sexta-feira, 28 de maio de 2021

RESENHA DE LIVRO – A MENINA DE CÁ

Passeando através da vastidão da literatura nacional, deparo-me com este agradável volume, cujo título parafraseia um conto de Guimarães Rosa. A Menina de Cá, compilação de contos do escritor e vencedor do prêmio Jabuti Carlos Nascimento Silva, é uma leitura que norteia o olhar feminino.

A singularidade narrativa do escopo feminino é intensa em quase todos os contos deste volume. Diversificados em essência, eles agradam em proporções distintas, o autor é muito bom em variar. Livros de contos, quando escritos por autores que detém visão multifacetada, faz com que a experiência da leitura seja um agradável passeio pelo imprevisível, o que pode não agradar os leitores mais conservadores e que curtem aquele escopo narrativo característico que lhes agrade.

Eu, particularmente, gosto de me deparar com o diferente, muito embora confesse que, inevitavelmente, isso torne o prazer da leitura oscilante, o que não significa que o livro seja pior do que aqueles que seguem uma única linha narrativa. No caso deste A MENINA DE CÁ, alguns contos me fizeram desacelerar (quem conhece minhas resenhas, sabe o que isso significa), outros perderam-me como leitor. No entanto, o conjunto da obra aqui é um livro de contos agradável, direto e lúcido.

Dois contos valem destaque, pois os considerei o ponto alto da coletânea: Contraponto no Samba, curiosamente um dos poucos textos cujo o olhar em terceira pessoa, permeia o personagem masculino, porém, segue com a força dominante proporcionada pela presença feminina; a personagem Leila desestrutura os intentos do namorado que arquiteta um plano para passar o feriado de carnaval longe da amada. O outro conto é o que dá nome ao livro; A Menina de Cá é uma deliciosa leitura que faz referência ao conto famoso de Guimarães Rosa.

Dois aspectos me incomodaram em alguns momentos: o autor segue uma narrativa que, apesar de polida, não consegue se desprender de certo viés higienizado que fez transparecer o receio de adentrar impressões mais críveis do ser humano. Outro probleminha, este menos perceptível, é que alguns contos pareciam textos fragmentados, onde algo do anterior me pareceu dar sequência ao próximo, como se eu estivesse lendo um livro que fora arrancado algumas páginas.

A MENINA DE CÁ é uma obra aprazível, de contos distintos e um autor que acertou em cheio em nos colocar perto de mulheres tão sedutoras. Derrapa um pouco na sobriedade linguística, mas isso não chega a prejudicar a leitura.

NOTA: 6,5

sábado, 22 de maio de 2021

RESENHA DE LIVRO – QUADRONDO

 

Coragem talvez seja o elemento essencial para que possamos desapegar de uma existência materialmente suprida, porém, sem sentido, para ingressarmos numa mudança radical, cujas transformações atinjam o cerne do ser humano, tornando sua vida cheia de significado e sentido.

Esse é o tema central deste trabalho discreto do ótimo escritor DOMINGOS PELLEGRINI: a coragem de mudar para encontrar importância. Nossa sociedade moderna doutrina seus inseridos num perigoso esquema de conquistas por status e coisas, numa engrenagem ininterrupta que afasta o ser humano daquilo que lhe é mais necessário: a autenticidade de sua natureza.

Sebastião Terra é um professor experiente e escritor promissor, devidamente inserido no universo acadêmico, mas que, apesar de a vida remar no sentido da prosperidade (pelo menos do ponto de vista social), ele se vê cada vez mais entediado com os horizontes alcançados e o universo que o cerca. Então, enche-se do elemento o qual mencionei nesta resenha: coragem, e parte para uma ilha remota, cuja população parece incrivelmente primitiva, para começar a vida do zero. E como ele redescobre essa vida!

Já no início dessa mudança, Sebastião encontra o amor, precisamente como tal sentimento nasce, de modo inesperado e pelo ser improvável, que instigará nosso protagonista a lidar com suas inflexões descabidas e se livrar de conceitos estabelecidos, caso queira gozar desse romance. O lugar também é o convite ao desenvolvimento como ser humano; da precariedade de uma comunidade a qual deseja fazer parte, Sebastião precisa arregaçar as mangas, colocar-se na condição de voluntário, sair de sua zona de conforto intelectual e teórica, para entrar na existência vivida de movimento, cujas ações é o que, de fato, realiza sua alma adormecida há tempos.

O livro é dividido em duas partes; a primeira nos mostra um pouco da vida do professor entediado; que demonstra o enfado e percebe a alienação coletiva de uma sociedade que lhe soa cada vez mais estranha. Divorciado, sem grande perspectiva, o personagem se enxerga apenas como mais um intelectual medíocre, cujo único propósito que o faz seguir em frente é uma teoria filosófica que é um misto de curiosidade e escarnio. Sebastião quer compreender sua teoria, contudo, ele conclui que no lugar onde está não conseguirá adquirir conteúdo.

A segunda parte conta a transformação; um mundo novo e tomado de desafios inéditos e primitivos, os quais o protagonista entra de cabeça, vai desatando os nós e, conforme avança, torna-se parte desse novo universo. O mais truncado deles é justamente o novo relacionamento afetivo, mas infelizmente achei que o autor explorou pouco esse aspecto.

A narração prolixa incomodou um pouco, principalmente no final. O personagem, que é quem nos conta a história, possui um ponto de vista documental demais e pouco imersivo. Há momentos em que se estende muito para contar algo simples ou desnecessário, e a conclusão da obra é um pouco cansativa, dadas as muitas voltas que a trama segue.

QUADRONDO é um livro simpático, que tem como potencial a narrativa, que é marca de seu criador, mas talvez pudesse ter enxugado alguns instantes enfadonhos. Caberia uma exploração um pouco maior dos sentimentos de seu personagem principal, porém, isso não chega a estragar a obra como entretenimento.

NOTA: 7,1

sábado, 17 de abril de 2021

CRÔNICA: SANIDADE COMO EXCEÇÃO

O Ministério da Saúde recomenda (Ministério da Saúde, o que é isso?): a dose ideal de harmonia diária consiste no ato de estabelecer uma boa conversa com alguma pessoa lúcida.

O problema que costumeiramente ocorre é que essa tal lucidez não é muito fácil de se encontrar atualmente e, em geral, ocorre das mais inusitadas formas. Portanto, nem sempre estamos com o radar atento para diferenciar diamante de bijuteria. Falta-nos lucidez?

Ao me deparar com um aviso de tentativa de entrega, procurei pelo agende dos Correios, cujo tradicional veículo amarelo se encontrava estacionado em frente ao escritório onde trabalho, de modo que mostrei a ele o comunicado deixado na caixa de correspondências. Foi um ato certeiro, pois minha encomenda ainda se encontrava em sua posse.

Por medidas de segurança o funcionário pediu documento de identificação e, perante a impossibilidade de verificar meu rosto parcialmente coberto pela máscara (nossa indispensável indumentária nesses tempos de pandemia), pediu que eu a tirasse para comparar com a foto no documento. Nenhum problema! Baixei o sufocante adereço e ele pode constatar que, de fato, eu era mesmo o sujeito na foto em sua mão.

– Sabe, tem gente que vira o bicho quando eu peço para retirar a máscara – comentou ele, enquanto me indicava o local onde deveria assinar. Recusar-se a retirar a máscara nestes tempos de negacionismo seria quase como um ato subversivo, mas obviamente não era essa a razão da zanga coletiva a qual o entregador se referia.

– Eu viraria o bicho, caso você entregasse minha encomenda para alguém que não fosse eu – redargui, quase que automaticamente, vendo a obviedade do ato – Por que todo esse receio das pessoas em cumprir normas de segurança?

– Sei lá... – disse ele, pensativo, e coçou seu queixo igualmente encoberto – Acho que o brasileiro não sabe lidar com a desconfiança, mesmo sabendo que somos um povo excessivamente desconfiado.

Meu interminável preconceito achou aquela resposta sofisticada demais para vir de um entregador de correspondências. Por sorte, o assunto era desconfiança, e eu sou o sujeito mais desconfiado de meus próprios conceitos, principalmente aqueles que são estabelecidos de modo automático..., afinal, pessoas lúcidas podem estar por toda parte e em qualquer lugar. Sabedoria não é coisa exclusiva de guru. Sabedoria é coisa de ser humano, e o ser humano é que nem barata: pode ser encontrado em todo canto.

