segunda-feira, 19 de outubro de 2020

RESENHA DE LIVRO – DEPRESSÕES


Existem certos livros cujo conteúdo pode suscitar mal-estar e, por essa razão, talvez não devam ser lidos por leitores que atravessam fases difíceis de suas vidas. A depressão do título dessa obra não remete propriamente à doença psiquiátrica (ou não apenas a ela), mas ao clima de constante opressão. E o desconforto paira constante através das páginas dessa compilação de contos da vencedora do Nobel de Literatura Herta Muller.

A escritora nascida na Romênia vivia numa pequena comunidade rural em que predominava a cultura alemã que era alvo de perseguição do regime comunista que dominava o país. Provavelmente é desse cenário de escassez extrema que surge a inspiração para a prosa franca e eloquente de Muller.

DEPRESSÕES é uma reunião de contos insalubres por excelência. A essência narrativa desse livro percorre por ambientes impregnados de imundices das mais variadas espécies, desde a sujeira física até a psicológica. O olhar das personagens denota com clareza os limites de sua realidade, a precariedade que quase sempre evolui para cenários trágicos de violência... Violência de todos para com todos, entre categorias sociais distintas e que permeiam o cotidiano, compondo a dramaticidade coletiva do cenário.

O livro divide-se em quinze contos, porém o texto que fornece seu título ocupa mais da metade do volume e é aqui o lugar onde encontramos a sutil constituição literária da tragédia humana que faz de Herta uma escritora notável. Sugiro que o leitor faça sua incursão com calma, para que não se perca nenhum detalhe da sordidez social explicitada aqui.

A personagem narradora transfere sua insuficiência para fora das páginas com tamanha eloquência, deixando na leitura uma sensação de desesperança constante. Qualquer escapismo do caos parece mero fingimento, como se a ruina fosse uma máxima inevitável para humanos inseridos naquele ambiente. O cenário rural precário, cujo clima opressivo em que a protagonista está inserida é quase palpável e, justamente por isso, desperta certa solidariedade no leitor. A menina não vive, mas, apenas sobrevive neste lugar de aviltamento da dignidade.

O olhar em primeira pessoa torna o conteúdo ainda mais enervante. Sem nenhuma análise sofisticada sobre tragédias resultantes dos regimes ditatoriais, aqui é somente o universo dos desassistidos a conjuntura que viabiliza o desconforto no leitor. É a maravilhosa mágica da arte literária de inserir-nos no terror existencial para nos fazer sentir exatamente as mesmas agonias que as pessoas que nele estão inseridas.

Alguns críticos dizem que este escopo caótico de Herta Muller possui particularidades semelhantes às de Samuel Beckett, porém, o escritor irlandês ainda não conseguiu me atar em sua literatura de modo tão irreparável quanto o fez Muller.

Além de Depressões, os demais contos são curtos e alguns mantém o mesmo aroma pútrido. Muitos parecem breves trechos retirados de algo maior, o que pode causar alguma confusão em leitores que apreciam objetividade linguística. Depressões é, de longe, o conto que sobressai os demais e aponta o lirismo estético que deu a autora o Nobel de literatura em 2009. E precisamente por ser este conto tão extraordinário que acabou ofuscando os demais.

DEPRESSÕES é um livro para se ler com sobriedade, imparcialidade e, acima de tudo, coragem. Um eco incômodo da tragédia humana que parece espreitar em algum canto, à espera do momento certo de nos dar o bote. Em tempos de extremismos aparentemente superados e que parecem ressurgir sutilmente em sociedades mundo afora, a literatura de Herta nos soa cada vez mais atual.

NOTA: 8

sábado, 3 de outubro de 2020

RESENHA DE LIVRO – MARINA


Eis aqui outro livro altamente aclamado, recomendado e lido, cujo conteúdo parece questionável, ou no mínimo, fugiu de minha compreensão. A experiência desta leitura me fez recordar alguns filmes confusos e indeterminados, que se repetem a exaustão nas sessões da tarde semanais.

MARINA se passa na Barcelona da década de 80; adolescente que vive num internato conhece, numa de suas fugidas para perambular através das artérias da cidade, uma garota aparentemente cheia de mistérios, que vive num casarão sorumbático com seu pai. Estabelecida a nova amizade, os dois são atraídos para acontecimentos que desencadeiam uma história, digamos, cheia de surpresas imprevistas.

Num primeiro momento, parece que estamos diante de um livro impactante, inusitado e bem escrito. A narrativa é aberta, mostrando o personagem principal sendo encontrado numa estação ferroviária, após dias de desaparecido. Óscar Drai parece confuso, desencontrado, alguém que acabou de escapar do inferno... Some a este início sedutor o fato de que o autor Carlos Ruiz Zafón carrega em seu currículo alguns títulos que o elevaram ao status de talento incontestável. Também temos uma capa belíssima e aforismos genéricos espalhados por diversos instantes da narrativa, cuja serventia é a de mera ornamentação.

Apesar de sustentar um texto limpo e acessível, o autor desenvolve a história optando por percorrer um caminho frívolo. Por exemplo, a condução narrativa se preocupa excessivamente com detalhes do cenário, tempo e lugar, deixando de lado os personagens que entram de cabeça numa aventura cheia de perigos sem a menor preocupação ou imersão reflexiva, como se eles fossem acostumados a colocar suas vidas em risco.

Por falar em personagens, estes também não servem como elementos para cativar o leitor. Óscar e Marina são pouco carismáticos e precisam demais dos aparentes mistérios que envolve suas vidas ou as consequências de decisões tomadas, para atrair algum interesse de nós. Talvez por conta dessa mesma narrativa excessivamente preocupada com o ambiente foi que se perdeu a essência de seus protagonistas. Estamos diante um livro de mistério, mas a leitura se torna maçante em diversos instantes.

Quando defronte aos perigos da aventura elaborada por Zafón, eis que algum personagem lança uma frase de efeito ou o subcapítulo se encerra dentro de um momento aparentemente crítico. Então, na página seguinte seguimos com a mesma receita de aforismos prontos e alguma expectativa pelo perigo eminente, quase sempre remetendo Óscar à mais um passo para desvendar o grandioso mistério, sendo que quase tudo é entregue facilmente, nenhum personagem secundário que surge para explicar algum ponto se mostra desconfiado ou receoso. Tudo é revelado automaticamente, deixando pairar uma sensação de urgência na condução narrativa. E a Marina do título também faz pouco, não possui peso na trama e surge no capítulo final para protagonizar um extenso e cansativo desfecho.

