terça-feira, 31 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA (Vol. 1, 2 e 3)


Para que o nosso povo saia da condição infeliz de crença de nação sem memória é preciso que, antes de qualquer coisa, nós brasileiros aprendamos a respeitar a história do Brasil. Acredito que somente através da consideração profunda e continuada é que poderemos pensar em desenvolver melhorias no âmbito da história, essa disciplina tão desprezada pelos brasileiros.

Foi durante a leitura do volume dois que me ocorreu a ideia de fazer uma única resenha com os três livros dessa série, os quais adquiri numa feira de literatura por um preço irrecusável. Mas somente quando estava terminando de ler o volume três, o qual eu pensava se tratar do último, foi que descobri a existência de um quarto livro, o qual até o fechamento dessa resenha ainda me empenho para adquirir.

Portanto, esta resenha trata apenas dos três primeiros volumes.

HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA é uma viagem de mais de quinhentos anos e que começa lá trás, num Brasil colônia, passando pelo império, até chegarmos à república.  Sob uma ótica menos acadêmica e mais orgânica, o livro apresenta aspectos do nosso povo de forma pouco comum na literatura histórica; leva o leitor para dentro do passado da convivência cotidiana, no lar, como as pessoas se banhavam, como extraíam o sustento, os costumes, a vida social, a relação com a natureza, a forma de fazer comércio, a expansão industrial... Sempre sustentando narrativa testemunhal, de pessoas que naqueles períodos estiveram inseridos.

O primeiro volume, COLÔNIA, a autora investiga as tradições e costumes de nosso antepassado, como alimentação, a maneira como se vestiam, onde e como moravam, o que faziam para se divertir, o trabalho, a família, a sociedade de forma geral, sempre sob a luz da vida cotidiana, o que denota o árduo trabalho de investigação histórica da autora.

O segundo volume, IMPÉRIO, relata um Brasil iniciando sua trajetória autônoma como nação. Acompanhamos figuras importantes como Dom Pedro I, muito jovem e inseguro. Mas Mary Del Priore logo escapa da realeza e desce alguns degraus para encontrar a evolução das famílias comuns, a expansão escravocrata, a separação definitiva entre o que é público do privado, os movimentos separatistas que começaram a tomar conta do país.

O terceiro volume, REPÚBLICA, mergulhamos em diversas crises econômicas e financeiras, a proliferação da bolsa, ascensão das elites, embates políticos que culminaram em mudanças cruciais, a vontade de inserir a cultura europeia em nosso meio, a expansão de novas tecnologias que hoje nos são tão triviais como a geladeira, o rádio e o automóvel. Neste volume poderemos ter uma ideia de como era a vida cotidiana dos nossos avós.

A genialidade da autora se torna clara quando da comparação com qualquer livro de história do Brasil endossado pelo MEC que é usado nas escolas. O conteúdo histórico apresentado em sala de aula costuma ser técnico demais, deixando a leitura cansativa e enfadonha. Mary Del Priore foge desse tipo de condução, faz uso de uma linguagem coloquial, insere toda sua longa pesquisa de modo simples e acessível; trata do nosso passado de uma maneira que não poderia ser definida de outra forma: a autora retrata o Brasil com o dedicado amor de historiadora.

Além da extraordinária narrativa, a obra é também belíssima visualmente, trazendo uma enriquecida coleção de imagens históricas, principalmente no terceiro volume em que o acesso ao conteúdo visual era mais amplo.

HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA é uma coleção riquíssima sobre a história do nosso povo. Um inestimável préstimo à alma do Brasil, que infelizmente é desconhecido e ignorado por praticamente todo brasileiro, que por desleixo ou escassez de conhecimento, perde a chance de aprender sobre a nossa história de uma forma acessível, agradável e, por que não dizer, apaixonante.

NOTA: *10*

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – GOETHE E BARRABÁS


O título contendo dois nomes de considerável importância, escritor e personagem bíblica, impulsiona o leitor e enche-o de curiosidade a respeito do conteúdo. Goethe, pensador e escritor alemão do século XVII, criador do personagem icônico Fausto, dividindo espaço com Barrabás, figura bíblica que foi um dos extremos do primeiro plebiscito que se tem notícias, terminou por receber a liberdade, enquanto o filho de Deus foi parar na cruz.
Quando me deparei com o título deste livro, retirei-o com vontade de entender sua premissa. E embora a sinopse não dissesse muita coisa, e o meu minguado conhecimento de literatura deixou escapar o nome de Deonísio da Silva, eu quis levar para casa e descobrir do que se tratava.

Foi um achado prazeroso.

A pegada irônica do autor recheia sua obra com personagens ilustre da literatura ou canônicas, percorre os preâmbulos nebulosos da mente insegura do ser humano e desagua num universo cheio de metáforas cujo pano de fundo é o escopo do Fausto de Goethe: a vontade inerente do homem a alcançar desejos inalcançáveis, e para isso fazer uma barganha com o diabo.

Na trama, nem um pouco previsível, Barrabás encontra na pureza de Salomé a chance de viverem juntos uma bela história de amor. E entremeio aos cativantes personagens que surgem em tempos não lineares, o questionamento máximo aqui sugerido: como ser feliz sem ter que vender a alma ao diabo?

E falando em personagens, quase todos são por demais interessantes. Desde a avó descolada, o padre que nega sua religiosidade no leito de morte, até um estimado animal de estimação, praticamente todos aqui cativam o leitor a ponto de me fazer achar que alguns foram pouco explorados.

Os diálogos são o que de mais charmoso se encontra aqui; o olhar sobre cada tema abordado; a introdução dos capítulos as quais se notam as metáforas fazendo amálgamas de mundo velhos com o atual; a originalidade reflexiva em cada opinião... O texto não se acanha e vai desenvolvendo temas, lançando reflexão na mente do leitor.

