quinta-feira, 16 de junho de 2022

RESENHA DE LIVRO – O HOMEM DUPLICADO

Penso que a genialidade na literatura do igualmente extraordinário escritor José Saramago, é a de inserir e depois analisar o absurdo na vida cotidiana. O enfado e a melancolia são elementos básicos de seus personagens principais, quando algo excepcionalmente improvável lhes ocorre. O paradoxo narrado aqui é o da reprodução sistemática da individualidade, ou da descoberta alarmante da mesma, que nesta obra remete ao extremo, por isso o absurdo.

O protagonista desta cativante narrativa encontra distração de seu cotidiano maçante quando, ao acatar as insistentes recomendações de um colega para que assista a um filme, descobre que há no elenco cinematográfico, sujeito espantosamente idêntico a si mesmo. Começa-se, então, um jogo crescente de descobrir tudo sobre seu suposto clone. Temos enredado o absurdo dentro do cenário banal.

Tertuliano Máximo Afonso, nossa personagem, percebe o óbvio: que o filme lhe fora indicado justamente porque ele, entre aspas, literalmente atuava no elenco. Afinal, alguém que jamais trocara conhecimento sobre filmes, quando resolve fazer, deve ser por algo incomum visto no mesmo. Seu duplicado está na tela, se parece tanto fisicamente quanto na voz, algo como se olhar diante do espelho E Tertuliano, inevitavelmente, se converte num homem obcecado por compreender e descobrir a respeito de sua cópia viva.

O elemento extraordinário é permanente, sempre sob o ponto de vista do narrador, que parece ganhar entusiasmo conforme aprende que a vida reserva mistérios surpreendentes, como a existência de iguais. A questão da singularidade se perde, porém, nada nos é entregue diretamente, apenas estamos a acompanhar um homem que faz do inusitado tormento, seu novo escopo de vida.

O livro não traz como desembaraço a descoberta do clone. Tertuliano vai ao seu encontro (nenhum spoiler, isso é amplamente secundário), os dois interagem, ocorre a inevitável estupefação bilateral, então pensamentos lhes invadem as mentes; a interação neste momento da obra deixa lacunas soltas, Saramago nos faz acompanhar instantes do suposto clone, o ator do filme. Acompanhamos o que ele pensa sobre o caso, sua mulher intrigada (ela faz uma das melhores análises de toda a narrativa), tanto que reencontros se mostram inevitáveis.

A trama volta para Tertuliano, que relativamente aceitou o fato inusitado de sua cópia idêntica, logo se vê provocado pela mesma, que o procura, agora tão instigado pela inusitada situação, quanto antes Tertuliano se encontrava.

É aqui que se encontra algumas sutis diferenças; o professor de história Tertuliano, apesar de se mostrar intrigado, logo retrocede ao seu lugar comum: o enfado da vida. Contudo, seu clone, que é um ator pouco expressivo de cinema, imbui-se de semelhante desassossego, e passar a procurar seu duplicado, pela igual justificação.

No entanto, Saramago vai nos mostrar que a mesma motivação inicial em ambos os semelhantes, não se sustentam e diferentes aspectos exercem as motivações posteriores de cada protagonista.

Tertuliano quer aprender sobre seu igual, mas parece meramente um ato de genuína curiosidade. Enquanto seu clone, profissional do cinema, casado e aparentemente se tratar de alguém que subsiste sem conflitos existenciais, em determinado ponto da trama, apresenta-se ainda mais estupefato com a descoberta de outro seu, ou na pior das hipóteses, resolve desfrutar de algum benefício desse fato.

Com seu outro isso não ocorre.

Tertuliano Máximo Afonso tem seu nome reproduzido à exaustão, talvez porque seria a única singularidade existencial que lhe restara, ou simplesmente por odiar a única coisa no mundo que constatou não ser duplicada, mas que não teria sido por sua inadequação e repugnância. Aquilo que mais odeia é justamente o que jamais se reproduz no mundo. 

O HOMEM DUPLICADO é uma obra densa e imprevisível, de tema já explorado pela literatura, mas com uma condução um tanto moderna. José Saramago é um eficiente contador de história, que sabe fazer a mente do leitor reproduzir as mesmas questões que certamente pairavam em sua própria, quando resolveu nos contar sobre sua visão da perda da individualidade em seu estado mais extremo.

NOTA: 8,7

domingo, 29 de maio de 2022

CONTO - A ÚLTIMA BATALHA


“A canção do aço eleva-se em conformidade com o vigor dos metais em choque..., no derradeiro instante da luta, a espada de Imann destilava notas ininterruptas, como quem acredita somente na linguagem do conflito...”

“E embora haja o instante de cessar, o orgulho sempre será um maestro mais atento do que a própria morte...”.


Vilarejo de Hittin, século doze.

Um par de olhos se abriu no inferno. Enfim, um relapso de vida, ou quase isso, porque em lugares os quais se parecem com necrópoles a céu aberto, a desarmonia faz o ato parecer efêmero.

Imann estava desnorteado, exposto, deitado sobre o lençol cadavérico, olhando para os corvos, que voavam em círculos no firmamento. Cogitou as possibilidades de sua situação, talvez porque só restasse isso a fazer, levando-se em conta o corpo exaurido. Havia dores em lugares específicos, não sabia identificar com exatidão..., mas o ódio, elemento central de sua trajetória como guerreiro, este havia desaparecido. Ele percebera a mente infestar-se de memórias, carregar-se de lembranças..., não sabia o que era essa sobriedade excêntrica.

As lembranças eram como intrusos em sua mente, o conduziam à força até certos instantes que passaram despercebidos por Imann, como se fossem os caprichos de um cenário banal.

Diante dos olhos, transpassando as aves negras no céu, a infância..., viu o quintal onde brincava com o cavalo do avô. A crina eriçada, o cheiro de suor e pelo selvagem, o primeiro tombo...

Então as memórias deram um salto e ele viu o início da fase adulta, quando havia feito um juramento junto aos templários. Imann pôde novamente apreciar o sabor da integração junto à ordem, e então, a adrenalina de pisar pela primeira vez no campo de batalha.

Em seguida, sua viagem nostálgica levou-o de encontro ao amargo gosto da traição, quando líderes religiosos nos quais ele havia jurado proteger com sua espada, com a vida se assim fosse, voltaram-se contra Imann e os demais cavaleiros...

Memórias..., memórias.

O bravo guerreiro, quis dar um basta na projeção mental, e com dificuldade se sentou. Meio corpo esticado ao solo não combinava com sua trajetória gloriosa. E nesse momento, ele contemplou o inferno pela primeira vez. Era uma infinita extensão de morte por todos os lados..., até onde a visão alcançava. Corpos de homens mutilados de toda forma imaginável, por variados instrumentos cortantes, corpos queimados, corpos atravessados por flechas que haviam salpicado o céu. Uma bandeira da ordem dos templários estava atirada na lama, manchada com o sangue daqueles que ousaram protegê-la.

Meio corpo já era mais do que os demais no horizonte... Imann pensou ser o único remanescente, mas a constatação não o fez se sentir melhor, pois seus camaradas também eram parte do carpete funesto. Ele reconheceu cada rosto sem vida de seus companheiros, cujas partes eram disputadas por animais carniceiros. 