A grande maioria dos leitores manifestaram opiniões positivas sobre este livro pela internet, o que não é de causar estranheza. MARINA não chega a ser desprezível como leitura, busca manter-se alinhado ao mistério que, instigante ou não, deu-me a impressão de que o autor está convencido de ter entregado exatamente aquilo que prometeu.

MARINA é um livro infanto juvenil, pelo menos do meu ponto de vista. Não trouxe nada de inovador, seu personagem Óscar carrega o arquétipo de herói higienizado que atrapalha sua credibilidade e a Marina do título é incapaz até mesmo de justificar seu nome como destaque. Talvez mais do que a semelhança por um filminho previsível de uma tarde semanal, este livro tenha o viés de um autor apaixonado pela própria escrita.

NOTA: 4,2

sábado, 19 de setembro de 2020

CRÔNICA - O NÃO LUGAR DA ALEGRIA

Certa vez tive minha inveja atiçada ao assistir o depoimento de uma escritora renomada que relatava, com excessivo entusiasmo, sobre a melhor sensação do mundo que foi segurar seu primeiro livro em mãos. Disse que não importava se este havia sido publicado ou não, se era inovador ou repetitivo, se havia custado caro ou gerado despesas... Os meios não justificam os fins! De acordo com o testemunho daquela autora, segurar o primeiro livro era como receber um filho nos braços.

Aquele efusivo relato jamais deixou meus pensamentos. E com o orgulho atrofiado, imaginava-me segurando minha cria nos braços, com olhos rasos e a certeza de uma concepção finalmente concretizada, anos após anos de extenuante trabalho (quem escreve longos textos sabe do que estou falando). Ter meu livro finalmente entre meus dedos seria o ápice da alegria!

Pois eis que este futuro tão ansiado finalmente chegou em 2019.

Na capa da obra uma mão buscando alcançar a maçaneta. Mal sabia eu que seria a reprodução idêntica de minha própria mão quando avançou dedos embevecidos de encontro à obra recém-chegada, retirada da embalagem ordinária dos serviços postais. Era o primeiro encontro entre obreiro e sua obra, criador e criatura, pai e o aguardado filho...

Confesso que ainda não delirei desvairadamente ou derramei lágrimas. Reproduziu-se, pelo menos até o instante em que escrevo esta inofensiva confissão, apenas um enternecimento acanhado, típico da timidez, a costumeira impressão de que a “ficha ainda não caiu”. Mas na certeza de que, seja o que me espera o futuro sempre irrevelável, não importa... Meu filhote de celulose está ao alcance das mãos, descansando na estante que é seu berço. E eu estou imensamente satisfeito!

Psicólogos costumam dizer que o estado evolutivo de perda da ansiedade nos remete a uma condição de serenidade da mente, mas que é inevitável a perda da euforia em níveis iguais. Ou seja, quando se alcança um equilíbrio mental, tanto o desânimo quanto o entusiasmo deixam de existir. É como se o pêndulo emocional houvesse travado no centro do painel.

Vez ou outra minha esposa surge cheia de alegria para me contar uma boa notícia. E quase sempre percebo a queda de seu entusiasmo quando ela nota que não reproduzo a mesma empolgação. Mas é claro que me sinto bem com a boa nova, principalmente nos atuais tempos de trevas em que nossa sociedade brasileira vive. No entanto, sei que ela esperava um pouco mais de retorno, pelo mesmo motivo: se são trevas o que compõe o nosso meio, boas notícias deveriam ser amplamente saudadas para que vida se torne suportável.

Às vezes penso que de tanto trabalhar meu psicológico por medo de sofrer, acabei encontrando sofrimento no encontro com a coisa parada, morna. Efeito colateral da perda da aflição foi a inevitável queda da satisfação... Como se meu mundo houvesse se tornado nulo.

Sim, tudo isso soa como uma análise tola, afinal, existe tanta gente no mundo desesperada por encontrar uma cura para a ansiedade aparentemente indestrutível. Ou o oposto, que é gente que se emociona até em inauguração de supermercado. Meu ser parece ter conseguido encontrar o equilíbrio ideal que muita gente anseia e o faz por meio de medicação ou entorpecentes.

Pois este deveria ser conteúdo de regozijo por eu ter encontrado o núcleo do ciclone, enquanto a grande maioria continua descabelada e rodopiando ao meu redor... mas e quem disse que equilíbrio é o lugar onde está a alegria?

Felicidade é a maior quimera dos homens.

O prazer não deve estar nas coisas, nem em lugares, menos ainda em posições. Essa coisa inominável que nos faz querer que determinado instante, por ser tão gostoso, dure um pouco mais, talvez seja simplesmente um estado de espírito atento, que permanece vigilante à espera desses instantes escapadiços os quais achamos que a vida vale à pena ser vivida.

sábado, 5 de setembro de 2020

RESENHA DE LIVRO – A FORTALEZA DOS VENCIDOS


Nei Leandro de Castro
ficou conhecido pelo pseudônimo Neil de Castro, quando escrevia para o Pasquin, na década de sessenta. Embora tenha trilhado a literatura de poesia, foi como romancista que conheci seu trabalho. E dessa experiência, foi por muito pouco que vislumbrei estar diante de uma literatura genial, não fosse um único, porém, determinante equívoco...

Obviamente o internauta poderia expressar a seguinte questão: e quem este resenhista pensa que é, para se considerar definidor daquilo que é genial ou não? Em minha defesa eu preciso salientar que qualquer análise sobre qualquer coisa, carece da apreciação pessoal; a coragem de dizer o que se pensar de modo sincero e decoroso. Do contrário, uma crítica se tornaria meramente técnica, robótica. Aquele que se propõe a resenhar, seja por profissão ou lazer, precisa ter a hombridade de dissecar os aspectos do objeto analisado, para que o resultado final dessa empreitada seja o de informar sem ofender; relatar a experiência vivida sem humilhar ou depreciar o trabalho de ninguém... Sem isso, uma resenha serve meramente para ostentar erudição.