A obra parece fazer analogias o tempo inteiro (ou eu terei que fazer releituras para absorver melhor a mensagem incutida), algumas metáforas se inserem seguidamente, como mencionei anteriormente, e nos deparamos com uma história gostosa de ser lida; de pessoas admiráveis e cheias de incertezas.

O capítulo final pareceu o menos atraente. Talvez o percurso agradável da leitura tenha me tornado um pouco exigente em relação ao seu término, mas fiquei com uma leve sensação de que faltou um pouco mais do charme destilado por todos os cantos. De qualquer forma, o nome de Deonísio da Silva, este ilustre desconhecido, já está anotado para que eu procure por mais de seus trabalhos.

GOETHE E BARRABÁS é um livro diferente e que vale à pena ser lido. Diverte, provoca e destila um charme narrativo não muito fácil de encontrar por aí. Poderia ter explorado melhor algumas personagens, mas talvez essa observação seja oriunda da leve frustração por considerar a obra tão enriquecida e ao mesmo tempo tão curtinha...

NOTA: 8,1

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA


Livros que abordam temas complexos de um modo fácil e sustentando linguagem coloquial, deveriam ser obrigatórios em nossas escolas. Não é a primeira vez em que expresso essa opinião, mas é que ela retorna à minha mente sempre que leio uma obra com tais características.

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA escapa dos termos técnicos, dispensa a linguagem acadêmica e entrega seu conteúdo de modo a parecer uma conversa descontraída entre amigos num bar. Ou seja, os elementos aqui são fundamentais para quem deseja se inserir em assuntos herméticos.

Num primeiro momento a condução informal da obra pode soar um pouco displicente, como se o autor estivesse lidando com economia de forma leviana. Mas o truque é encarar o livro como porta de entrada para o assunto proposto. E exatamente isso que o autor faz: uma crítica ao pensamento raso e automático que está incutido na mente da maioria dos brasileiros. Colocar uma interrogação sobre aquilo que parece obvio na truncada economia desse país é um convite do autor para que se acione o pensamento crítico tomando esse livro como ponto de partida para leituras mais abrangentes.

Alguns temas levantados aqui parecem superados num primeiro momento, como, por exemplo, o pensamento do trabalhador brasileiro que considera o patrão um ser maléfico e que deve ser vigiado em rédeas curtas pelo estado, que neste mesmo pensamento equivocado, enxerga nossa legislação trabalhista como um mecanismo divino a proteger os pobres e indefesos trabalhadores. A inclinação libertária e direitista do autor talvez incomode possíveis leitores extremistas de esquerda, o que não é o meu caso. Raramente me desassossego com algum tema, pois me considero um leitor curioso demais para me render a rótulos restritivos.

Leandro Narlock é jornalista e foi repórter da revista Veja. Também foi editor da Superinteressante e Aventura na História. Portanto, o teor jornalístico é notável por todo conteúdo deste volume, assim como também a devida inserção de suas fontes estão expostas para quem quiser se aprofundar ou verificar a autenticidade do que está sendo dito (mesmo que algumas dessas fontes sejam parciais, pelo menos elas estão aqui para serem contempladas).

Eu até poderia considerar a escassez de profundidade na maioria dos temas (tive esse mesmo incômodo ao ler o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, escrito pelo Luiz Felipe Pondé), mas acredito que não é essa a premissa em nenhum dos volumes da série Politicamente Incorreto. A contradição é levantada aqui como pontapé inicial, o que nos leva a pensar um pouco no escopo do título, ao usar o termo “guia”. Não dá pra dizer que estamos diante de um guia, pois falta aqui a mecânica instrutiva que compõe um livro que sirva como manual de instrução de verdade.

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA não chega a ser um livro indispensável, mas vale como porta de entrada para quem deseja entender um pouco os entraves de nossa economia. De linguagem descomplicada, também pode agradar aos leitores que, embora gostem de ler sobre economia, não desejam se tornar doutores sobre o tema.

NOTA: 7,6

sábado, 30 de novembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – O CORTIÇO


São as raras exceções que confirmam uma regra. Se o espaço de convivência é definidor (ou pelo menos influenciador) da moral, então eis que qualquer caso esporádico apenas demonstra o quanto a precariedade de um “cortiço”, em geral, comporta seres humanos inescrupulosos que por conta da escassez precisam lutar como selvagens por seu lugar ao sol.

O Cortiço é uma obra advinda da metade do século XIX que analisa o convívio humano de um modo, digamos, cientifico, quase empírico. Desse ponto de vista, o comportamento de suas personagens seria fruto do meio em que estes se encontram, advindos de uma exposição contundente que parece conferir à trama um escopo de denúncia das injustiças sociais daquele tempo.

A veracidade analítica expressada aqui poderia até ser compreendida como documento histórico ou sociológico, justamente por mostrar de maneira abrangente o surgimento da classe trabalhadora mais humilde.

A trama nos remete à João Romão logo no comecinho e parece seguir com esta personagem como principal. Mas de um ponto de vista alegórico a impressão é de que todos viventes narrados são apenas células da autêntica personagem: o próprio cortiço; jamais li um livro cujo título se encaixe tão adequadamente.

O fio narrativo permeia a ascensão social de João, típico indivíduo advindo do meio proletário e através do capitalismo inescrupuloso se torna rico. João é importante porque é o criador do cortiço; lugar que se torna laboratório de convivência para as mais distintas personalidades sociais. Contudo, o seguimento distancia-se de seu protagonista, proporcionando um olhar maior e mais amplo, possibilitando-nos o testemunho da vida no cortiço como um todo; a obra entende que João Romão tem sua função, mas sabe mesclar seu desenvolvimento juntamente com o do lugar que intitula a história.