O guerreiro pensou na possibilidade de ter dado a ordem para que fossem de encontro a inevitável morte, talvez ele tivesse hesitado e, por conta disso, ainda respirava... Contudo, a visão da morte daqueles que ele próprio admirou em silêncio por toda a vida, fora demais para sua alma. Não era da natureza de Imann abster-se da batalha, geralmente ele tomava a dianteira e era seguido pelos demais. 

O guerreiro não conseguia ordenar os pensamentos, não conseguia se expressar..., beligerante mudo! Não insistiu, porque o velho ódio, que sempre o impulsionava, havia lhe deixado, assim como seus companheiros. Havia cortes e dilacerações, e a dor o levava de volta aos pensamentos. 

Não era bom em ruminar. Tinha maior proximidade com ações;

O esforço fora imenso, até que Imann ficasse de pé;

Agora poderia vislumbrar melhor o oceano de corpos;

Os corvos e chacais aproveitavam o infinito banquete;

Pais, filhos, maridos, amigos, irmãos, vizinhos, todos tombados; 

Há poucos metros de onde Imann estava, ele avistou sua espada; a mais fiel companheira. Instrumento estático, abandonado, longe dos punhos ágeis de seu mestre, que quando juntos, formavam uma unidade perfeita de matar. 

A visão do objeto o motivou. Passos cambaleantes com o propósito de socorrer aquilo que considerava sua infalível protetora. Porém, fora interrompido por uma situação ainda mais urgente, a qual Imann não poderia passar despercebido: 

Ele reconheceu o corpo de Drax, o melhor e mais antigo amigo. Estava atirado sobre outro corpo, e uma enorme lança atravessava ambos os homens. Sobre eles havia um larápio que tentava retirar um amuleto do pescoço de Drax. O amuleto que fora presente de Imann para o amigo. 

Finalmente houve um familiar sinal de fúria, enrijecendo os músculos do guerreiro. Ele partiu apressado em direção do ocorrido, intencionado a esgoelar o vagabundo larápio. 

Pensava estar prestes a praticar o elemento surpresa, uma vez que o gatuno não havia percebido sua aproximação. Suas duas mãos esticadas como garras de um falcão, desceram firmes até o pescoço do rapaz e o transpassaram, como se ele não existisse. Imann espatifou-se no chão do outro lado. O vagabundo terminou de retirar o amuleto, e saiu andando, tranquilamente, em busca de outros objetos de valor, sem sequer notar a presença furiosa do guerreiro caído. 

– Devolva o cordão dele, desgraçado!!!!! – gritou Imann, novamente derrotado ao solo. O homem seguiu seu caminho, ignorando-o, como se não ouvisse. 

Aturdido, Imann não compreendera o que havia se passado. Ele simplesmente atravessara o corpo do vigarista, como se ele fosse um fantasma. 

Novamente de pé, involuntariamente ele olhou para trás, para o percurso que havia feito. Então, um arrepio terrível lhe envolveu os poros da pele. Imann estarreceu! Estava olhando agora, para o local onde esteve deitado. Incrédulo, vislumbrava seu próprio corpo, que permanecia estirado no mesmo lugar, imóvel, e sem vida... 

"O que está acontecendo comigo?" 

Nesse momento, um sujeito surgiu de algum lugar incerto, ereto, atravessava o mar de corpos. Caminhava na direção do guerreiro, de forma tranquila, como se estivesse passeando por um jardim de flores. Era um homem alto, de pele alva como a neve, tinha cabelos longos e encaracolados. Ele usava um manto dourado que ofuscava os olhos de quem olhasse. 

– Saudações, bravo Imann! – disse o homem ao se aproximar – finalmente é chegada a tua hora.

– Quem é você? – perguntou o guerreiro, ainda assustado com a situação inexplicável.

– Sei que deves estar com a mente perturbada, uma vez que és um homem que só acredita no julgamento do aço. 

Imann não disse nada em resposta. A consciência parecia afirmar-lhe exatamente o que os olhos testemunhavam. E como tudo em sua vida só era entregue mediante a luta, estava disposto a travar uma batalha contra a própria sanidade. 

– Vá embora daqui! Desapareça!

– Não tenhas medo de mim, bravo Imann.

– Deixe-me!!!

– Eu vim livrá-lo das chamas do inferno. Por favor, permita que eu o salve. Eu já vi o inferno uma vez, grande guerreiro. E não desejo que homem algum também o veja...

– Quem é você?

– Eu me chamo Ariel. Sou o zelador dos mortos, o coletor de almas perdidas. A tua se perdeu após a sangrenta batalha. – o estranho fez uma pausa. Observou uma repentina mudança no céu, e este começou a escurecer. Dezenas de vultos alados intrometeram-se ao redor deles.

– Não temos muito tempo, Imann. Eles estão vindo buscá-lo. 

Dessa vez, o guerreiro nada disse, mergulhado no próprio orgulho. Ele levou as mãos à cabeça. As palavras do outro faziam com que as neblinas que escureciam sua mente, dissipassem como numa ventania feroz. Foi quando conseguiu resgatar as lembranças de seus últimos instantes de vida. O exato momento em que o inimigo triunfara sobre ele. 

As incessantes trocas de golpes;

O choque de dois aços perfurantes emitindo faíscas;

Músculos enrijecidos a segurar o instrumento decisivo;

Imann versus o doutrinador de templários;

Em volta deles, a batalha estava no seu auge;

Os guerreiros sob a chuva forte que parcialmente os cegavam;

Um embate que só terminaria com a morte de um deles;

Então o adversário de Imann esquivou-se de um golpe mortal;

A espada do guerreiro jamais havia falhado;

Passou por cima do corpo do inimigo abaixado;

Ele contra atacou com determinação e firmeza;

E a espada adversária, atravessou o peito de Imann.

Depois disso, houve escuridão... 

– Imann!! Imann!! 

O guerreiro abriu os olhos. O anjo estava parado em sua frente, o sacudia os ombros, numa insistente busca em ser ouvido: 

– Rápido, Imann! Os demônios querem levá-lo!

– Demônios? – perguntou Imann, resgatando a consciência.

– Sim, Imann. E se não vier comigo, terá que ir com eles.

– Onde estão todos?

– Não importa agora, Imann. Vamos sair daqui!! 

O firmamento estava tomado por uma tonalidade lúgubre. Os vultos se aproximavam de Imann. Um deles saiu das sombras, e foi até Ariel: 

– Deixe-o, querubim. Você não pode interferir no livre arbítrio.

– Afaste-se, imundo! Essa alma não lhe pertence.

– Ele se decidiu, Ariel. Não quer ir com você... 

O guerreiro estava cabisbaixo, como se pouco importasse aquela disputa por sua alma. Seu olhar apontado na direção do vazio. Não conseguia desfocar da derrota; inconformado com a realidade. Percebeu que era inevitável. E mesmo agora, depois de tudo acabado, a vergonha pela queda lhe trouxera mágoa, fúria e um desejo enorme de autodestruição. 

– Por favor, não se entregue, Imann. – implorou o anjo.

O guerreiro caiu de joelhos;

Os enviados de Lúcifer envolveram sua alma;

Ariel nada pôde fazer;

Não houve nenhuma resistência;

Imann punia-se com a abstenção. 

