da ganância humana, a falta de compaixão e o despotismo impiedoso de invasores sobre invadidos.

É fácil compreender porque a autora optou por se manter anônima: ao longo de todo o diário se repete ininterruptamente realidades como: estupros coletivos, fome constante, prostituição como meio de sobrevivência. É uma narrativa fria, minuciosa, porém, triste e pesada; que conta os dias difíceis enfrentados pelas mulheres que estiveram em Berlin no final da guerra quando o exército soviético tomou conta da capital alemã.

Embora o teor seja pessoal como geralmente acontece nos diários, creio que este livro sustente um viés documental de fundamental importância, pois relata de maneira despudorada o sofrimento de mulheres alemãs que se viram encurraladas numa cidade ausente de seus homens que foram mandados para morrer no front de batalha, à mercê da crueldade do exército inimigo. E como ainda existem poucas vozes femininas testemunhando guerras, UMA MULHER EM BERLIM deve ser preservado por ser um relato muito forte da perda na dignidade feminina em nome da sobrevivência.

A autora se mostra dotada de elevada erudição; chega até a fazer citações filosóficas, reflete sobre a complexidade humana e sabe conduzir uma narrativa que, embora triste e crua, flui coesa e bem escrita. Mas admirável mesmo é sua coragem e sanidade em documentar, mesmo perante tempos cruéis que levam o ser humano a vivenciar seus próprios limites.

Se esta é uma obra de difícil digestão, certamente que sim. Mas testemunhos peculiares da guerra como este precisam ser difundidos e conhecidos pela posteridade. Para que ao menos a barbárie humana seja confrontada em pé de igualdade com algo quase utópico quanto o altruísmo.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – MISOGINIA


Certa feita estava eu numa delicatessen tomando cerveja sofisticada demais para o meu mirrado orçamento (eu só estava lá a convite do meu chefe, aliás, creio ter sido esta a primeira vez em que entrei nesta loja), quando surgiu no meio dos lustrosos clientes da classe média, uma cena que me chamou a atenção.

Havia surgido um assunto em que um dos clientes defendia a tese de que para ser um bom vendedor de cerveja é preciso antes que se goste de cerveja. Veja que o assunto havia começado porque o atendente que procurava nos oferecer as distintas marcas importadas era uma mulher que alegou inocentemente não gostar de beber.

Tentei timidamente argumentar que discordava; que um comerciante de quadros não carece de ser um Botticelli para se tornar um exímio vendedor. Logicamente, o sujeito não gostou nem um pouco da minha réplica dizendo que meu exemplo não era válido. Então, o cara elevou sua empáfia e salientou que era um ótimo vendedor de carros porque é também um apreciador dos possantes que vende. Em seguida veio o ápice de sua prepotência: ele andou até o balcão onde se encontrava a pobre atendente, segurou em seu queixo e soltou a seguinte pérola: “é claro que um rosto bonito como este ajuda muito no atendimento. Mas se quiser vender cerveja, primeiro você precisa gostar”.

Perceba que essa história vem permeada de alguns detalhes que talvez aconteça diariamente sem que notemos: o cliente se mostrou desconfortável por receber sugestões de cerveja de uma mulher e tal situação lhe pareceu inaceitável quando ela confessou que não bebia. Em seguida, o malquisto foi até ela e fez o comentário sobre sua aparência estética, coisa que não teria acontecido se o vendedor da loja fosse um homem que não bebe... Mas eis que ali naquela loja que vende coisas de homens, se encontrava uma atendente mulher, e o cliente machista olhou-a de cima pra baixo com o característico patriarcalismo típico dos homens.

A misoginia é talvez o preconceito mais antigo de que se têm notícias. Podemos constatar essa ideia se analisarmos as escrituras de religiões milenares, principalmente as monoteístas. E mesmo se buscarmos aforismos de pensadores brilhantes da humanidade, não é difícil encontrar a repulsa excessiva contra as mulheres. Poderia citar alguns como Nietzsche, Schopenhauer, Erasmo de Roterdã e toda a filosofia grega...

O episódio que mencionei na loja de cervejas talvez não tivesse ocorrido caso o arrogante cliente tivesse discernimento de seu ato; Talvez até já existam homens se envergonhando ao identificar em suas ações a misoginia... Talvez. Mas a verdade é que este tipo de preconceito continua tão forte culturalmente que ele acontece o tempo todo e de forma quase natural.