Considerei importante fazer essa ressalva, porque concluí neste A FORTALEZA DOS VENCIDOS um livro que só não foi brilhante por conta de um final imaterial e que, embora cabível pela trama, desagradou-me por sua discrepância de teor narrativo... O livro me perdeu nos instantes finais.

Aqui acompanhamos a história de dois personagens emblemáticos: Marionália e Esmeraldino representam com perfeição os dilemas sociais dos brasileiros de uma época conturbada, desde suas influências, personalidades e até mesmo seus nomes. O autor insere personagens tipicamente enraizados nos costumes desse povo, e tal inserção é comumente encontrado nos clássicos da literatura.

Perante as intempéries da vida, as duas personagens estabelecem um relacionamento conflituoso, cujo desfecho se deu em vidas que seguiram por caminhos opostos. E longe um do outro, Esmeraldino e Marionália nos contam, por meio de suas memórias, um pouco da existência que os condicionou à um casamento malogrado.

O que mais me impressionou ao longo de minha leitura, foi o modo visceral com que somos inseridos no universo caótico de Marionália, e poético de Esmeraldino. Ambos são personagens altamente interessantes de forma diferente: Marionália é escrachada, impetuosa e agressiva. Esmeraldino é engajado, terno e nostálgico. Os dois foram esculpidos sob a égide do erro e acerto, sofreram as agruras de uma sociedade complexa e indiferente com seus inseridos. E a empatia aqui é tão grande, que por todo o tempo conseguimos compreender a forma com que cada um deles age dentro de seu universo. O mundo transmuda sempre, muitas vezes de modo trágico e definitivo. Nei Leandro de Castro nos deixa o tempo todo muito perto dessa metamorfose em seus personagens, isso retira do leitor o julgamento equivocado, do mesmo modo em que nos faz pensar que poderíamos muito bem agirmos como Marionália ou Esmeraldino.

A linguagem do livro é deliciosa e fácil, por vários instantes nos deparamos com os trejeitos e costumes regionais nordestinos. Incomodou alguns momentos em que a narrativa não descansa, deixando algumas reflexões um pouco emboladas. Talvez faltasse alguns parágrafos, daqueles que convidam o leitor a uma pausa necessária para que se deixe fluir através do pensamento. Por se tratar de uma trama psicológica, acho que seria interessante um cuidado maior com as mensagens imersivas, para que elas não sequenciem de modo mesclado com partes meramente informais do texto.

 Bom, e o final da trama, que como disse no início da resenha, foi meio que verificar uma queda drástica do meu encanto pela leitura. Deparamo-nos com as consequências da loucura de um dos personagens, então entramos numa espécie de tribunal místico. Não é possível relatar muito sobre o que acontece para não estragar a leitura de ninguém, mas o livro perdeu seu encanto por escolher um caminho, digamos, desconexo com o segmento apresentado até aquele ponto. Foi como se a conclusão houvesse sido escrita por outro autor.

A FORTALEZA DOS VENCIDOS é um livro agradável, bem escrito, de personagens cativantes e que representam a existência imprevisível do ser humano. Teve uma conclusão que não gostei, mas talvez agrade a outros leitores... Enfim, vale à pena conhecer mais esta obra de nossa literatura.

NOTA: 7,4

sábado, 15 de agosto de 2020

RESENHA DE LIVRO - MENTIRAS NO DIVÃ


Sempre que um autor emplaca sucesso estrondoso, a publicidade garante que seus trabalhos posteriores ostentem a referência de tal glória no alto da capa, assim como expõe seu nome em letras gigantescas, que sobressaem o próprio título do livro, a ponto de confundir o consumidor desavisado, que não sabe qual é o nome daquele volume na prateleira. Sim, porque MENTIRAS NO DIVÃ significa muito pouco para o universo do marketing, mas Irvin D. Yalom já virou marca de sucesso há muito tempo, quando o cara lançou no mercado sua cria mais ilustre intitulada QUANDO NIETZSCHE CHOROU.

Portanto, na capa de MENTIRAS NO DIVÃ, o título parece insignificante e está bem abaixo o destacado nome do autor. E como represento esse leitor desleixado e completamente fora de moda, só tive conhecimento dos acertos milionários de Yalom quando meu exemplar deste livro aqui resenhado, já estava em minha prateleira... Sorte minha porque costumo desconfiar de autores que se tornaram “modinha”, e várias vezes essa desconfiança se confirma em ivro ruim. Se este aqui é mais um caso de ignorância que se mostrou como uma bênção, eu não saberia dizer. O fato é que MENTIRAS NO DIVÃ é um livro muito bom, embora caibam observações importantes... Vamos a elas:

A trama não tem nada de extraordinário ou inovador e o título já escancara o conteúdo: ficção que textualiza o universo das terapias e levanta questões sobre ética e a complexa natureza do ser humano. Aqui iremos ficar bem pertinho de três terapeutas e seus pacientes, num cenário reduzido que me fez pensar em peças teatrais onde um único ambiente é narrado: o consultório terapêutico. Basicamente é no cerne do divã o local onde se passarão as 448 páginas que o leitor terá pela frente.

Seymour Trotter representa o terapeuta veterano cuja sociedade lhe atirou todas as pedras por manter relações com uma paciente. Ernest Lash talvez seja a personagem que mais recebe atenção ao longo da trama, ainda em busca de confiança na profissão, ele será o pêndulo entre a moral e o profissionalismo dentro da narrativa. Por fim, temos o ambicioso Dr. Marshal, que justamente por sua natureza cobiçosa, se mete em problemas enormes, também diretamente ligados à moral e a ética.

Apesar de longo, o livro é bem escrito, repleto de detalhes, diálogos elaborados com o devido cuidado para que este tenha a fidelidade de um consultório; é fácil perceber que estamos diante de paciente e terapeuta. E exatamente por se tratar de um autor prolixo, o livro esbarra em instantes enfadonhos, quase desnecessários, mas é preciso perseverança na leitura, pois há momentos aqui que precisam ser narrados (embora talvez pudessem ser resumidos) para que se compreendam as motivações que movem determinada personagem.

A trama não é o forte da obra. Se você gosta de instantes reveladores, momentos de reviravoltas e confrontos narrativos, esqueça! Yalom fideliza o divã e fica dentro dele por quase toda a narrativa, demora-se para esmiuçar as motivações dos personagens e não parece interessado em fazer o leitor delirar. É um texto que requer uma dose de mansidão para encontrar seu brilho. A mim não incomoda esse tipo de literatura, embora confesse ter ficado com aquela “areia nos olhos” em alguns instantes.