– Talvez não seja uma questão de nacionalidade – falei, em defesas de nós, cismados brasileiros – Desconfiança faz parte da natureza humana.

– Só posso falar pelos brasileiros... – reforçou o entregador – e nós desconfiamos demais porque bem sabemos que quando não estamos sob forte vigilância, enfiamos os dois pés na jaca.

A metáfora da jaca me fez pensar sobre a última vez em que entrei de sola no fruto desprotegido. Não me ocorreu nenhuma lembrança terrível... Seria essa escassez de “aventura” a explicação para o meu tédio recente? Percebi que só de pensar em transgredir, meu corpo já sentiu aquele frio na barriga, típico de quem rompe sistemas em nome da individualidade. A gente vive a tanto tempo acorrentado que atualmente enfiar o pé na jaca já nem é por mero desejo pela fruta, mas a busca inerente pela fuga das amarras.

– Você costuma ser assim? – minha incapacidade argumentativa fez com que eu transferisse a pergunta para o entregador. Mas não cessava de repeti-la, mentalmente, a mim mesmo – Tipo, se comportar de forma imoral quando tem a chance?

– Muitas vezes... – respondeu ele, sem sequer corar o rosto ou refletir a respeito – Mas a questão não é essa.

– E qual seria?

– A pergunta é: Por que nós consideramos mais fácil conviver com a normatização da imoralidade?

Uau! Perguntas com o poder de despertar reflexão são raras. Eu teria salientado que ele está na profissão errada, ou ao menos convidado aquele sujeito intrigado com a natureza humana para um café, onde poderíamos seguir com aquela introspectiva prosa. Mas o cara parecia aflito com tantas entregas para fazer em curto prazo. Porém, antes deixar que escapasse, quis dar-lhe algo simplório, que não deixasse transparecer minha completa incapacidade em resolver o encalombado dilema:

– Farinha pouca, meu pirão primeiro... é o que todos dizem, certo?

– Pode ser... Só que tem gente por aí com o pirão prontinho e mesmo assim não abre mão de ser antiético em momento algum. Parece que esperteza virou sinônimo de força, enquanto honestidade é coisa de gente fraca.

O cara dos Correios foi embora com os braços abarrotados de caixas endereçadas. E eu permaneci ali, parado, ao lado do veículo amarelo, a mente também amarela e revirada, sustentando uma única certeza: a de que eu não fazia ideia da razão de sermos tão idiotas na convivência diária uns com os outros.

Seríamos todos essencialmente cruéis? É saudável viver nosso cotidiano sob a insígnia da competitividade continuada? O mundo está mais apertado ou nós estamos mais espaçosos? Confiança é um comportamento inadequado? Tornamo-nos elos inseparáveis de uma extensa corrente do mal?

O aclamado escritor americano Mark Twain lança ainda mais incerteza sobre esse assunto. Ele diz: “De que adianta aprender a fazer o certo, quando é problemático fazer o certo, não é difícil fazer o errado, e o salário é o mesmo?”.

Apesar de parecer insinuar por meio de uma questão, o escritor sugere que pensemos sobre a problemática situacional, que a nós parece óbvio: somos constantemente tentados a fazer algo errado em benefício próprio. Principalmente após aquela breve análise mental, cujo veredito quase sempre define como inofensivo e irrelevante, nosso ato transgressor. E assim, seguimos com esse ciclo vicioso de ruir com a convivência social, discretamente e aos poucos, como fazem os vírus nocivos ao invadir um novo hospedeiro.

Às vezes penso exatamente igual a antropóloga Lilia Schwarcz: sou pessimista no atacado e otimista no varejo. E na contra mão da inevitável descrença no ser humano, desconfio de que a imoralidade, embora desproporcional, é mais barulhenta do que extensa, portanto, soa como presença constante. Já a gentileza é tímida e sutil; de circunstâncias difundidas e, por isso, quase imperceptível. O gentil não fala de sua gentileza, enquanto o canalha adora narrar suas transgressões e geralmente recebe aplausos por elas.

Mas se trata de apenas dúvidas intermináveis, que talvez amanhã eu tenha sorte de encontra outra dose de lucidez que me ajude a pensar sobre a complexidade da vida... Afinal, tem gente incrível por aí, perdidos no meio do caos, entregando nossa correspondência, dirigindo carros, enfurnados em escritórios fóbicos, limpando a sujeira coletiva, se divertindo em bares, escrevendo alguma bobagem, fazendo cálculos complexos, caminhando pelo calçadão, cuidando de algo ou de alguém... A boa e velha magia do ineditismo do mundo.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

RESENHA DE LIVRO – SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO

 

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.

Essa frase de George Santayana, deveria soar para a nação brasileira como um alerta para o que está acontecendo em nosso país, e talvez sobre a égide desse prenúncio agourento, não permitirmos que lideranças populistas tentem reinventar o passado do Brasil, transformando atos hediondos, irresponsáveis e traumáticos de nossa história em razoabilidade patriótica. Apossar-se da memória de um povo é submeter este mesmo povo à um eterno retorno de desgraças.

A grande premissa por trás dessa excelente obra da antropóloga Lilia Schwarcz, é trazer à tona temas aparentemente escondidos ou disfarçados da sociedade brasileira, justamente para que o público leigo reflita sobre nossos problemas com o enfoque no cerne da enfermidade, sem se deixar seduzir por caminhos fáceis e soluções milagrosas. A autora aqui nos convida a uma verdadeira terapia social.

Não me excluo desse meio que precisa desenvolver melhor o pensar e, portanto, antecipei a leitura desse livro por conta do atual momento em que estamos vivendo; um cenário onde a sociedade brasileira parece fadada a um futuro desesperançoso. SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO é uma obra pra ser lida agora, por todos nós, quase em caráter de urgência.

Sim, precisamente o livro é premente, pois sua premissa é tentar explicar, de um modo introdutório, quais foram as mazelas que resultaram na ascensão dessa nova direita extremamente autoritária e populista. Mas então seria o autoritarismo, incutido no título da obra, algo exclusivo de uma parcela de nossa sociedade? Em outras palavras, o viés extremista é aspecto exclusivo desse pensamento direitista?

É o que Lilia Schwarcz através de uma linguagem simples e acessível procura nos mostrar: o autoritarismo brasileiro não é elemento de determinado grupo, ou de meia dúzia de pessoas sem caráter. Não. O autoritarismo é resultado de um país que ainda se sustenta em bases apodrecidas dos tempos de colonialismo, onde imperava um sistema latifundiário patriarcal, escravocrata e misógino, onde a figura central, que alimenta e carece da continuidade expressiva de desigualdade social, era e ainda é a figura do “mito”, do salvador da pátria.

A concentração de poder, dentro da instância pública, tornou nosso sistema político inchado, refém de um clientelismo quase que inerente e que nunca deixou de existir. Os entraves desse “jeitinho brasileiro” de ser, é apenas uma das muitas práticas que se repetem ainda em tempos atuais, de um povo que ainda sofre as consequências de um sistema escravocrata, cuja estrutura latifundiária expansiva reduz à um punhado as riquezas da nação.  

É um livro, sobretudo, que trata da permanência do nosso passado. Somos um povo explicitamente movidos pelo ressentimento por termos sidos colonizados, de termos mandonismos localizados, nossos governantes são formados ainda por coronelismo, ou seja, famílias que eram donas do poder nos tempos de Brasil colônia e a coisa parece seguir do mesmo modo; somos regidos por um sentimento patriarcal que nos soa normativo, mas que nos induz a acreditar em heróis de terno e gravata.

Alguns livros precisam ser indicados, não pelo mero prazer da leitura (aliás, muitos são laboriosos), mas pela obrigação que temos de elevar o conhecimento em prol de um mundo melhor. SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO é esse modelo de livro, pois me parece um tapa na cara de nossa hipocrisia. Chega de empurrar para debaixo do tapete a nossa sujeira de cinco séculos! Não dá mais para continuar ignorando este modelo de democracia dissimulada, cuja sordidez está tão enraizada, que consequências ainda mais graves estarão a nos esperar, se não abrirmos de uma vez nossos olhos turvos.