Ariel retornaria sem a alma do Guerreiro. O azul do céu voltou a normalidade, as nuvens brancas reapareceram. O anjo estava atônito, sem saber qual seria a verdadeira razão pela qual outra alma, por mais perturbada que fosse, negligenciara sua súplica. 

Jamais alguém havia sido inconsequente a ponto de recusar tal oferta de salvação. 

A verdade era que anjos não conheciam a vaidade humana.

Assim como o bravo Imann jamais havia conhecido a derrota...

***

(Conto postado no site Recanto das Letras, no ano de 2012).

quinta-feira, 26 de maio de 2022

RESENHA DE LIVRO – A DAMA DA SOLIDÃO

Livro de estreia da escritora Paula Parisot, este discreto A DAMA DA SOLIDÃO é um livro de contos que, ao mesmo tempo em que agrada pela forma simples de sua narrativa, também desagrada pelo mesmo motivo. Eis o problema de se iniciar um escritor pelo seu melhor trabalho. Eu explico: é que GONZOS E PARAFUSOS, primeiro trabalho de Parisot que li, é uma obra infinitamente melhor acabada, textualmente mais rica, a autora está nitidamente mais segura e absolutamente imersiva (tem análise dele aqui no blog), o que infelizmente fez com que minha expectativa para esta obra resenhada aumentasse muito.

São vinte e um contos, relativamente curtos, cuja pegada despretensiosa é convidativa, a fluidez e desembaraço na linguagem tornam a leitura ágil, não há muito entrave técnico, tampouco conteúdo reflexivo, apenas os relatos externo em cada texto, assemelhando-se a um diário ou carta. O elemento experimental também é evidente, é notório por meio de aspectos linguísticos um tanto distintos e pouco explorado, que a autora estava buscando descobrir sua forma.

A visão contemporânea dentro dos textos agrada, detalhes casuais narrados pelos personagens, alguns dilemas da sociedade moderna, inconstâncias, o gesto cômico, falas afetadas, a mistura de assuntos, toda essa desordem substancial pode desagradar alguns leitores, mas eu até que gosto desse conteúdo carregado, dessa desobrigação textual.

Os contos distinguem-se em essência. Á priori, pensei se tratar de um compilado de contos eróticos, mas os temas variam conforme avançamos na leitura, ora acompanhamos aventuras sexuais, passamos por algumas histórias cujas temáticas soam clichês, então, eis que nos deparamos com um conto sobre um catador de latas, feliz em seu trabalho de juntar latinhas na noite de réveillon.

Os textos também terminam de modo súbito, e vez ou outra, até inconclusos. Nenhum problema quanto a isso, mas sei que há leitores que se incomodam com essa ausência de desenlace. É que alguns contos parecem recortes soltos de algo maior, deixando-nos com uma sensação de insaciedade... Reforço que não vejo problema, mas vale o aviso sobre esse aspecto.

Incomodou-me a falta de ousadia quando, por exemplo, estamos diante de um conto de conotação erótica. Achei algumas situações narradas um tanto higienizadas demais, o que comprometeu na credibilidade do personagem. Apesar do elemento simples na construção do texto ser um acréscimo, a autora perde o leitor quando se abstém de relatar com um pouco mais de despudor.

A DAMA DA SOLIDÃO é um livro que agrada pela simplicidade, tem uma belíssima capa, porém, seu conteúdo não faz justiça ao talento da autora. Paula Parisot evoluiu muito sua escrita, algo notório quando se lê outros de seus trabalhos. Mesmo assim, vale à pena aos amantes de contos, pois esta declarada discípula de Rubem Fonseca, por meio dessa compilação das nossas vivências corriqueiras, iniciou sua trajetória como mais uma promissora escritora da nossa literatura.

NOTA: 6,5

sábado, 7 de maio de 2022

RESENHA DE LIVRO – TERRA VERMELHA

No clássico romance O Cortiço (tem resenha aqui no blog), o autor Aluízio Azevedo, metaforicamente transforma o cenário de sua obra, ou seja, o próprio cortiço do título, em seu personagem principal. Nele, estância é como um todo substancial e os demais protagonistas, que vão surgindo ao longo da trama, são como as células que mantém este organismo vivo. Neste trabalho estupendo de Domingos Pellegrini, intitulado Terra Vermelha, ocorre semelhante alegoria de dar vida ao lugar. Contudo, um pouco mais amplo do que ocorre no clássico de Azevedo, aqui a Terra Vermelha permeia todos os espaços, quase ao ponto de o leitor sair meio empoeirado de rubro, após terminar a leitura. E embora a referência geográfica que intitula este trabalho não esteja personificada na essência da trama, como acontece em O Cortiço, seria incompleto narrar a história de seus protagonistas, José e Tiana, sem o relato do surgimento desta ilustre região, que atualmente recebe o nome de Londrina.

Nesta trama Domingos Pellegrini (que rapidamente está se tornando um dos autores mais resenhados do blog) narra o progresso de seus personagens simultaneamente. A Terra vermelha já estava lá, ilesa e singular; e seus desbravadores, José e Sebastiana, já eram existências banais em algum canto da imensidão de possibilidades mundanas. Então eles se encontram, primeiro José e Sebastiana, depois os dois descobrem a Terra, e então passamos a acompanhar a evolução dos três protagonistas.

Na década de 30, José e Tiana formam um casal de colonos que, juntamente a outros desbravadores, irão povoar essa terra misteriosa e intensa que futuramente será batizada de Londrina. A trajetória é requintada pela narrativa prosaica e prolixa deste autor, que faz uma composição de romance histórico e biográfico, cuja minúcia e originalidade tornam a experiência da leitura algo crível, a sensibilidade aos detalhes na vida de seus narrados, juntamente à descrição do nascimento de uma região notória do Paraná, deixa tudo tão eloquente que há momentos em que parece estarmos diante de um texto verídico..., tal mescla faz deste livro um volume singular.

TERRA VERMELHA é uma trama dentro de outra trama. Começa com um José desafortunado, num leito de hospital, lânguido, o crepúsculo a velar-lhe. Enquanto isso, os filhos, basicamente indiferentes, apenas aguardam, alguns sem esconder o enfado ante o destino do pai que parece inevitável. É precisamente esta espera o conteúdo da obra; é nesta espera de sete dias e sete noites, que então alguns deles irão rememorar os feitos e as aventuras de seus genitores.

A conjuntura revela pouco dos filhos, e parece ser proposital, apenas denuncia o atual instante, ali, no hospital a velar o pai. Podemos verificar conflito entre eles, a amofinação, o desconforto, a desconfiança, a insignificância do ato, até mesmo a avareza condicionada pelo moribundo, cujas diárias de internação custam muito caro. Porém, a proza entre eles é o convite à história de José e Tiana, os genitores da família que desbravaram a terra vermelha, e o leitor entra de cabeça na vida dos Pellerinis. Em alguns instantes ficamos tão submersos que subcapítulos se mostram necessários para nos resgatar de volta ao presente, na sala de hospital, onde José segue diante da ampulheta da morte a derramar os últimos grãos e os filhos esperando pelo fim, como abutres ansiando o último sopro. Tais instantes soam como intervalos da narrativa; ou seja, uma trama dentro da trama; quase como um corte providencial, um espaço dedicado aos patrocinadores, enquanto vamos até a geladeira nos recompor com um copo d’água.