 Outro aspecto que vale à pena ser mencionado é que o autor centraliza sua narrativa nas personagens; há aqui uma preocupação em detalhes pessoais, explicar o que se passa na mente de cada envolvido. Yalom quer nos apresentar seus protagonistas e não está muito preocupado em narrar cenários, tempo ou instantes... É outro ponto que aprecio bastante. O autor não fica dando voltas desnecessárias, o que é comum em narradores palavrosos. Mas justamente parece manter uma preocupação em distinguir pensamentos das personagens e nos fazer entender seu modo de pensar.

Também gostei do modo com que fui levado a odiar determinada personagem, para mais à frente me ver aprendendo a compreender suas motivações e até criei alguma empatia por ela.

MENTIRAS NO DIVÃ é um excelente livro, em especial para quem curte o universo das terapias. Exagera na construção da pessoalidade de seus personagens, mas exatamente isso que parece dar sono em leitores que curtem textos ágeis, é o elemento precioso para quem aprecia literatura centrada na complexidade da natureza humana.

NOTA: 7,3

sexta-feira, 31 de julho de 2020

CONTO: PRANTO SECRETO



Um choro forte. Era isso o que acontecia dentro daquele banheiro fechado... Sim, era intenso o choro, sofrido, de puberdade que teme demais todas as coisas, por incompreensão. No entanto, era um desespero mudo, o grito inaudível de tais lágrimas.

Desde muito cedo o menino, que chorava por desconhecer os modos como a vida funciona, já sabia como chorar sem emitir sons. A dor emersa, expressada na cara molhada de gotas salgadas, as têmporas vermelhas, riscadas de veias inchadas... E o grito saía da boca desesperada, mas sem emitir nenhum ruído; eis a habilidade extraordinária do silêncio, desenvolvida pelo menino que, por não saber como fazer para explicar tamanha dor, desenvolveu aquele choro quieto.

E após o interminável momento de urros comedidos, ele lavava o rosto na água fria da pia, respirava devagar até que a vermelhidão facial desaparecesse, abria a porta do banheiro e voltava para o quarto.

Era tarde da noite.

Alguém passou por ele, veloz e impaciente... A vez de o irmão usar o banheiro, que passou pelo menino, esbravejou pela demora e trancou a porta do tão ambicionado recinto. Carregava revistas em sua mão, cujo conteúdo transformaria completamente a função do banheiro: de antro do sofrimento para abrigo do prazer.

A casa reinava em silêncio. Talvez fosse o instante em que as coisas realmente aconteciam.

A mãe já havia se retirado. A porta do quarto, austera e fechada, parecia impor a restrição definitiva, assim como autorizava para que tanto os transgressores da concupiscência quanto os prantos secretos pudessem acontecer... A mãe costumava fazer muito isso, se retirar de tudo... Do mundo. Certamente não havia pranto porque ela não sabia fazê-lo em silêncio tão bem quanto o menino.

E aquele homem estranho, outra vez adormecido na cozinha, luz apagada, um prato de arroz com feijão sobre a mesa, frio e intocado... Aquele mesmo ronco, de fera desditosa, de outras noites.

De longe o menino observava a fera desfalecida e, igualmente ao cenário de sempre, o cheiro lhe era familiar... Cheiro de destilado azedo e mal digerido.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

RESENHA DE LIVRO – ANTES QUE OS ESPELHOS SE TORNEM OPACOS


Existem obras que são difíceis de serem classificadas. Não que essa necessidade seja inexorável, mas quando a proposta de seu espaço é fazer uma breve análise do livro, torna-se contributivo informar ao leitor o que ele encontrará através das pretendidas páginas.

Pois eis que estou diante de um trabalho que se encaixa precisamente dentro dessa problemática. Passei algum tempo vasculhando a internet até concluir que o autor, Juarez Guedes Cruz é um talento desconhecido do já minguado grupo de internautas leitores. Portanto, não encontrei ninguém que pudesse me auxiliar a respeito do que exatamente este ANTES QUE OS ESPELHOS SE TORNEM OPACOS quer tematizar.

A conclusão mais próxima que cheguei foi exatamente a mesma que a livraria onde o adquiri: a obra estava timidamente soterrada numa enorme prateleira de autores contistas. Acontece que caso eu assim o definisse, leitores familiarizados com Aluísio Azevedo ou Rubem Fonseca talvez discordassem, porque aqui há pouca similaridade com o gênero. A pegada aqui é mais suscetível aos estímulos sensoriais do que leitores de contos estão acostumados. Mesmo assim, a própria editora da obra precisa de um lugar comum, então o rotula como “contos Brasileiros”.

Mas deixemos a roupagem do livro de lado, e falemos um pouco de seu conteúdo:

ANTES QUE OS ESPELHOS SE TORNEM OPACOS é um livro de contos que conversa com o leitor de modo a fazer com que os espaços de reflexões aconteçam através do desprendimento de pontos de vista pessoais e da mistura de diferentes narrativas adquiridas ao longo de nossa experiência como leitores. É um redirecionamento sem direção, que talvez agrade leitores de Clarice Lispector (autora que também se arriscou pelo universo dos contos), como foi o meu caso.

E o que exatamente eu quero dizer com isso?

Significa que aqui estamos sim, diante de um livro de pequenos contos, de leitura fácil e progressiva, que difere um pouco sua essência contista ao elevar a imersão, tornando obrigatório uma pausa entre cada conto e, gradativamente, a coisa vai dialogando diretamente com o leitor dentro dos assuntos propostos. A velha necessidade humana de expressar sua subjetividade por meio da linguagem escrita, aqui é infalível.

Livro é pequeno, cento e dez páginas que podem, facilmente, serem devoradas numa única tarde, na companhia de uma xícara de chá ou uma taça de vinho. Ao término de cada conto surge, quase que de imediato, o silêncio necessário à reflexão (aconteceu comigo pelo menos uma meia dúzia de vezes).

