segunda-feira, 29 de maio de 2023

RESENHA DE LIVRO – O LIVRO DOS HOMENS SEM LUZ

Eis aqui o tipo de obra que sustenta um título atraente, uma sinopse promissora e um autor português (verdadeiro celeiro de grandes escritores), elementos que de imediato chamaram minha atenção. O LIVRO DOS HOMENS SEM LUZ não revela se está a fazer referência a si mesmo ou a algum objeto de leitura dos personagens, à priori, não da pra saber. O fato é que este era um livro que despertou muita curiosidade de minha parte..., tanto, que foi um dos primeiros que li neste ano de 2023.

Mas como bem sabemos, isso não necessariamente é uma coisa boa.

O cenário da trama se desenha sobre vidas perdidas em busca de algum significado ou simplesmente escapar da escuridão de suas almas. Aqui nos deparamos com quatro contos aparentemente distintos, mas que conforme avançamos na leitura, percebemos que ambos se entrelaçam em alguma medida. Depois de perder a família num incêndio, um homem afasta-se de tudo, trancafiado num singelo apartamento em Londres quando sua vida passa a ser comandada pela voz de um desconhecido ao telefone; após um bombardeio alemão durante a segunda guerra mundial, um casal fica preso dentro de um minúsculo e fóbico porão por muito tempo; um jovem estudante que em decorrência de sua dificuldade de dormir se vê inserido em abstrações de sua mente, criando uma paranoia sobre o vizinho; por fim, um médico desenvolve uma máquina de tortura a qual fara contestável uso em um paciente inusitado...

Os instantes de tensão criados pela narrativa já acontecem nas primeiras páginas, quando nos deparamos com o conto inicial (meu favorito). As personagens trazem em suas composições características indecifráveis, tudo dentro de uma atmosfera de muita claustrofobia, parece que o tempo todo algo nocivo está à espreita e que logo se descortinará uma tragédia. Então, todo esse desconforto se transforma em dúvida na cabeça do leitor, e instintivamente colocamos em perspectiva a sanidades dos envolvidos.

João Tordo faz sua estreia aqui e, de imediato, demonstra sua habilidade em conduzir o leitor através de lugares de extremo incômodo existencial. O alento dos protagonistas é percebido em suas atitudes, o lugar comum aqui está na loucura..., ou ao menos no inevitável sentido de sua direção.

O segundo conto segue uma linha similar ao primeiro, as vezes até me confundi, achando que ainda estava lendo o mesmo conto. Já no terceiro entramos num universo um pouco mais desesperador e insano. Deste ponto em diante o autor vai seguir uma narrativa mais sórdida, e que ainda neste terceiro episódio funcionou. Porém, o quarto e último conto a coisa parece ter ficado excessivamente asquerosa e animalesca (o conto que menos gostei). Senti-me incomodado com perda de ritmo aqui, foi como se o terceiro conto, apesar de desconfortável, fizesse um prenúncio do que estava por vir. Então no último conto parecia que estava lendo outro livro, desses de terror surrealista. Nenhum problema nisso, mas particularmente eu não gostei da mudança brusca de narrativa.

O LIVRO DOS HOMENS SEM LUZ é um conjunto de quatro longos contos, cujos dois primeiros denotam de forma muito crua solidão, desalento e perda de sentidos, o terceiro é uma angustiante descrição dos limites entre a sanidade e a loucura, então desembocamos no quarto que é um escatológico ensaio do grotesco. Discrepantes entre eles, mas terão alguma ligação que os complementam, vale a pena ser conferido.

NOTA: 6,8

domingo, 14 de maio de 2023

CRÔNICA – O REENCONTRO

Duas senhorinhas se encontraram por acaso dentro do ônibus. A última a entrar rapidamente reconheceu o rosto enrugado da amiga, que estava sentada mais ao fundo do veículo, as antenas levantadas pelo reconhecimento da outra. Houveram sorrisos e acenos de ambas as partes. O reencontro é sempre uma manifestação da esperança em reviver momentos que nos alegra.

Apesar de o tempo ter sido implacável com ambas as mulheres, a visão delas ainda parecia estar intacta, visto que o ônibus estava relativamente cheio, o que dificultaria muito visualizar um rosto familiar no meio da multidão.

Com a destreza de um jabuti, a senhorinha recém-chegada foi desbravando o corredor, até estar diante de sua sorridente colega. Sentaram-se lado a lado, os ombros roçando porque assentos de ônibus parecem não ter sido projetados para passageiros acima do peso (aliás, quase nada neste mundo foi criado levando os gordinhos em consideração), e essa era a condição das duas; dizem que na velhice engordamos porque nessa fase o metabolismo reproduz exatamente o mesmo comportamento de todo o resto do universo: ignora os idosos por completo.

Logo atrás do assento das vetustas amigas, eu havia interrompido a leitura que fazia para acompanhar todo aquele caloroso reencontro que, a julgar pelo entusiasmo, abraços e beijos, imaginei que elas não se viam desde o início das obras de construção das pirâmides do Egito..., e como elas não conseguiam se conter devido a muitas novidades para relatar, eu soube que seria difícil continuar lendo.

