segunda-feira, 22 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – DIA D


Fazendo uso de uma pitada de exagero, é preciso certo cuidado com atrofias na hora de ler esta pesada obra. O volume de conhecimento aqui reunido é gigantesco, e isso pode ser constatado no peso físico do livro (tratam-se de indispensáveis 715 páginas). Segurá-lo aberto por horas de leitura pode se tornar uma desconfortável experiência.

Mas a imersão narrativa, mesclada a uma expansão de detalhes compensam qualquer desafio na hora de encarar a robustez física; DIA D talvez possa ser considerado o trabalho definitivo sobre o maior desembarque de tropas da história militar. E esta opinião não é minha, vem de alguns historiadores e especialistas da Segunda Guerra Mundial.

Temos aqui um trabalho minucioso cuja narrativa se inicia no desembarque dos aliados no litoral da Normandia, em 06 de Junho de 1944, rumo à libertação da França que estava sob o jugo do terceiro Reich. E diferente dos demais trabalhos sobre esse importante período da grande guerra, DIA D é amplamente enriquecido por detalhes dos combates que muitas vezes escapam dos historiadores; um olhar quase em primeira pessoa.

O nível de imparcialidade do autor impressiona. Antony Beevor tece a narrativa na precisa fidelidade de sua pesquisa, e o que carece de levantamentos hipotéticos, ele os sugere em concordância com documentos oriundos de diferentes fontes. O intento jornalístico e a vontade de contar exatamente o que houve é formidável, o autor não puxa sardinha para nenhum lado, apenas analisa suas fontes e entrega um dos textos mais verossímeis que já li sobre a Segunda Guerra Mundial.

Embora a obra se preocupe em relevar alguns termos técnicos, nomes e datas, o brilho fica por conta do aspecto humano de todos os envolvidos: o inabalável empenho das tropas aliadas; o medo generalizado de não saber o que está à espera no país ocupado; a luta desesperada dos alemães em notória minoria; a tragédia da destruição que sempre desaba sobre os civis que lá se encontravam.

Sim, DIA D deve ser considerado um livro indispensável para quem se interessa pelo tema. Contudo, cabem aqui algumas observações:

É preciso certo conhecimento, mesmo que não muito aprofundado, sobre a Segunda Guerra, pois o autor se concentra nos bastidores dos acontecimentos, sem fazer nenhuma apresentação. Os grandes generais, as divisões de destaques, os termos técnicos recheiam a obra por todo o instante sem fazer nenhuma referência (há apenas um glossário de siglas e fontes no final da obra), o que é perfeitamente compreensivo, haja vista que o livro narra um pequeno período da grande guerra que se passa já em tempos finais. Leitores introdutórios devem começar por obras mais genéricas antes de entrar em narrativas específicas.

Outro aspecto singular do livro foi a maneira com que Antony Beevor procura esmiuçar e compreender a mente dos generais de ambos os lados. Minha leitura deste DIA D tornou-me ainda mais admirador do marechal de campo alemão Erwin Rommel. Outras obras e documentários que pude acompanhar sempre o descreveram como um exímio estrategista e líder articulado. Neste volume tais conceitos são ainda mais acentuados, mostrando que, de fato, Rommel era um homem de elevada inteligência militar e principalmente sobriedade ímpar ao deixar de lado o orgulho e aprender com os próprios erros (condição raramente relatada pelos especialistas que pesquisaram o corpo de liderança do Terceiro Reich). Possivelmente as coisas poderiam ter sido menos trágicas para os alemães, caso o vaidoso Hitler tivesse dado ouvidos ao discernimento dos bons generais que tinha no comando de seu exército.

Não sei se em todas as edições estão iguais (a minha é da editora Record, lançada no ano de 2010), mas esta ainda vem com um bônus maravilhoso: muitas fotos do conflitos, imagens de personagens importantes e diversos mapas que nos ajudam a entender a problemática geográfica.

DIA D é um trabalho estupendo cuja imparcialidade e imersão narrativa nos ajuda a compreender que, embora tenha sido uma operação fundamental, o dia D foi um conflito arduamente vivido por ambos os lados, onde erros e acertos são descritos com a honestidade de um autor que soube mostrar aquilo que são os embates militares de nossa história.

NOTA: 9,5

terça-feira, 9 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O LOBO DA ESTEPE


Se as mazelas da solidão humana podem ser narradas de algum modo, sem deixar que se escape o equilíbrio entre o desencaixe existencial e a vontade de potência, eu creio ainda não ter lido nenhum autor que o soube esmiuçar isso melhor do que Hermann Hesse.

O LOBO DA ESTEPE é a autoproclamação da personagem que, solitário em sua essência, define-se como tal. Um ser humano em crise, só que provido de lucidez necessária para compreender sua natureza animalesca e desarmônica, tão honesto que quase o remete ao indizível.

Eis diante de nossas mãos a possibilidade de ler poesia em prosa, de teor angustiante no que tange a complexidade humana, mas acima de tudo, tragicamente enriquecida e bela.
Harry Haller é um homem entediado e a primeira parte do livro traz esse sentimento de modo quase indigesto ao leitor. Há neste ponto da narrativa um segmento confessional, auto analítico, de linguagem penitente que costuma causar certo enfado. Mas é proposital, o autor precisa mostrar quem é seu protagonista, ou seja, trata-se aqui de um caminho inescapável ao leitor.

Depois disso, a trama ganha vigor; Harry despe-se em sua dualidade, homem e lobo, então passamos a acompanhar seus confrontos antagônicos quase que insolúveis de alguém cujos preceitos burgueses o desagradam, mas que não consegue se livrar desse mal. A personagem demonstra seu asco social ao mesmo tempo em que se compreende como o arauto da mediocridade.

Sei que esta resenha soa um pouco hermética, mas o caminho é esse mesmo. A beleza de O LOBO DA ESTEPE não está na linearidade, portanto, não cabe fazer uma sinopse aqui. Até porque isso seria desnecessário pelo fato de que estamos falando de um clássico da literatura.