O conteúdo é também charmoso, tem estilo próprio e faz pensar sobre coisas que não temos o hábito de nos preocuparmos. Não farei exposição sobre os referidos contos, porque eles são diferentes em aspectos e, obviamente, há os favoritos e outros que não impactam tanto... Ok, só para não parecer que estou sendo genérico eu deixo registrado meu apreço ao conto PROJETO PARMÊNIDES, uma deliciosa viagem em que acompanhamos as intempéries vividas pelo personagem narrador, que num futuro altamente científico, faz um clone da mulher amada no interminável anseio da necessidade humana em superar a morte.

ANTES QUE OS ESPELHOS SE TORNEM OPACOS é um livro singular, de contos que não se parecem contos e talvez não interesse aos leitores que buscam textos, digamos, mais objetivos. Mas acima de tudo, temos aqui um escancarado convite à reflexão verbal, textual, dimensional e sensível.

NOTA: 7

sexta-feira, 26 de junho de 2020

RESENHA DE LIVRO – A FACA DE DOIS GUMES


Primeiro trabalho que li do autor Fernando Sabino e o cara já havia conseguido raptar minha atenção em, sei lá, menos de dois parágrafos. O estilo do autor mescla simplicidade narrativa com a agilidade de relatos das personagens de um modo direto, fez-me constatar certa semelhança com um autor que gosto muito: o romancista americano Harlan Coben. E antes do término do primeiro subcapítulo, estava convencido de que diante de minha leitura pairava outro grande nome da nossa literatura.

A FACA DE DOIS GUMES reúne três contos em seu conteúdo, sendo o terceiro aquele que dá título à obra. O autor mescla em seus textos a problemática da violência cotidiana com aspectos imprevisíveis que são característicos do ser humano, como culpa e dúvida. O estilo coloquial nos aproxima da personagem; o fluxo narrativo instiga a virar mais uma página para se descobrir o que está acontecendo; as conclusões situacionais são pouco óbvias e suscitam autoanálise. Aqui as palavras não sugerem; elas apenas exibem situações de forma transparente e são correlatas ao sentimento que se desperta no leitor.

No primeiro conto (e meu favorito) intitulado O BOM LADRÃO, a narrativa é em primeira pessoa, onde a personagem compartilha seus momentos vividos ao lado de Isabel, uma mulher cujos comportamentos derrapam no senso ético e levam o protagonista a duvidar se a escolha daquela mulher para dividir a vida foi assertiva.

No segundo conto, MARTINI SECO, acompanhamos um caso de homicídio ocorrido num bar, em que o réu fora absolvido por falta de provas. A incerteza paira constante por toda a trama, deixando suspenso e a cargo do leitor, o trabalho de interpretar os fatos. Dos três, este me pareceu o conto mais absurdo e, talvez, o menos intenso.

Em A FACA DE DOIS GUMES, um advogado vivendo o auge do tédio matrimonial, descobre que sua esposa está lhe traindo. Sem saber ao certo como lidar com a situação, ele resolve arquitetar um plano para desmascarar a infidelidade do cônjuge, mas o ato irá desencadear sucessivos acontecimentos que irão validar o título da obra.

Fernando Sabino é extremamente eficiente em contar histórias e não constrói narrativas imersivas sobre seus personagens. Aqui estamos diante do situacionismo cru e direto, de cenário que aponta questões sociais de nossa contemporaneidade, mas deixa de lado a reflexão crítica dessas mesmas personagens. Deliberar ficou estritamente sob as dispensas do leitor.

Acho isso maravilhoso!

É possível identificar sentimentos característicos do ser humano, como já citei. Medo, raiva, dúvida, pessimismo, aspectos presentes na vida cotidiana espalham-se por toda a obra. No terceiro conto até encontramos certo fluxo de consciência por parte da personagem principal, Porém, mesmo aqui é como se a dinâmica do texto prevalecesse ante o discernimento da personagem, que no calor de reações impensadas, apenas segue os impulsos daquele momento.

A FACA DE DOIS GUMES é um livro sobre as mazelas da sociedade moderna, que oferece uma estrutura ágil e direta. Exibe textos enxutos e mecanicamente funcionais, cuja linguagem coloquial não permite que o interesse diminua. Há personagens interessantes e outros me pareceram um pouco aleatórios. Finais imprevisíveis e cheios de surpresas. É altamente atrativo para o leitor que deseja conhecer a nossa riquíssima literatura.

NOTA: 7,7

sábado, 6 de junho de 2020

CRÔNICAS: MÁSCARA – MANUAL DO USUÁRIO


Estacionado na fila do caixa, mantendo distanciamento estabelecido pelas normas legais, eu aguardava para pagar minhas compras de fim de semana. Supermercado lotado, somos uma gente empoleirada que em tempos de pandemia, faz do ato de fazer compras a única rota de entretenimento.

Ocasionalmente, olhei para o lado e avistei uma seção estrategicamente posicionada na lateral da fila, onde uma placa em letras reluzentes anunciava: “PROMOÇÃO DE MÁSCARAS”.

Seduzido que fiquei pelo anúncio a me oferecer mais um ótimo negócio, resgatei uma unidade e joguei no carrinho, sem nenhuma ponderação sobre este que se tornou objeto essencial de nossos dias. Afinal, o que há para se verificar numa máscara? Não existem grandes distinções entre elas! Máscaras são feitas para cobrir o rosto, inteira ou parcialmente, então basta que cumpram precisamente sua função e está tudo certo.

Contudo, dias depois quando minha nova aquisição se fez necessária, foi que eu descobri que máscaras não são padronizadas como eu imaginava. Elas possuem particularidades, tamanhos, cores, funções... A minha nova máscara, em específico, não havia elásticos para que eu a prendesse atrás das orelhas. No lugar, tiras de tecido que indicavam que eu deveria amarrá-la na cabeça...

Isso mesmo: amarrar!

Achei aquilo ultrajante! Onde foi parar a praticidade do elástico? O fabricante devia ter colocado instruções de uso (como se alguém lesse instruções de uso) para que o consumidor não fosse surpreendido por tiras no lugar do elástico. Agora eu teria que gastar vários minutos da minha vida ajeitando uma máscara analógica, dar o nó correto e não me esquecer de afrouxar um pouco para não morrer sufocado. Vi-me sentenciado a desenvolver a invejável paciência de um executivo, que em frente ao espelho, faz com zelo e cuidado o nó de sua gravata.