Depositei o marca página no centro do livro, fechei-o e, completamente derrotado, resolvi acompanhar a trivialidade mundana que passava do lado de fora da janela. Contudo, era difícil não prestar atenção na conversa das velhinhas, tamanha era a euforia. Elas falavam sem parar, num timbre elevado que ameaçava a soberania do motor estrepitoso do ônibus. Não demorou muito e eu estava tomado pelos causos narrados de longínquos tempos, elas falavam com nostalgia de uma juventude que imaginei ter sido vivida na companhia de Cabral e os lustrosos marujos portugueses que cá desembarcaram..., aliás, não somente a minha atenção fora roubada pela prosa avolumada, como também a de metade dos passageiros do ônibus.

Afinal, eram amigas pré-históricas, certamente não se viam desde a ressurreição de Cristo e, portanto, tinham muito o que conversar.

E o papo rolou solto, as “garotas” falavam de suas grandes aventuras, lembravam com brilho no olhar dos caras mais gatos daquele tempo, detalhavam coisas que parecia fazer sentido somente para gente daquela época..., enfim. O reencontro de duas metades de uma alma no interior do coletivo.

E olha que eram seis e meia da matina! Imagine como seria esse encontro, tipo, após as dez, em local menos conturbado, quando já fora possível apreciar um café revigorante e o corpo já atingira um ganho de energia decente.

Mas eis que o famigerado destino sempre nos alcança, e foi quando uma das velhotas anunciou que seu ponto de desembarque estava chegando e o papo teria que ser interrompido.

“Graças à Deus!”, pensei comigo, já resgatando o livro de dentro da mochila para retomar a leitura. Ainda poderia apreciar alguns parágrafos, antes que o meu destino chegasse.

– Anota meu número aí – disse uma das velhas – pra gente marcar um almoço.

– Vou anotar – respondeu a outra, e começou a vasculhar na bolsa, à procura do aparelho – Ué, será que eu deixei meu celular em casa.

– Você continua a mesma desatenta de sempre – a amiga gargalhou.

– Achei! – e a senhorinha digitou na tela os números que lhe eram oferecidos, de modo lento e sistemático – Agora eu vou fazer a chamada e você grava o meu número no seu telefone.

Um som polifônico encheu o recinto.

– Tá bem aqui na tela o seu número – disse a velhinha no canto da janela.

– Então já pode salvar.

– Deixe-me ver...

A essa altura, eu já tinha guardado o livro novamente, intrigado que fiquei com o processo de troca e salvamento do número telefônico. E o aparelho celular parecia mais indecifrável do que uma avaliação de mecatrônica. A velhinha cutucava a tela, arrastava o dedo desordenado, afastava a tela do rosto para conferir algo. E foi nesse momento que concluí que ao menos aquela velhinha não enxergava tão bem quanto eu imaginava.

De repente, outro som de toque iniciou, agora no celular da outra amiga.

– O que você está fazendo? – ela quis saber, enquanto olhava para o próprio aparelho a tocar em sua mão.

– Ué, eu apertei pra salvar aqui, mas ele tá fazendo chamada de volta.

– Você sabe salvar números no seu aparelho?

– É claro que eu sei! – mas a expressão dela era um mar de insegurança – É que eu estou sem os meus óculos.

– Deixa que eu salvo aqui no meu celular o seu número – sugeriu a outra – depois eu te ligo pra gente conversar.

– Tá bom então...

A velhinha do canto começou a vasculhar as opções do aparelho, igualmente ao que a amiga havia feito, há pouco. Do assento logo atrás eu notei que ela sustentava o mesmo olhar de quem não faz a menor ideia de como se salva um número de telefone.

Outra vez um celular tocando.

– Agora é você que está me ligando.

– Não liguei nada! Eu apertei sem querer.

– Conseguiu salvar?

– Deixa eu ver aqui.

As duas olharam para a tela..., quer dizer, nós três olhamos, porque do assento de trás eu me estiquei todo pra ver se havia dado certo.

Não havia.

Então mais dedos passeando pela tela de touchscreen. O ônibus diminuiu a velocidade para estacionar no ponto. Alguém deu uma gargalhada, mas não deu pra saber se era por conta da falta de intimidade com a tecnologia por partes das distintas senhoras.

– E então?

– Então o que? – disse a outra e se levantou para descer.

– Salvou?

– Meu telefone tá maluco.

– O meu também.

O motorista aguardava o desembarque dos passageiros. A velhinha em pé agora estava tomada pela indecisão, não conseguia decidir se ia em direção às escadas de saída ou se continuava tentando salvar o precioso número da melhor amiga.

– Se você fez a chamada o número vai estar no histórico de ligações feitas – era uma jovem de uniforme escolar quem dava a dica para as velhinhas. Também devia estar aflita acompanhando a cena.

– E pra que serve isso?

– É só a senhora entrar no histórico e salvar o número dela.

– Vou pedir ao meu neto pra fazer isso.

– Ela vai esquecer... – disse a velhinha sentada, e abriu a bolsa de onde retirou um pedaço de papel e uma caneta – é muito esquecida.