O estilo linguístico de Aluísio Azevedo não é excessivo e nem minimalista, narra na dose certa lugares, aspectos, sentimentos. Trata de modo equilibrado seus protagonistas e por essa razão considerei o cortiço como sendo a personagem essencial; todos os envolvidos na trama têm seu nível de importância e o autor não perde ninguém pelo caminho. A harmonia narrativa estabelecida aqui é simplesmente genial.

O Cortiço demora um pouco pra funcionar; requer um tanto de perseverança do leitor, principalmente nos primeiros capítulos nos quais são jogadas quase todas as personagens de uma só vez. Mas com paciência na leitura o livro logo te prende e não larga mais.

A edição que li foi reformulada pela editora Ediouros e o resultado agrada bastante; a linguagem foi revigorada, mas sem deixar que se percam os aspectos vocábulos daquele tempo, isso ajuda a tornar a leitura acessível sem comprometer sua essência.

O Cortiço é outro belo volume de nossa literatura que talvez tenha sido usado de forma errada por nossa pedagogia, pois a ação de obrigar alunos a lerem obras como essa, muitas vezes pode produzir o efeito contrário do esperado: fazer com que o jovem se afaste de nossa riquíssima literatura. Autores como Aluísio Azevedo, Machado de Assis, Clarice Lispector, não devem ser limitados apenas ao escopo didático, mas acima de tudo, a proximidade com o que há de melhor na literatura desses gênios: o vislumbre inebriante de sua riqueza narrativa.

NOTA: 8,3

sábado, 2 de novembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – MOINHOS DE VENTO


Quando se fala em George Orwell, dois trabalhos deste monstro da literatura preenchem a mente do interlocutor: 1984 e A Revolução dos Bichos. E obviamente também são estes dois clássicos do cara que eu carrego como meta de leituras futuras. Contudo, foi vasculhando acervos de usados pela internet que encontrei este então bem mais modesto MOINHOS DE VENTO, que por conta da casualidade acabou sendo minha primeira incursão no universo literário de Orwell.

Minha leitura de MOINHOS DE VENTO remeteu-me, de imediato, a aspectos os quais já haviam me alertado sobre o estilo do autor: a contradição do ser humano, o apontamento para o sistema opressor capitalista, e talvez um dedo na ferida sociológica de seu tempo.

A trama conta a história de Gordon Comstock, caricato cidadão inglês de infância pobre, cujo pavor ao sistema capitalista moedor de carne humana lhe remete a paranoias prejudiciais para sua subsistência e o enterra, cada vez mais, no fundo do poço. Gordon veste sua aversão ao regime econômico vigente até a fase adulta, situação que torna quase nula suas perspectivas existenciais.

Perceba que esta breve sinopse já denota o tipo de literatura que o leitor ira se deparar. Pois eis que durante a leitura, outros elementos da narrativa de George Orwell permeiam o tempo inteiro, algumas delas com um sutil teor de protesto. A que mais me chamou a atenção foi precisamente a hipocrisia do ser humano, incutida na personalidade da personagem principal.

Gordon é um homem aparentemente bem instruído, dotado de sagacidade peculiar ao analisar a sociedade que o rodeia, assim como também aspira ao universo da poesia. No entanto, quando prega seu repúdio ao dinheiro, Gordon mais se parece com um sofista, pois se imbui de discurso irreprovável, mas na prática carece o tempo inteiro de recursos econômicos para sustentar suas obvias necessidades; ele quer parecer desprendido da ganância substancial e até classifica o dinheiro como uma espécie de Deus escravocrata. Mas mesmo dentro de uma realidade quase que de mendicância, Gordon segue recusando possibilidades de crescimento econômico, ao mesmo tempo em que vive sugando os escassos recursos de sua irmã.

É uma assertiva narrativa da corrupção dos ideais que o autor tão bem nos entrega. Orwell não se priva de mostrar a frustração e revolta de seu protagonista em pé de igualdade com o comportamento discrepante que reconhece e até aceita as regras consumistas.

Eu diria que um probleminha a ser mencionado é o final, que considerei previsível e me deixou com a sensação de esgotamento, como se tudo o que havia para ser dito aconteceu, deixando a conclusão sem grande acabamento. Mas creio que isso não chegou a incomodar muito.

MOINHOS DE VENTO (até agora não entendi o título em português) é obra de um dos maiores romancistas do século XX. E embora eu ainda não tenha lido seus trabalhos mais notórios, foi evidente verificar seu domínio narrativo. Espero ler mais de Orwell, cujo método literário contribui para iluminar nossas mentes escuras no que concerne a complexidade humana.

NOTA: 7,7

terça-feira, 22 de outubro de 2019

RESENHA DE LIVRO: O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO?


Na literatura deixada por quem sobreviveu ao Holocausto há pouco a ser lido que vá além da análise genérica que não soe repetitivo; quase todos os relatos são parecidos e, apesar de sua conotação extremamente trágica, geralmente seguem a esperada linha testemunhal da crueldade humana. E embora essa constatação possa ser entendida como desdém, eu confesso que só continuo insistindo nesse tipo de conteúdo por querer encontrar um pouco daquilo que não estava escancarado aos olhos; a narrativa que me fascina é a da resiliência silenciosa, aquilo que não foi dito simplesmente porque se esconde nas sombras escuras da alma humana...