Sim, caros leitores, máscaras são adereços que estão se tornando cada vez mais necessários, mais sofisticados e pomposos. Nosso mercado sempre atento para as carências humanas é especialista na arte de variar. Depois do meu entrave com as tiras da minha nova máscara, passei a observar (porém, não tão de perto por medo de um famigerado vírus) as mais distintas máscaras que hoje tomaram conta de todos os espaços imagináveis.

Máscaras de variadas cores, tamanhos, gêneros, de composição variada, de estampas combinando com o estilo do cliente, com bordado de marcas famosas para aqueles que gostam de ostentar, transparentes para que não se perca a leitura labial, máscaras de tricô, e até com a opção do seu time do coração! Ah, e já estão chegando, para delírio coletivo, as invejáveis máscaras com aroma de frutas.

A máscara agora é você, cidadão brasileiro! Ela nos representa de tal forma, que atualmente estamos olhando para máscaras e comparando, fazendo avaliações mentais. Outro dia, passei por uma moça na rua e pensei comigo: puxa como ela ficou bem com aquela máscara. Minha esposa recebe ocasionalmente um catálogo variado de modelos e, vaidosa que é, passa horas experimentando para ver qual a que melhor combina com ela.

Recentemente uma vendedora, sabendo de minhas preferências musicais, ofereceu-me uma máscara de “caveirinhas”. Ela comentou, entendedora que era do mercado de máscaras, que aquele modelo era “a minha cara”. Também recebi anúncios lustrosos oferendo a mais inovadora das alternativas: máscaras 3D.

Mas que porra seria uma máscara 3D?

Diante dessa minha antiquada percepção da atualidade, uma colega do trabalho veio em meu socorro e explicou, em detalhes, o que era uma máscara 3D. Durante sua apresentação até tirou da bolsa a sua 3D, novinha, comprada naquela mesma semana.

Sim senhor! E a partir de agora nós, respeitáveis consumidores, respiramos, literalmente, nossas máscaras! Portanto, neste mundo de rostos semicobertos, escolhas serão feitas no uso das verificações adequadas aos tempos de rostos cobertos: você tem aquela com elástico? Quais são as opções de cores? Esse estilo combina com jeans? Você trabalha com modelos 3D? Eu queria daquela cavadinha para não ficar pegando no meu olho...

Mas não importa qual seja a sua preferência. Melhor fazer uso da mais cafona e desproporcional das máscaras, do que sair na rua de cara limpa à mercê de um certo corona.

domingo, 24 de maio de 2020

RESENHA DE LIVRO – O CONSTRUTOR DE PONTES


O poeta João Cabral de Melo Neto usava a gaveta de sua escrivaninha como se fosse uma espécie de cápsula, em que ele enterrava seus rascunhos para tirá-los, tempos depois, quando a releitura identificaria se aqueles eram bons poemas ou não. O escritor australiano Markus Zusak (autor do aclamado A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS) deixou seus leitores esperando um novo trabalho por trezes anos. Se esse foi o tempo de produção ou se rascunhos ficaram enterrados em gavetas por anos, não sabemos. O fato é que no ano de 2018 ele finalmente tirou de sua cápsula este aguardado O CONSTRUTOR DE PONTES.

Pessoalmente eu diria que não sustentei tanta expectativa assim quanto a novos projetos do autor (atualmente ando conhecendo muita coisa boa, aqui mesmo, em páginas tupiniquins), muito embora eu confesse que fiquei satisfeito ao ver este lançamento nas prateleiras. São poucos os escritores que posso dizer que gostei de todas as obras que nasceram de sua mente, e o “papai” da roubadora de livros é um deles.

Então vamos falar da obra:

O CONSTRUTOR DE PONTES conta a história de cinco irmãos cheios de peculiaridades e que vivem sozinhos num lar desolado e em desconstrução. Após o ressurgimento do patriarca que os abandonou, o quarto irmão, Clay, resolve atender um inusitado pedido do velho e parte em busca de uma empreitada que, de certa forma, transformará a vida de todos na família.

A trama aqui é narrada em primeira pessoa. O irmão mais velho, Matthew, sentado à mesa da cozinha, digita suas memórias e conta a história, que é focada no já mencionado quarto irmão. Clay é a figura central dos acontecimentos e o escopo narrativo se mantém nele, afinal, seu ato imprevisto de acatar o pedido do pai é como o punhal que reabre feridas mal cicatrizadas. No entanto, já surge aqui uma decisão do autor que considerei equivocada, mas pode não ser um problema para outros leitores... Eu explico:

Ocorre que a pessoalidade do narrador, por se tratar do irmão mais velho da família, parece ter resultado numa certa escassez de imparcialidade; Matthew é uma personagem que não cativa porque sua credibilidade esbarra no sentimentalismo, como se em vários momentos ele quisesse invocar comoção em lugares onde isso não existe. Outro entrave é que Matthew sustenta aspectos destrutivos semelhantes aos de seus irmãos e sua visão de mundo se torna limitada, porque ele é parte de um todo fragmentado, cuja crueza enfraquece a literalidade poética. Sei que parecem argumentos ranzinzas, mas diferente do que houve no livro passado, em que Markus Zusak acerta em cheio ao escolher a morte como sua narradora, aqui o contador da história se tornou vítima de seu próprio olhar equivocado.

Os cinco irmãos da família Dunbar também parecem terem sofrido certa redução de seu autor. De um modo geral, todos eles são grosseiros e selvagens em alguma medida, seja expondo seus modos rudimentares com agressividade ou com introversão, mas sempre agindo como se não soubessem o que fazer ou como fazer. Nenhum problema, afinal, incerteza é uma característica notória do ser humano. Contudo, para quem já conhece as demais obras de Markus Zusak, talvez note certa familiaridade entre outras personagens de sua bibliografia. Atrevo-me a dizer que com exceção de Ed Kenedy (do livro EU SOU O MENSAGEIRO), que é um sujeito pessimista, inerte e sensível, todos os demais protagonistas são parecidos em essência: eles são deslocados em seus universos, brutais quando não sabem como agir, vivem a efervescência da adolescência intransigente e quase sempre são hesitantes. Até Liesel Meminger (do livro A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS), mesmo sendo uma personagem feminina, também sustenta características semelhantes aos demais. Ou seja, a família Dunbar inserida aqui soa como mais do mesmo. É como ler os mesmos personagens em histórias diferentes.