– Não vou esquecer.

O motorista quis fechar a porta, mas as pessoas gritaram para esperar.

– Pode falar – disse a velha sentada e apoiou o papel na lateral da bolsa.

– Falar o que?

– O seu número né!

– Não dá tempo.

– Fala logo!

– Nove..., nove...

A porta do ônibus foi fechada.

– Peraê, motor! – gritaram os passageiros.

– Nove...

– Gente, eu tô com a viagem atrasada!

– Não seja insensível, motorista!

– Oito..., cinco...

– Peraí, você falou quantos nove?

O motor roncou, mas não saiu do lugar.

– Nove...

– Calma aê, motor! O senhor não tem mãe?

– Nove...

– Você está começando a ditar do início?

– Nove..., nove...

– Quantos nove você falou?

– Me da esse papel que eu anoto – era a estudante, impaciente – Pegou o celular da velhinha, entrou no histórico de chamada, anotou o número no papel e entregou para a sorridente senhora.

– Já que se comprometeu a anotar, porque você não salvou na agenda?

– Nem me ocorreu fazer isso.

– Tchau, amiga! – disse a velhinha, já descendo as escadas.

O motorista deu a partida, meio puto por conta da falta de compreensão das pessoas em saber que ele tinha horário a cumprir. A velhinha remanescente ainda fez algum comentário sobre como se faz para salvar um número na agenda telefônica e, bem atrás dela, estava eu, certo de que precisaria escrever sobre aquela manhã infestada de reencontros, tecnologia e números nove...

terça-feira, 25 de abril de 2023

RESENHA DE LIVRO – TUDO SÃO HISTÓRIAS DE AMOR

Tive meu primeiro deslumbramento diante da literatura de Dulce Maria Cardoso, ao me deparar com seu excelente CAMPO DE SANGUE. Em seguida, ao término da leitura de OS MEUS SENTIMENTOS, soube que tinha em mãos uma das maiores escritoras da era contemporânea (ambos livros possuem resenha aqui no blog). Desde então, sou um buscador de suas obras, as quais elevam minha admiração por sua escrita imersiva, quebradiça e orgânica. Agora foi a vez dessa deliciosa coletânea de contos TUDO SÃO HISTÓRIAS DE AMOR.

Aqui temos um compilado de histórias de diferentes tons e intensidades. Como toda coletânea, vamos gostar de alguns contos, de outros nem tanto, ora notaremos o tom experimental inserido pela autora, noutras vezes iremos nos deparar com sua característica pegada sensível de narrar. O título que parece nos remeter à ideia de amor de um modo romântico e clichê, revela-se sua verdadeira face de ironia, ou quem sabe, de fato o elemento do amor, mas interpretado por Dulce como algo mais próximo do congênito; as ações humanas emanadas daquilo que lhes é mais característico, que acontece naturalmente e, portanto, tem-se a universalidade de um aspecto essencial, que nem sempre é bonito, agradável ou normativo; que não está limitado à seara romântica; algo onipresente em todas as ações..., eis o amor do ponto de vista da autora.

Desnecessário falar dos contos porque são, essencialmente, distintos e isso tornaria esta resenha um tanto extensa. Quem já conhece Dulce Maria Cardoso sabe que pode levar este volume pra casa, tranquilamente, pois está garantido o arrebatamento, a viagem através do doce e do amargo do ser humano. Mas, só pra mencionar um, eu gostei demais do conto “Este azul que nos cerca”, narra o dia-a-dia de uma comunidade primitiva que vive numa pequena ilha onde funciona um farol. A vida seguia no mais sublime tédio, quando desembarca na praia uma bela moça chamada Dóris e desestabiliza à todos.  Já na introdução do texto, Dulce faz um belo prenúncio:

“Naquele sítio o bem era quase impossível. A noite também existe para adormecer a maldade mas o farol não o permitia. Naquele sítio o bem era quase impossível porque a maldade ia crescendo em nós, noite após noite. Talvez esta seja uma explicação par ao que aconteceu. Talvez seja a única explicação possível”.

Alguns contos são incursões dolorosas, de relatos duros e cruéis da natureza humana. Outros nos levam a estranha sensação de perda. Às vezes a leitura nos provoca, faz-nos pausar, suscita discrição, timidez, e guardamos a leitura na memória como se fosse um tesouro precioso. O vazio desproporcional que vez ou outra nos acomete faz nivelamento com a presença que se esquiva.

A narrativa em diversos momentos escancara lições que se ampliam, as inconstâncias que nos é mais característica está lá, o tempo todo, por isso essa parte tão incompreendida desse amor preeminente. Por essas e outras razões ele continuará na esfera de nossa ignorância; o amor sempre será um sentimento cuja maior característica é sua natureza escapadiça.

TUDO SÃO HISTÓRIAS DE AMOR é meio que um livro de entrada, por seu aspecto experimental. Quem gosta de contos vai adorar esse volume diversificado e imersivo, cuja autora soube exatamente nos dar o testemunho do amor, na precisa medida que dele sabemos: absolutamente uma onipresença difusa, excêntrica e universal.