TERRA VERMELHA e uma obra estupenda! Certamente muitos leitores irão se familiarizar com a brasilidade de José e Tiana; gente que viveu num tempo diferente, que exigia maior austeridade e pouca vaidade; gente que viu cidades começarem do zero, que tiveram o contato direto com a natureza a ser desbravada..., sendo eles mesmo, os primeiros cidadãos, tão identificados com essa mesma natureza austera, selvagem e rubra.

NOTA: 8,4

sábado, 23 de abril de 2022

RESENHA DE LIVRO – A CAMAREIRA

A solidão é a máxima condição humana, talvez aquilo que nos seja essencial e, portanto, o maior de nossos temores. Há quem diga que tudo o que fazemos na vida, visa o intuito de escapar desse monstro assustador. E dependendo do quanto se mergulha neste vácuo existencial, perdemo-nos, muitas vezes, de forma irreversível.

A CAMAREIRA, romance impressionante de Markus Orths, aproxima-nos de um exemplo de existência que não sabe como lidar com o próprio isolamento e, portanto, deixa-se seguir seus dias entre fetiches, manias e aleatoriedades. A protagonista se perde em seus nadas. Exercendo a profissão que dá nome ao título, a camareira se tornou uma expectadora da vida dos outros, talvez como método de fuga de seu próprio vazio.

Remete-se a isso quando consegue este novo emprego, como camareira de hotel. Lynn Zapatek agora faz de seu novo labor, um modo de alimentar os espaços vazios de sua existência. Condição que se pode perceber no afinco com que desempenha sua função, no zelo excessivo pela limpeza, na neurose de continuar limpando o que já se encontra limpo, no desânimo em ter que retornar ao apartamento onde mora, pois sabe que o monstro que a consome a espera lá..., a solidão reina em todo lugar, mesmo onde há aglomerados de gente.

Quando não está no trabalho, Lynn apenas observa o mundo ao redor, seu olhar sempre voltado para as frivolidades do cotidiano, causa deleite no leitor, tamanha é a inserção que se tem aos detalhes da narrativa. Contudo, devo acrescentar que é uma constatação triste, o testemunho da implacabilidade da solidão dói, principalmente para o leitor que já se viu em condição semelhante e, portanto, compadece da personagem em toda essa incomunicabilidade que atravessa almas. Sei exatamente como Lynn se sente a ponto de compreender algumas de suas ações impulsivas, como procurar um documento na busca de identificar à si mesma, após passar horas na frente do espelho; seguir alguém na rua; colocar um filme para assistir e dar mais atenção a detalhes triviais do que o enfoque da trama; entrar debaixo da cama de um hóspede e ficar lá, como ouvinte oculta da intimidade alheia.

Este último, a mais nova fuga de Lynn. Então, todas as terças-feiras ela se esconde debaixo da cama do apartamento 304, onde um homem está hospedado. Naquele lugar velado, ela ouve sons, o bater na porta, pernas passeando pelo recinto, resmungos, gemidos, a tv ligada, conversas, o ronco cansado do homem, o urro de um orgasmo..., Lynn faz da vida de outras pessoas sua válvula de escape.

A dicotomia da solidão consiste por um lado, na consciência de si mesmo; por outro, no desejo incessante de sair de si. Ambos são extremamente assustadores e isso nos é apresentado através do cotidiano da personagem, confusa e insegura quanto ao que fazer com o reconhecimento de aspectos seus, e os espaços vazios de sua vida. Há um instante na trama em que um personagem surge e começa uma breve relação com Lynn. E o desfecho dessa relação me foi amplamente comovente, apesar de banal, quase fui às lágrimas, tamanha identificação que tive com a situação.

O livro é curto e de linguagem ágil, fluida e simples. Desses que se pode ler numa única tarde fria, na companhia de uma xícara de chá. Markus Orths se mostrou um eficiente narrador da vida cotidiana através das impressões de seus personagens. Uma deliciosa, porém, curta viagem..., senti falta de um pouco de fluxo de consciência narrativa. Mas essa ausência em nada diminuiu o prazer da leitura.

A CAMAREIRA é uma belíssima obra. Possui uma linguagem fácil que ajuda o leitor a acompanhar as ações da personagem, faz-nos enxergar com seus olhos. Markus Orths realiza uma profunda radiografia dessa nosso método contemporâneo de vida, pautado na solidão absoluta e na busca ininterrupta por se livrar dela.

NOTA: 9,1

sábado, 16 de abril de 2022

RESENHA DE LIVRO – MARIO PRATA ENTREVISTA UNS BRASILEIROS

Mídias que enfocam seu conteúdo em entrevistar celebridades atuais costumam ser bem sucedidas, porque todos nós gostamos de saber um pouquinho sobre a vida alheia. Melhor ainda quando o entrevistado é alguém dos holofotes, a sensação predominante é de identificação (como quando o entrevistado se mostra um sujeito simples), ou também orgulho (quando o entrevistado nos revela sua luta dura para alcançar fama e prestígio). Mas e quando o entrevistado é uma celebridade do passado? Como seria se pudéssemos conjurar a alma dos famosos de outro tempo, para que pudessem contar o lado oculto de suas vidas? Reconhecermo-nos nos grandes nomes do passado, ou nos orgulhar de suas trajetórias aguerridas.

Foi essa a premissa que motivou o escritor e dramaturgo Mario Prata, a mergulhar profundamente nos registros históricos para exorcizar nestas páginas, as mais importantes personalidades do nosso passado. Mario deu voz aos emudecidos pela finitude, e os fez contar o indizível, fazendo-se valer de sua condição de seres que não mais pertencem a esfera terrestre e, portanto, poderem dizer o que jamais diriam se estivem ainda sob o foco alheio. E claro: tudo só poderia ser feito de modo cômico, marca registrada de Mario Prata.

Os entrevistados aqui variam entre nomes altamente conhecidos como Pedro Álvares Cabral, Dom João VI, Tiradentes, Castro Alves, Rui Barbosa, passando por outros de menor destaque histórico: Içá-Mirim, Bispo Sardinha, Dona Beja... E é aqui que surge um pequeno problema no livro.

A obra começa sua maratona de 22 entrevistas com o navegador Cabral. Ok, isso pode ter sido proposital, afinal, o escopo era entrevistar personagens que estiveram envolvidos na história do Brasil, e Cabral foi o primeiro “star” que pintou por aqui. E o bate papo não foi lá essas coisas, sucedido então por alguns ilustres desconhecidos: Içá-Mirim, Padre Anchieta, Bispo Sardinha, Arariboia e Calabar. Nomes que fazem pouco sentido na compreensão do senso comum; e como a maior parte dos brasileiros não reconhece essas figuras, as referências e indiretas que dariam a tonalidade jocosa, acaba não funcionando. Portanto, essas entrevistas soam meio enfadonhas, pois as piadas fazem pouco sentido para leitores mais leigos. Obviamente a premissa do livro não é apresentar a biografia dos personagens, contudo a desconexão com algumas figuras quase nos faz abandonar o livro.

Por outro lado, a leitura ganha em vitalidade quando nos deparamos com personalidades que nos são mais familiares: Dona Maria I, Tiradentes, Dom João VI, Marquesa de Santos, Charles Miller. Sim, pois agora sabemos, mesmos que minimamente, quem são essas pessoas que nomeiam ruas, avenidas e praças Brasil afora. Desse modo, as piadas inseridas no texto passam a fazer sentido, o livro enriquece enormemente.