O livro retrata a necessidade de autoconhecimento, do caminho sem volta que é tentar compreender a si mesmo e que, embora mais árduo do que a felicidade obtida através da mera ignorância, Harry precisa angariar meios de escapar de sua cilada existencial para finalmente usufruir dos verdadeiros prazeres da vida, que numa definição epicurista, seria propriamente o prazer por meio daquilo que é mais simples.

O LOBO DA ESTEPE é um livro memorável por sua mensagem. Hermann Hesse espatifa sua personagem para, em seguida, juntar seus cacos enquanto nos cortamos em pequenas pontas. As referências em Mozart, no Teatro Mágico, na analogia do próprio nome do autor com as personagens, tudo aqui possui uma correlação, porém, nem um pouco conclusivo, o autor deixa tudo para a mera reflexão do leitor, o que é maravilhoso. E o faz sem se esquecer de sua observação pessoal, feita já no posfácio, em que Hermann Hesse sugere com humildade invejável, o que sua literatura criou na mente dos leitores da época e a verdadeira mensagem que gostaria de ter lhes passado... Eis uma obra atemporal, que como várias outras, jamais se esgotará em significado.

NOTA: 8,1

quarta-feira, 3 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIAS DA MEIA NOITE


Já que o próprio mestre Machado de Assis sugere o lado despretensioso de sua obra ao dizer que são “escritos apenas ao correr da pena”, achei que caberia uma breve explanação sobre este insigne HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE, visto que não costumo resenhar grandes clássicos.

Para se ler o mestre nos tempos de hoje é preciso que seja levado em consideração dois aspectos: 1) Machado de Assis é um homem do seu tempo, ou seja, reeditar a linguagem para tornar sua literatura mais acessível certamente aviltaria a essência da linguagem, a qual eu considero fundamental. Adotar o dialeto desusado como desculpa para não ler grandes autores do passado soa-me como falta de gosto pelo esforço... Isso é preguiça mesmo! 2) nunca se deixe enganar pelo teor muitas vezes indiferente adotado pelo autor (sua condução narrativa, vez ou outra, dá-nos a impressão de que o texto não quer chegar a lugar algum). Sempre há por trás da literatura Machadiana uma premissa irônica e sagaz, que descortina a problemática social daquela época.

Feitas as observações, vamos falar do livro:

HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE é uma compilação de contos que foram publicados originalmente num jornal que circulou no período de 1863 até 1878. Os seis contos que aqui se encontram reunidos, naquele tempo eram destinados às leitoras, público que ainda estava em ascensão.

Sob um olhar menos imersivo, o livro pode soar meio raso, de contos sem grande relevância. Mas de um ponto de vista mais analítico, a narrativa reunida nesta obra se revela um pouco mais sutil, e apresenta o típico cenário social de um tempo em que vaidade e ganancia pairavam constantes nos costumes, principalmente da famigerada burguesia (ué, mas será que mudou alguma coisa atualmente?).

Caso seja assertivo este último parêntese que fiz, eu poderia sugerir que Machado de Assis segue tão atual quanto em seu longínquo século XIX. Portanto, não se deve subestimar este trabalho que, embora pareça menos sofisticado, aborda temas fundamentais como preconceito e cobiça.

Faço menção aqui ao conto “O Relógio de Ouro”, sobre um marido que encontra no quarto do casal, desconhecido relógio que coloca em sua mente dúvidas quanto a fidelidade da esposa. O final é deliciosamente revelador.

HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE (o título também denota ironia) é uma obra que pode servir como porta de entrada para aqueles que desejam começar a ler Machado de Assis. São contos enriquecidos pelo característico charme do mestre, segmentados por narrativa ágil e sutil. Merecem a atenção do leitor brasileiro.

NOTA: 7,7

terça-feira, 25 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O VENTRE


Penso que ler seja o delicioso encontro ente dois universos distintos: a personalidade inserida pelo autor e o choque com a existência frenética daquele que lê. Cada frase consumida, cada parágrafo avançado, possui aspectos distintos para cada um de nós, e a releitura denota a evolução daquilo que, embora seja considerada uma plataforma fechada em sua estrutura, esta jamais se esgotará.

O VENTRE é um trabalho estupendo que deve ser degustado devagar, porque a personagem quer exibir a discrepância de ventres indesejados; quer relatar a continuidade da solidão irrevelável que somente aqueles que, assim como ela, também se originaram de ventres equivocados. Uma solidão profunda, arrasadora, que inevitavelmente nos remete à nossa própria solidão de leitores.

A racionalidade incutida em José Severo, o protagonista e narrador deste não menos que genial romance do mestre Carlos Heitor Cony, soa como sabedoria com requintes de crueldades, porém, sem lugar para autocomiseração. José Severo reconhece sua natureza deslocada, mas o encara de modo lúcido e ausente de qualquer percepção de merecimento pelo sofrimento vivido.

O sentimento de inadequação de Severo é percebido já nas primeiras páginas. Contudo, sem o clamor por piedade, o narrador apenas segue contando sua mera condição de algo a se tolerar; sua percepção daquilo que lhe foi fornecido como família parece-nos algo quase implacável. O bastardo protagonista simplesmente se conforma com sua condição de despossuído; uma mãe que se esforça por ignorá-lo, um pai que o percebe como uma ameaça, e o irmão que é notado como se fosse o algoz e que se encaixa perfeitamente ao outros membros da casa.

E no meio desse descolamento existencial, ainda há a paixão irrefreável por Helena, o afeto que será sua noção de impotência condicional, depois o escopo de disputa. Então tornar-se-á a mulher proibida e, finalmente, outro ventre equivocado.

Carlos Heitor Cony é um mestre na arte de se fazer suavizar pela leitura; seus textos inserem-se na mente do leitor e misturam-se à própria memória. É praticamente impossível não se ver relembrando coisas do nosso passado. E não existe volta, uma vez invocados os afetos, a leitura se fragmenta de intervalos necessários. Há aqui uma complacência fundamental pela personagem, depois o desejo de querer ser este personagem e, por fim, descobrirmo-nos sendo este personagem.