Mas basta irmos buscar dados estatísticos ou cognitivos para que a falácia machista caia por terra. As corretoras de Seguros de automóveis já aprenderam esta lição. E propositalmente uso esta referência para cutucar um pouco mais o cliente da delicatessen. Sim, pois as agências de seguros há muito já oferecem consideráveis descontos para clientes mulheres porque estatisticamente elas praticamente não se metem em acidente, numa proporção de dez ocorrências com homens para uma com mulheres. Ué, e aquele papo de que “mulher no volante é igual a perigo constante”? Tenhamos cautela, principalmente porque para um preconceituoso existir, é preciso que algo na vítima concorde com ela.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

RESENHA DE LIVRO: ÓDIO, AMIZADE, NAMORO, AMOR E CASAMENTO


Preciso reconhecer que minha incursão inicial com Alice Munro causou-me diferentes sensações em diferentes instantes da leitura deste distinto ÓDIO, AMIZADE, NAMORO, AMOR E CASAMENTO; coletânea de contos desta ilustre desconhecida escritora canadense.

As disparidades começam já no princípio, quando senti certo desconforto naquilo que pareciam ser contos que de tão simplórios, beiravam o banal. Depois achei que o problema não era no método literário da autora, mas na diagramação que não deixava o texto respirar. Daí eu me irritei com o excesso de explanação dos personagens e informações desnecessárias que só faziam aumentar ainda mais os enormes contos, a ponto de quase desistir da leitura. Foi então que, ao reduzir a velocidade, comecei a me acostumar com a doçura dos excessos. E finalmente me encantei com a condução despretensiosa de Alice Munro, que sabe narrar a existência humana de maneira a nos dar uma ótica perfeita das eventualidades da vida.

Aprendi que Alice é autora que funciona devagar; que precisa ser lido com muita calma para que não se percam os detalhes, pois é na apreciação deles que conseguimos encontrar a alma do texto. É como observar uma tela abstrata em que se carece de perseverança para se descobrir a beleza.

A forma dos contos escapa um pouco o habitual e aqui o excesso analítico que a autora usa em seus personagens se fixa quase sempre em instantes triviais. Muitas vezes os contos parecem retalhos de algo maior; fragmentos que foram extraídos de um romance, como algo sem começo nem fim. Não há a preocupação em dar um término lógico, um sentido ou a premissa de se transmitir algo. Não. Os contos dessa autora parecem narrar o desimportante; o abandono, o lado que ninguém nota.

Somente quando aceitei este fato é que comecei a gostar da leitura.

Os contos quase sempre manipulam o entremeio para propositalmente não encontrar nenhum tipo de extremo. Nada de vilões ou heróis, apenas seres cheios de inconstâncias defrontando o ineditismo de suas existências. E desse modo, a narrativa segue por uma trilha que precisa ser absorvida com calma, ou do contrário deixa a incômoda impressão de insignificância.

O último conto intitulado “O Urso Atravessou a Montanha” foi a confirmação definitiva de que eu tinha em mãos um grande livro. Achei emocionante adentrar, sem nenhum pudor ou apresentações, na vida de um casal já na terceira idade que começa a enfrentar as durezas ocasionadas pelo Alzheimer que acometeu a esposa. Ela é internada num centro de tratamento e lá começa uma afetiva relação com um dos internos. É fabuloso a narrativa que mantém a proximidade do ponto de vista do marido, que apesar de ver sua esposa absorta numa nova relação e ter sua mente confusa, exalando os mais difusos sentimentos, ainda mantém o zelo e dedicação a ela, como se seu universo estivesse tão enraizado no casamento que já não fosse mais possível escapar dele.

ÓDIO, AMIZADE, NAMORO, AMOR E CASAMENTO não é um livro de fácil digestão. Não por trazer temas espinhosos ou uma linguagem complexa. O que talvez seja o grande desafio ao encarar esta surpreendente obra, é o exercício da paciência na leitura; de deixar o texto fluir calmamente. Até que possa revelar-se em plena venustidade as experiências mais simples da vida.

terça-feira, 5 de junho de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – ANSIEDADE

Hoje estarei iniciando uma série de pequenos textos cujo título é A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS. A ideia é desenvolver cada tema proposto numa breve reflexão que como o título sugere, não deve contar com mais do que sete parágrafos. O intuito não é o de esgotar algum dos assuntos, mas treinar a escrita concisa, assim como instigar o leitor a pensar resumidamente sobre o tema. Portanto, aqui não há desenvolvimento profundo, apenas um sumário cuja proposta é fazer com que não se percam alguns tópicos que tanto nos interessam.