É claro que isso é um problema social e não da obra, propriamente. Afinal, desconhecer aspectos da nossa história é uma chaga difícil de ser vencida, mesmo para um brasileiro que tem certa familiaridade com a literatura, como no meu caso. O que dizer então do brasileiro médio, que lê muito pouco e foi ensinado a desdenhar a história do nosso povo?

De qualquer forma MARIO PRATA ENTREVISTA UNS BRASILEIROS é um livro delicioso, que evolui ao longo da leitura, dotado de uma mescla de referências históricas e a genialidade burlesca de seu autor, é um livro que serve como válvula de escape, entretenimento de primeira..., e esta edição da editora Record ainda traz uma estética bem legal.

Recomendadíssimo!

NOTA: 8,9

sexta-feira, 1 de abril de 2022

RESENHA DE LIVRO – FLOR DA PELE

Pois quando uma pandemia mortífera se espalha pelo mundo, logo os comportamentos mais absurdos se fazem presentes, porque o homem, em toda sua impotência perante a morte, professa hipóteses, sustenta crenças infundadas e há até os que fazem uso da catástrofe para tirar proveito próprio. Desse modo, espalham-se falácias das mais distintas: a doença é um castigo de Deus pela desobediência da humanidade; bruxarias estariam por trás de toda enfermidade; curandeiros utilizando métodos sem nenhuma comprovação científica, a xenofobia se encarregando de atribuir culpa a outros povos e outras culturas.

Engana-se quem pensa que estou me referindo a esta atual pandemia da Covid a qual ainda estamos mergulhados (por falar nisso, você tomou todas as suas vacinas?). O cenário descrito acima é pano de fundo deste romance histórico FLOR DA PELE, do aclamado escritor Javier Moro: no final do século XVIII, a varíola era a doença que estava a apavorar a humanidade por conta de seu alto índice de infecção e letalidade. Para fazer um dado comparativo, o novo coronavírus tem uma taxa de mortalidade global em torno de 6,5%, enquanto que a varíola sustentava taxas de mais de 30%, segundo dados da assessoria da OMS.

A trama nos leva a conhecer uma jovem corajosa, Isabel Zendal, considerada posteriormente como sendo a primeira enfermeira da história a embarcar numa missão internacional. Coordenando um grupo de crianças que eram usadas como instrumento essencial do plano de vacinação, Isabel parte rumo aos territórios espanhóis no além-mar para levar a recém-descoberta imunização contra a varíola às populações pobres. Uma expedição ousada e perigosa, liderada pelo médico Francisco Balmis.

Um dos efeitos mais comuns da varíola eram marcas deixadas na pele daqueles que eram infectados, que se assemelhava com uma flor, o que explica o título da obra. Eram pústulas provocadas no corpo que impressionavam muito, bolhas com pus que surgiam na pele. A doença seguia como uma tragédia devastadora e aparentemente insolúvel, até que um médico inglês chamado Edward Jenner descobriu um método de imunizar seres humanos. Usando o vírus de uma doença que atingiam vacas, cujas lesões provocadas nos animais se assemelhava muito com as chagas da varíola. Jenner reparou que mulheres que trabalhavam ordenhando vacas não apresentavam marcas da varíola, algo que era muito recorrente em grande parte da população. Acreditando que essas mulheres haviam adquirido a mesma enfermidade que as vacas, porém de modo mais brando e, portanto, elas estariam protegidas contra a varíola, o médico resolveu retirar a substância da lesão de uma dessas mulheres e inoculou uma criança de 8 anos. Seis semanas depois, inseriu nessa mesma criança o vírus da varíola e o garoto não contraiu a doença.

Estava descoberta a primeira forma de vacinação da história (o termo vacina foi criado por conta dessa derivação da substância extraída das vacas), a expedição liderada por Isabel e Balmis partiu com a missão de salvar a humanidade da pandemia fatal. O cenário exibido no parágrafo inicial dessa resenha é parte dos problemas que os protagonistas precisarão enfrentar, mais a oposição do clero e a corrupção de autoridades locais.

Acompanhar estes entraves vividos pelo grupo filantrópico é um dos pontos altos do livro. Principalmente porque nós vivenciamos uma pandemia, que embora seja muito menos letal, algumas raízes sociais apresentam comportamentos semelhantes. Mesmo nos dias atuais, em que poderíamos supor que conhecimento estivesse muito mais difundido na sociedade, ainda vemos corrupção, negacionismo, charlatanismos e métodos ineficazes em lidar com a enfermidade global.

Outro ponto alto é o riquíssimo conteúdo de pesquisa do autor. Javier Moro é preciso em datas, lugares e pessoas. Faz uma narrativa fictícia dentro de um cenário factual e usando personagens reais. Ressuscita injustiçados cuja importância foi deixada de lado pela história, como é o caso de Isabel Zendal, e insere aspectos críveis tornando a leitura quase como uma viagem através de um diário fidedigno.

FLOR DA PELE é um romance importante pela semelhança do momento em qual se passa sua trama com nossos dias, o que me faz pensar que a sociedade, de um modo geral, sempre sustentou a ignorância como seu mais notório atributo (a manutenção da irracionalidade talvez seja o modus operandi do Estado, desde os primórdios de nossa convivência em comunidade). Seu criador sabe mesclar cenários reais com personagens importantes do nosso passado e dar-lhes personalidades dentro de uma trama envolvente. Replica a mesma dose aplicada anteriormente ao livro O SÁRI VERMELHO (resenha aqui no acervo do blog) que, embora seja o meu favorito do autor, aqui a continuidade de entretenimento e conteúdo histórico se fazem presentes.

NOTA: 8

domingo, 27 de março de 2022

CONTO - ESTÍMULO

O brilho do metal era hipnótico e persuasivo. A coisa repousava no colo em sono pesado, inofensivo, como se fosse um escorpião sem cauda. Excessivamente alheio, o objeto teve que ser erguido até a cabeça, precisamente um pouco acima da têmpora... Pois tinha que soar perigoso! O cano era quase tão frio quanto o portador daqueles dedos hesitantes; o indicador acariciava levemente o gatilho.

Mas nada acontecia. Nem botes ou picadas..., nenhum disparo.

Faltava algo para o grande momento. Seria estímulo? Então, era o excesso de fraqueza ou ausência de coragem? O objeto pernicioso era devolvido ao colo, enquanto a consciência revirava-se em opiniões, impressões, motivações, contradições.

Era sempre o mesmo cenário: a privacidade do quarto, sentado na cama, próximo da janela, e ficava ali, ouvindo World of Glass, do Tristânia, aguardando a coragem escondida em algum canto dentro de si.

O ato se repetia quase que diariamente. Perdurava até o instante em que se cansava de medir a própria covardia, ou quando se acabavam os argumentos em favor do feito. Então, o objeto adormecido retornava para a gaveta de cabeceira, a música era desligada e o jovem aspirante da finitude, deitava na cama, desligava a luz e tentava dormir.

No entanto, naquela ocasião aconteceu algo inusitado: um expectador surgiu na janela do quarto. Era um homem de meia idade, pele clara, o rosto fino, quase afeminado. Tinha cabelos negros, compridos e lisos, na altura do queixo. Ele fitou o rapaz com curiosidade, como quem admira uma obra de arte indecifrável.