NOTA: 8

sábado, 27 de março de 2021

CRÔNICA: AMPULHETA

O café esfriou na caneca.

Café frio costuma ser indício de produtividade, pois quando se está focado no trabalho, a gente se esquece de degustar a preciosa bebida, enquanto ainda está quente. Mas a verdade não é exatamente essa. A produtividade é zero e eu apenas observo a tela do computador...

Outra vez vou até a cozinha e me desfaço do café no ralo da pia. Sirvo-me de um pouco mais da garrafa, que desce quentinho e esfumaçado. De volta para o escritório, pois tenho muito trabalho a fazer. Meus pés descalços atravessam o corredor, posso sentir o frio do piso que me faz imaginar o dono de quiosque num litoral paradisíaco do Nordeste. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra, você deve estar pensando. Eu explico: é que igualmente a mim, o dono do quiosque também ostenta o privilégio de poder trabalhar descalço. E acredite no que digo: isso é a coisa mais deliciosa do mundo! Pés libertos da mordaça do couro, recebendo constante frescor do mármore ou a massagem da areia morna, é sofisticação pela qual o resto da humanidade que não faz parte desse restrito grupo, anseia e trabalha incessantemente para conseguir alguns dias assim: descalço sobre o mármore ou a areia.

Contudo, sei que não é prudente associar situações favoráveis à um labor invejável; com a expansão da comunicação entre povos do mundo inteiro, sei que está cheio de relatos de gente que se considera infeliz, mesmo tendo a carteira registrada no paraíso.

Ouvi dizer que primeiro se é feliz para depois ter sucesso. Mas o que ocorre no imaginário das pessoas é precisamente o contrário.

Outro dia li o relato de um morador do Hawaii que dizia que sua vida era um inferno. Ele era corretor de imóveis, trabalhava quatorze horas por dia, havia perdido a infância dos filhos, divorciado, precisava atender clientes até nos finais de semana e, por mais bizarro que pudesse parecer, o cara não pisava numa praia há mais de oito anos.

Testemunho semelhante foi o de um sujeito que queria morrer quando ouvia alguém o acusar de ter o melhor emprego do mundo. As pessoas costumam fazer muito isso: suscitar o remorso nos indivíduos inseridos naquilo que consideram como os melhores postos do mercado... Enfim, o cara era massagista, passava mais de quinze horas do seu dia passeando com os dedos besuntados de géis e óleos aromáticos, nos mais diferentes e apetecíveis corpos femininos. E o infeliz dizia que não aguentava mais isso; que seus braços viviam cheios de câimbras, os pulsos doíam ininterruptamente, ele não tinha tempo nem para almoçar, tamanho era a procura pelos seus serviços... Ou seja, suas clientes estavam sob seus cuidados para relaxar e aliviar as tensões. Ninguém procura um massagista para fazer sexo! “Trepar com o massagista é coisa de filme pornográfico de gosto duvidoso”, desabafava o indignado trabalhador... Aliás, sobre sexo, ele ainda alegou que não sabia o que era isso há quase um ano.

De volta ao computador, eu continuo a pensar no emprego dos outros, mas não tenho o disparate de invejar ninguém. Também não me atrevo a dizer que o meu trabalho é o melhor do mundo, embora este me possibilite alguns privilégios, como ficar descalço.

Diante de mim, o eterno anseio humano por controle me faz lembrar da hora.

Ao lado da tela vejo a areia terminar de escorrer. Três horas haviam se passado sem que eu conseguisse escrever sequer uma linha. Seguro o pequeno invólucro de vidro e o viro de ponta-cabeça. Mais três horas de areia escorrerão preguiçosamente e me farão confirmar a vida rendendo-se à procrastinação.

Estalos os nós dos dedos, torço o pescoço e este também estala. Encho os pulmões de ar e uma formiga passeia sobre o teclado. Inacreditável como toda forma de existência consegue roubar minha atenção... Eu espero até que a transeunte termine sua jornada através de letras, então os dedos tocam as teclas, acho que agora conseguirei produzir alguma coisa.

É quando ouço os badalos do sino da igreja.

Onze estocadas e cada uma delas compõem uma orquestra acusatória... Pra-zo! Pra-zo! Pra-zo! Estou praticamente no fim da manhã e não houve progresso nenhum de minha parte. Areia escorrendo, sino tocando... E conforme a ressonância do sino diminui, o ventilador de teto, com suas pás indolentes, volta a ser a frequência absoluta no recinto... Não vai rolar nada, eu sei que não!

Pego a caneca de café e vou pra janela.

Céu claro, muito sol e pouca sombra. Do outro lado da rua há um terreno baldio, onde um homem mal encarado despeja entulhos com um carrinho de mão. Menos de um ano e ali era apenas uma extensão quadrangular tomada por mato rasteiro e alguns pés de mamona. Então, num belo dia, alguém teve a ideia de se desfazer de algumas sobras de materiais de construção, porque sairia mais barato se livrar do problema num terreno baldio do que contratando o serviço de coleta de entulho. Passado alguns dias e outro cidadão resolveu fazer o mesmo, afinal, se o vizinho pode, ele também pode; e depois um serralheiro concluiu que ninguém iria notar se ele desfizesse do amontoado de pó de serra que se acumulava em sua oficina, e também uma dona de casa que não sabia mais o que fazer com o fogão velho... Atualmente a prefeitura precisa mandar, quando o acúmulo da imundice alcança proporções vexaminosas, um trator e uma caçamba pra limpar o terreno... Porque o ser humano é assim: precisa apenas que alguém inicie a imoralidade que já existe dentro de sua natureza e, desse modo, fica justificada a execução do ato imoral de todos.

No centro da gigantesca pilha de lixo, há um mastro imponente e tão enraizado ao cenário, que se tornara completamente ignorado por todos. Na ponta do mastro a placa feita de papelão com os dizeres “proibido jogar lixo”, servia de poleiro para os únicos visitantes que pareciam se divertir naquele lugar: urubus que vez ou outra apareciam para reivindicar algum ensopado que ficou tempo demais fora da geladeira ou alguma criação que, desmerecedora de um funeral adequado, tinha seus restos descartados no terreno baldio.

O homem do carrinho de mão deu meia volta e, enquanto retornava ao ponto de origem dos entulhos, olhou-me com o orgulho de um genuíno cidadão de bem, pagador de impostos e exemplo de boa conduta. Cumprimentou-me e seguiu seu caminho cantarolando alguma canção sertaneja.

Às vezes suspeito de que o mundo é apenas o que a visão alcança. Como se eu fosse um expectador de teatro, no qual a vida acontece enquanto algo está no palco. Quando os atores saem de cena, eles são devolvidos para dentro de uma caixa cheia de outros personagens, objetos e cenários. Então o diretor de cena escolhe outro boneco para entrar no palco, porque o show não pode parar...

Mas quem seria esse diretor de cena? Um alienígena super dotado? Seria Deus? Por que ele insiste com essa arte dramática e sonolenta, onde nada relatável acontece? Definitivamente, o mundo é um lugar muito mais ordinário do que a imaginação humana gostaria que fosse.

Caneca vazia, minhas pernas reclamam, pois se cansaram de sustentar meu tronco obeso. Viro-me e olho para dentro do quarto. Lá está a areia que escorre sem cessar. Metade do vidro e eu a ignoro completamente. Cotovelos! Escorados, sustentam parte do meu peso e colaboram com as pernas cansadas. Quero ficar mais um pouco assistindo o teatro da vida.

Percebo que mais alguém acompanha a frivolidade mundana. Minha vizinha, Judite, parecendo ainda mais entediada do que eu, cotovelos igualmente apoiados no parapeito, ela fuma um cigarro e espera para ver o que o diretor de cena vai fazer agora. Então entra no próximo ato um cachorro magro de doença, verificando cada canto do terreno baldio com seu focinho hiperativo. Seu faro infalível o conduz até algumas sacolas, as quais ele rasga e retira restos de alimentos e os engole com fúria... Antes de seguir caminho, ele se encurva, bem no centro do palco e capricha numa cagada bege e cremosa.

Judite amassa a guimba no parapeito e desaparece da janela. Testemunhar um cachorro resolvendo suas necessidades fisiológicas foi demais pra ela. De fato, o diretor de cena parece ter um péssimo gosto para artes. Ou isso, ou a coisa é surpreendentemente orgânica que até Judite considerou fazer um cocozinho.