A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – ANSIEDADE




Uma inequívoca realidade a qual o ser humano tem dificuldade em lidar é que sua inclinação quase natural de deixar-se vencer pela procrastinação, alienada à infinidade de possibilidades que a modernidade social oferece, acaba por transformá-lo num irremediável justificador de sua inaptidão... Eu explico.

Por razões variadas, as pessoas costumam usar alguma desculpa para deixar de fazer algo, ou mesmo para continuar fazendo alguma coisa. Por exemplo: em tempos de escassez era comum se dizer que não havia possibilidade de se estudar Filosofia Antiga por ser muito difícil de encontrar, além de custar muito caro e o curso ficar numa instituição muito longe de casa. Ou seja, para se fundamentar o desperdício do tempo livre com vagabundagem podia-se facilmente usar argumentos aceitáveis, como a distância, para justificar a ausência de obstinação.

Hoje nenhum desses argumentos de conveniência possui mais credibilidade. Afinal, está praticamente tudo ao alcance do teclado, dos recursos de mobilidade variados e com preços acessíveis... E toda essa possibilidade vestida de benevolência incontestável, esconde uma grande problemática: estamos ficando angustiados.

Nunca em outro tempo houve tantas doenças ligadas ao psicológico humano. Sabendo disso a indústria farmacêutica enriquece gradativamente desenvolvendo psicoativos sintomáticos para amenizar temporariamente os males dessa nossa companheira diária chamada ansiedade.

Outra área que tem lucrado imensamente com nossa angústia é o gênero pós-moderno conhecido como autoajuda. Claro, nada mais óbvio do que haver gente por aí enriquecendo com vendas de produtos e serviços que nos digam qual caminho devemos escolher. Se nós estamos estagnados num cruzamento nebuloso e cheio de vias contraditórias, nada mais comum do que surgir algum sofista aparentemente higienizado e com um currículo extenso pendurado embaixo do pescoço, para nos “ensinar” o que deve ser feito...

Mas quase sempre estes meios pragmáticos têm se mostrado ineficazes perante a complexidade e o ineditismo existencial. Quando muito eles nos tiram da ansiedade maléfica para nos confinar num abismo profundo chamado depressão. Então, sob a égide da regra fácil, podemos seguir com nossas vidas ociosas, tediosas e infelizes.

É preciso cautela! Pois se não mais dispomos do benefício da justificativa que nos aconchegava em nossa visceral zona de conforto, que pelo menos nós sejamos menos ingênuos e aprendamos a discernir melhor diante da extensa oferta de felicidade fácil... Porque a vaidade vive enraizada na cabeça das pessoas. E a consequência disso quase sempre é o insucesso que culmina nesta terrível doença chamada ansiedade.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

RESENHA DE LIVRO: FORA DAS SOMBRAS


Exatamente como acontece a maior parte das vezes, encontrei este volume de capa bonita e título forte, numa Sebo da minha cidade. Nunca tinha ouvido falar de Jason Wallace ou desta sua obra peculiar, mas a sinopse despertou meu interesse.

A trama se passa numa devastada Zimbabwe pela guerra. Sob as costumeiras falácias do novo líder Robert Mugabe que promete novos tempos, o país vive como se fosse uma panela de pressão prestes a explodir. O pós-guerra costuma deixar entre as artérias de uma nação sentimentos de ódio aos vencedores, ressentimento, preconceito e a elevação da intolerância.

Tudo isso é o pano de fundo desta obra, que é narrada por um garoto britânico que precisa se adaptar ao cenário social caótico, porque seu pai foi transferido para trabalhar na embaixada no Zimbabwe e acredita que isso irá lhe garantir ganhos simbólicos e políticos. O jovem narrador, embora assustado e desconfiado das promessas de prosperidade, tenta encarar a vida nova de modo a não contrariar os interesses de sua família. E neste interim, vamos acompanhando a inevitável descoberta do lado frágil da família através dos olhos do narrador; também sua autodescoberta como jovem inseguro que precisa tomar decisões difíceis, fazer escolhas determinantes, conviver de perto com a noção do racismo e do preconceito... Uma trajetória de conhecimento de si mesmo.