O outro ainda não havia concluído com os rituais, o revolver ainda pairava em seu colo e a música abundava o ambiente. Deparou-se com o sorriso simpático do estranho na janela, que apesar de brando, fora incapaz de impedir o enorme susto.

Mas após algum tempo, aquele sorriso mudou para algo menos inofensivo. De perto parecia travesso e presunçoso.

– Por que você não puxa de uma vez esse gatilho e acaba com isso?

A possibilidade de um instante de insanidade pairou sobre a mente do suicida. Duvidou da existência daquele sujeito na janela. Talvez fosse fruto de sua imaginação, a mente exausta costuma criar cenários por vontade própria, deixando-nos confusos e receosos.

O estranho na janela sustentava o mesmo sorriso e logo notou que não haveria nenhuma resposta, sequer alguma afronta ante sua atrevida presença, sua intimidante pergunta.

– Imagino que lhe falta destreza.

Se é apenas um arquétipo da imaginação, não custa dialogar. O rapaz pausou a música e encarou o sorridente visitante.

– E quem é você? O que quer?

Mesmo demonstrando confiança, os lábios do estranho foram recuando até esconder totalmente os dentes impecavelmente brancos. Disse:

– Sabe, Xavier, eu estive pensando: se a coragem fosse a maior virtude do ser humano, talvez ele próprio já houvesse se dizimado.

O sujeito falava com calma, numa tonalidade quase doce. Parecia um bom homem, tinha um rosto honesto e sereno.

– O que está fazendo na minha janela? E como sabe o meu nome?

O homem fitava o interior do quarto, como se pouco importassem as dúvidas do outro. Parecia mais interessado na bagunça que era abundante no recinto. O típico habitat de um depressivo ou apenas sinal de desleixo?

– Você se chama Xavier de Oliveira – disse o visitante – tem trinta e dois anos, trabalha em um escritório de contabilidade, acredita que essa música será tocada no seu funeral e você sustenta uma inexplicável ânsia por verificar o que acontecerá depois que disparar essa arma virgem contra a própria cabeça..., já parou pra pensar que talvez não aconteça nada?

– Como sabe disso?

– Não disse que sei. Perguntei se você nunca se questionou sobre o nada. Talvez não exista coisa alguma e a morte seja o ponto final.

– Perguntei como sabe tudo isso sobre mim.

– Ah, sobre você... – ele achou graça – Não é o mais misterioso dos homens, não é muito difícil fazer uma leitura de sua vida, caro Xavier.

– Você não fez nenhuma leitura... Foi específico. Como sabe todas essas coisas da minha vida?

Intrigado, Xavier esqueceu do revólver no colo. Que merda de sujeito era aquele na janela? A hipótese de insanidade parecia cada vez mais sedutora.

– O que você gostaria de frasear em sua lápide? – quis saber o estranho.

– Que porcaria de pergunta é essa?

– Então você não planejou nada? Quer tirar a vida sem antes fazer os devidos preparativos? Onde está a carta?

– Carta? – Xavier não conseguia organizar a situação na mente – Do que você está falando?

– Todo suicida deixa uma carta para que as pessoas conheçam suas razões. Alguns mais vaidosos deixam orientações de como as coisas devem ser feitas... – ele olhou para o teto, imersivo – Mas talvez isso seja bobagem. Afinal, ninguém dá a mínima e raramente os caprichos de um suicida egocêntrico são acatados pelas pessoas. Mas eu não posso dizer essas coisas para alguém com uma arma no colo, soaria incentivador.

– Você já as disse.

– É verdade..., peço desculpas.

Estava muito tarde, passava da meia noite, e o homem misterioso aparentava ter todo o tempo do mundo. Xavier buscava entender de modo racional, então resolveu adotar medidas mais drásticas:

– Quer saber de uma coisa, parceiro. Acho que não quero mais atirar na minha cabeça. Eu tô começando a sentir vontade de meter uma bala é nessa sua cara escrota.

– Depois que morrer, que falta você fará, Xavier?

– Não te interessa! – ele apontou a arma na direção do outro – Vaza da minha janela, mano!

– Por que você não experimenta apertar o gatilho, Xavier? Pode ser que após o feito, sua ansiada coragem demore muito e você passe o resto dos seus dias trancafiado numa cela, impossibilitando a execução de seu ilustre desejo... – ele sorriu novamente – Sabe qual é a maior perda que as pessoas sofrem quando vão pra cadeia?

Xavier fitava o estranho diretamente. O revólver rígido apontado na direção dele, embora não houvesse nenhuma intenção pelo disparo. Ele logo soube que não seria dessa forma que o intimidaria.

– As pessoas perdem a autonomia... – respondeu o estranho na janela – E autonomia é o elemento chave do suicida.

A tranquilidade com que falava causava desconforto. Qualquer ser humano em sã consciência ficaria apavorado com um revólver apontado para a cabeça, principalmente se o sujeito não fosse um suicida em potencial, como Xavier pensava ser. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o estranho voltou a falar, ainda com a mesma calma:

– Sabia que o elefante é a única espécie que venera seus mortos?

Silêncio. Xavier baixou o braço, mas manteve-se encarado no estranho. Era um instante quase surreal.

– Eles interrompem a jornada e dedicam alguns minutos de reverência ao esqueleto de outro de sua espécie, quando encontrado no caminho – o sujeito pareceu impressionado com a própria informação que dava – Até mesmo acariciam os ossos..., não é incrível?

– E o ser humano? – apesar do desconforto, Xavier perguntou, como se fosse inevitável.

– O que tem o ser humano?

– O ser humano também homenageia seus mortos.

– Chama isso que vocês fazem de homenagem? – enfim, houve uma gargalhada. Era estranha, desafinada e pareciam múltiplas tonalidades ao mesmo tempo – O rito funeral existe porque o ser humano teme a morte e anseia pela vida eterna. Enterram seus mortos em caixas porque sabem que ele entrará em putrefação rapidamente. E preferem contaminar os lençóis freáticos do que a superfície da terra... Os humanos são todos uns covardes! Eles fogem da morte, acredite no que digo.

O revólver era um calibre trinta e oito, prateado. Comprado novo, jamais havia sido usado. Nem para testar. Xavier olhou para o objeto e então aquilo pareceu algo equivocado. Não sabia mais o significado daquela coisa ou sua funcionalidade.

O estranho na janela parou de rir, lentamente. Enxugou uma lágrima nos olhos, satisfeito. Parecia enternecido com o inesperado encontro.

– O que você quer aqui? – perguntou Xavier, não mais conseguindo esconder o desconforto.

– Quero ver você se matar.

A simplicidade da resposta foi tamanha que soou asquerosa.

– Eu não vou fazer isso..., hoje não.

– Achei que não fosse mesmo – comentou o estranho, o olhar passeou uma vez mais pelo interior do quarto, mas reencontrou o inseguro Xavier, sentado na cama – Você não vai se matar porque não é depressivo, tampouco está doente; não tem uma vida trágica ou mesmo sofreu algum trauma... Não se matará porque sabe que o desconhecido não é uma opção de escolha como fuga desse seu tédio. E embora cada segundo vivido pelos humanos seja um instante inédito, é condição imutável e, portanto, aceita sem questionamento. Mas deliberar por uma possibilidade improvável, como estourar os próprios miolos só pra ver o que acontece depois, seria científico demais até para alguém com inclinações suicidas.