Ela é mãe de duas meninas adolescentes. Trabalha fazendo faxina para sustentar a casa e vende salgado frito nos fins de semana para complementar o orçamento. Cada uma das gurias é filha de um sujeito diferente. Ambos foram embora e, ao que parece, Judite se cansou de procurar por um companheiro e pendurou a chuteira... Eu nunca vi nenhum dos cabras, só escuto os resmungos da Judite quando ela está a varrer a calçada e coincide com minha tarefa de pendurar as roupas no varal.

Teve uma vez em que ela me convidou para o aniversário de uma das meninas, acho que foi a mais nova. Era festinha de treze anos, a casa ficou empesteada de moleques, teve bolo, refrigerante e os salgados fritos que a Judite faz... Eu e ela éramos os únicos adultos a nos refugiar na cozinha, tomando vodca com Coca-Cola, escorados na lateral da pia encardida.

Entre uma conversa e outra, Judite perguntou se eu gostaria de levá-la à um motel. Minha expressão de surpresa fez com que ela providenciasse uma explicação: disse que ali na casa dela não dava pra fazer amor por causa das filhas.

Achei o convite inesperado e fiquei sem reação. Não estávamos altos, pelo menos eu não estava e percebi que ela beberica vagarosamente. À menos que estivesse bebendo antes do início da festa, Judite não estava de fogo. Também nunca tinha cantado minha vizinha nem nada, sequer falávamos sobre assuntos íntimos, o respeito era tão acentuado em nossas interações, que mais se parecia com uma conversa entre um eunuco e uma assexuada.

Sorvi um pouco mais do meu copo, não sabendo pra onde olhar, mas me ensinaram que nessas horas jamais se deve olhar para o chão, porque é sinal de clausura. Então eu olhava para todos os lados e pra cima, procurando me situar no imediatismo da situação... Terminei dizendo que toparia, mais por não saber o que responder do que entusiasmo.

Outro aspecto curioso é que não havia nenhuma sensualidade no clima, ali naquela cozinha cheia de vasilhas sujas, cheiro de banha queimada, glacê e anilina. Apenas dois adultos diante de uma trivialidade descabida: o sexo é um elemento quebradiço que precisa ser conduzido de modo concupiscente desde sua proposta até o ato final, tudo em nome do prazer. Mas quando levei essa ideia para um papo de bar com um colega, ele não hesitou em dizer que sexo é algo superestimado pelas pessoas.

Talvez meu colega e Judite pensem de maneira semelhante: por que gastar tempo e sofisticação em algo cuja obviedade parece soar mais eficiente? Se há duas pessoas solteiras, avizinhadas pela circunstância, nada mais natural que elas façam sexo; tão natural quanto macacos bonobos que dividem a mesma árvore.

Finalmente olhei para Judite e, pela primeira vez, tentei enxergar em sua existência, aquilo que jamais houvera me ocorrido: algo a ser desejado, embora eu imaginasse que isso também não fizesse muita diferença, dado o pragmatismo do convite feito há pouco.

Mas era necessário, pois há muito tempo que eu perdera a confiança numa ereção garantida.

Assim como eu, o tempo havia exigido muito dela; um cansaço intenso em seus modos, rugas por toda parte de sua epiderme oleosa, a flacidez cujas vestimentas folgadas já não conseguiam esconder. Judite sempre olhava através de meia pálpebra e quase não sorria, talvez pela consciência de seus dentes amarelados por conta dos longos anos como fumante ativa..., mas talvez o segredo para seguir com essa concepção orgânica de vida estivesse naquele seu jeito de olhar o mundo pela metade. Do contrário, Judite notaria a protuberância de meu abdômen, ou o enfado nas minhas feições. Se abrisse mais os olhos, veria minha barba mal feita e a verruga roxa no pescoço. Uma análise mais apurada de minha pessoa, faria com que notasse a sudorese excessiva, o sedentarismo progressivo e concluiria que um motel comigo seria uma péssima ideia.

Pode ser que ainda mais sugestivo do que a coincidência de dois vizinhos solteiros, seja a precariedade evidente nestes mesmos solteiros; seres que já não cabem na fantasia libidinosa de ninguém, então se identificam em sua escassez e fazem sexo por mera conveniência.

Lá fora o show da vida seguia com sua exibição enfadonha, uma criança corria com uma pipa, tentando fazer o objeto levantar voo. A caneca vazia e as pernas doloridas me convenceram a voltar ao computador. Outra vez os badalos de sino... Pra-zo!, pra-zo!

A areia escorrendo pelo funil do vidro, ritmada pelo sino ao longe, parecia descer com mais vigor agora, como se minha percepção do tempo anunciasse o que espera a todos nós: a finitude! E essa noção faz com que a areia escoe mais rápido.

Ampulheta deve ter sido a primeira pretensão humana de quantificar o tempo.

domingo, 7 de março de 2021

LIVRO GRÁTIS – A COLETORA DE LÁGRIMAS

Caroline Passim Krushev é o arquétipo de mulher realizada. Casou-se com um advogado bem sucedido, tem um filho lindo e saudável, mora em cobertura de frente para o mar de Camburí, no Espírito Santo. A vida de causar inveja em qualquer indivíduo que almeje ascender na sociedade de consumo a qual estamos inseridos.

Ou seja, o que faltaria na vida desta mulher que conseguiu alçar o topo capitalista sem grandes esforços? Talvez essa pergunta seja respondida a cada página virada deste imprevisível “A COLETORA DE LÁGRIMAS”; a amarga noção de que para pessoas inseridas num mundo de consumos e aparências, lhes falte significado existencial.

Consciente desta precariedade, Caroline vive seus dias enfadonhos procurando empregos online ou indo a entrevistas. Cismou que a obtenção de um trabalho digno lhe proporcionaria vigor; ela queria ser alguém que tivesse o mínimo de importância. No entanto, o marido é inflexível contra a ideia de a esposa trabalhar e sempre usa argumentos pragmáticos que a convençam a desistir de um emprego. Caroline então segue seus dias de princesa moderna, confinada num apartamento sofisticado, esperando que o dia termine, para que ela possa morrer mais um pouco no dia seguinte.

Mas a vida é uma incógnita e costuma sacudir criaturas adormecidas quando menos se espera. É o que acontece com a protagonista, quando recebe uma mensagem anônima pelo correio. Sua vida muda completamente assim que ela consegue traduzir o conteúdo cifrado da mensagem. E o que era aparentemente inofensivo, se mostra um ardiloso presságio de morte: a mensagem deu a moça os precisos dados de quando e onde um acidente fatal aconteceria.

Era apenas a primeira de muitas outras mensagens que seriam entregues à receosa moça, que não sabe exatamente o que fazer com os prenúncios de morte que não cessam de chegar até ela. Só que mesmo assustada e insegura, Caroline, aos poucos, tenta avisar a cada um dos indivíduos enunciados para morrer, o que lhes espera.

Mas o destino é também um lugar incontrolável e arenoso. E conforme Caroline tenta ir ao encontro de pessoas marcadas para morrer, descobre que não consegue ter nenhum domínio das mais distintas situações: como quando é confundida com a amante de um advogado marcado pela mensagem; ou quando encontra uma noiva desenganada e tem-se início um jogo delicado de tentar penetrar em sua mente esmorecida; quando ela vai à busca de uma mulher que inesperadamente parece saber quem ela é..., ou quando um presidiário moribundo começa a lhe relatar o que realmente significa ser uma Coletora de Lágrimas.

Neste ínterim, Caroline vive situações complicadas que lhe fazem compreender que nada funciona como ela espera que vá acontecer; que a hora da morte está em seu conhecimento, mas isso parece, cada vez mais, uma informação irrelevante. Ao mesmo tempo, tal situação suscita o ego na moça, que ironicamente passa a ver o vazio aparentemente invencível de seu ser, sendo escoado pela nova função de levar a mensagem da morte para aqueles que estão assinalados pelo destino.

Caroline se vê dividida. Sabe que a realidade é bem diferente do que acontece em ficções premonitórias, onde mortes espetaculares acontecem sob o olhar do mensageiro e pessoas que irão morrer aceitam de bom grado a notícia funesta que lhes é dada.