FORA DAS SOMBRAS emociona por sua enorme honestidade. O livro expõe o que acontece de modo cru e sem confetes. Ao ler um pouco sobre a obra na internet, eu soube que o autor viveu de fato no Zimbabwe e teve a ideia de construir um romance baseado em suas memórias.

Devo confessar que em determinado momento a narrativa começou a me incomodar um pouco. E de modo sutil e quase imperceptível, fiquei com a impressão de que o livro seguia por um caminho delicado que balançava entre o teor maçante e enfadonho. Talvez fosse por conta da inevitável inserção de elementos políticos na trama, ou o excesso de zelo do narrador em tentar transportar seu leitor para dentro dos acontecimentos, não sei ao certo... O fato é que houve um instante em que cheguei a pensar estar diante de uma ótima ideia que foi mal aproveitada.

Por sorte o fôlego é retomado e do meio pra frente a história funciona muito bem. FORA DAS SOMBRAS consegue manter uma linha narrativa decente até o fim e sem precisar recorrer a recursos piegas para fazer o leitor se emocionar. A trama não consegue se desvencilhar do teor político, mas embora inevitável isso também não atrapalhou o resultado como um todo.

O estilo narrativo é direto e sem firulas. Conta o que pretende sem enfeites nem sentimentalismo. Constrói pouco seus personagens, mas acerta em não recear desnudá-los. Devo dizer que foi uma boa leitura, nem um pouco brilhante, mas longe de ser medíocre. Um livro agradável, que apesar de ter oscilado em certos instantes, agradou como um todo.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

RESENHA DE LIVRO – Guia Politicamente Incorreto da Filosofia


A maior virtude que sempre se pode evidenciar quando se assiste a uma palestra do filósofo Luiz Felipe Pondé é quanto da sua explanação simples, direta e permeada de ideias inteligíveis e atuais. Pondé usa de recursos cândidos para se entender a análise por ele proposta. E este método agrada ao expectador porque a oratória se torna alcançável a quaisquer tribos.

Por conta desta constatação que resolvi ir além dos cafés filosóficos internet afora, para ler um pouco da obra deste autor. E comecei justamente por este controverso GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA FILOSOFIA.

Controverso porque a premissa da obra é exatamente esta: causar desconforto em um tipo específico de ser humano muito comum em nosso mundo contemporâneo: o famigerado politicamente correto. O ódio jurado pelo autor sobre a hipocrisia de nossos tempos é declarado já nas primeiras páginas. E Pondé faz questão de reafirmar esta cólera em vários instantes e dentro de diferentes assuntos.

O texto em si é muito bom, de linguagem acessível e naquela pegada estilo conversa de boteco. Incomoda um pouco a ausência de divagações e reflexões continuadas, tão comuns na filosofia. Portanto, ler o título da obra bem naquela capa cheia de grandes nomes da filosofia, nos deixa com uma sensação de estar sendo enganado pelo marketing de vendas do livro. Sim, pois aqui não há o conteúdo histórico filosófico que proposto como alvo de análise do autor. O que realmente nos deparamos é com um ensaio cheio de ironias diretas aos males contemporâneos apontados por Pondé.

A contundência é tão exagerada em alguns momentos que acaba parecendo forçado ou um extremismo de direita (hipótese que considero menos provável) que se ressente com algumas mudanças de inclusão social. E embora o conteúdo seja atual e pertinente, a discrepância no título, na capa e na posição do autor como filósofo, faz com que tudo pareça comercial demais e filosófico de menos.

A diagramação também parece convenientemente servir para “encher linguiça”. O conteúdo escrito do livro poderia muito bem ser editado em menos de 100 páginas. Mas aqui temos uma extensa obra com mais de 230 páginas, infestadas de folhas em branco ou ilustrações que reproduzem a capa (seria um modo de encarecer a obra?).

Contudo, encarar este volume como um guia pode facilitar na aceitação de sua leitura; Pondé usa de uma leitura breve e simples, que serve como porta de entrada para o leitor que queira aprofundar mais nos temas e autores citados. Não é um livro de teor acadêmico e talvez este seja seu grande brilho, desde que assim você o encare. O autor destila sua opinião ofensiva quase como se fosse uma metralhadora, mas aprofunda pouco na sustentação (característica típica de um guia). No entanto, este ataque, por ser generalizado, acaba incomodando, principalmente vindo de um filósofo. Em alguns momentos faz parecer que Pondé está usando as mesmas ferramentas que tanto critica na cultura do Politicamente Correto: a opinião rasa e frívola.