Nesse sentido, O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO? é um livro que trouxe uma perspectiva inusitada sobre a tragédia do Holocausto: fez sua análise fria e sentimental do ocorrido sob o ponto de vista não apenas de quem lá esteve, mas também de quem não viveu os dias de treva sob os muros de Auschwitz. A autora Noemi Jaffe é filha de uma sobrevivente do inferno e parte da obra é sua dissecação à cerca do diário de sua mãe, Lili Jaffe, documento que hoje se encontra no Museu do Holocausto de Israel.

Lili tinha dezoito anos quando se tornou prisioneira junto com o resto de sua família, os quais ela só reencontrou o irmão quando do término do conflito. Quando a Cruz Vermelha resgatou e levou Lili para a Suécia, esta resolveu eternizar tudo o que havia sofrido, fazendo uso de sua memória fragilizada, mas ainda fresca em relação à experiência traumática. Essa é a primeira parte da composição desta obra aqui resenhada: o diário de Lili, escrito como se ela estivesse relatando exatamente em conformidade com o ocorrido. Temos aqui a parte genérica da obra, pois se trata de mais um testemunho dos muitos já publicados, mundo afora (é pavoroso, eu sei, mas é apenas outro relato que pouco se distingue de outros tantos).

A segunda parte do livro é o que, de fato, o tornou indispensável: a autora discorre com elevada profundidade e lisura sua pessoal jornada por tentar compreender no que sua mãe foi transformada após a tragédia. Há momentos aqui capazes de suscitar reflexões profundas, como quando Noemi explica a necessidade de sua genitora em crer no destino como uma maneira de se livrar da culpa por ter sobrevivido; ou no capítulo intitulado “mãe”, um dos mais belos textos da obra.

A percepção posterior da filha (que exatamente narra tudo em terceira pessoa como se não fosse sobre ela mesma) de que nada chegará a lugar algum é uma conclusão acertadíssima. Saber que é impossível obter algum norte sobre o Holocausto ou mesmo a tentativa ineficaz de explorar a alma de sua mãe mostra o quanto a busca pelo conhecimento de determinado assunto acaba gerando ainda mais dúvidas; máxima filosófica que carece de elevada humildade e entrega a derrota que eleva o ser, pois as grandes obras deixadas neste mundo são obras inacabadas, infinitas...

Na terceira e última parte, que de tão curto parece se tratar de um posfácio, temos a análise oriunda de outra geração, a neta de Lili, filha de Noemi Jaffe, que também esteve junto com a mãe em visitação às instalações de Auschwitz e, portanto, forneceu seu olhar ainda mais distante, de quem ouve ou lê relatos sobre o Holocausto como quem acompanha uma produção fictícia, algo muito difícil de acreditar.

O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO? (o belo e inusitado título é devidamente explicado ao longo da obra) não chega a ser um livro fundamental sobre a tragédia de um povo, mas sabe esmiuçar a particularidade de seus narradores com tamanha profundidade; um convite à reflexão sob a luz da intrepidez de mulheres que estiveram submersas em tragédias a partir de pontos diferentes de visão... Altamente recomendado pela riqueza imersiva.

NOTA: 8

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

RESENHA DE LIVRO – AGOSTO


No cenário literário brasileiro há poucos romancistas noir reconhecidos (é curioso, pois se trata de gênero agradável, que mistura mistério e elementos investigativos). E se esta sugestão corresponde mesmo à realidade ou se é apenas meu precário conhecimento dos grandes autores brasileiros, o fato é que Rubem Fonseca nos representa neste cenário como ninguém. Suas obras são tão bem desenvolvidas que parece estarmos lendo literatura noir britânica ou americana; países pioneiros deste gênero.

O mês de AGOSTO leva o título da obra, pois nos remete ao período de 1954 em que feitos históricos de incomensurável importância ocorreram em menos de três semanas daquele mês. O velho Rubem mescla a realidade com a ficção e dessa mistura ele nos entrega esta que a crítica considera a mais ilustre de suas obras.

Aqui temos muitos personagens inseridos de uma só vez, principalmente na primeira metade do livro, o que dificulta a identificação do leitor. Mas com um tantinho de perseverança pode-se distinguir a figura central da trama, o comissário de polícia Mattos, de longe é a personagem mais intrigante da história. Novamente Rubem Fonseca prova ser um sofisticado criador de figuras fascinantes. Mattos é um homem de princípios dentro de uma polícia desmanchada em corrupção; profissional austero e um pouco introvertido, que encara seu trabalho investigativo com incansável zelo, além de sofrer intermináveis apuros, por conta de sua tumultuada vida íntima e nas mãos de uma úlcera.

No aspecto histórico, temos o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda que desencadeia em pressão da oposição que acusa Getúlio Vargas de ser o mandante, os nebulosos e fétidos bastidores políticos, conspirações de golpe de estado, o suicídio do presidente, as manifestações populares que sacudiram a nação. Tudo isso permeia a trama que intercala capítulos os quais se iniciam com as investigações do comissário Mattos à cerca do assassinato de um empresário bem sucedido.

Conforme as investigações avançam, o autor vai amarrando uma deliciosa ambientação de suspense, onde possibilidades distintas pairam na mente do protagonista, enquanto seguem os acontecimentos marcantes daquele inesquecível agosto. Há aqui o leque amplamente aberto para diversas possibilidades.

Um aspecto que me incomodou um pouco foi a constância narrativa em cima dos acontecimentos históricos que praticamente os tiram da condição de pano de fundo, tornando a trama técnica demais e com muita informação que a meu ver não precisavam ser jogadas na trama; poderiam ter sido mencionadas em leves pinceladas. Rubem parece ter se preocupado demais em relatar fatos históricos, como se isso fosse fundamental para sua narrativa (em alguns momentos senti até mesmo certo enfado, coisa rara de se acontecer quando leio este exímio autor). Mas justamente quando a obra retoma o teor investigativo, o gás se renova de imediato, principalmente porque Mattos é uma personagem muito bem ajustada com a trama.