Não. Aqui não há lugar para previsibilidades; Caroline encontra, o tempo inteiro, pessoas entediadas com suas rotinas e que obviamente não sabem que irão morrer, cujas situações banais vão se intercalando com a vida de nossa heroína, até o derradeiro desfecho que nada terá de extraordinário. Apenas se trata da finitude que nos acompanha diariamente.

A história é narrada em primeira pessoa, com exceção de pequenas introduções que abrem cada capítulo na terceira pessoa; prefácios em que acompanhamos a visita de Caroline a um presidiário. E o que deveria ser apenas mais uma mensagem da morte a ser entregue, se transforma num diálogo revelador entre Caroline e o preso... Até uma última e impactante confidência, que deixará Caroline em frangalhos.

O autor mostra nesta trama que aqui não há espaço para grandes heróis; tipos que se dotam de conhecimento resoluto assim que algo extraordinário ocorre... Não, nesta obra, apenas a dúvida é o que acomete a personagem. E quando um pouco diferente, ela se vê envaidecida por ser detentora de informações que sequer consegue controlar. E mesmo sendo ajudada por sua vizinha – uma jovem irreverente e descolada, que com todo seu alto estima, tenta colaborar com Caroline – ela se vê incapaz de usar de maneira benéfica, as informações que detém.

A COLETORA DE LÁGRIMAS é uma trama caquética, mas contada de forma moderna.  Com uma condução textual que traz para o leitor a sensação de insegurança constante, em que nada é o que parece ser quando se lida com algo tão obscuro e pernicioso, como a hora da morte da cada ser vivo.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

RESENHA DE LIVRO – TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE

 


Primeiro trabalho que li da escritora Fernanda Young e não, eu não resolvi conhecer a autora após ser atraído pelos noticiários de sua morte. O fato é que já havia lido alguns textos dela em sites, assim como apreciei algumas de suas colocações, um tanto destemidas, que ela dava em entrevistas. Há anos sustentava curiosidade em vasculhar a literatura da Fernanda, mas devido a tantos outros autores que também anseio conhecer, acabava deixando a moça em segundo plano. Pois minha chance veio quando adquiri este TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE, o qual eu não sei se foi a melhor porta de entrada para o universo da autora, mas o retirei da prateleira, seduzido que fiquei pelo título sugestivo.

Que me perdoem os amantes dessa obra e de sua criadora, mas aviso, de antemão, para que relevem esta resenha, pois não gostei do livro e vou tentar analisar da forma mais imparcial possível.

Aqui não há nada surpreendente no enredo: mulher de meia idade, cuja poeira do passado conturbado parece não ter baixado, pelo menos dentro de sua mente, resolve contar sua história para o pai moribundo. A personagem narra tudo aquilo que o genitor, aparentemente, não sabia, ou é apenas isso que ela ameaça invocar o tempo inteiro... E se ao longo do relato houve algo incrivelmente confessional, sinceramente esta informação me passou despercebida.

A narrativa em primeira pessoa é fundamento de pessoalidade, o que na boca de uma personagem complexa, cuja análise de si é dotada de noção perspicaz sobre a própria existência, certamente nos convida a uma leitura inesquecível, como bem souberam fazer autores como Clarice Lispector, Hermann Hesse, Herta Muller e Dulce Maria Cardoso. Contudo, aqui estamos diante do relato de uma mulher ressentida, que embora se descreva como alguém experiente e que aprendeu muito sobre a vida, trata-se de mera autoafirmação; seu colóquio soa como o de uma adolescente desagradável que considera o mundo um lugar horrível porque o todinho que recebia todas as manhãs, um dia estava frio: a personagem é superficial e previsível, dá muitas voltas e não sai do mesmo lugar; um rancor inesgotável por razões questionáveis, (sem fazer julgamentos sobre as motivações da mesma), a coisa toda parece rasa demais.

O único elemento que me fazia seguir com o livro aberto, era o interesse em desvendar o que sugere o título da obra, ou seja, tudo o que o pai da protagonista não soube. E como já mencionei: ou as grandes revelações escaparam de minha compreensão, ou são elas, de fato, banais ao limite do risível.

O livro também está infestado de sacadas clichês, expressões popularescas e frases prontas, as quais talvez até funcionassem caso a personagem possuísse alma; é por conta dos relatos de alguém que parece viver inconformismos descabidos que tais citações triviais, frequentes na vida cotidiana, tornam-se desinteressantes e desprovidas de substância; não importa se uma frase é clichê, na boca de um personagem complexo, a coisa ganha um lugar de reflexão em nossas mentes.

Juro que me esforcei para entender a protagonista. Porém, quando se está diante de explanação tão infestada de rancor, é difícil conferir credibilidade à narrativa. Por exemplo, quando a personagem anuncia que não vai fazer algo, é precisamente o que ela faz (inconstância é um elemento ótimo, mas não pareceu ser o caso aqui); quando ela garante não ter determinada personalidade, é exatamente como se comporta; cita aspectos de erudição do modo mais tolo e vil possível. Traços de sociopatia? Poderia até ser, mas a condução é recheada de sentimentalismo barato, tornando nossas hipóteses improváveis; a narradora demonstra sua superação existencial por meio de conquistas sociais ou materiais. Senti-me como se estivesse diante de uma garota emburrada porque a vida não foi como ela queria que fosse... Não, definitivamente a personagem aqui não é detentora de alguma disfunção cerebral (isso talvez até elevasse o potencial narrativo), na verdade ela é apenas uma chata mesmo!

TUDO O QUE VOCÊ NÃO SOUBE é um livro cujo enredo não apresenta nada, que dá voltas ininterruptas sem sair do lugar e tem uma protagonista que quase me causou náuseas. Não tive ideia do escopo da obra ou o que ela quis me contar. Igualmente ao pai da personagem, eu continuo a desconhecer tudo o que ela alega que ele não sabe..., contudo, como literatura de entretenimento pode até funcionar, desde que você tenha idade semelhante ao  discernimento da protagonista: algo em torno de dez anos.

NOTA: 3,3

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

RESENHA DE LIVRO – GONZOS E PARAFUSOS

Há algum tempo que venho sustentando a hipótese de que o tédio tem sido tão presente em meus dias, que até mesmo o gosto pela leitura fora prejudicado. Cheguei a me convencer de que a situação é grave, pois pela primeira vez na minha vida, ler se tornou uma atividade enfadonha... No entanto, existe sempre a possibilidade desse sentimento desaparecer quando chega a vez de colocar as mãos em obras distintas, como foi o caso deste GONZOS E PARAFUSOS.

Este belo trabalho da escritora Paula Parisot acalentou a amofinação que permeava em meu ser. Ou pelo menos serviu para mostrar que o tédio não afetou minha leitura propriamente, mas ocasionou uma diminuição da tolerância em relação a alguns títulos que eu estava lendo.

GONZOS E PARAFUSOS é um desses livros que parece não contar nada objetivo, mas seu charme se encontrar justamente no fluxo de consciência. Ambientação, destino, situações, tudo parece secundário. O esplendor fica bem ali, no âmago da personagem Isabela e em seu olhar multifacetado da realidade.

E por falar em tédio, esse talvez seja o lugar comum em Isabela. Psicanalista, a jovem passa a vida em busca de sentido, de encaixe, e tal busca algumas vezes pode chegar aos extremos, levando a jovem até mesmo tentar o suicídio. Aqui não existe uma sinopse específica a ser feita, somente o que pode ser sintetizado é o olhar da personagem sobre a própria loucura. E apesar de nos deparar com instantes depressivos e até polêmicos, é uma delícia este convite de investigar o mundo através da percepção da protagonista.

Isabela é profunda! Investiga sua própria natureza por meio de comparações com o passado e as pessoas que nele estiveram inseridas. Confunde-se com os muitos sentimentos aflorados em si, como é comum na inconstância do ser humano. Isabela analisa de fora pra dentro, talvez por um excesso de racionalidade que se confunde com insanidade, a personagem é alheia ao julgamento, ela simplesmente relata, de modo impreciso, até mesmo quando menciona e anseia a mulher no quadro do artista Klint (capa da obra).

Mesmo em suas citações de Freud que poderiam ser compreendidos como clichês, a própria Isabela se antecipa e reconhece a veracidade deste lugar comum, porém, deixa escapar que citar o psicanalista nunca é demais, o que nos leva a concordar. Vê-se vencida pelo pensamento banal e sabe que não precisaria do mesmo, muito embora alguns jargões pareçam inescapáveis.