NOTA: 7,4

segunda-feira, 20 de março de 2023

RESENHA DE LIVRO – O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

O filósofo grego Aristóteles fazia uma distinção que acreditava ser fundamental entre o trabalho do historiador e do poeta. Segundo sua análise, o historiador precisa amparar sua obra pelo compromisso com a verdade, enquanto que o poeta não carecia de nenhum tipo de conformidade com fatos. Contudo, sabendo que historiadores são seres humanos e, portanto, suscetíveis de parcialidade opinativa, fica meio evidente que há alguma relação entre esses dois gêneros, pois talvez seja inevitável criar uma obra histórica sem alguma lacuna imaginária, assim como a ficção bebe na fonte da história com frequência.

A trajetória da família mais conhecida do mundo, sagrada para muitos, foi contada aqui pelo mestre José Saramago, dentro desta já mencionada promiscuidade de gêneros, precisamente para nos entregar um excelente trabalho ficcional. Tal observação precisa ser enfatizada, pois toda a polêmica que este O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO causou, e continua a causar até hoje, é justamente pela falta de sensibilidade crítica de se encarar a obra como deve ser: uma ficção que faz uso de elementos e personagens históricos.

Aqui não será necessário fazer uma sinopse, tendo em mente que a vida e obra de Jesus é imensamente conhecida até por quem não é religioso. Mais proveitoso será fazermos um breve resumo do percurso das personagens, sob o olhar humanista do autor, que para quem não sabe, vale ressaltar que Saramago era ateu.

A trama começa com uma inversão cronológica, então acompanhamos um capítulo introdutório que narra a dramática crucificação, com uma minuciosidade nos detalhes capaz de já prender o leitor. É um preâmbulo fabuloso, riquíssimo e encorpado, a ponto de nos fazer vislumbrar os instantes finais de Cristo; talvez o prefácio mais extraordinário que já li. Então, na interação de Jesus e os dois ladrões crucificados com ele, o autor introduz a versão humana de sua personagem, cujo aspecto mais notório é a imperfeição: “... este que ainda agora louvou o bom ladrão e desprezou o mau, por não compreender que não há nenhuma diferença entre um e outro, ou, se diferença há, não é essa, pois o bem e o mal não existem em si mesmo, cada um deles é somente a ausência do outro”.

Em seguida, tem-se início o livro e somos apresentados à José e Maria, casados, a convivência das famílias naquele tempo, as dificuldades e escassez dos pobres, o patriarcalismo inerente daquela comunidade, a inferioridade conformada das mulheres... O narrador vai mirar em José por um tempo, até chegarmos ao nascimento de Jesus e o triste e inesperado fim de seu pai terreno.

Em Jesus, aqui vemos períodos em que a bíblia não mostra ou não se interessa: a infância e adolescência. E eis que um jovem Jesus parte em peregrinação para desvendar os tormentos que aparentemente herdou do pai, o que o faz viver as experiências necessárias para o moldá-lo como o escolhido de Deus. Nessa aventura, confronta-se com os doutores do templo, conhece um ser intitulado Pastor que o instrui e o instiga a reflexão, apaixona-se por uma mulher que se torna sua companheira, encontra-se com Deus para embates subjetivos, assume o protagonismo como pastor de homens e aceita assim seu destino...

A obra impressiona não apenas no aspecto imersivo, mas também na riqueza de detalhes do cotidiano daquele tempo. Certamente José Saramago dedicou intensos estudos sobre história daquela região e fez uso disso para requintar sua trama. É como se cada frase, cada instante narrado, houvesse minuciosa preocupação com os detalhes da vida na época.

O estilo narrativo é amplamente sedutor, busca incluir o leitor em suas divagações por vários instantes, faz comparações situacionais do tempo relatado com momentos mais recentes da história; Saramago provoca o leitor a fazer pausas para pensar. É como se o narrador estivesse tentando provar para o leitor a verossimilhança de seu relato.

O título da obra pode muito bem ser parte do estilo irônico característico de José Saramago. Afinal, se levarmos em conta os quatro evangelhos canônicos reunidos na bíblia, a condução humanista do autor possui a pretensão de chamar a atenção do leitor para preocupações com grupos excluídos. A ironia incutida por Saramago visa à reflexão sobre ideologias impostas.

A palavra evangelho tem sua origem no grego, que significa “boa nova”. Desse ponto de vista etimológico, a boa nova nesta versão de Saramago do evangelho de Cristo, é a benevolência. O aspecto divino de Jesus aqui é deixado de lado, para ser apresentado ao leitor um homem, nascido como todos os outros, cheio de inconstâncias, dúvidas e culpa; um homem que faz sua travessia existencial de forma hesitosa, mas que por meio das experiências acaba por adquirir senso ético e moral. Em determinado momento, como nos é sabido, a divindade vem ao encontro de Jesus, e então esta personagem humanizada confronta a evidente tirania de Deus sobre os homens, o que em minha opinião foi o ponto mais elevado de toda a trama. Semelhante aos deuses gregos que na literatura tratam os homens como se fossem suas marionetes, aqui a deidade se mostra autoritária, vaidosa e, por isso, é questionada por Jesus, mesmo que este siga com o cumprimento de seu destino de morrer na cruz, como o cervo que se abate em sacrifício. Saramago chega a inverter a fala de Cristo, quando na iminência da morte, olha para o céu e diz: “homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”.