O livro também é um pouco longo; há capítulos soltos aqui que considerei descartáveis e tornou alguns instantes enfadonhos. Muitas personagens para terem sua trajetória narrada também colaboraram para aumentar o tamanho. Mas como sempre digo: o tamanho do livro não é um problema, propriamente. Porém, é preciso ter cuidado para que o receio de cortar partes não torne a história cansativa. Pelo menos a diagramação é limpa e bem organizada, o que ajuda na hora de encarar longos textos.

Mas não são somente problemas estruturais que preenchem este livro:

A boa linguagem coloquial de Zusak continua afiada; é impressionante como este escritor consegue tornar seus diálogos tão fiéis às conversas entre pessoas reais. Trejeitos, manias, hesitação, irreverência, emoção, aspectos críveis se espalham por toda a narrativa.

Também é gostoso reencontrar as pausas em parágrafos curtos, às vezes de apenas uma linha, que se sucede em diversos momentos e nos ensina a vislumbrar intensidade na história em instantes fugazes. É como se o leitor fosse convidado a refletir sobre um momento ordinário e que passaria despercebido, mas que se tornou belo justamente porque nos foi mostrado em pouquíssimas palavras. São pequenos focos de cenário, quebrados para te mostrar um pedacinho de cada vez... Acho esse método altamente imersivo.

Tentando não cometer nenhum spoiler, vale ainda ressaltar que a ponte incutida no título da obra vai além da estrutura física; a ponte aqui funciona como uma metáfora. Porque pontes são, basicamente, conexões entre pontos distintos. Na obra de Zusak, a ponte funciona como a religação entre personagens cujas relações passadas resultaram em rompimentos. E o fato de a empreitada de Clay ser a reconstrução de uma ponte que se rompeu, deu-nos então a direção para a mensagem que a história queria apontar.

Sei que esta resenha ficou um pouco maior do que costumeiramente faço, mas é que considerei fundamental esmiuçar alguns pontos do livro para que se justifique meu parecer quanto a considerar este trabalho mediano.

O CONSTRUTOR DE PONTES é um livro sobre perdas, sobre descoberta de identidades e a inconstância do ser humano perante o ineditismo da vida. Usa em favor próprio uma peculiar narrativa sensível, mas derrapa ao propor um contador de história que não transmite credibilidade por insistir em tentar extrair ao menos uma lágrima do leitor.

NOTA: 7

sábado, 9 de maio de 2020

RESENHA DE LIVRO – A IMORTALIDADE


Considerei difícil classificar ou resenhar este livro, porque no instante em que sua trama causa determinada impressão, logo esta é desconstruída mais adiante. E isso não significa nenhum estorvo, mas sim, uma inusitada condução narrativa, que segundo as palavras do próprio Milan Kundera: “a única razão de um romance é dizer o que somente o romance pode dizer”.

Ao que parece, o autor se viu descontente com a adaptação de uma de suas obras mais aclamada, A Insustentável leveza do Ser. Sendo assim, Kundera quis desenvolver um livro que fosse nada menos que um texto impossível de ser adaptado.

A IMORTALIDADE é um livro um pouco complexo, mas não por ter uma linguagem difícil ou sofisticada, pelo contrário, Milan Kundera escreve de forma acessível. O problema é que o autor narra perspectivas distintas para mostrar um mesmo tema; esmiúça aspectos de diferentes personagens em tempos distintos inseridos na obra. Condensa tudo para chegar ao escopo que intitula a obra: a imortalidade que habita em cada um de nós.

A narrativa intromete-se pouco no que tange aproximar a pessoalidade do autor – que no caso aqui é também a personagem que narra a história, ou pelo menos houve a tentativa de confundir o leitor com tal sugestão – Milan Kundera simplesmente discorre sobre quem somos do ponto de vista situacional dentro da vida de cada um de seus narrados, deixando por conta do leitor qualquer forma de julgamento. Contudo, sacralizando a máxima desejante enraizada no ser humano desde que o mundo é mundo: o anseio de ser inesquecível.

Num universo atemporal, a trama divide seu espaço de importância entre diversas personagens; Agnes é a protagonista que desperta no autor a inspiração para a narrativa, um breve gesto e está criado o encanto que faz o criador querer contar uma história. Dispersando os universos, deparamo-nos com o famoso escritor Goethe envolto numa relação tempestuosa com a jovem e bela Bettina; temos Laura, a irmã de Agnes, mulher depressiva cuja mente vive desenvolvendo meios de tirar a própria vida; ainda há passagens em que acompanhamos a aparição de personagens ilustres como Beethoven, Napoleão Bonaparte e até diálogos entre o já citado Goethe e Ernest Hemingway.

O livro não é linear, seus capítulos pareceram-me independentes, não sendo necessário que sejam lidos na ordem em que estão inseridos. Os diálogos são caprichados e merecem o devido cuidado do leitor para frear em certos instantes. Do contrário, corre-se o risco de que seu conteúdo filosófico seja perdido.

Esse método de capítulos individuais e diversos personagens dividindo o espaço do livro pode ter seu lado bom no aspecto de discorrer determinado tema sob situações e ações distintas. No entanto, há o inevitável problema com algumas partes que são mais agradáveis do que outras, assim como podemos considerar personagens carismáticos e outros nem tanto. Quando nosso favorito desaparece por muito tempo das páginas, consequentemente o livro perde em prestígio.

 A IMORTALIDADE é um livro sofisticado como um todo. Incerto quanto ao público alvo, mas apreciadíssimo pela maioria das opiniões que encontrei pela internet, seja de leitores comuns ou de críticos literários. O tipo de obra que precisa de tempo para ser digerida, que carece releituras, de conteúdo inesgotável e acessível, mas que pode incomodar leitores desavisados que desconhecem o estilo singular de seu autor.

NOTA: 7,8

segunda-feira, 27 de abril de 2020

RESENHA DE LIVRO – HERANÇA DE MARIA


Certa feita, durante uma visita à minha querida mãe, ela me contou uma coisa que permaneceu suspensa em minha mente por toda a leitura que, posteriormente viria a fazer deste HERANÇA DE MARIA, obra de Domingos Pellegrini: mamãe disse que Maria era nome de mulher que sofre; que toda a Maria que pisou neste mundo, veio para sofrer.

Contudo, diferente da minha Maria, a Maria que intitula este comovente romance parece se orgulhar de seu nome, até nos momentos em que as coisas não foram como ela planejara. A Maria dentro dessas páginas engole seco, suspira fundo, e continua anunciando para todos os desafios que se apresentam diante de si: “Ou não sou Maria ou resolverei logo essa situação”.