Tive a sensação de que era o acúmulo de racionalidade o fundamento da loucura na personagem. Salvo pelo tédio eternizado nas páginas deste livro, a tragédia do meu semelhante, quando erigido em literatura, faz com que eu me encontre lendo bem devagar. Por ato involuntário, freio minhas leituras quando estou envolvido pelo livro.

Há instantes em que o relato parece tão crível, que ocorreu-me estar lendo palavras da própria Paula Parisot, como se estivesse lendo o diário da autora. Sei que existe muito dos autores em seus personagens, sejam em aspectos temporários ou personalidade fixa, mas algumas vezes a coisa parece indistinguível; a semelhança entre autora e protagonista aqui soou-me muito elevado, embora este possa ser um inofensivo equívoco de minha parte.

Não sei exatamente explicar em quais pontos, mas achei o estilo narrativo de Paula Parisot um pouco parecido com o meu próprio. Claro que careço adquirir o charme descritivo da autora, mas foi inevitável algumas comparações.

GONZOS E PARAFUSOS é uma extraordinária viagem através da ambiguidade humana. Não gosto de usar a palavra loucura para não acabar fisgado pelo chavão, mas exatamente como Isabela menciona: “às vezes é inevitável escapar do lugar comum...”, o fato é que a loucura da personagem é o epicentro dessa deliciosa trama. Com um começo que não é o começo, um meio sem meio e o final que não termina, Paula Parisot foi o melhor remédio contra meu tédio atual, e saber o quanto sofro do mesmo mal que sua personagem me causou certo acalento e cumplicidade... Isabela é, em pé de igualdade com Violeta, personagem do estupendo livro OS MEUS SENTIMENTOS, o ser humano mais intenso que li no encerrado ano de 2020.

NOTA: 9

sábado, 30 de janeiro de 2021

RESENHA DE LIVRO – A IRMÃ DE FREUD

A hipótese de que Freud, ao escapar da invasão nazista, teria deixado suas irmãs para trás, é um tema sedutor demais para ser deixado de lado pelo cenário literário. Sempre foi assim: as pessoas querem saber da conduta de figuras centrais da história da humanidade e Freud foi um dos pensadores mais importantes do século XX.

Se o pai da psicanálise foi responsável ou não, isso talvez jamais seja descoberto. O único fato que se sabe é que Freud fugiu de Vienna quando a cidade foi ocupada pelo regime opressivo de Hitler, sem levar as irmãs que acabaram mortas em campos de concentração. Apenas isso. Se foi um ato de negligência, se havia possibilidade de levá-las (o que soa provável, afinal, na lista de nomes que Freud foi autorizado a incluir estão o médico e sua família, duas assistentes, a cunhada e até o cachorro), são detalhes inconclusivos. Ou seja, as irmãs dele não conseguiram fugir por descaso ou não havia nada a ser feito? A situação era favorável? Por que esse homem optou por levar até a família do médico, mas esqueceu de seu próprio sangue?

Este momento turvo na vida de Freud foi o escopo que despertou o interesse do escritor GOCE SMILEVISKI pela vida do famoso psicanalista. Ou simplesmente o faro pela oportunidade de se contar uma boa história, afinal, o cenário parecia promissor: um escândalo dessa magnitude seria uma mancha irreparável na vida do grande Freud. Caberia ao pretenso contador da história a habilidade de aproximar ao máximo a hipótese da realidade. Se Smileviski conseguiu realizar esse feito, eu levantarei aqui algumas dúvidas. Contudo, o cara levou o Prêmio da União Europeia para Literatura. Portanto, falemos um pouco da obra:

A IRMÃ DE FREUD é narrado pela mulher abandonada do título. Adolfine é a protagonista cujo olhar acompanhamos ao longo das 334 páginas de uma trama que se inicia de modo decisivo, pois estamos diante das irmãs indo encontrar Freud para cobrarem uma explicação que justifique elas não estarem incluídas na lista feita pelo irmão. Imagina-se que aqui estaremos diante de um embate difícil entre familiares, de enfrentamento fortes, acusações, ressentimentos, a mágoa nublando o discernimento dos esquecidos. Mas isso quase não acontece, as irmãs se comportam de modo insípido e submisso, sem nenhum sinal de pânico ou desequilíbrio. Enquanto Freud se comporta de modo alheio a tudo, uma figura quase apática.

Mesmo assim, o livro começa aceitável. Adolfine narra situações de medo generalizado e muita insegurança em relação aos dias vindouros, até o instante em que ela vai parar no campo de concentração de Terezin. A personagem remete-nos ao seu olhar e apenas isso. O leitor acompanha o caos por meio do que Adolfine nos conta, elevando a credibilidade do texto a ponto de parecer um diário.

Outro aspecto positivo na trama é que GOCE SMILEVSKI não permite que o texto sucumba à sombra sedutora do irmão famoso, concentrando-se apenas em Adolfine (acredite, é muito comum autores se deixarem seduzir por figuras heroicas quando a proposta era narrar a história de um personagem paralelo do mesmo). Goce não permite que a majestade de Freud ofusque sua protagonista.

Contudo, a obra comporta alguns probleminhas. O primeiro deles está na própria narradora. Adolfine perde um pouco em autenticidade porque sendo ela irmã, portanto, alguém muito íntima de Freud, seu relato soa indiferente e algumas vezes até descabido. Não há embates ou conflitos de opiniões, nem mesmo quando Adolfine está imersa em pensamentos. A irmã apenas vai narrando tudo, como se fosse uma figura neutra.

O autor também parece ter se acovardado em sua condução. Apesar do tema central polêmico, Goce evita inserir elementos questionáveis ou comportamentos contraditórios em seus personagens. Freud, por exemplo, é retratado aqui como um homem monótono, quase blasé. E no lugar de aproximar sua história das inconstâncias existenciais dos envolvidos, o autor passa todo o tempo tentando justificar a existência sofrida e alienada de Adolfine. A chance de termos um relato mais orgânico, mesmo sendo ele fictício, se perde quando Adolfine é retratada como o estereótipo medíocre de personagem cujo sofrimento de vida explica-se no âmbito da obviedade.

A IRMÃ DE FREUD é talvez um exemplo de livro que não soube explorar melhor o grande tema que possuía em sua espinha dorsal. Possui momentos bons, principalmente no começo, mas acaba derrapando na veemência em registrar apenas os motivos que fizeram de sua protagonista, alguém tão infeliz.

NOTA: 6,2

sábado, 23 de janeiro de 2021

CONTO - A MÁSCARA DA VERDADE

 

Há muito tempo, quando homens ainda eram seres honrados a ponto de que lhes fosse permitido estabelecer interações com o divino, eis que um Deus pagão presenteou estimado rei por toda sua equidade, dando ao homem a Máscara de Aravín, um item singular que tinha o poder de revelar qualquer verdade desejada, bastando apenas que seu portador a colocasse no rosto. Havia somente um único requisito: uma vez usada, a máscara perderia seu efeito.

Sabendo da preciosidade a qual tornara-se possuidor, o rei guardou zelosamente a Máscara de Aravín para somente usá-la quando fosse, de fato, por uma causa extremamente importante.

Por muitas vezes o rei se viu tentado a descobrir verdades, como quando esteve em guerra contra outros reinos e ansiava por descobrir quais eram os planos do inimigo. Porém, sempre que buscava a máscara para utilizar seu poder de descobrir a verdade, pairava em sua mente o receio de que no futuro, urgência maior poderia surgir e ele já não contaria com o poder extraordinário da máscara. Afinal, aquela imposição de que, uma vez usada, a máscara perderia seu poder, inundava a mente do rei de incertezas quanto a hora certa de utilizar.

Então o tempo passou e quando o rei se deu conta, estava velho, acamado e enfermo, perto do fim de sua vida monárquica. Não havia mais nenhuma certeza a qual ele quisesse saber; a morte estava perto demais para que restasse algum anseio sobre um mundo no qual em breve ele não faria mais parte. O rei mandou chamar seu filho, sucessor do trono, e a ele deu a Máscara de Aravín.

“Use-a com sabedoria, meu filho”, orientou o rei “porque a máscara só lhe dará uma chance de descobrir a verdade”.