Vale pela crítica ao mundo idealizado da cultura “inteligentinha” que não para de crescer. Mas achei que Luiz Felipe Pondé poderia ter tomado certa cautela em sua análise textual, justamente para não parecer que ele mesmo sofre de estar confinado em um universo fechado e restrito que tanto nubla e idiotiza a praga do politicamente correto.

sábado, 14 de abril de 2018

RESENHA DE LIVRO: CONTATO VISUAL


O universo singular e pouco explorado que é abordado nesta obra já é razão para atrair o leitor que deseja fugir do senso comum. Ler sua sinopse intrigante inevitavelmente nos deixa convencidos de estar segurando um inesquecível conteúdo literário. Contudo, CONTATO VISUAL, de uma autora chamada Cammie McGvern, muito embora tenha alguns elementos positivos, está longe de ser um trabalho inesquecível (que me perdoe a grande maioria dos leitores que amaram a obra).

Longe de ser ruim, o tal universo singular que menciono é o autismo. E a trama aparentemente envolvente é claro prenúncio de algo magnífico: duas crianças desaparecem num bosque próximo a escola em que estudam. Apenas uma delas é encontra com vida, a outra foi assassinada. E a grande problemática é que este único remanescente é um autista. Começa então uma árdua jornada de paciência e habilidade para conseguir arrancar relatos do pobre menino.

No aspecto de mostrar a enorme problemática em lidar com uma limitada testemunha, principalmente por parte da mãe do menino, o livro não decepciona; é enriquecido por detalhes que nos deixa bem próximo daquilo que seria a difícil convivência com um autista. A trama foca bastante sobre essa complexidade, nos fazendo perceber que com a medida ideal de habilidade é possível aprofundamento nesta realidade aparentemente insolúvel. Outro aspecto bem explorado é a determinação incansável de uma mãe em tentar ajudar o filho.

Mas a narrativa incomoda um pouco porque exagera em tentar fazer o leitor compreender os acontecimentos. É como se Cammie McGovern não confiasse na capacidade interpretativa do leitor. Aqui tudo é excessivamente narrado, o que infelizmente acaba bloqueando em nossa mente aquela deliciosa lacuna subjetiva que tanto gostamos de preencher com nosso próprio discernimento.

Talvez o livro funcione melhor, mesmo que não seja propriamente a premissa, como conteúdo que narra as dificuldades oriundas de lidar com autistas. Sim, pois como suspense ou thriller policial o livro não engrena em nenhum momento.

Novamente reforço: CONTATO VISUAL não é um livro ruim. Só o que houve foi uma trama envolvente que acabou sendo mal aproveitada pela autora ao focar demais no tema “autismo”, deixando de lado componentes fundamentais para se conduzir um bom suspense literário. Mas é apenas minha leiga opinião. E como se pode verificar pelo imenso sucesso da obra, minha análise faz parte da minoria.

quinta-feira, 29 de março de 2018

RESENHA DE LIVRO – CLINT EASTWOOD – Nada Censurado


Por minha própria deliberação em manter o foco na literatura de romance, contos e filosofia, havia decidido parar de ler biografias por algum tempo. Sim, pois normalmente considero esta plataforma literária um pouco exaustiva, pois o conteúdo é sempre infestado de termos técnicos e as especificidades que envolvem o universo do biografado. Isso pode ser um pouco cansativo para o leitor que não tiver muita familiaridade com tal existência. E uma biografia de quase quatrocentas páginas (como é o caso desta aqui resenhada) pode se tornar um infindável tormento.

Contudo, eu pessoalmente considero Clint Eastwood um dos melhores diretores ainda vivos. Filmes magistrais como Menina de Ouro, Sobre Meninos e Lobos, Os Imperdoáveis, Gran Torino, A Troca, Cartas de Iwo Jima, entre tantos outros, são exemplos de uma sensibilidade peculiar inserida em suas produções. E como simplesmente adoro o estilo cinematográfico de Clint, esta foi a razão que fez com que eu não resistisse em levar esta biografia pra casa.

Inevitavelmente os referidos termos técnicos e as longas narrativas das principais produções do mega-astro permeiam toda a obra; um prato cheio para os cinéfilos que desejam mergulhar um pouco mais no imenso mar hollywoodiano das grandes produções. E Clint Eastwood é parte importante da história do cinema mundial. Mas se você apenas curte os filmes do cara, como no meu caso, ainda assim vale a leitura pela chance de acompanhar com um pouco mais de propriedade a ascensão de um grande nome do cinema.