– Tenho coragem de me matar, ok!

– Coragem não é necessário para tal. A falta dela estimula muito mais.

– Por que você não me deixa em paz?

– Quer dizer, na paz de um cadáver? – outra risada – Não farei isso por você. Terá que apertar o gatilho sozinho.

– Vá embora!

– Que tal uma bebida? O álcool pode ajudar a aliviar a tensão.

Desesperadamente, Xavier gritou para que o estranho se calasse, ao mesmo tempo em que voltou a erguer o revólver e, freneticamente, apertou o gatilho sucessivas vezes contra a janela. A inexperiência ou o nervosismo fez com que fechasse os olhos. O barulho dos disparos foi mais perturbador do que imaginava.

Então houve silêncio.

Cheiro de pólvora invadia as narinas, enquanto ele soltava a arma sobre o colchão, como se o próprio objeto o houvesse obrigado a efetuar os disparos. Xavier levantou-se e foi até a janela. Inclinou-se para ver o cadáver de seu desafeto. Porém, não encontrou nada, nem ninguém do lado de fora. Onde deveria haver um corpo perfurado, completamente chamuscado de rubro, havia apenas o quintal vazio e ordinário. O chão estava limpo e imaculado. Nenhum sinal de morte.

Teria sido, de fato, a imaginação de Xavier, que ultrapassara o limite da sanidade, elaborando um diálogo quase palpável com o inexistente? Ou seria fruto de um louco que, ao notar a intenção real dos disparos, correu afoito, tão ligeiro que não foi alvejado? Seria o ocorrido fruto do sobrenatural, cuja manifestação maligna se fez na janela, intencionada em fomentar a perda de mais uma vida? Ou seria um anjo de Deus, que com aquela conversa contraditória, evitou que Xavier disparasse contra a própria cabeça?

Era difícil saber.

Então o amedrontado rapaz fechou a janela com o trinco. Desligou o interruptor e deitou na cama. Sentiu o desconforto por ter se deitado sobre o revólver. Xavier o retirou debaixo de si..., ainda estava quente e cheirava a pólvora. Alucinação ou não, ele finalmente havia criado coragem de apertar o gatilho..., e não sabia se isso era uma evolução boa ou ruim.

***

(Conto Publicado no Recanto das Letras, no ano de 2011)

sábado, 5 de março de 2022

RESENHA DE LIVRO – O FILHO DE MIL HOMENS

O dramaturgo espanhol Jacinto Benavente, salientou que “ninguém aprende a viver pela experiência alheia; a vida seria muito triste se, ao começarmos a viver, já soubéssemos que viveríamos apenas para renovar a dor dos que viveram antes de nós”. Partindo dessa reflexão de Benavente podemos considerar que o ineditismo da vida é fundamento que nos tira do enfado, muito embora a espécie humana, sendo altamente sociável, desenvolve suas experiências através da interatividade com as experiências do semelhante. E a literatura possui alguns títulos pertinentes para pensarmos essa ideia.

Cada vez mais admirador da literatura portuguesa, sempre que tenho a chance, vasculho em livrarias e sebos à procura de escritores lusitanos. E chegou a vez de conhecer Valter Hugo Mãe e sua mesclagem de vivências humanas que compõem este belíssimo O FILHO DE MIL HOMENS.

Novamente o tipo de livro cuja sinopse é insuficiente no sentido de determinar seu conteúdo ou causar interesse imediato: tomado pela mais ardilosa maledicência que invade o ser humano, vazio existencial, o pescador Crisóstomo quer encontrar um filho (veja que não é encontrar o filho, mas encontrar um filho), e por meio disso expurgar sua inadequação permanente. Convencido de que este seria o meio eficaz para eliminar a falta de sentido existencial, o protagonista acredita que um filho vai sanar essa falta. Entremeio, outros personagens logo surgem, em capítulos aparentemente distintos, mas que se trata de outras vidas em busca de preenchimento para o mesmo mal que parece quase inerente ao personagem.

A problemática do anseio de cada um esbarra nos conceitos sociais vigentes, o que impossibilita que a autenticidade individual seja aflorada, restando ressentimentos e dúvidas, então a noção de vazio segue irremediável na vida de todos, porém de forma diferente, revelando cada um deles como individualidades aleatórias e desesperançadas.

O enredo em sua essência é um enfoque da aceitação de quem somos como fundamento para uma vida menos triste. Parece coisa de autoajuda, mas passa longe disso. Valter Hugo Mãe destila os mais distintos personagens e, através de seus conflitos existenciais, a mensagem parece estar lá o tempo inteiro. Sem parecer piegas, aqui os eventos apenas comprovam que a aceitação do lugar onde se está é o fundamento para que vivamos melhor. Não se trata de atributo intrínseco dos envolvidos. Cada personagem narrado nesta bela obra vai encontrar com outro personagem, e o choque de imperfeição deste servirá como encaixe preciso na existência do outro.

Apesar de termos em Crisóstomo como sendo o personagem central, mencionado na sinopse do livro e o capítulo que dá nome a obra é exclusivamente sobre ele, aqui ninguém parece ter demasiado destaque. Todos os personagens dividem espaço de importância democraticamente, o que fez com que a importância de todos fosse notada. Seria um problema caso alguns personagens fossem menos instigantes do que outros, porém, Valter Hugo Mãe soube contornar isso, destilando aspectos distintos na composição de cada um de seus narrados, tornando a todos protagonistas os quais o leitor quer conhecer.

Basicamente todos são necessários por conta da mensagem do livro.

Aqui o sentido da vida está no outro! Essa mensagem permeia quase que toda a obra, assim como é o combustível que os move para longe de suas insignificâncias. Lugar doloroso que carece do convívio para reestabelecer a esperança. E quanto mais inadequado o ser, maior o anseio pela reciprocidade, que geralmente surge em instantes inimagináveis da vida.

O FILHO DE MIL HOMENS é uma obra delicada, de personagens críveis em suas misérias, cuja esperança parece ser o único elemento que jamais morre. Um livro que não adoça as coisas e nos conduz a um lugar de efervescência e espanto, que se situa entre as tragédias e ironias da vida. Sem nenhuma pretensão de ser um mero indicativo de que a felicidade possui uma fórmula, Valter Hugo Mãe, por meio de seus personagens complexos, nos mostra que, onde quer que estejamos, o que nos resta é apenas a vida.

NOTA: 8

sábado, 26 de fevereiro de 2022

RESENHA DE LIVRO – A ELITE DO ATRASO

Por conta do extremismo de direita cada vez mais acentuado, a desigualdade social escancarada e a interminável pandemia do Corona Vírus, a sociedade brasileira vive tempos praticamente inomináveis, tamanha é nossa perplexidade perante o desalento e desesperança do cidadão comum. Violência se tornou medida considerável, a intolerância perdeu a vergonha em se expor, o racismo prolifera e segue cada vez mais indelével, o fantasma da fome está de volta ao país.

Tempos de crise dessa magnitude trazem a oportunidade de se repensar a sociedade, suas raízes, a legitimação de sua história, a desconstrução de ideias que parecem consensual e até incontestáveis. É o que o sociólogo Jessé Souza nos propõe neste conteúdo necessário, que foi revisado recentemente: um ponto de vista fora da caixa; uma reflexão mais enxuta capaz de diagnosticar a bárbara realidade em que nos encontramos.