O final tem aquela boa dose fonsequiana que privilegia o desfecho inerente e despudorado. Rubem não relativiza nem conduz sua narrativa em prol do protagonista, apenas deixa tudo rolar do modo mais orgânico possível.

AGOSTO não é meu livro favorito de Rubem Fonseca. Mas é bem escrito, possui personagens cativantes e consegue manter um bom suspense policial por quase toda a trama... Como em toda obra deste autor, este título também vale muito à pena ser lido.

NOTA: 7,9

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA


Atenção para alguns pequenos spoilers nesta resenha que acredito não cheguem a comprometer na leitura. De qualquer modo, aviso de antemão e peço desculpas, mas foi inevitável.

Achei impressionante como as pessoas descrevem esse livro como sendo uma homenagem definitiva ao amor verdadeiro. E embora eu não tenha a pretensão de contestar opinião de ninguém, penso que minha leitura deste O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA causou-me perspectiva um pouco discrepante, ou no mínimo, uma visão singular e um tanto inconclusiva, é claro.

A literatura é uma construção artística dúbia. Acredito que muitos autores nem chegam a desenvolver seus trabalhos com essa pretensão. Mas a mente do criador rege um ponto de vista que pode ser difícil de ser fidelizado na linguagem escrita, assim como também costuma diferir da compreensão de quem lê. Ou seja, não há veredito definitivo em literatura, mesmo que a fonte desta análise venha do próprio autor. E embora este possa soar como um ponto de vista túrbido, eu acredito ser a maior virtude da arte escrita: a de causar diferentes percepções, justamente porque o analista faz uso de sua bagagem de vida para absorver o universo que o rodeia.

As personagens desenvolvidas nesta obra são demasiadas humanas. As descrições sentimentais dos envolvidos na patologia do amor (e aqui uso o termo patologia no sentido de desequilíbrio), de fato remetem a ações intensas e obstinações quase irracionais. E no lugar de refletirmos melhor sobre o absurdo decorrente do sentimento descrito, nós a elevamos à condição de esplendor; a pureza de se amar o outro. Isso talvez seja fruto da infindável busca de significado existencial que tanto nos acomete.

Gabriel Garcia Marques desenvolve suas três personagens principais sem retirar uma gota de suas contradições. Fermina Daza é uma mulher impetuosa e ao mesmo tempo não ultrapassa o limite imposto pelo patriarcalismo de seu tempo e às vezes até parece endossar essa realidade. Quando o amor lhe é negado ela simplesmente faz o que de fato seria o mais sensato para a maioria de nós: conforma-se a uma estabilidade conjugal, tornando imperativo o sentimento pragmático.

Juvenal Urbino é o arquétipo que melhor nos fará compreender a terceira personagem da trama que ainda não mencionei. Ele é um homem aparentemente impoluto, cuja profissão próspera e sua elevada estatura social fazem dele um partido cobiçado pelas damas da região em que vive. E como costumeiramente acontece com os seres humanos, o desejo de Juvenal se manifesta justamente pela donzela indiferente; a mulher que o ignora e até o menospreza. Desejo escapadiço cuja natureza o torna permanente... Até que sua conquista finalmente se torne manifesta, então está decretado o fim do interesse; o mais notório amor platônico possível.

Finalmente chegamos em Florentino Ariza, que diferente de Juvenal Urbino, não conseguiu ver seu desejo realizado e isso fez com que ele levasse sua obsessão ao limite do absurdo. É na personagem de Florentino que mais se transparece o arquétipo do amor perfeito, simplesmente porque sua impotência perante seu sentimento nos causa comoção. Mas o que notei aqui foi o exemplo do desejo não realizado, fato que fez de Florentino um incansável buscador da utopia daquilo que ele acredita saber do que se trata: o amor em sua mais perfeita manifestação.

Mas se analisarmos sem o viés do romantismo, como me pareceu a condução narrativa, poderemos compreender que Juvenal Urbino e Florentino Ariza simbolizam dois extremos que nos ajudam a identificar a complexidade do amor, que aqui é refletida sob a ironia da cólera, o que faz todo o sentido. A primeira personagem sendo o conquistador que ao ver seu intento realizado, percebe sua existência retornar à condição totalitária do tédio, até que retorne a patologia do amor por outra mulher. Já a segunda personagem é a figura do derrotado, que do alto de sua impotência, torna-se o poeta nostálgico, onde a impossibilidade do amor é justamente o que faz de seu sonho algo tão esplendido e cálido.

Florentino amou várias vezes ao longo de sua vida. Encontrou plenitude em muitas de suas aventuras e isso é retratado de maneira evidente quando ele alcança a velhice, porque somente no ganho de experiência de vida é que ele percebe a riqueza contida nas relações que encontrou pelo caminho; no instante em que chora escondido no banheiro por uma mulher que pensou não amar, chegando inclusive a estranhar o próprio pranto. Aliás, é precisamente sua condição de velho o que valida ainda mais sua percepção de amor imaculado por Fermina, pois exatamente a transformação física do casal, a perda da vaidade e a noção de autonomia o que os remete a pura e simples ternura, que talvez até seja permanente pela pouca vida que lhes restam.

Gabriel Garcia Marques é um autor não muito fácil de ler. Não pela linguagem complexa ou métodos truncados, mas por sua condução narrativa direta e irrefreável. O autor joga tudo de vez, vai contando sem dar trégua para o leitor respirar, algumas vezes precisei voltar alguns parágrafos por achar que havia me perdido. Confesso que essa continuidade sem freio me assustou no começo, mas aos poucos me acostumei ao modo imediato e prolixo da obra.