Em O Ventre predomina no leitor o anseio pelo conhecimento adquirido através da condição de inadequação; a sabedoria oriunda de um mundo que nos nega tudo. Acredito que todos nós já nos sentimos desajustado em algum momento. De algum modo, todos um dia já nos sentimos ventres indesejáveis.

De um ponto de vista mais pessoal, considerei a voz narrativa tão preenchida de sensibilidade que as situações se parecem quase lembranças, um tom quase autobiográfico, mas logicamente, sem sê-lo. E o silêncio necessário que citei há pouco, deve-se ser invocado em qualquer leitura, mas em especial, nesta deliciosa obra. Pois é dessa forma que se alcança o verdadeiro seguimento até o imaginado ventre, que indesejado ou não, é o lugar de silêncio por excelência... Dimensão que favorece o único ruído permitido quando se está a ler obra tão deliciosa: a inquietação do próprio ser.

NOTA: 9,1

quinta-feira, 20 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O ÓCIO CRIATIVO


“O homem que trabalha perde um tempo precioso”.
(proverbio espanhol)

Quem trabalha demais quase não tem tempo para ganhar dinheiro
(dito popular)

Estas duas máximas, contraditórias numa sociedade que idolatra o trabalho, resumem a ideia por trás deste atual e decente volume reflexivo. O ÓCIO CRIATIVO propõe analisar de modo provocativo a sociedade pós-industrial que condena e desvaloriza a criatividade e o tempo livre.

Mesmo em pleno avanço sociológico, a quebra de diversos entraves sociais não acontece facilmente. Alguns temas ainda continuam soando-nos como sagrados; sendo o trabalho um destes. O tabu é abordado sob a perspectiva com que o sociólogo italiano, Domenico De Masi, sugere: o desprendimento do período industrial que adestrou o ser humano ao labor de modo irracional e desnecessário.

A obra foi construída em diálogos. Trata-se de um bate-papo, uma entrevista que De Masi concedeu à Maria Serena Palieri. Ou seja, a temática do ócio aqui será analisada de maneira informal e descontraída, o que deixa a leitura bem mais fluida.

A premissa de uma sociedade majoritariamente estabelecida no ócio, livrando-se finalmente das agruras do expediente exacerbado e sem sentido, parece-nos um lugar belo de se viver na teoria, mas que na prática infelizmente ainda não faz parte do pensamento medieval da classe trabalhadora. Ter um emprego de 44 horas semanais ainda é sinônimo de dignidade e definidora de bom cidadão. E embora todos nós trabalhadores possamos ser dignos e éticos, o atestado para tal parece carecer de uma carteira assinada.

O intento do autor neste ótimo diálogo não é o de incitar o trabalho como um adversário do homem pós-moderno, mas estimular a reflexão sobre os males que a obsessão com a labuta vem causando na humanidade; segundo De Masi é uma enorme contradição que empresas ainda contratem pessoas medíocres e fúteis, simplesmente por seu caráter manipulável; que a criatividade não pode ser exercida em espaço despótico, onde a repetição sem sentido prolifera constante; que a burocratização é um mal progressivo que impede a autonomia inventiva e gera desníveis salariais.

É sabido que este tipo de assunto parece-nos paradoxal neste mundo onde o desemprego prolifera mesmo nas grandes e desenvolvidas metrópoles. Contudo, o autor não se comporta como um utópico apaixonado; de fato, suas ideias invocam o tema do desemprego de modo atual, denotando as mazelas oriundas do sistema capitalista que parece investir demais em ferramentas tecnológicas e de menos no material humano, que segundo De Masi, é o único detentor da possibilidade de criatividade na natureza. Esquecer-se do desenvolvimento humano para se concentrar em máquinas é o que tem gerado crises econômicas e desempregos em proporções astronômicas.

Domenico De Masi é um árduo defensor da economia criativa; espaços que possam unir o trabalho, prazer e criatividade. Menos autoritarismo por parte das instituições públicas e privadas é o que pode proporcionar o livre pensar criativo, que segundo o autor, trata-se de um futuro inevitável; ainda distante do pensamento consumista da civilização, mas ainda assim, inevitável.

NOTA: 8,4

quinta-feira, 13 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – REMÉDIO AMARGO


A temática proposta neste livro é amplamente rica. O universo da indústria farmacêutica é um espaço em que se é possível extrair inúmeros enredos, principalmente por se tratar de uma área científica que oscila entre a necessidade do desenvolvimento de medicamentos eficientes e o enriquecimento ilícito por conta da proliferação dos mesmos.

REMÉDIO AMARGO é engajado dentro dessa premissa: um laboratório renomado está lançando no mercado um novo produto para mulheres grávidas com a promessa de revolucionar a indústria e salvar a companhia da falência. E embora haja entusiasmo por parte dos colaboradores, paira um enorme medo de que se repita o fracasso de um medicamento similar no passado. No meio disso, acompanhamos a escalada da protagonista principal, Célia Jordan, uma mulher determinada que tenta superar o desafio do machismo no mercado de trabalho da década de 60, e usando de sua irrefreável ambição, galgar o topo da cadeia alimentar.

O autor aqui é o aclamado Arthur Hailey, que dispensa apresentações. Neste trabalho, que foi seu último em vida, temos uma trama muito técnica e cheia de intrigas dentro da temática proposta, mas que derrapa em alguns aspectos... Vamos a eles:

Como eu já mencionei, há aqui uma enorme explanação procedimental a cerca dos bastidores da indústria farmacêutica, o que comprova o engajamento do autor em pesquisar o assunto pretendido por sua obra. No entanto, Arthur Hailey parece mais preocupado com especificidades burocráticas e o funcionamento do sistema, do que propriamente em inserir complexidades éticas na conduta de seus personagens, algo que ajudaria a elevar a dúvida de forma constante na cabeça do leitor. A trama até nos mostra a problemática moral do interesse ganancioso na diretoria da indústria, mas o faz de modo superficial, parece algo unilateral que precisa estar ali, mas que não é isso o que deve ser contado.