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO é literatura de ficção, impecavelmente desenvolvida para desassossegar. Um romance que se refere a fatos históricos sem querer apresenta-los como verdades, mas que inevitavelmente insere na mente do leitor o desejo de que assim talvez houvesse ocorrido. Um livro que vai além da banal discussão sobre ficção ou fato; este é um precioso volume clássico da literatura que não fala apenas sobre a vida de Jesus, mas acima de tudo, sobre a vida de todos nós seres humanos...

NOTA: **10**

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

RESENHA DE LIVRO – FAHRENHEIT 451

Falar de um mundo onde os livros foram extintos da humanidade por meio de um projeto estatal de destituição social, imediatamente atraiu meu interesse, assim como a vontade de deixar alguns parágrafos aqui sobre o assunto. Na sociedade imaginada pelo escritor norte americano Ray Bradbury, os livros são considerados uma ameaça; uma plataforma que deve ser destruída em prol da manutenção da ignorância coletiva. Neste FAHRENHEIT 451 o ser humano está inserido numa organização social avançada tecnologicamente e de imbecilização generalizada, tornada massa de manobra incapaz de senso crítico..., e infelizmente a semelhança com nossa realidade atual, por enquanto menos trágica do que no livro, facilmente será notada pelo leitor.

A personagem principal da trama é o bombeiro Guy Montag, cuja função da instituição foi invertida; aqui os bombeiros não mais zelam pela segurança da sociedade, mas fazem o trabalho de invadir e queimar livros que são encontrados nas casas de alguns transgressores, como uma espécie de polícia fiscalizadora. Porém, a rotina do bombeiro é quebrada quando ele conhece sua nova vizinha, Clarisse McClellan, moça completamente distinta do modelo padrão alienado, ambos estabelecem alguns poucos diálogos, mas que são suficientes para atormentar a mente de Guy, tornando-o um crítico de seu próprio labor.

O autor prefere seguir uma linha narrativa totalmente pessoal, passamos toda a leitura vislumbrando apenas aquilo que Guy enxerga do mundo. Não há aqui explanações sobre como aquela constituição social se fez, nem as complexidades ocasionadas por um mundo de gente vivendo feito zumbis. Bradbury opta por uma visão menos didática, faz com que aprendamos sobre seu universo através do que está ocorrendo com suas personagens, quase uma leitura em primeira pessoa.

Conforme interage com a vizinha, Guy percebe a discrepância relacional existente na interação com Clarisse e quando está com sua esposa, por exemplo. O bombeiro vislumbra o modo desprendido, interessado, questionador e autêntico da vizinha, enquanto a esposa é o arquétipo perfeito do resto da sociedade: uma mulher superficial e insossa, cuja existência é inteiramente voltada para o entretenimento tecnológico.

O filósofo Ortega y Gasset escreveu: “vivemos num tempo de chantagem universal, que toma duas formas complementares de escárnio: a chantagem da violência e a chantagem do entretenimento. Uma e outra servem sempre para a mesma coisa: manter o homem simples longe do centro dos acontecimentos”. A chantagem do entretenimento citada pelo pensador é o principal elemento usado na alienação coletiva aqui; por meio das muitas distrações tecnológicas os cidadãos deixaram de ser criaturas reflexivas, não mais notam o ambiente no qual estão inseridos..., perderam as características que lhes eram mais naturais: empatia, gentileza e socialização. Então, quando a chantagem do entretenimento deixa de funcionar, entra a chantagem da violência e a ordem das coisas se restabelece... Eis a maior semelhança com o nosso mundo atual.

Logo ao iniciar a leitura, percebe-se que o universo distópico criado pelo autor já está internalizado na sociedade; a proliferação de uma humanidade alienada se mostra irredutível e o trabalho dos bombeiros como rotina, sendo eles os responsáveis por expurgar os resquícios que ficaram soltos após a massificação da ignorância. As lacunas devem ser fechadas para que o sistema de mediocridade e cegueira se mantenha intacto. Quem são os arquitetos desse sistema? Ray Bradbury não nos conta, embora a ambientação narrativa faça o trabalho de fornecer ao leitor um vislumbre do que aconteceu com a sociedade.

Outros autores também se aventuraram a narrar esse tipo de contenção da humanidade. Saramago com seu Ensaio Sobre a Cegueira nos mostra uma sociedade cuja cegueira vai muito além da ausência da visão, mas aponta os prejuízos causados pela falta de um olhar crítico sobre a sociedade e da necessidade de zelo daqueles que podem ver. George Orwell, com uma trama mais parecida com a de Bradbury, nos entregou 1984 e seu olhar distópico de um mundo tomado pelo totalitarismo nos moldes fascistas. Temos também Aldous Huxley com o aclamado Admirável Mundo Novo e uma sociedade futurista, cujos habitantes são condicionados biológica e psicologicamente a viverem em harmonia com as leis sociais estabelecidas. O que difere a obra de Bradbury de todas as demais citadas é que aqui não há a preocupação em esmiuçar as origens daquela organização social, nem fazer reflexões acerca das problemáticas ocasionada pela mesma. No universo de FAHRENHEIT 451 o leitor é atirado sem nenhuma cerimônia e vamos aprendendo sobre aquela sociedade através das experiências e diálogos de suas personagens. Particularmente, este modo de condução não me incomodou, mas pode desagradar alguns leitores.