De mim, não sei o porquê de ainda insistir com biografias. Normalmente elas não são muito diferentes umas das outras, salvo raras personalidades extremamente transgressoras ou alguém que sofreu tragédias notórias. Talvez ler uma biografia seja para o leitor uma maneira indireta de homenagear o biografado, mas não sei se apenas este motivo dá conta. Penso que a maior lição que se pode encontrar dentro das páginas de uma biografia é a aproximação do astro alvo com sua humanidade. As biografias geralmente revelam que pessoas de sucessos, apesar de sustentarem imenso talento naquilo que fazem, são simplesmente pessoas comuns que se tornaram famosas pelo esforço e desenvolvimento de algum talento. Biografias são ótimas para nos mostrar que essa hipótese idiota de aptidão natural não existe... O que há nessas pessoas é muito trabalho, dedicação e uma irredutibilidade quase neurótica.

CLINT EASTWOOD – Nada Censurado não foge a esta regra. Aqui vamos acompanhar toda a trajetória do portador do olhar mais expressivo do cinema, desde seu nascimento até a fase atual, aos 87 anos e ainda fazendo filmes de qualidade (recentemente assisti e adorei o filme “Sully” de sua direção). O subtítulo faz parecer mesmo que é mera tentativa de marketing, pois não existe exageros transgressores que justifiquem tal referência. E apesar de ser muito legal ler o percurso de um astro, ver seus acertos e erros, encontrar curiosidades que não sabíamos a seu respeito e até descobrir alguns aspectos peculiares da sua personalidade, definitivamente não há nada de tão extraordinário assim na vida dessas pessoas. E apesar de o autor Marc Eliot ter feito direitinho sua lição de casa e de Clint Eastwood ser um sucesso inegável, sua vida não foi assim tão distinguível de outras tantas personalidades mundo afora.

Enfim, para os amantes de cinema este trabalho vale a pena ser conferido; aos fãs do velho Clint é obrigatório tê-lo em sua estante de livros. E para quem curte biografias, eis aqui mais uma obra discreta, feita por um autor que soube mostrar uma aceitável dose de imparcialidade narrativa.

quinta-feira, 15 de março de 2018

RESENHA DE LIVRO – BRANCO COMO ARCO-ÍRIS


Muitas vezes é preciso um susto existencial para que possamos dialogar com a nossa interioridade. Eu pergunto: até que ponto somos capazes de refletir sobre nossa maneira de existir?

Branco Como Arco-Íris é uma narrativa de contornos delicados, que aproxima o leitor de sua própria sinceridade. O recôndito do ser que exige de si nada menos do que a verdade guardada na alma. Nessa medida, cada parágrafo avançado na leitura passa a ser entendido sob o olhar desconfiado de nós, leitores, para a nossa aparente verdade.

O personagem principal neste belo livro é um publicitário que se vê prestes a realizar uma tomografia cerebral por recomendação de um médico. E a possibilidade fatal é o sacolejo na alma que o faz se encher de deliberações íntimas e fantasiosas à cerca de seus amores passados.

De um ângulo muito peculiar, Branco Como Arco-Íris são confissões cheias de saudosismos secretos do narrador; um breve diálogo com níveis sensíveis de sua subjetividade. Açucarado na medida certa e tão delicioso que até pode ser lido numa única tarde, acompanhado de uma xícara de chá.

Edgard Telles Ribeiro transborda em talento escritural, em despojamento prosaico e, sobretudo, em belas sacadas da fragilidade humana. Sem se ater a temas fortes ou conteúdos clichês, aqui é a simplicidade cotidiana que esbarra na possibilidade do trágico imaginário do que poderá ser o tal exame tomográfico, deixando restar na mente de seu personagem a sutileza frágil de quem espera encobrir incertezas com a emersão da saudade.

Em cada trecho do livro eu tive que fazer pausas; refletir sobre mim mesmo; fazer anotações de coisas que vinham não sei de onde... Deliberar sobre as incertezas que o personagem nos instiga a pensar.

Pensar espaços inusitados, mesclar o passado com fantasias imaginárias.