O autor aparentemente está mais interessado em promover sua personagem principal. Célia é exaltada aqui de um modo insistente que quase fez da moça uma existência improvável; ela é impetuosa, forte, determinada, bela, altiva, perfeita, possui um instinto infalível de antecipar problemas e os coadjuvantes comportam-se de modo a exaltar isso com exagerada reverência e submissão. Arthur Hailey até chega a tentar inserir imperfeições em Célia, mas o faz de modo tímido e logo retoma os louvores inflamados a cerca de sua musa. Célia Jordan é retratada como se fosse uma heroína infalível de desenho animado; uma espécie arquétipo mitológico que o autor entrega de maneira patologicamente apaixonada... Sério, gente, isso cansa demais!

Outra coisa que me incomodou é condução extremamente prolixa. Há cenas aqui que são desnecessárias demais, como reuniões para tratar de assuntos com equipes de publicitários e advogados da companhia; instantes enfadonhos que quase me fizeram desistir da leitura e tornaram o livro assustadoramente extenso.

Os diálogos também não são orgânicos, eles deixam a impressão de que estamos lendo máquinas programadas que conversam entre si, sem a menor naturalidade ou improviso. Há aqui uma escassez enorme de sensibilidade narrativa. Um exemplo disso são as crianças, que quando surgem nos diálogos são artificiais como personagens de uma propaganda de margarina.

REMÉDIO AMARGO é um livro de título instigantes, conduzido por autor renomado e de trama que não soube explorar o extenso universo de seu tema. É um trabalho que passa suas quase quinhentas páginas tentando transformar a protagonista principal numa espécie de bond-girl, esquecendo-se de seus outros personagens que poderiam ter contribuído para elevar a dinâmica da história... Uma pena.

NOTA: 4,1

sábado, 18 de maio de 2019

RESENHA DE LIVRO – A MORTE DE IVAN ILITCH


Pensar sobre a morte nos aproxima de nossa humanidade porque se trata de tema a exigir que olhemos para nós mesmos; a noção de sua proximidade nos afasta daquilo que nos constituía como indivíduos sociais: bens materiais, profissão respeitável, requinte e vaidade. Então, resta apenas o retorno ao que nos é verdadeiro, o frágil e palpável insignificante ser humano; mesmo que isso nos ocorra de modo caótico.

A MORTE DE IVAN ILITCH, primeiro leitura que fiz do aclamado escritor russo Lev Tolstói, causou-me certo desconforto existencial, mais ou menos como tentei expressar na frase que inicia esta resenha. A ideia de inexistência da finitude parece soar como condição para que consigamos viver em paz. No entanto, como somos a única espécie da natureza que sabe que a ampulheta da alma escorre sua areia de modo ininterrupto, procuramos formas de nublar essa certeza, quase que de modo obstinado.

A trama nos coloca perto de um homem (O Ivan do título) que está em busca daquilo que considera essencial: os signos sociais permissivos à dignidade de sua existência. Então nosso herói é acometido de implacável doença e, de repente, se vê a beira da morte. Veja bem: aqui a resenha não está cometendo nenhum spoiler; não apenas o protagonista, como também o leitor sabe, desde o princípio, que Ivan irá morrer. E tal percepção não é o fio condutor do enredo, mas a desconstrução de um homem que, assim como todos os outros mortais, pensa que pode se esconder da finitude.

Sempre que pego um autor clássico o qual ainda não conheço, respiro fundo e busco invocar a máxima concentração possível, já prevendo que estou adentrando em território dificílimo de percorrer. Contudo, em se tratando de Tolstoi isso não aconteceu. O cara escrevia de modo simples e permissivo, como se a verdadeira genialidade da escrita se desenvolva por meio de relatos descomplicados e que nem por isso perdem o viés daquilo que se quer expressar. Fez-me pensar que a linguagem erudita muitas vezes é apenas sinônimo de pedantismo e a intenção vaidosa de tornar ideias pouco claras.

O livro é curtinho; da para chegar ao final antes que a segunda xícara de chá termine. Porém, isso provavelmente não acontecerá porque A MORTE DE IVAN ILITCH é um convite à reflexão; simplesmente não é possível percorrer estas páginas sem fazermos algumas pausas para olharmos com um pouco mais de sensibilidade para a nossa própria existência e o que estamos fazendo com ela.

É um raro livro que trata de amargo assunto em que estamos todos nós determinados. E embora a morte paire arrogante em toda sua inevitabilidade, talvez seja exatamente sua presença aquilo que mais nos aproxima do nosso lado mais orgânico; a percepção de que nada importa, somos apenas células insignificantes e irrisórias em busca de significado justamente onde não se pode haver: no desprezível acúmulo substancial de coisas.

NOTA: 8

sábado, 11 de maio de 2019

RESENHA DE LIVRO – HOMENS, MULHERES & FILHOS


Temos aqui um trabalho peculiar, difícil de ser recomendado, digerido ou rotulado. Mas aprovar ou abominar, embora pareça dividir leitores de modo equilibrado, nenhum dos lados pode contestar a faceta cruciante que o escritor Chad Kultgen sustenta, de uma sociedade alienada e confusa, que aparentemente sabe cada vez menos sobre aqueles seres que nela convivem, em essencial, aqueles que nos são mais próximos.

Eis a essência desta decente obra.

A priori a trama sugere algo inofensivo e parece denotar que temos em mãos só outro daqueles livros purpurinados, cujo estilo é o típico “bate e assopra” e acima de tudo, atesta aquilo que os adolescentes adoram ler: que eles são vítimas e estão vivenciando a pior fase de suas vidas...

Só que o buraco é bem mais embaixo. HOMENS, MULHERES & FILHOS traz ao leitor, de forma pungente, as incertezas dos adolescentes sim. Mas não se prende a esta fase unicamente e invade também o universo dos adultos, explicitando com textualidade intimista, sexual e despudorada, que ninguém neste planetinha cheio de gente sabe exatamente como lidar com as próprias mazelas existenciais; exibe-nos famílias pós-modernas, que cometem o equívoco de achar que compreendem a diversidade abundante do ser humano, pelo simples fato de se estar deliberando sobre um membro da família, ou pior, sobre si mesmos.