Para se chegar à compreensão da famigerada elite do tema de sua obra, Jessé percorre três aspectos centrais ao longo deste A ELITE DO ATRASO: nossa enraizada escravidão; a luta de classes por privilégios e distinções presente na política do Brasil moderno; estes dois chegando ao profundo diagnóstico do momento atual do país. Eis o convite a singularidade analítica do autor; o tipo de conteúdo que tenho buscado recentemente, pelo meu anseio de tentar compreender a tragédia na qual estamos inseridos.

Jessé Souza inicia seu trabalho analisando as bases do poder social legitimado, cuja chave de acesso à tal consagração está no pensamento intelectual; e desse ponto de vista, logo conclui-se dois nomes imprescindíveis de influência do pensamento coletivo: o historiador Sergio Buarque de Holanda e o sociólogo Raymundo Faoro. Segundo o autor, estes intelectuais difundiram como nenhum outro a forte propagação da ideia de culturalismo e patrimonialismo incutidas em suas respectivas obras referenciais: “As Raízes do Brasil” e “Os Donos do Poder”, determinando assim o arquétipo específico no pensamento coletivo. Trata-se de um horizonte de definição dos pressupostos para qualquer tipo de conhecimento. Tais obras trouxeram à tona os malefícios que a propagação dos paradigmas do patrimonialismo e culturalismo racista incutidos na sociedade brasileira como um todo. Isso fica explicitado em “Raízes do Brasil”, quando o autor reforça o viralatismo do brasileiro, ou seja, a ideia de que nosso povo, por ser conhecido pela sua afetividade e informalidade, tenderia a práticas corruptas. “Normalmente todas as pessoas são influenciadas pelo paradigma na qual estão inseridas e ninguém, em condições normais, pensa além de seu tempo”, (pág. 15). A escassez de interpretação dominante é apontada e intensificada de modo contundente:

Por conta disso, quem controla a produção das ideias dominantes controla o mundo. E também por isso, as ideias dominantes são sempre produto das elites dominantes. É necessário, para quem domina e quer continuar dominando, se apropriar da produção de ideias para interpretar e justificar tudo o que acontece de acordo com seus interesses”. (pág. 26).

O golpe de 2013 fundamentou o agravamento da desigualdade social, políticas públicas de desconcentração de renda foram adotadas pelos governos de esquerda, fazendo com que as classes mais pobres galgassem melhores condições sociais; tiveram poder de compra e acesso à educação superior (universidades). Isso despertou rancor e indignação das elites brasileiras (exemplo das incursões das domésticas na CLT e o acesso das classes menos favorecidas em ambientes tomados como exclusivos das elites, como aeroportos). Jessé elucida:

O ódio ao pobre hoje em dia é a continuação do ódio devotado ao escravo de antes. Quando as classes médias indignadas saíram às ruas a partir de junho de 2013, não foi, certamente, pela corrupção do PT, já que os revoltados ficaram em casa quando a corrupção dos partidos da elite veio à tona. Por que a corrupção do PT provocou tano ódio e a corrupção de partidos elitistas é encarada com tanta naturalidade? É que o ódio ao PT, na realidade, foi o ódio devotado ao único partido que diminuiu as distâncias sociais entre as classes no Brasil moderno” (pág. 70).

Segundo o autor, o principal foco do patrimonialismo é tornar invisível a privatização do público pelas elites, deixando o Estado como espantalho; mero bode expiatório que camufla o real assalto aos recursos públicos, tornando o caminho livre para o mercado, verdadeiro agente de rapina da sociedade. Nas palavras de Jessé:

Na verdade, o Estado é privatizado em todo lugar, e a noção de patrimonialismo apenas esconde mais esse fato fundamental, possibilitando uma dupla invisibilização: dos interesses privados que realmente dominam o Estado e do rebaixamento geral dos brasileiros, que passam a tratar não apenas os estrangeiros, mas os interesses estrangeiros, como superiores e produto de uma moralidade superior” (pág. 145).

A economista Maria Lúcia Fattorelli, líder da associação Auditoria da Dívida Cidadã, aponta para o que seria o maior entrave em nossa economia e alienação de recursos: a dívida pública brasileira; chaga que consome mais de 38,27% do PIB nacional e, “curiosamente”, passa despercebido pela grande mídia. Este, que considero a principal problemática que atravanca nosso crescimento, também recebe o olhar do autor:

A taxa de juros reais no Brasil é a maior do mundo para remunerar precisamente o 1% mais rico que, no nosso caso, deixa literalmente de pagar impostos. O orçamento estatal, agora pago pela classe média e pelos pobres em sua maior parte, deixa de ser usado em serviços essenciais para pagar de volta aos ricos, por meio da “dívida pública”, o que eles deveriam ter pago como todos os outros cidadãos. Os ricos não só não pagam o que deveriam, como ficam ainda mais ricos porque cobram uma sobretaxa, que é a maior do mundo no caso brasileiro, pelo dinheiro que emprestam e que deveriam ter pago como imposto” (pág. 173).

Eu poderia seguir destacando partes do livro que são elucidativas de suas ideias e temas, mas isso estenderia ainda mais esta já alongada resenha. Vou apenas exibir uma última citação para reforçar a importância da obra e, posteriormente, elencar o único ponto que me incomodou ao longo da leitura:

... grande corrupção brasileira está localizada no Banco Central e é gerenciada por pessoas com doutorado em Chicago, onde aprenderam todas as manhas para transferir o resultado do trabalho coletivo para as mãos de uma meia dúzia. Uma “dívida pública” que não é nem “dívida”, posto que sem contraprestação à sociedade, nem “pública”, posto que cheia de falcatruas privadas, daí que jamais auditada e de conteúdo secreto, assegura o controle do orçamento público pago pelos pobres e pela classe média. Juros extorsivos, onze vezes maiores que os praticados num país de juros médio como a França, garantem uma forma de apropriação da riqueza coletiva de modo opaco e invisível para a população endividada e achacada pelo rentismo” (pág.  238).

Um ponto que me incomodou um pouco foi a forma com que o livro releva as responsabilidades do PT. Qualquer brasileiro que não seja fanático sabe que foi o governo de Lula que fez acordos com gente torpe, como Eduardo Cunha (ele recebeu o sistema Furnas para fazer o que sabia melhor: roubar); que segundo a Secretaria do Tesouro Nacional, enquanto o petista esteve no poder, foi transferido para os barões do sistema financeiro, via juros bancários, mais de 4 trilhões de reais. De fato, foi o PT o governo que implantou importantes sistemas de inclusão dos mais pobres, mas foi também o PT que fez pactos com todo tipo de canalha numa tentativa de se perpetuar no poder.

Enfim, A ELITE DO ATRASO é amplamente rico em discernimento e traz uma diferente perspectiva de nossa tragédia, bem distante do lugar comum ao qual estamos acostumados. É um trabalho que faz questão de destacar que a herança escravocrata ainda é o maior retrocesso da nossa sociedade e não se acovarda ao definir culpados (por exemplo a mídia brasileira) pela tragédia que nos levou a eleição de figuras deploráveis, como a de Jair Bolsonaro em 2018..., um livro fundamental!

NOTA: 8,5