O herdeiro assumiu o trono e manteve o presente divino seguro. Considerava-se um homem estrategista e sensato. Ele saberia o momento certo de usar o item mágico. E de fato, o jovem rei resistiu aos maiores ímpetos, como suspeitas de traições entre seus generais, curas para enfermidades horrendas... Nem mesmo uma crise paranoica, sobre rumores de que sua amada esposa estivesse lhe traindo, foi capaz de fazer com que o rei retirasse a máscara de sua arca secreta e a aproximasse do rosto. Quando diante do objeto sublime, o rei sempre hesitava, temendo que uma catástrofe futura acometesse seu reino e ele já não pudesse mais contar com a revelação da verdade.

E assim, a Máscara de Aravín foi transferida para os sucessores do trono, sem que nenhum deles encontrasse o instante crucial em que devesse ser usada. Até chegarmos à idade média, em que reinos foram desfeitos e a máscara foi parar em um museu da região norte da Europa. Aberto a visitação, a inigualável peça deixou de ser vista como instrumento de descoberta da verdade, para ser encarada como mero objeto de antiguidade. Pessoas contavam sobre a surpreendente história da Máscara de Aravín e seu poder de conceber a verdade, como se fosse apenas um mito alegórico.

Então a idade moderna chegou e, com ela, as duas grandes guerras mundiais. A devastação do período fez com que a máscara se perdesse em escombros, também houveram rumores dizendo que ela fora extraviada e vendida no mercado negro. Permaneceu desaparecida até os anos atuais, quando um jovem turista passeando pela Ásia encontrou a máscara numa singela loja de antiquários. Achou-a bela e comprou por valor simbólico, sem saber de sua história fantástica. Antes de sair da loja, o rapaz perguntou ao vendedor sobre o endereço de um teatro específico. Sem dar muita importância, o vendedor disse desconhecer o local.

Percorrendo ruas, o turista seguiu seu passeio despretensioso, ciente de que, cedo ou tarde, encontraria o referido teatro. E sentado numa praça, acometeu-se de ato jocoso e colocou a Máscara de Aravín no rosto para fazer uma self e mandar para sua namorada.

Naquele instante, sentado no meio da praça, a face coberta pelo instrumento divino, algo se iluminou na mente do rapaz. Então ele se levantou e foi em direção ao seu intento, sem entender como foi que, milagrosamente, se via conhecedor do caminho até o teatro que ansiava conhecer.  

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

RESENHA DE LIVRO – OS MEUS SENTIMENTOS


De todas as minhas manias de leitor, uma delas sustento um carinho especial: quando aprecio a leitura, acabo por desacelerar naturalmente. Não sei se por medo do término do prazer ou por introspecção. O fato é que o livro que encanta é sempre degustado lentamente por este leitor que vos escreve. E a obra aqui resenhada esteve diariamente comigo ao longo das últimas três semanas, numa leitura vagarosa e cheia de pausas para reflexões.

Cada vez mais apaixonado pela literatura portuguesa, conheci o trabalho de Dulce Maria Cardoso através de sua primeira obra CAMPO DE SANGUE (tem resenha aqui no blog). Comecei um pouco desconfiado, tive dificuldades para me familiarizar com expressões linguísticas usadas em Portugal, enfim, precisei de algumas páginas para descobrir essa peculiar escritora. Mas a cada página virada eu desacelerava, desacelerava... Até quase parar, tão deliciosa que foi a experiência.

OS MEUS SENTIMENTOS é a obra cujo conteúdo replica todo o brilhantismo narrativo que Dulce Maria já havia destilado em sua estreia. Este trabalho se eleva um pouco mais pela extensão, por explorar com maior profundidade a consciência da personagem que nos conta sua história, e o faz de ponta cabeça, o corpo avantajado preso ao cinto de segurança, enquanto ela observa os cacos que restaram do para-brisa e uma gota de chuva que se recusa a desprender da ponta do vidro. O impacto chocante foi o gatilho que submeteu pensamentos a serem revistos de forma diligente, porém, sem mascarar os excessos ou omitir as percepções adquiridas ao longo da vida da personagem, até chegar ali... No ponto crucial da fatalidade que despertou a autoanálise.

As lembranças da protagonista narradora vão moldando sua existência e iluminam lugares pouco explorados de seu interior; existência que fora drasticamente interrompida naquele tempo presente, cruel e imprevisto. Há instantes em que o cinismo descrito se mistura com a autopiedade, o que eleva as inconstâncias, mas sempre sobressaindo algo próximo a desesperança e o sentimento de inadequação da mulher chamada Violeta.

Coberta por um véu de sarcasmo que nem sempre soa proposital, a personagem replica as definições que as experiências, nem sempre evolutivas que viveu com outros seres humanos, lhe deram de forma quase impertinente, como se as vozes vociferantes não mais interferissem em sua estrutura. Desse modo, a mulher que tem nome de flor e que também é uma cor, a monstrenga, a aberração, vai externando seus pensamentos e lembranças, com uma crueza tão ímpar capaz de causar diferentes sentimentos no leitor.

Violeta não nos deixa respirar; incita o tempo inteiro uma aproximação, mostra seu incômodo que logo se transformará em nosso incomodo. Emoções como ódio se tornam palpáveis. E a partir desse instante, estamos presos a pensamentos até então impensados; travessias por fronteiras desconhecidas; submersos nessa hecatombe de consciência, o destino do leitor parece misturar-se ao da narradora... Um misto de lirismo e crueza, que por inserir-nos, exclui qualquer possibilidade de julgamento.

Trata-se de uma exegese cuja discrepância pode ser percebida como fundamento; é delicada e vigorosa, sutil e abundante, doce e azeda... Tão variável como somente pode ser a alma do ser humano. Portanto, eu fico a me perguntar se era Dulce Maria Cardoso a externar sua própria alma, ou se eram almas que usaram a autora para exprimir suas fragilidades e imprecisões... Se é que temos alma de fato.

Vale observar que essa autora não possui um estilo simples e que agrade a diferentes tipos de leitores. Talvez desagrade aos que apreciam fluidez narrativa ou climas instigantes que prenda a leitura por meio da expectativa. Essencialmente temos a imersão sem direção específica, que esmiúça muito os detalhes para fazer refletir.

Através de sua literatura, Dulce Maria Cardoso nos retira de zonas sombrias e escuras, onde nós pouco vemos e quase nada sentimos. Então, a autora nos remete a uma elevação perceptiva que somente a literatura é capaz de oferecer. Imbuídos dessa percepção, enxergamos o impossível: riscos ocasionais, objetos camuflados, gestos involuntários, coisas perdidas, sensações escapadiças. As obras dessa portuguesa genial desarranja nossa medíocre convicção; passamos daquele ponto crítico no qual a maior parte da cegueira coletiva se encerra, como se o universo fosse feito de margens alcançáveis. Então Dulce nos faz mergulhar mais profundo, porque depois de um abismo sabe-se que haverá outro, e mais outro... Sua literatura é uma viagem sem lugar seguro, então você despenca.

E como eu despenquei!

OS MEUS SENTIMENTOS foi o livro que deixei para ler no final desse ano, porque era a obra que mais desejava ler. Sim, eis outra mania de leitor que costumo me permitir: deixar o melhor para o final, como quando se deixa a carne no prato para ser degustada no finzinho. Prolongar a expectativa é um gostoso jeito de esperar pelo melhor livro. Nem sempre dá certo, vez ou outra a espera se torna maior do que a própria leitura. Felizmente esse não foi o caso, e termino 2020 embevecido de prazer, entorpecido pela beleza trágica de Dulce Maria, que sabe como arrancar camadas de seus personagens de modo a nos mostrar as vísceras que, a cada pedaço tirado se apresenta ainda mais imprecisa, imperfeita, e por isso mesmo, amplamente humana.

2020 foi um ano de boas leituras, ótimas descobertas, alguns livros nem tão bons assim, mas no geral, tive mais prazer do que enfado. Oportuno momento esse, cujo isolamento da pandemia serviu para incrementar os horários de leitura. Quero agora desenvolver um novo habito de leitor apaixonado: o de revisitar os livros amados, talvez um desafio menos simples de ser alcançados, pois diante desse universo tão vasto que é a literatura, quase não sobra tempo para releituras... Porém eu sei que, cedo ou tarde, acabo retornando aos grandes mestres, para reler ou para descobrir mais de suas obras. E Dulce Maria Cardoso está indiscutivelmente inserida neste seleto grupo.