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA definitivamente é um livro romântico. Mas trata do amor de um modo orgânico como jamais li antes. E claro que meu ponto de vista sobre a obra é absolutamente meu, o que novamente reforço: é essa condição singular de nossa percepção de leitores imperfeitos o que torna a literatura algo tão especial.

NOTA: 7,5

terça-feira, 10 de setembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – DIVA


Algumas vezes é preciso um pouco de perseverança e flexibilidade para se compreender e, por conseguinte, gostar de um autor. Clássicos do século XIX costumam carecer de elevada sensatez, pois é fatal que se entenda que tudo naquela narrativa pressupõe aspectos e valores de um determinado tempo.

DIVA é a primeira obra que li de José de Alencar e, diferente de outros clássicos do XIX, a linguagem empregada aqui me enterneceu de imediato, algo que normalmente não acontece tão depressa comigo, daí a observação no início desta resenha.

A trama aqui é simplória; por meio de uma carta, a personagem Augusto revela para seu amigo Paulo, as mazelas e embates que afligiu sua relação afetiva com Emília; moça de personalidade demasiadamente forte.

Sob a caneta (sob a pena?) de um autor clichê, remeteríamos DIVA a um romance café com leite, banal, de reviravoltas trágicas para causar comoção. Contudo, José de Alencar sabe utilizar uma linguagem elegante e refinada, que privilegia o escopo narrativo, onde autenticidade e esmero textual é o que mais chama atenção.

A Emília do autor é, de fato, uma mulher impossível. Extremamente vaidosa, de um pudor exagerado quase como um TOC e de insensibilidade que beira o cruel, ela é o perfeito arquétipo de ser indomável e algumas vezes parece se deleitar por ser assim. Confesso que a odiei desde o início da leitura, mas percorrendo a algumas opiniões femininas pela internet, alguém sugeriu que este meu desconforto com a personagem é puro orgulho de macho. Enfim, talvez seja mesmo isso e, se realmente se tratar de orgulho, o livro acertou novamente, pois Emília me irritou por diversos momentos da trama...

Já Augusto, o desenganado narrador, soou-me como um verdadeiro banana. Provavelmente por achar que ele devia ter dado à sua amada as devidas lições oriundas do mesmo orgulho que me fez detestar Emília, por vezes eu me peguei esbravejando o comportamento irresoluto de Augusto, algo que sempre acontecia quando ele estava diante da incomparável beleza de sua musa. E ao término da leitura, vi-me envergonhado por julgar Augusto ao vê-lo se submeter aos caprichos de sua amada... Mas qual homem nunca o fez, perante os encantos da beleza de uma mulher?

DIVA é um romance charmoso, cuja linguagem é o que mais me chamou a atenção. Uma trama simples, porém, narrada na medida certa. O livro é curto, o que não permite que se torne cansativo, justamente porque o autor mantém seu foco exclusivamente no romance, exatamente como é uma carta confessional de um homem apaixonado.

E após esta deliciosa incursão, já estou providenciando outros títulos de José de Alencar, pois o que os comentários dizem pela internet é que DIVA é o mais singelo de seus trabalhos. Se os leitores online estiverem certos, essa é uma ótima notícia, afinal, é sempre bom começar a ler um grande autor por seus trabalhos menos expressivos, pois desse modo, a cereja ficará para o final.

NOTA: 7,9

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

RESENHA DE LIVRO – COM CLARICE


Autores que deixaram um legado literário extraordinário despertam um inevitável interesse nos leitores em conhecer um pouco melhor sobre como funcionava suas mentes sublimes, e Clarice Lispector faz parte desse restrito grupo de gênios que enriqueceram o mundo com inesquecíveis obras-primas.

COM CLARICE é uma obra singular cujo propósito é nos permitir exatamente isso: a possibilidade de darmos mais um passinho em direção ao universo de nossa rainha. Trata-se não somente de um livro sobre Clarice, mas um aglomerado de documentos, análises técnicas de alguns de seus trabalhos e opiniões de gente que conviveu muito perto dela.
Portanto, para os viciados no universo clariciano, como é o meu caso, eis aqui uma obra indispensável e atualmente não muito fácil de encontrar (a minha edição eu achei por acaso num Sebo na cidade de Uberlândia, uma sorte).

Autora plural, Clarice sempre se despiu de conceitos lineares para ir fundo nas agruras da alma humana. Sua literatura de prosa investe muito além dos sentidos e, sobretudo, atiça o pensamento do leitor. Talvez esta seja a autora que melhor me insere na condição de insatisfeito; que me faz querer pensar para além da superfície.

Minha inserção ao universo de Clarice se deu por suas crônicas, caminho que considero ótimo como porta de entrada, pela leveza e praticidade linguística. E desde quando passei a explorar sua literatura, principalmente ao inserir-me nos romances, uma certeza sempre esteve incutida ao longo das leituras: a obra de Clarice Lispector é inesgotável e evolutiva; inesgotável porque nunca se consegue alcançar saciedade; e evolutiva porque nosso discernimento costuma transitar por diferentes formas interpretativas a cada releitura.

E esta opinião parece ser comungada pelos autores desta crítica literária COM CLARICE: o constante sentimento de universo inexplorado e progressivo. Affonso Romano de Sant’anna e Marina Colassanti reuniram aqui parte do legado manancial e intelectual de Clarice, num gesto fragmentado de admiradores que conseguiram nos aproximar um pouco mais da icônica autora.