Mais me incomodou foi a escassa presença da personagem Clarisse, que encanta logo que aparece, mas é rapidamente retirada da trama. Também achei pouco aproveitado o comandante dos bombeiros Beatty, figura visivelmente estereotipada do vilão casca dura e ao mesmo tempo intelectualizado; ambas as personagens poderiam ter sido melhor aproveitados.

FAHRENHEIT 451 é um livro inteligente, de leitura descomplicada, cuja trama de fácil compreensão nos remete ao universo pessimista de Ray Bradbury para nos fazer compreender, entre muitas lições, sobre a importância dos livros, que mesmo num mundo moderno onde a tecnologia seduz e nos rouba atenção, ainda é a maior fonte de sustentação de conhecimento.

NOTA: 7,4

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

CRÔNICA - DEDO NA GARGANTA

O escritor Caio Fernando Abreu escreveu: “Para mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta”.

Quando penso nessa ideia, a qual concordo plenamente, trago à tona ponderações sobre todo meu conteúdo nestes quase vinte anos parcialmente dedicados a escrever. Quais destes textos realmente emergiram de uma erupção interior, tal qual um vômito, pois estavam entalados na garganta e precisavam sair, como numa terapia solitária, somente eu e a tela em branco? E quais foram os textos escritos sem nenhuma ânsia, aqueles que nasceram simplesmente de um amontoado de palavras desalmadas, cujo único intento é elevar o ego deste moroso aprendiz?

Fora do contexto a afirmação do Caio talvez soe confusa; compreender a analogia de se escrever com o ato de introduzir o dedo na goela, parece um pouco abstrato. Na carta composta para um amigo, o escritor ressalta que escrever é o ato de sangrar, machucar por dentro, deixar sair toda loucura interior. E de modo semelhante, para mim, a referência é absolutamente elucidativa e ilumina sombras, tal como a luz do sol: escrever é botar pra fora toda a angústia presa dentro da gente, e o que sairá talvez seja inominável e muitas vezes pode causar desconforto, desespero, angústia ou mesmo incompreensão. Mas apesar do sentimento ao contemplar o resultado da criação de qualquer coisa, é fatal que ela saiu de dentro! Fragmento estranho, como a gosma escarrada, ao relento, que agora precisa ser trabalhada incessantemente, até se tornar, ao menos, algo plausível..., porém, não necessariamente aceitável.

Concluí que raramente isso acontece comigo. Meus trabalhos quase nada tem de visceral, além do intento honesto de expressar alguma opinião, embora quase sempre inconclusiva. Meus textos são esquecíveis porque sou imensamente racional e ponderado. Raramente permito que a angústia assuma a ponta dos dedos no teclado, porque sou covarde demais para suportar aquilo que sairá após o dedo indicador invadir a boca e tocar a faringe; tenho medo desse conteúdo entalado, então sigo empurrando com goles violentos de cerveja, o nó na garganta, para que ele retorne às profundezas nem um pouco seguras de meu ser.

Ainda na carta escrita para José Márcio Penido, Caio revela aquilo que considera como sendo a única motivação justificável para a escrita, num conselho ao amigo sobre como seguir produzindo neste universo pungente de criar. O dedo na garganta não é condição para o alívio, mas o requisito necessário. Sem isso, a construção literária é vazia e desinteressante. Portanto, isso fez com que eu me perguntasse:

O quão suportável é o vazio desinteressante do que escrevo?

Se é assim como disse o escritor, então porque continuar escrevendo? Por que insistir em algo que compreendo como sendo apenas um monte de parágrafos idiotas que não dizem nada além do óbvio? Talvez eu esteja sendo um pouco severo comigo mesmo, afinal, gosto de escrever e me sinto bem quando o faço, embora confesse que tenho feito cada vez menos, o desprendimento me fazendo crer que estou me distanciando de meu ser, ou numa conclusão, digamos, mais atual: estou me rendendo ao pragmatismo social.

Não é fácil regurgitar o que está entalado na garganta e talvez somente os grandes escritores da nossa história conseguiram realizar tamanha proeza. Contudo, acho que já escrevi o bastante para aceitar que a frivolidade é como a saliva que antecede o grande ato; que talvez a repetição insistente faça com que definitivamente o dedo alcance a profundidade ideal, e então despejarei algo verdadeiramente digno de ser lido.