Orgulhosa de seu nome a Maria narrada neste livro mostrou-me que essas mulheres Marias são seres comuns, embora distintas em sentimentos: a minha mãe Maria é humilde em reconhecer a dor incutida em seu registro; a Maria de Domingos é uma mulher austera e destemida, que sabe de seus limites e por isso os esconde com orgulho. Mas por fim, entende que é excepcional como todas as outras, ou do contrário, não seria Maria.

Este livro é, antes de qualquer outra definição, uma emocionante homenagem de um filho que amou e odiou sua mãe em diferentes etapas da vida. No entanto, independente do sentimento, aqui encontramos entre ficção e realidade, a história de uma mulher cuja presença audaciosa deixou marcas em sua alma para toda vida. Então, eis que ele, autor narrador, começa a contar a história de sua genitora voraz, agora irreparavelmente encamada, sob os cuidados de um filho que não sabe quanto tempo ela ainda vegetará daquela forma triste. Intercalando capítulos que vão ao passado de sua família e retornam ao presente, no quarto de casa, onde sua Maria espera pela providência divina.

O ponto mais alto da obra fica por conta da honestidade do autor que parece, de fato, relatar situações intensas de sua vida, de forma muito crua. A intimidade expressada aqui é tocante, profunda, mas não chega a suscitar comoção. Domingos Pellegrini parece externar lugares profundos de sua alma. Em momento algum ele economiza em descrever sua mãe, seja para criticar ou para enaltecer; nenhum dos extremos exerce função narrativa. O que encontramos aqui são apenas os fatos sendo expostos através das páginas da maneira mais crível possível.

Em termo de relato é um livro vigoroso, por isso a dúvida enorme dentro de minha percepção quanto ao que é fato e o que é ficção. Muito cru e essencial, parece colocar seus personagens como realmente foram, excluindo do leitor qualquer chance de suspeita, muito embora sempre haja elementos irreais adicionados por quem desenvolve literatura.

Dois pontos considerei como sendo ápices da beleza na trama: o capítulo em que nos é apresentada a história do canivete, e o capítulo sobre Olguinha que me emocionou bastante a ponto de me fazer ser grato por ter descoberto esse livro.

Talvez a obra incomode os leitores que não curtem esse tipo de narrativa prolixa, sem mocinhos ou vilões, mas altamente sensível e crua, que eleva a proximidade com o que existe de mais humano em nós. Alguns momentos em que são relatados os tempos de conflitos entre ditadura e grupos revolucionários podem incomodar os que não curtem política, mesmo que aqui tenhamos um olhar em primeira pessoa.

Em suma, pode ser que gerações mais jovens pouco se identifiquem com esta obra, embora isso não seja conclusivo. Mas as gerações intermediárias e as mais velhas, principalmente aquelas que tiveram uma Maria em suas vidas, certamente se sentirão representados e se emocionarão quando encontrarem similaridade com suas próprias vivências... Quem vive ou viveu perto de uma dessas incomparáveis Marias, vai saber exatamente do que estou falando.

NOTA: 8,1

quarta-feira, 15 de abril de 2020

RESENHA DE LIVRO – SÁBADOS INQUIETOS


Apesar de ser um homem que respira literatura, não foi através de um livro que conheci o escritor José Castello. Eu estava em casa assistindo a uma das muitas palestras que tanto aprecio sobre Clarice Lispector, ao reparar numa delas, um simplório senhor, com pernas cruzadas e olhar atento, que fazia comentários pertinentes e nos momentos certos, sinal inequívoco de lucidez. Era um dos mediadores. Dias depois voltei a ver o nome daquele senhor estampado na capa de um livro que encontrei por acaso num Sebo (é sempre por acaso que descubro boa literatura). Então, associei as possibilidades: um sujeito simpático, consciente e culto; uma seleção de crônicas de sua autoria... Deve se tratar de coisa boa.

Mas de que modo poderia eu resenhar o resenhista? Se após me deleitar com textos amplamente analíticos e charmosos, minhas palavras certamente sofrerão o inevitável efeito da comparação e, por consequência, a constatação de que sou um insípido leitor que se utiliza deste espaço de maneira irresponsável, afinal, falta-me o olhar aguçado e a sutileza crítica de um experiente exegeta como José Castello.

SÁBADOS INQUIETOS é uma coletânea das cem melhores crônicas de Castello, publicadas entre janeiro de 2007 e março de 2012 no jornal O Globo, aos sábados. E embora prefira se autodenominar como apenas um leitor comum, é evidente, já nos primeiros parágrafos de leitura, que estamos diante de um narrador sofisticado, analítico, mas ao mesmo tempo sensível; alguém que de fato esmiuçou cada obra examinada.

As crônicas são gostosas, cheias de referências do universo literário, recheadas de belas citações e aforismos de autores. Muitas vezes nos deparamos com elementos da vida do escritor alvo, curiosidades sobre sua vida ou sua obra, uma passagem interessante daquele livro criticado. Ou seja, José Castello é um engajado estudioso da literatura, o que torna a leitura de suas crônicas um exercício prazeroso. São textos indicativos que nos deixam com vontade de ler as obras referenciadas. Eu mesmo anotei pelo menos meia dúzia de obras que desconhecia, mas que minha vontade de ler fora despertada pela leitura deste amplo catálogo.

Para os leitores que não apreciam poesias, vale ressaltar que o autor é um confesso amante do gênero, portanto, grande parte das citações e autores incutidos em SÁBADOS INQUIETOS é acerca de nomes da poesia, consagrados ou não. Há diversos autores de prosa também, eu particularmente comungo da preferência de Castello por Clarice Lispector, mas é evidente que os escritores de poesias são amplamente mais citados nesta coletânea.

SÁBADOS INQUIETOS é um livro para se ler devagar, para que não se deixe perder as muitas referências charmosas e dicas preciosas. Vale muito como instrumento de pesquisa em diversidade literária, mas não somente, o livro destila seu charme o tempo inteiro, deixando um ar de leveza que distancia de outros trabalhos sistemáticos de críticos que odeiam ser enxergados como deveriam ser: os mais apaixonados e humildes leitores do universo dos livros.

NOTA: 7,7