O livro divide-se em três partes, sendo que a primeira leva o título da obra e talvez seja o momento mais delicioso da leitura: dois textos em que os autores e amigos de Clarice rememoram alguns instantes passados ao lado da escritora. A segunda parte chama-se De Marina para Clarice, em que a narradora nos trás um conto e uma crônica carinhosa de teor clariciano. Finalmente temos a terceira parte, De Affonso para Clarice, momento da leitura em que o autor segue na árdua empreitada de analisar alguns dos trabalhos de Clarice (esta é a parte mais técnica e, por isso, pode incomodar um pouco), e encerra-se com algumas crônicas divertidas e pertinentes.

Há ainda um apêndice em que acompanhamos uma entrevista que Clarice forneceu para os dois autores, realizada no Museu de Imagem e Som do Rio de Janeiro em 1976.
Por essa razão COM CLARICE é uma obra singular e necessária para quem é fã. Uma viagem analítica e apaixonada de amigos que se encantaram e se intrigaram por essa mulher extraordinária; que igualmente a nós, singelos leitores, buscam preencher incessantemente suas constantes insuficiências existenciais.

NOTA: 8,5

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

RESENHA DE LIVRO – MALONE MORRE


Se você costuma usar resenhas de livros como orientação e sugestão de leitura, creio que esta não lhe servirá de nada. Menos ainda atente-se à pessoalidade da nota inserida ao término da mesma. Sim, pois talvez eu tenha cometido o equívoco venial de começar a ler Samuel Beckett por este MALONE MORRE. Trata-se aqui de uma obra subjetiva e multifacetada, que embora eu aprecie bastante o estilo, esta me foi uma leitura demasiado esgotante.

A trama é narrada pela personagem do título; um homem velho, moribundo, aparentemente debilitado e preso a uma cama de um confinamento que pode ser um hospital, manicômio ou similar. O cara possui apenas sua visão limitada do quarto, uma janela com restrita permissão visual, alguns poucos pertences os quais ele usa um lápis para escrever sobre aleatoriedades e, acima de tudo, suas infindáveis incertezas.

Malone não sabe onde se encontra, muito menos sabe dizer qualquer coisa sobre si mesmo com plena convicção. Externaliza seus pensamentos de maneira desordenada e é exatamente isso o que resume a leitura de seus relatos: desordem e mais desordem. Encontrar instantes de coerência ou permissividade aqui é algo incerto, talvez impossível. Samuel Beckett mantém a linguagem hermética por toda a trama, não nos fornecendo nada e encerrando de forma igualmente enigmática.

Por toda a leitura eu tentei alcançar o escopo psicológico do narrador, um homem claramente desprendido de qualquer forma de absolutismo, condição geralmente compreendida por aqueles que se encontram em situações similares a da personagem: o flerte progressivo e determinante da finitude.

Seus relatos começam com certa lógica, mas logo descaem para o absurdo. Quando descreve lugares, pode-se intuir tanto como uma visão distorcida do ambiente como uma mera metáfora. É notório como praticamente tudo e todos são sofríveis, personagens em limites extremos, insanos, feios, excluídos. Outras vezes somos remetidos aos arquétipos propositais do narrador, ou suas lembranças nebulosas e pouco confiáveis, ou estamos mesmo diante da tentativa de se narrar a miséria do ponto de vista de um miserável do modo mais cru que já li na vida.

Por vezes eu tive que fazer pausas por imaginar que havia perdido o foco da atenção. Relia, muitas vezes, páginas inteiras já lidas e a desordem perdurava imponente na minha cabeça. Contudo, durante toda a leitura havia um elemento que jamais se afastava de mim: a noção da indigência do ser. Seja a indigência do próprio narrador, de suas desafortunadas personagens ou de nós leitores, determinados a seguir acompanhando com nossa precária falta de percepção do que nos é mais acessível: a condição da penúria.

Seja lá o que Samuel Beckett quer nos passar com seu MALONE MORRE, a mensagem incutida na obra certamente me escapou. O fato é que em nenhum momento a trama segura na mão do leitor; é como se ela nos dissesse: terás que percorrer sozinho o vale dos indigentes. E faltou-me maturidade para tal.

MALONE MORRE é uma leitura complexa e inclemente que até mesmo a gramática parece querer nos confundir. Não é inacessível, mas carece sobriedade e desprendimento. Difícil de ser recomendada por seu teor sugestivo e impossível de ser resenhada... Enfim, esqueça a minha nota de rodapé.

NOTA: 5,8

segunda-feira, 22 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – DIA D


Fazendo uso de uma pitada de exagero, é preciso certo cuidado com atrofias na hora de ler esta pesada obra. O volume de conhecimento aqui reunido é gigantesco, e isso pode ser constatado no peso físico do livro (tratam-se de indispensáveis 715 páginas). Segurá-lo aberto por horas de leitura pode se tornar uma desconfortável experiência.

Mas a imersão narrativa, mesclada a uma expansão de detalhes compensam qualquer desafio na hora de encarar a robustez física; DIA D talvez possa ser considerado o trabalho definitivo sobre o maior desembarque de tropas da história militar. E esta opinião não é minha, vem de alguns historiadores e especialistas da Segunda Guerra Mundial.

Temos aqui um trabalho minucioso cuja narrativa se inicia no desembarque dos aliados no litoral da Normandia, em 06 de Junho de 1944, rumo à libertação da França que estava sob o jugo do terceiro Reich. E diferente dos demais trabalhos sobre esse importante período da grande guerra, DIA D é amplamente enriquecido por detalhes dos combates que muitas vezes escapam dos historiadores; um olhar quase em primeira pessoa.

O nível de imparcialidade do autor impressiona. Antony Beevor tece a narrativa na precisa fidelidade de sua pesquisa, e o que carece de levantamentos hipotéticos, ele os sugere em concordância com documentos oriundos de diferentes fontes. O intento jornalístico e a vontade de contar exatamente o que houve é formidável, o autor não puxa sardinha para nenhum lado, apenas analisa suas fontes e entrega um dos textos mais verossímeis que já li sobre a Segunda Guerra Mundial.