Talvez o que faltou para tornar este livro memorável fosse uma boa dose de profundidade nos aspectos naturais e psicológicos de cada personagem, mas é impossível não exaltar a coragem com que algumas problemáticas de nossa sociedade atual são atiradas na cara do leitor, como se fosse uma dolorida bofetada.

O livro possui muitos personagens, todos em condições iguais de importância e jogados de uma vez na narrativa. Isso teria sido um problema para o aspecto familiaridade, mas o autor soube conduzir a trama em subcapítulos curtos e com prosas ágeis, o que facilitou na hora de situar cada um deles.

As situações são bem críveis, alguns momentos chegam a incomodar um pouco. Há instantes em que a narrativa parece perder o freio e simplesmente vai contando tudo, de um jeito cru e quase pornográfico. O livro deixa claro que não quer entrar no lado imersivo de seus personagens, e sim, focar apenas em contar sua história.

Os personagens não desagradam nem nos deleitam. Inserem-se, de um lado ao outro, dentro de um cenário cheio de lacunas em que tentam esconder suas facetas: o ímpeto sexual, a competitividade juvenil, a impotência perante o trauma, condutas exóticas ocultas, o medo da sociedade julgadora. A trama não se prende em esmiuçar seus temas, mesmo assim, seguimos lendo pela vontade de saber como essa mistura caótica terminará.

O livro também tem seus probleminhas: algumas narrativas são cansativas, como por exemplo, as partidas da divisão escolar de futebol americano; momentos chatos e desnecessários para o entendimento. Poderiam ter sido resumidos ou cortados.

O desfecho de cada um dos personagens também é previsível demais. No entanto, isso não chega a incomodar porque a condução prosaica é simpática; a gente quer continuar lendo mesmo sabendo o que vai acontecer daqui a pouco.

O final trouxe uma explanação valiosa sobre causa e efeito no desfecho de um dos personagens. É bem neste ponto do livro que a mensagem maior sobre nada ser o que parece diante dos olhos se torna evidente.

HOMENS, MULHERES & FILHOS termina no momento certo; sem descambar para pieguices, nem reviravoltas comoventes... Coloca o inacabado em seu lugar ideal, restando-nos o árduo incômodo de sabermos que nada se encerra propriamente, que tudo é cíclico e que talvez seja essa a magia por trás da complexidade: a possibilidade de aprender a deixar de lado os anseios e vaidades, para quem sabe aprendermos a aceitar o diferente no outro.

NOTA: 7,1

segunda-feira, 29 de abril de 2019

RESENHA DE LIVRO – O COMPROMISSO


Um texto quando parece sofisticado demais, muitas vezes deixa-nos com a sensação de que foi escrito por algum esnobe interessado apenas em receber meia dúzia de elogios por saber compor algo difícil de ser compreendido. Esse estilo pedante de linguagem por vezes não passa de literatura irrelevante e esquecível, disfarçada de erudição. E na contramão disso, é maravilhoso quando encontramos um livro que destila uma linguagem que simplesmente quer relatar algo, e que o faz de modo natural, direto... Tão direto que a crueza de seu conteúdo é o viés de seu encanto.

O COMPROMISSO é exatamente isso: uma belíssima aula de narrativa da vida em que você entende cada parágrafo, relatos diretos e imparciais de alguém que meramente quer contar sobre o cotidiano. É precisamente desse modo orgânico que transcorre a leitura de Herta Muller. O acaso nos faz sentar ao lado de uma mulher dentro de um bonde. De modo despretensioso, ela se vira e começa a contar seus relatos como se fosse meramente uma existência acumulada que precisa verbalizar; que precisa externalizar o que paira em sua mente, naquele exato instante em que suas memórias flutuam. Não importa quem é o ouvinte (leitor) que está ao lado dela. Então, essa mulher resiliente revela os pedaços de sua trajetória constrangedora sem pedir licença, sem clamar por sua opinião, sem explicar o que sente.

Após suas confissões espontâneas, essa mulher se levanta do lugar em que estava, despede-se e vai embora, deixando você inteiramente atônito e boquiaberto. Sobram-se apenas ouvinte (leitor) com sua frágil estrutura existencial completamente abalada por aqueles relatos; o ouvinte (leitor) compreende que inevitavelmente passará dias pensando sobre tudo aquilo que ouviu, justamente porque o imaterial era quase palpável.

A mulher em questão está justamente indo para O COMPROMISSO. Desse modo, ela toma o bonde outra vez, para mais um interrogatório humilhante às autoridades do regime ditatorial que perdura em seu país, sem saber se volta pra casa ou não; se será finalmente presa e torturada; sem saber como fará para esconder o ódio de seu algoz. Ela cometeu ato impensado de colocar bilhetes nos ternos da fábrica onde trabalhava, oferecendo-se em casamento para alguém que a livrasse da tirania opressora do Estado.

No entanto, mesmo diante da extraordinária e bela narrativa, O COMPROMISSO não é um livro para qualquer leitor. A história não transcorre linear, aqui não existe a preocupação em colóquios objetivos, mas sim, reflexões ásperas, linguagem direta e sóbria... Não há tempo para arrependimentos ou concessões.

A trama vai pra frente e pra trás o tempo todo, pode até causar certa confusão na imersão do leitor. Mas o intuito aqui passa muito longe de conclusões ou respostas; estamos diante de uma vida que aconteceu tanto, que ao término do relato, ficaremos com a sensação de que fomos preenchidos, não pela linearidade começo, meio e fim, mas justamente pela maneira com que o mundo te colocou no caminho dessa mulher e inevitavelmente você se saciou com sua história.

A leitura causa impacto, a continuidade de um choque após outro nos deixa apreensivos, a narração harmoniosamente simples, como quando ela examina os outros passageiros dentro do bonde que observa...