O sociólogo Zygmunt Bauman resumiu o ato de escrever como algo quase inerente de sua natureza. Ele diz: “parece que sou incapaz de pensar sem escrever. Suponho que antes que escritor, sou leitor: há toda uma série de retalhos, fragmentos e pedaços de ideias que lutam por nascer, cujos fantasmagóricos espectros (aterradores, inclusive) rodopiam, se amontoam, condensam e dissipam uma e outra vez, e que apenas ao serem captados e capturados por nossos olhos, podemos imobilizar, fixar e limitar dentro dos contornos. E devem ser escritos um atrás do outro para que a ideia – arredondada para caber nos mínimos toleráveis – nasça finalmente, ou para que, caso contrário, seja abortada ou – se já chegou morta nesse mundo – enterrada para sempre”.

No filme A Esposa, do diretor Björn Runge, acompanhamos a história de um escritor que, ao ganhar o Nobel de literatura, precisa lidar com os ressentimentos do passado, papel belamente interpretado pelo ator Jonathan Pryce, que vive o instante em que deveria ser o ápice da glória literária, mas precisa confrontar com a mediocridade da própria existência ao encarar a verdade de seu sucesso, escondido na figura da esposa do título, interpretada pela maravilhosa Glenn Close. Uma belíssima obra que denota os efeitos do ostracismo, de um homem que foi beneficiado por um mundo essencialmente machista..., o filme revela de forma crua, que enquanto ele cuidava da prole e executava as tarefas banais do cotidiano, o dedo na goela estava ocorrendo no seu escritório, pela esposa, e os méritos e benefícios ficavam com ele, que assinava todas as obras.

Um filme que mexe, principalmente, mas não somente, com quem se arrisca a mergulhar neste incerto labor de desenvolver a linguagem escrita.

Certa vez, alguém me perguntou como se faz para ganhar dinheiro escrevendo. A primeira coisa que me ocorreu perante tal questionamento, foi a completa hesitação; afinal de contas, eu nunca ganhei dinheiro escrevendo, no máximo recuperei parte do valor investido. Ou seja, como posso ensinar aquilo que não sei como deve ser feito? Além do mais, receio que não seja esse o intuito de quem escreve... Enfim, respondi ao meu esperançoso interlocutor, que se a intenção dele era ganhar dinheiro, que existem outras maneiras mais eficazes de se fazer isso; aconselhei que não gastasse seu precioso tempo desenvolvendo uma habilidade que não é garantidora de retorno substancial, tampouco simbólica; que a escrita é quase como uma maldição: é inescapável para alguns, e amplamente opressiva com todos os seus poucos fiéis; que talvez você até aprenda a enganar e encontrar a medida de consumo preferencial dos leitores modernos, o que parcialmente seria uma conquista, mas jamais levará o nome de escritor, no máximo, um bom contador de estórias.

E não, isto que acabou de ser relatado aqui, da forma mais tosca possível, não foi o entalo desentalado. Meu dedo continua bem distante da garganta e o nó retornando ao interior, com tragadas incansáveis de álcool, efeito contrário ao que aconteceu com os goles que Edgar Alan Poe ingeriu e então vomitou seu esplêndido O Corvo. Nem de longe quero me comparar a este gênio da literatura, é apenas uma tentativa de desencorajar aqueles que enxergam na escrita, uma alternativa de sucesso nestas incertas trilhas do nosso sistema capitalista.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

RESENHA DE LIVRO – O XANGÔ DE BAKER STREET

Pode-se dizer que Jô Soares era um polímata; o cara foi ator, humorista, apresentador, dramaturgo, diretor de teatro, músico, artista plástico e, o que em especial nos interessa aqui, escritor (ocupação que eu ainda sustentava algum ceticismo, pois a única obra que havia lido do nosso eterno gordo foi As Esganadas, que tem resenha aqui no blog e não achei lá grande coisa). Portanto, quando adquiri este O XANGÔ DE BAKER STREET, foi meio que uma segunda chance de viajar no universo de Jô Soares, mas com aquela má vontade típica de quem desconfia de gente que se envolve em coisas demais e acaba pecando pela falta de foco.

E para vergonha deste preconceituoso leitor que vos escreve, também para deleite do mesmo, nunca estive tão errado. Sim, eu já sabia que esta é a obra mais famosa do Jô, então era esperado que a leitura fosse aprazível. Só que nem sempre isso ocorre, há livros que são o ápice de determinados autores, porém, a gente ama aquele livrinho menos notório de sua bibliografia..., eis a magia da leitura: uma experiência distinta e pessoal para cada um (esse fenômeno já aconteceu com vários escritores que li). Mas no caso deste O XANGÔ DE BAKE STREET, é com prazer que reafirmo o que a grande maioria dos leitores já sabiam: é um ótimo romance policial!

Na trama, o Rio de Janeiro do século XIX recebe a visita do ilustre detetive Sherlock Holmes e seu fiel companheiro John Watson, para desvendar o sumiço de um precioso violino Stradivarius, que foi presente de vossa majestade, o próprio imperador Pedro II, para a baronesa Maria Luísa Catarina de Albuquerque. Nesse ínterim, a famosa personagem de Arthur Conan Doyle é requisitada pelas autoridades brazucas para também dar sua contribuição na investigação de assassinatos em série que vem acontecendo na capital do Brasil.