Branco Como Arco-Íris é outro achado maravilhoso de um 2017 de muita literatura boa. Resta agora procurar por outros trabalhos deste esplêndido autor, que com elevada delicadeza prosaica, soube transformar as reticências da vida de seu personagem, num texto sinuoso e envolvente.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

RESENHA DE LIVRO: RELIGIÃO PARA ATEUS


Conheci o autor deste excelente livro através de bons documentários que ele produziu na internet. Então, a curiosidade era forte e quando tive a chance, adquiri este ótimo volume filosófico.

RELIGIÃO PARA ATEUS é um preciso trabalho que se propõe a cutucar em casa de abelhas: grosso modo, quando se entra no assunto religião, parece só haver espaço para o antagonismo religioso versus ateu. No entanto, o suíço Alain de Botton, confesso ateu, nos entregou este belo conteúdo cuja premissa é manter a imparcialidade e nos atentar para os benefícios e problemas que carregam os grupos seculares e dogmáticos.

As perspectivas do livro dividem-se em capítulos distintos, que buscam esmiuçar temas que pouco são observados quando se fala do percurso das religiões. Alain propõe que se olhe para o rico e inegável legado construído pelas igrejas, analisemos temas como arquitetura, instituições, arte e educação. E a mensagem mais notória do autor talvez seja para os perigos de um fenômeno social que está crescendo de modo assustador: a noção de cada um por si.

O desprendimento secular em crenças afasta o ateu de algo fundamental para a base da convivência social: a noção de comunidade. E como deve ser uma boa leitura de filosofia (embora o autor sustente uma leve inclinação para autoajuda), as ideias se mantém sob pontos de interrogação ou apenas nos mostram aspectos distintos de pensamentos, deixando a cargo do leitor o ato da reflexão. Alain de Botton não quer sacudir galhos sensacionalistas; usa de uma linguagem documental que faz com que o texto flua com extrema facilidade e doçura; lança questionamentos pertinentes; faz observações sem ser agressivo; destaca dúvidas sem fazer nenhuma censura.

Meu capítulo favorito é intitulado “Pessimismo”. E embora em muitas vezes eu queira e carregue a vontade de ser um ser humano mais otimista, acho que o mundo sempre termina por me empurrar de volta para o meu senso de desconfiança... E apesar de evoluirmos como sociedade, eu ainda sustento a ideia de que inveja, preguiça, ansiedade e principalmente a vaidade humana, acaba dando razão ao meu inesgotável pessimismo.

Pensar religião de uma forma ampla e aberta, sem conceitos fundamentalistas ou determinismos impositivos, já valeria a leitura desta obra. E já que também dependo de elevar minha autoanalise sobre temas espinhosos como este, deixo à cargo do próprio Alain, a reflexão final desta resenha:

 “A Sabedoria das fés pertence à humanidade toda, até mesmo aos mais racionais dentre nós, e merece ser reabsorvida de forma seletiva pelos maiores inimigos do sobrenatural. As religiões são intermitentemente úteis, eficazes e inteligentes demais para ser deixadas somente para os religiosos”.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

RESENHA DE LIVRO – PEREGRINOS


Este é mais um daqueles livros que eu retiro da prateleira de promoções, sem sequer me dar conta de que estou diante de um autor aclamado por outra obra. PEREGRINOS veio parar em minhas mãos porque eu aprecio o gênero Contos, e dando uma breve analisada na contracapa e nos textos de orelha, resolvi comprá-lo.

A autora se chama Elizabeth Gilbert e ficou famosa mundialmente por uma obra de outro gênero que não li e nem tenho interesse, intitulada COMER, REZAR, AMAR (o marketing editorial não nos deixa esquecer, colocando uma lustrosa etiqueta na capa para que você saiba que está levando pra casa uma autora de sucesso). Portanto, bem diferente de muitos leitores brasileiros, eu não adquiri o livro aqui resenhado por conta de sucessos passados. De fato, eu não conhecia nenhum trabalho da autora.

A coletânea de contos nos remete ao que o título sugere: personagens em diferentes situações de transitoriedade, de migração existencial, algumas situações chegando a anunciar uma pegada mais subjetiva, algo que deixaria a reflexão a cargo do leitor... Mas infelizmente foi a ausência de intensidade no livro que não permitiu que o mesmo funcionasse.

Eu explico meu ponto de vista:

Elizabeth Gilbert narra seus contos de forma restrita; não parece haver nenhuma preocupação com linearidade, os textos parecem fragmentos extraídos de contos maiores. Tudo bem até aqui; penso que este tipo de narrativa atiça a imaginação e pode contribuir muito no quesito charme. Contudo, a autora exagera nos termos técnicos, faz muita referência geográfica e social, esquecendo-se de inserir aspectos particulares e intrínsecos em seus personagens. Por vários instantes fiquei com a sensação de estar lendo uma matéria de jornal ou revista, cujo conteúdo não vai além do meramente informativo.