Texto legítimo é texto fácil de entender. Herta Muller transborda delicadeza, dá um show de literatura com seu livro, que de tão cândido, revela-se altamente resplandecente.

NOTA: 9

sábado, 13 de abril de 2019

RESENHA DE LIVRO – SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA


Um trio inusitado de investigadores com um objetivo em comum: desvendar o assassinato de uma mulher jovem, eventualmente encontrada por dois membros deste excêntrico trio. Trata-se de dois adolescentes que, ao matar o horário de escola, se embrenham numa mata onde encontram o corpo mutilado de uma bela jovem. Já o terceiro elemento do grupo é um distinto senhor, morador de um asilo e ex-preso político. Aos poucos, o inveterado grupo se reúne para seguir os rastros de uma vítima que esteve intimamente envolvida com personalidades políticas importantes da cidade.

A sinopse parece ser um prato cheio para um auspicioso livro de suspense policial. Contudo, o autor deste nem um pouco trivial SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA, não detém o foco de sua literatura no crime, muito embora este seja o prato principal.

Edney Silvestre é um exímio contador de histórias, principalmente por sua habilidade em despertar empatia do leitor sobre seus personagens. Em todas as obras que li do cara, é fácil encontrar protagonistas distintos em personalidade, críveis em comportamento e bem longe da faceta característica do super-herói que surge para dar conta de todo o mal... Não.
Edney tece sua trama de modo a fazer com que os envolvidos estejam exatamente dentro daquilo que os aproxima do leitor: eles são falhos, limitados, inocentes, indecisos, inconstantes, ou seja, são detentores de problemas semelhantes aos nossos.

É delicioso acompanhar a interação entre os dois adolescentes, Paulo e Eduardo. O entrosamento deles funciona deliciosamente e logo se percebe que, de fato, estamos lendo a ingenuidade mesclada a malicia típica da juventude. Eles resmungam, questionam, esbarram em seus limites reflexivos e não têm nenhum pudor em mudar drasticamente de assunto ou ficar calado quando lhes convém.

Já o terceiro membro do grupo, o velho, pareceu-me o menos interessante. Muito embora ele possua alguns aspectos que o validem como alguém cuja longevidade mostra que tem algo a dizer, este personagem parece ter sido inserido para resolver situações que adolescentes dificilmente conseguiriam ou apenas para servir como inserção de diálogos que façam com que o leitor entenda que se trata de uma história que se passa na década de sessenta. Mas isso não é um problema, nem chega a estragar a condução da obra, fora o fato de que o autor soube dar valorosa importância final a este personagem.

A trama começa muito boa, a narrativa é envolvente, verossímil, deixa-nos perto dos personagens quase o tempo todo. Há momentos em que ela fica um pouco entediante, mas logo retoma o fôlego, principalmente quando estamos acompanhando Paulo e Eduardo. Eu demorei um pouco a enxergar o enredo sob a ótica dos garotos porque quando comecei a leitura, minha expectativa era por uma história mais voltada ao suspense policial. Mas só quando compreendi que SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA quer, na verdade, contar uma história de amizade entre dois jovens vivendo num universo caótico e sórdido foi que pude vislumbrar a beleza narrativa.

O final é um delicioso passeio saudosista por parte de um dos personagens. A conclusão também é boa, foge do óbvio, evidencia que a vida continua apesar das injustiças e agruras sociais e deixa espaço para o leitor refletir. Não considero o melhor trabalho de Edney Silvestre, mas é leitura recomendadíssima.

NOTA: 6,9

domingo, 7 de abril de 2019

RESENHA DE LIVRO – AS PALAVRAS DE SARAMAGO


Descobri a literatura do escritor português Jose Saramago através de um de seus mais notórios trabalhos: Ensaio Sobre a Cegueira. Obra que dispensa introdução, deu-me a precisa noção do exímio prosaísta que estava diante de minha leitura. Ensaio Sobre a Cegueira é um tapa na cara da hipocrisia social; uma metáfora para algo que há muito se perdera em nossa desgastada convivência: a lucidez.

E um estupendo romancista, autodidata, humanista, íntegro, pacifista, vencedor do Nobel de Literatura, só poderia se tratar de um sujeito cuja biografia vale à pena ser lida. Porém, muito melhor do que as já tão repetitivas biografias, quis apostar neste AS PALAVRAS DE SARAMAGO, um imenso aglomerado de pensamentos e entrevistas fragmentadas que o autor deu ao longo de sua vida, e que nos ajuda a ter uma noção do que é este universo Saramaguiano de modo a não nos cansar com extensas linearidades de sua vida... Biografias enchem o saco justamente porque costumam relatar demasiadamente aquilo que não precisa ser relatado.

Sim, pois como era um racionalista sentencioso e imaginativo, Saramago falava o que pensava de modo simples e direto. Como ele próprio dizia, sustentava um desejo irrefreável de provocar as pessoas, mas sem jamais se anular pela responsabilidade do que dizia. Fica então registrado, mais uma vez, meu apreço por livros que possuem uma proximidade semelhante a biografias, mas que nos entregam um conteúdo melhor e menos enfadonho. AS PALAVRAS DE SARAMAGO reúne o que havia de melhor no mestre português: sua opinião corajosa em diversos assuntos, deixando pequenas introduções em cada tema, que ajuda a conhecer um pouco mais a mente dilatada deste autor (isso para o raro leitor que nunca ouviu falar deste gênio).

Saramago discorre sobre diversos temas. Vai desde Azinhaga, Terra onde nasceu, fala um pouco sobre seu país, sobre ética, Deus, morte, literatura, Prêmio Nobel... Enfim. É um prato cheio para quem deseja pormenorizar assuntos a partir do ponto de vista de um escritor tão talentoso. Meus capítulos favoritos foram Mulher, Pessimismo, Escritor, Religião...