Embora a obra se preocupe em relevar alguns termos técnicos, nomes e datas, o brilho fica por conta do aspecto humano de todos os envolvidos: o inabalável empenho das tropas aliadas; o medo generalizado de não saber o que está à espera no país ocupado; a luta desesperada dos alemães em notória minoria; a tragédia da destruição que sempre desaba sobre os civis que lá se encontravam.

Sim, DIA D deve ser considerado um livro indispensável para quem se interessa pelo tema. Contudo, cabem aqui algumas observações:

É preciso certo conhecimento, mesmo que não muito aprofundado, sobre a Segunda Guerra, pois o autor se concentra nos bastidores dos acontecimentos, sem fazer nenhuma apresentação. Os grandes generais, as divisões de destaques, os termos técnicos recheiam a obra por todo o instante sem fazer nenhuma referência (há apenas um glossário de siglas e fontes no final da obra), o que é perfeitamente compreensivo, haja vista que o livro narra um pequeno período da grande guerra que se passa já em tempos finais. Leitores introdutórios devem começar por obras mais genéricas antes de entrar em narrativas específicas.

Outro aspecto singular do livro foi a maneira com que Antony Beevor procura esmiuçar e compreender a mente dos generais de ambos os lados. Minha leitura deste DIA D tornou-me ainda mais admirador do marechal de campo alemão Erwin Rommel. Outras obras e documentários que pude acompanhar sempre o descreveram como um exímio estrategista e líder articulado. Neste volume tais conceitos são ainda mais acentuados, mostrando que, de fato, Rommel era um homem de elevada inteligência militar e principalmente sobriedade ímpar ao deixar de lado o orgulho e aprender com os próprios erros (condição raramente relatada pelos especialistas que pesquisaram o corpo de liderança do Terceiro Reich). Possivelmente as coisas poderiam ter sido menos trágicas para os alemães, caso o vaidoso Hitler tivesse dado ouvidos ao discernimento dos bons generais que tinha no comando de seu exército.

Não sei se em todas as edições estão iguais (a minha é da editora Record, lançada no ano de 2010), mas esta ainda vem com um bônus maravilhoso: muitas fotos do conflitos, imagens de personagens importantes e diversos mapas que nos ajudam a entender a problemática geográfica.

DIA D é um trabalho estupendo cuja imparcialidade e imersão narrativa nos ajuda a compreender que, embora tenha sido uma operação fundamental, o dia D foi um conflito arduamente vivido por ambos os lados, onde erros e acertos são descritos com a honestidade de um autor que soube mostrar aquilo que são os embates militares de nossa história.

NOTA: 9,5

terça-feira, 9 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O LOBO DA ESTEPE


Se as mazelas da solidão humana podem ser narradas de algum modo, sem deixar que se escape o equilíbrio entre o desencaixe existencial e a vontade de potência, eu creio ainda não ter lido nenhum autor que o soube esmiuçar isso melhor do que Hermann Hesse.

O LOBO DA ESTEPE é a autoproclamação da personagem que, solitário em sua essência, define-se como tal. Um ser humano em crise, só que provido de lucidez necessária para compreender sua natureza animalesca e desarmônica, tão honesto que quase o remete ao indizível.

Eis diante de nossas mãos a possibilidade de ler poesia em prosa, de teor angustiante no que tange a complexidade humana, mas acima de tudo, tragicamente enriquecida e bela.
Harry Haller é um homem entediado e a primeira parte do livro traz esse sentimento de modo quase indigesto ao leitor. Há neste ponto da narrativa um segmento confessional, auto analítico, de linguagem penitente que costuma causar certo enfado. Mas é proposital, o autor precisa mostrar quem é seu protagonista, ou seja, trata-se aqui de um caminho inescapável ao leitor.

Depois disso, a trama ganha vigor; Harry despe-se em sua dualidade, homem e lobo, então passamos a acompanhar seus confrontos antagônicos quase que insolúveis de alguém cujos preceitos burgueses o desagradam, mas que não consegue se livrar desse mal. A personagem demonstra seu asco social ao mesmo tempo em que se compreende como o arauto da mediocridade.

Sei que esta resenha soa um pouco hermética, mas o caminho é esse mesmo. A beleza de O LOBO DA ESTEPE não está na linearidade, portanto, não cabe fazer uma sinopse aqui. Até porque isso seria desnecessário pelo fato de que estamos falando de um clássico da literatura.

O livro retrata a necessidade de autoconhecimento, do caminho sem volta que é tentar compreender a si mesmo e que, embora mais árduo do que a felicidade obtida através da mera ignorância, Harry precisa angariar meios de escapar de sua cilada existencial para finalmente usufruir dos verdadeiros prazeres da vida, que numa definição epicurista, seria propriamente o prazer por meio daquilo que é mais simples.

O LOBO DA ESTEPE é um livro memorável por sua mensagem. Hermann Hesse espatifa sua personagem para, em seguida, juntar seus cacos enquanto nos cortamos em pequenas pontas. As referências em Mozart, no Teatro Mágico, na analogia do próprio nome do autor com as personagens, tudo aqui possui uma correlação, porém, nem um pouco conclusivo, o autor deixa tudo para a mera reflexão do leitor, o que é maravilhoso. E o faz sem se esquecer de sua observação pessoal, feita já no posfácio, em que Hermann Hesse sugere com humildade invejável, o que sua literatura criou na mente dos leitores da época e a verdadeira mensagem que gostaria de ter lhes passado... Eis uma obra atemporal, que como várias outras, jamais se esgotará em significado.

NOTA: 8,1