Outra coisa que incomodou bastante foram os diálogos entre os protagonistas. Além de serem extremamente maçantes, as conversas parecem ter sido elaboradas por sistemas operacionais que tentam, sem sucesso, imitar o colóquio humano. Algumas falas soam tão artificiais que me fizeram rir, não pela situação em si, mas por conta das expressões robotizadas.

Já no primeiro conto, fui acometido de certa estranheza. Afinal, como se trata de uma coletânea é normal que alguns textos sejam melhores do que outros. Mas numa análise final, este é mais um livro esquecível, de textos que oscilam entre o mediano e ruim.

E caso você seja um amante de contos, como eu, certamente não será uma boa recomendação este PEREGRINOS. Aqui mesmo no Brasil está cheio de bons contistas contemporâneos, a preços bem mais generosos, mas que por ainda não terem em seus históricos bibliográficos uma obra antecessora campeã de vendas, acabam confinados ao anonimato.

sábado, 20 de janeiro de 2018

RESENHA DE LIVRO: FIM


O título exageradamente simplista quase me fez devolver este livro à prateleira da loja onde o encontrei por acaso. A autora exageradamente talentosa como atriz, remeteu-me à preconceituosa desconfiança do conteúdo. E o resultado exageradamente satisfatório me fez compreender que estava diante de uma das melhores obras que li ano passado.

FIM é um trabalho charmoso e delicioso de ser lido. De narrativa coloquial que ajudou a dar autenticidade aos personagens, a trama segue por uma linha expositora tão casual que é fácil criar empatia por cada indivíduo; os cinco amigos que narram seus instantes finais se assemelham na forma de suas oratórias, embora sustentem opiniões distintas. Ás vezes eu precisava voltar para rever quem era o narrador do capítulo que estava lendo, por conta da semelhança nas falas.

Mas isso não incomoda nem um pouco, pois como já mencionei: FIM é um livro delicioso de ser lido. Portanto, fosse um ou dez narradores, a agradável exposição altamente parcial e desembaraçada nos aproxima daquilo que parece ter se perdido nos espaços físicos de interação social: a boa conversa.

Alguns resenhistas pela internet discordam dessa ideia, alegando que Fernanda Torres criou de maneira categórica, cinco personagens distintos; há quem diga, inclusive, que alguns personagens são muito bons, enquanto outros um desastre. Mas eu insisto que, salvo alguns poucos aspectos que os diferem, ler cada um dos personagens me deixou com a sensação de que estava a ler um único narrador a relatar suas diferentes fases da vida, ou simplesmente se trata de um sujeito confuso e inconstante.

FIM coloca com pano de fundo a tragédia dos últimos instantes na vida de cinco amigos, com um capítulo dedicado a cada uma das finitudes, entremeados com subcapítulos de coadjuvantes que circundaram suas trajetórias. A trama segue uma linha crua e direta; acompanhamos os momentos finais de cada um, seus conceitos contraditórios ou não, e as perspectivas de gente que vive ou viveu próximo deles. É uma literatura bem encorpada pelo senso humano de análise desconexa, cujas situações se mesclam entre o humor ácido, distorções e escárnio.

Outro comentário que se pode encontrar facilmente pela internet são argumentos maldosos e infundados, alegando que a autora abusou de maneirismos e fez de seu texto um instrumento de ostentação de intelecto. Ela teria tentado aproximar sua narrativa de autores como Nelson Rodrigues... Tudo bobagem.

A meu ver, Fernanda Torres se mostrou uma excelente narradora; segura, madura e nos entregou uma obra que esteve a um passo de algo brilhante. Penso que para um livro de estreia, ela mostrou ser detentora de elevada sensibilidade criativa e absoluto controle de seus personagens. Restou-me, após os aplausos, ficar na torcida para que o fôlego de Fernanda não tenha se acabado. Era de se esperar que uma atriz talentosa como ela fosse alvo de críticas conservadoras, que custam a digerir a ousada inserção noutra plataforma cultural feita por algum artista.

Fica então mais do que evidenciada minha recomendação deste ótimo trabalho de Fernanda Torres; uma novidade literária eficiente, que espero eu, tenha surgido para ficar.