O responsável por trás dessa ótima coletânea em forma de aforismos é o ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera. É um trabalho extenso que certamente careceu de extrema dedicação para ser realizado. Pois o que Fernando nos entregou aqui foi um competente trabalho de curadoria ao passar o pente fino em jornais, revistas, entrevistas diversificadas e outras mídias onde Saramago deixou suas declarações. Aqui há tanto pensamento e análise do escritor homenageado, que pode até soar um pouco cansativo para alguns leitores. Aliás, este é o único e pequeno problema da obra: tem tanta coisa reunida aqui, que hora pode soar repetitivo.

Para quem curte os romances do cara e tiver a ousadia de confrontar o universo polêmico e provocador do mestre, vale muito à pena ter essa pérola em sua estante. Exatamente como o próprio Saramago nos sugere:

“Nós somos muitas coisas, mas somos, sobretudo, a memória que temos de nós mesmos, e o diário, neste sentido, é uma espécie de ajuda à memória”.

NOTA: 8,6

quinta-feira, 21 de março de 2019

RESENHA DE LIVRO – SENHORA DA VINCI


Como de costume, encontrei este livro de forma despretensiosa, enquanto vasculhava um Sebo neste país afora. E muito me interessam os autores que se propõem a escrever sobre mulheres do passado que, jogadas às sombras da nossa história, estiveram à mercê do patriarcalismo. Mesmo sendo estes autores, profissionais que escrevem ficção.

SENHORA DA VINCI é um trabalho que, de cara denota ousadia: narrar a vida de uma personagem quase sem nenhum documento histórico existente e que trouxe ao mundo um dos homens mais importantes da humanidade, Leonardo da Vinci. Restou-me retirar a intrépida obra da prateleira e descobrir se a autora Robin Maxwell foi feliz ao realizar este feito.

E talvez o veredito possível seja: sim e não... Vamos começar pelos acertos:

O livro sabe fazer com que o leitor entenda que aqui estamos viajando através do início do renascimento; período dos mais importantes para o movimento artístico da história. A narração em primeira pessoa faz diversas referências ao longo da trama, sempre mantendo seu ponto de vista pessoal, ou seja, nem um pouco técnico, o que é bom para humanizar os relatos.

Os capítulos finais escaparam do previsível e de sacadas clichês. A autora foi assertiva em deixar a trama seguir sem inserções românticas, estereotipadas, nem ficou tentando causar comoção no leitor, o que é muito bom. Há um capítulo em que acompanhamos uma descrição ótima que acontece sobre uma das pinturas de Leonardo, em que sua mãe posa para ele (não se trata de um fato histórico, mas eu adorei esse momento da trama).

O livro também começa muito bem: não perde o foco no cotidiano modesto de Caterina (a mãe de Leonardo). Ela é uma mulher entusiasmada, que teve a sorte de ser criada por um pai que não limitou a educação da filha só porque ela era uma mulher. O livro fala com coragem do abandono do pai biológico de Leonardo e do preconceito social daquela época. Se algumas situações se trataram de inserções hipotéticas da autora, não importa; o fato é que deu muito certo, a leitura sustenta instante de deliciosa fluidez.

Infelizmente esta desenvoltura funcionou somente até o momento em que o filho ilustre nasce. É aí que começam os problemas da obra.

SENHORA DA VINCI parece não conseguir se livrar da aura brilhante que envolve Leonardo, mesmo não o elevando à condição de personagem principal, ele segue por toda a trama como se fosse um escopo; aquilo que se tem por finalidade. Robin Maxwell acaba tendo dificuldades em manter o carisma de Caterina, tornando-a uma mera expectadora da vida do filho pomposo.

Mesmo nos instantes em que Leonardo da Vinci sequer aparece, sua mãe (que como já mencionei, é a narradora da história), se comporta de forma diminuta, quase submissa. Nos instantes em que ela fala de Leonardo, ou até de outras figuras ilustres de seu tempo, a narrativa se torna sôfrega, algo quase servil. Caterina os descreve como se fossem deuses impávidos e perfeitos... Um comportamento patético e desnecessário que quase me fez abandonar a leitura.

Incomodou-me também a persistência em se narrar alguns dos feitos de Leonardo. Como se isso fosse obrigatório para o desenrolar da história. Veja bem: o caso é que não estamos falando aqui de um livro sobre Leonardo da Vinci, mas de sua mãe. Portanto, verificar demais a obra do filho elevou o senso de desvalia da personagem principal; reduziu-a à condição de mera coadjuvante.

Infelizmente também não é muito difícil nos depararmos com erros gramaticais e descuidos de revisão, mas isso não chega a incomodar tanto.

SENHORA DA VINCI é um livro que falhou por não saber escapar do glamour em torno do filho famoso daquela que deveria ser a verdadeira personagem principal. Funciona quando a autora se concentra na história, mas no contexto geral, temos aqui apenas mais um romance pouco aproveitado, tanto no sentido ficcional quanto histórico.

NOTA: 5,2

segunda-feira, 11 de março de 2019

RESENHA DE LIVRO – UM DIA


Meu interesse nesta obra tão consumida e comentada pelos leitores brasileiros se deveu à mera rendição: depois de tantos elogios e declarações inflamadas de devoção a este volume (inclusive de críticos que se levam a sério), de várias comparações com livros que gostei; de ouvir que a trama era insinuante como raramente se encontra na literatura moderna; concluí que este trabalho de David Nicholls só poderia se tratar de leitura peculiar e indispensável...

Mas calma lá, porque a coisa não é assim, tão impecável.

Aqui temos um romance dos tempos atuais que conta a história de dois amantes os quais seus eventos primordiais ocorrem no dia 15 de julho (ou eles se absorvem em devaneios nesta data). Portanto, a premissa é fazer com que acompanhemos tudo o que aconteceu na vida desde maçante casal, num resumo que se passa sempre no dia 15 de julho de cada ano.

A pegada é bem novelesca e o autor, já nas primeiras páginas, evidencia que sua literatura não tem a premissa de chegar a lugar algum (isso não é algo propriamente ruim, pois a falta de linearidade costuma funcionar perfeitamente bem nas mãos de alguns autores que sabem trabalhar com narrativas randômicas). UM DIA é um livro morno e cansativo, que te obriga a atravessar longa e árdua leitura que o conduzirá até um desfecho igualmente insípido e apagado, cujo único prazer é a noção de termos finalmente chegado ao seu término.