NOTA: *10*

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

RESENHA DE LIVRO – INFORMAÇÃO AO CRUCIFICADO

O escritor Roa Bastos dizia que “um livro só existe na cabeça do leitor”. Ou seja, toda essa aglomeração de palavras somente toma forma quanto se insere na imaginação daquele que a lê. Mas e quando a mente se encontra prejudicada por enfados da vida cotidiana, que a impossibilita do mergulho necessário que a literatura carece? Pois bem, estou em tempos de ausência de interesse nas coisas, principalmente por conta desse tédio constante e crescente que vem me acometendo nos últimos meses, o que anda prejudicando as leituras que fiz neste período...

Desse modo, a não absorção da leitura está prejudicando as analises que faço e, portanto, estou pensando em parar com as resenhas por um tempo.

Senti a pertinência desse desabafo pela imensa dificuldade que tive em analisar este livro, cuja autoria é de um dos meus escritores favoritos. E quando se está diante de algo sabidamente aprazível e, mesmo assim, o esforço para seguir com a leitura é titânico, deve ser porque talvez seja o momento de fazer uma pausa.

Se você leu até aqui, peço que desconfie de todas as impressões que se seguirão. Aliás, é bastante saudável que se mantenha certo olhar desconfiado para qualquer desocupado, que por falta do que fazer, resolve gastar seu tempo metendo o bedelho no trabalho dos outros, como é o caso deste transgressor que vos escreve.

A literatura é uma plataforma multifacetada cujo olhar oblíquo pode até não dar conta do mundo, mas é o meio de produção cultural que mais alcança os lugares escuros e desabitados da sociedade. Neste INFORMAÇÃO AO CRUCIFICADO, o mestre Carlos Heitor Cony nos convida a conhecer um seminarista que escolhe o caminho do sacerdócio por pura estética, por considerar “bonito ser padre”, nas palavras do próprio protagonista.

João Falcão decide por vontade própria deixar a casa dos pais aos onze anos de idade e seguir para o seminário, alheio a qualquer predileção eclesiástica ou inclinação celibatária, mas apenas como um jovem inteiramente convicto de sua noção, digamos, ausente do instinto da servidão. João usa um diário de capa verde como confessionário, e é precisamente esse diário da personagem o relato de jornada de consagração a Deus que iremos acompanhar.

O tema central deste livro é a apostasia. A personagem João Falcão se encontra imerso no universo complexo da religião e as incertezas de suas escolhas entrarão em choque com os conceitos, sejam estes palatáveis ou não, estabelecidos dentro desses espaços institucionalizados.

O livro é bem escrito, como não poderia ser diferente em se tratando de Cony. João Falcão é um sujeito esclarecido, detentor de uma mente questionadora que coloca as coisas em perspectiva, analisa os fatos de um modo amplo, para além da obviedade conceitual. Há relatos imersivos, outros engraçados, há aqui uma sensibilidade tão eloquente inserida na narrativa que não vejo alternativa senão fazer uma inevitável releitura, talvez quando minha mente estiver de volta aos eixos normais.

INFORMAÇÃO AO CRUCIFICADO é um livro singular cuja temática, puramente, já é elemento instigante o bastante. Tem uma personagem carismática que causa empatia imediata, um olhar crônico agradável e os aspectos narrativos tão apreciados de um dos maiores escritores da nossa língua.

NOTA: 8,1

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

CENTENÁRIO DE CLARICE LISPECTOR


Ontem precisei resolver alguns assuntos no centro da cidade, e como sempre faço, levo comigo um livro para me ajudar a suportar filas e salas de espera. As pessoas em geral se entretêm com seus modernos smartphones, mas eu gosto mesmo é de aproveitar estes espaços de tempo para ler.

Tratava-se de nova incursão, porque anteontem havia terminado uma leitura fenomenal (cuja resenha estará aqui em breve), então trazia comigo um livro fresquinho e inédito para ler. Contudo, os afazeres fluíram rápidos e não tive tempo de conferir nem a contracapa. Quando cheguei em casa, no fim da tarde, foi que dei falta do meu companheiro. Ato raro: havia perdido meu livro em algum dos muitos lugares que estive ao longo do dia. Deixei-o em algum canto e até agora não sei onde. Espero que tenha sido encontrado por alguém que goste de ler ou alguém que, através dessa descoberta, adquira o gosto pela leitura.

Como eu estava pra começar uma nova leitura e sabendo que hoje, dez de dezembro de 2020, é o dia do centenário de Clarice Lispector, resolvi desfrutar esta data especial “perto” da rainha, em vez de pegar outro livro não lido na estante. Desse modo, trouxe comigo obras da autora para fazer releituras e, por conta delas, despertou-me a vontade de prestar-lhe esta singela homenagem.

E pensei comigo: se fosse anteontem e tivesse perdido a belíssima obra da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso que eu estava terminando de ler, eu teria surtado! Sairia feito um maluco refazendo todos os percursos em que estive até encontrar o livro (com enorme esperança porque perder livros nesse país não costuma ser um problema insolúvel, afinal, ninguém se interessa por um livro esquecido). Do mesmo modo, caso o infortúnio tivesse ocorrido hoje e eu perdesse algum dos meus livros de Clarice, o desespero seria igualmente inevitável. Concluí que foi sorte ter perdido aquele livro ontem, obra que talvez fosse muito boa de ler, mas que desconhecia e acho que é melhor permanecer assim, nesta zona consoladora do desconhecido. Porque perder um livro inédito é infinitamente menos terrível do que perder um livro que amo... E eu amo toda a obra de Clarice Lispector.

Bom, comecei meu dia de Clarice com uma releitura da entrevista que ela concedeu para Afonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti. O mais notório nestes bate-papos é o quanto Clarice era uma pessoa espontânea; dizia o que pensava, destilava constatações inusitadas, não escondia sua condição emocional para parecer correta. O tipo de ser humano que nunca se sabe o que acontecerá durante uma proza, e é precisamente este ineditismo, aparentemente assustador, que nos possibilita resvalar a beleza de sua alma.

Como quando ela conta que certa feita recebeu uma carta da universidade de Boston pedindo detalhes de sua vida. Ela não respondeu e alegou que não o fez por preguiça de escrever cartas. Mas após mostrar o pedido formal da universidade para um amigo, este se mostrou entusiasmado, então ela disse: “Responde a carta por mim. Diz o que você quiser e fala que estou de acordo”. Pois num belo dia, Clarice recebe em sua casa um diploma de Boston. Havia sido considerada como fazendo parte da biblioteca da universidade... Ela confessou que nem sabe onde está esse negócio.

Outra narração divertida foi quando ela conta que uma esperança (aquele grilo verdinho) entrou pela janela de sua casa e pousou na parede. Clarice teria se livrado do bicho, mas o filho a interrompeu, dizendo que aquela criaturinha trazia esperança consigo e era preciso deixa-lo à vontade. Contudo, o grilo acabou preso por uma teia de aranha e eu não me lembro se morreu ou se escapou e foi embora. O fato é que diante do ocorrido, Clarice chamou a empregada e disse categórica: “você nunca mais atrapalhe o curso da esperança dentro dessa casa, entendeu?”. Fico a imaginar a cara da empregada, sem entender o que ela quis dizer com aquilo, afinal, se haviam teias espalhadas pelas paredes, certamente Clarice deduziu que a culpa pelos infortúnios da esperança, era da empregada que não estava fazendo seu serviço direito. Mas o sermão da patroa deve ter soado filosófico demais para ser entendido.

Detalhe marcante na obra de Clarice Lispector é a forte ligação que ela continua mantendo com nós, leitores, algo quase metafísico. Sua influência em nossa vida é muito forte, como se a leitura dos seus textos transformasse nossa consciência em definitivo, sem retorno ao que era. O mais recente biografo dela, Benjamin Moser, alertou: o conteúdo da obra de Clarice Lispector é uma espécie de bruxaria.

Mas talvez esse encantamento progressivo seja mais bem explicado pela própria rainha, que em frase simples, revela a genialidade por trás da criação de sua literatura:

“Não se faz uma frase. A frase nasce...”.

FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!!