Vale salientar que a narrativa não é de todo ruim; o autor, embora demasiado prolixo, sabe sugerir ao leitor aquilo que se propõe a contar. Os diálogos também são críveis e, vez ou outra, até provocam alguma graça. No entanto, seu aspecto água com açúcar, repetitivo e alienado a personagens que não cativam, suscita demais o enfado porque nada acontece em momento algum. E o leitor segue acompanhando com aquela impressão de que logo ali na frente algo se encaixará com o que foi lido e tornará relevante todas as centenas de frivolidades que fomos obrigados a engolir.

Mas não. Nada acontece em quase momento algum. Os capítulos são esquecíveis, quase todos os dias 15 de julho poderiam ser resumidos em muito menos relatos banais. A trama leva os personagens às mais distintas situações existenciais, talvez no intuito de explicar os resultados e escolhas de cada equação de suas vidas. Só que tudo isso teria funcionado melhor se a narrativa fosse mais sucinta. A maioria dos capítulos está lá para absolutamente nada. Eu poderia ter ocasionalmente pulado alguns capítulos que o ato em nada teria interferido na compreensão do texto ou em seu desfecho final.

Já os dois protagonistas, Dexter e Emma, são apáticos e não possuem elementos que os identifique com a construção do romance. A única condição que parece os tornar apaixonados um pelo outro é a conveniência, pois qualquer outra existência que aparece na vida de cada um deles é propositalmente pior do que a enfadonha realidade que os cerca. Emma é uma mulher cheia de baixa-estima, principalmente em relação à cisma de encontrar um namorado e tenta encobrir seu espírito de porco bancando a descolada. Enquanto Dexter é um vaidoso metido a pegador, que ostenta sua jovialidade e um emprego como apresentador, condições que fazem com que olhe para o resto do planeta de cima para baixo. Cheio de infantilismo, ele logo se deixa submeter aos vícios em etílicos e entorpecentes, situação que o torna ainda mais insuportável.

O final tenta forçar a barra para causar comoção, típico de comédias românticas de sessão da tarde. Mas obviamente o abalo é previsível e clichê. Não faz do ato final algo que desperte um mínimo de reflexão no leitor.

UM DIA é um romance esquecível, de protagonistas que não combinam em nada, de uma trama que se arrasta em banalidades e marasmos que certamente servirá de soporífero ao leitor. Na mesma pegada novelesca, eu recomendaria os bons livros de Marian Keyes, que embora tenham tramas bem corriqueiras e até previsíveis, ao menos em se tratando dessa autora as gargalhadas estarão garantidas.

NOTA: 3,8

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – AMIGA DO DIABO


Penso que romances policiais carecem de personagens charmosos e atraentes, muito mais do que noutros gêneros literários, porque o clima geralmente pesado ou técnico demais precisa ser condensado com elementos que ajudem a trazer um pouco de desenvoltura à trama. O inspetor Alan Banks é, de fato, uma personagem que exala carisma, algo que pode ser facilmente notado já nas primeiras páginas deste decente AMIGA DO DIABO. Tanto que o livro chegou até a receber elogios do mestre Stephen King, condição que certamente eleva o personagem a ser digno de alçar o apogeu dos ilustres detetives de literatura noir... Será?

Não por acaso, o que tem de melhor neste livro é exatamente os bons diálogos entre personagens, é o que mais desperta o prazer da leitura. E esta presença agradável não carece apenas dos dois protagonistas principais, Alan Banks e Annie Cabbot, mas praticamente todos os colóquios estão recheados de imprevisibilidade, condutas singulares, sacadas inteligentes e boa dose de humor. A humanização interativa agrada bastante e nem é preciso ter lido alguma das aventuras anteriores do detetive; pode até soar estranho começar a leitura sem elementos que nos apresentem os personagens, como acontece neste livro, mas a empatia logo sobressai esta suposta limitação e o leitor se vê absorto numa imersão de situações que mesclam imprevisibilidade e distinção entre os envolvidos.

Na trama, dois assassinatos paralelos colocam o departamento de investigação a todo vapor; uma bela jovem é encontrada morta em um labirinto de pátios e becos escuros de uma região de periferia, enquanto a quilômetros dali uma mulher tetraplégica é degolada no alto de um penhasco. Inicia-se então uma tortuosa e obscura jornada investigativa para dar conta de ambos os casos. E alguma familiaridade pode haver entre eles.

Infelizmente é neste ponto que o livro acaba deixando um pouco a desejar. O enredo é, por completo, infestado de interrogatórios com suspeitos, possíveis envolvidos, testemunhas e afins, compromete a evolução textual deixando-a extensa demais. Mas calma, o livro não é ruim, principalmente e graças aos bons diálogos. Portanto, se você é daquele leitor que ama intermináveis inquéritos investigativos, detetives sondando a tudo e a todos, eis que você terá um prato cheio em mãos. Contudo, se você espera um pouco mais de ação, perseguições alucinantes, violência desenfreada, talvez este título o deixe um pouco entediado, enquanto espera por alguma fagulha ao longo de suas quase quinhentas páginas.

O livro explora muito pouco alguns dos personagens secundários que são por demais interessantes. Eu, particularmente gostaria de ter acompanhado um pouco mais de perto a detetive Winsome, uma moça que desde o primeiro instante em que surge na trama, deixa evidente que é uma mulher de muitas camadas. Contudo, acho que este foi o pequeno deslize cometido pelo autor Peter Robinson: ele foca demais no tema investigação e por consequência sobra pouco espaço para explorar os protagonistas secundários. Um infeliz desperdício.

De qualquer forma, fica anotada a indicação do titio Stephen: AMIGA DO DIABO é um baita romance policial, cuja leitura é fluida e instigante. Merece ser lido.

NOTA: 6,9