Colocadas as circunstâncias, temos a nossa história. Jô Soares faz de sua narrativa uma mescla equilibrada de humor e suspense, algo incomum e talvez até contraditório para um romance policial, mas que o autor soube dosar bem estes recursos permitindo que a trama seguisse intrigante e ao mesmo tempo cômica.

Outro elemento que funcionou muito bem, foi a inserção de características peculiares nas personagens, mesmo em se tratando de Sherlock Holmes, figura altamente conhecida da literatura mundial. Alguns desses aspectos funcionaram muito bem e deixaram o famoso detetive um pouco mais autêntico. Não vou entrar em detalhes para não estragar a surpresa de quem ainda não leu, mas digamos que o Sherlock do Jô Soares possui os elementos que precisava para então ser um autêntico detetive do ponto de vista do nosso querido gordo. Ainda não tive o prazer de ler as aventuras de Sherlock sob o ponto de vista da infalibilidade investigativa proporcionada por seu criador escocês, mas o Sherlock Holmes do Jô Soares, mais autoconfiante e menos eficiente, foi uma agradável surpresa.

Outro aspecto positivo fica por conta dos diálogos da época, as formalidades na convivência burguesa, os detalhes de cenários e lugares famosos, personalidades reais e fictícias, tudo cuidadosamente elaborado para criar imersão na leitura. Aqui o autor abre seu arsenal de sátiras, ironias, o já mencionado humor e o suspense encarregando-se de mudar drasticamente o tom da narrativa quando o misterioso assassino está em cena.

Se houve um item que me causou breve incômodo é com a tonalidade prolixa e sem muita objetividade da trama. Quase, porque o autor soube contornar, ou quase nos fazer ignorar isso, com uma narrativa fluida e leve, alternando de forma eficiente os instantes de humor e suspenses. De qualquer forma, o livro como um topo poderia ser um pouco mais curto, há momentos aqui completamente desnecessários.

O XANGÔ DE BAKER STREET é uma leitura aprazível, de personagens assertivamente bem desenvolvidos, charme descritivo, humor e uma condução um pouco extensa. Imagino como se sentiria o autor de Sherlock Holmes, se tivesse a chance de ler esta versão menos formosa de sua personagem mais famosa. Nem posso imaginar o que Doyle consideraria (aquele bigodão dele me faz pensar que não iria aprovar o Holmes do Jô), mas cá entre nós, eu gostei muito!

NOTA: 8,5

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

RESENHA DE LIVRO - A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

George Orwell foi, ao mesmo tempo, um crítico de governos totalitaristas os quais testemunhou em seu tempo, e um visionário do atual tempo em que estamos. E especificamente neste ano de 2022, um brasileiro lúcido diria que o escritor é mais do que um visionário; de fato, quem acompanha a realidade da atual política, onde nos defrontamos com a fragilidade das democracias no mundo, testemunhamos a intolerância coletiva cada vez mais centralizada em suas bolhas e a proliferação massiva de desinformação... Bem, talvez este singelo brasileiro se sentisse como mais um bicho pertencente a Fazenda do Solar.

Reitero que não costumo escrever sobre livros clássicos aqui no blog, e estava convicto de que não resenharia este A REVOLUÇÃO DOS BICHOS, afinal, quase tudo o que poderia ser pensado sobre este livro já o foi..., e por gente altamente qualificada. Mas a vontade de falar sobre esta excelente obra se deve ao crítico momento em que estamos vivendo neste ano. Pois a descrição do nascimento da barbárie está devidamente retratada aqui e foi como se eu estivesse lendo um agourento presságio.

Ao construir esta ficção distópica, George Orwell tinha por intenção criticar em específico o regime ditatorial estalinista (o livro foi publicado pela primeira vez no ano de 1945, quando o ditador russo Joseph Stalin estava no poder), cuja barbárie oprimiu o povo russo até o ano de 1953. O autor fez de seu conto uma sátira que explica de modo impressionantemente didático, como políticas extremistas surgem e se proliferam até alcançarem o poder máximo de um povo.

Na trama, um levante ocorre na singela Fazenda do Solar onde os animais se reuniram sob a convocação de alguns porcos, para depor o regime dos humanos, pois se viam convencidos de que a tirania da espécie dominante era o grande problema de suas limitadas vidas e que o mundo ideal que todo animal sonha depende do esforço coletivo em sobrepor o regime dos homens. Revolução feita, os animais assumem a fazenda e começa-se, então, um novo regime político, cujas funções são distribuídas conforme cada espécie, cabendo aos porcos o encargo de ser a parte legislativa desse novo processo.

Dentro do implantado Estado da bicharada, é instaurado símbolos identitário dessa liberdade arduamente conquistada: bandeira, hino, mandamentos, bordões, e o mais importante: uma proliferação massiva do medo coletivo, porque os inimigos (no caso aqui os homens e um porco considerado traidor do novo regime), espreitam constantemente e podem retornar a qualquer momento para reimplantar a escravidão coletiva.

Só que houve um paradoxo nisso: conforme o tempo vai passando, os animais, que antes criticavam o método escravista que lhes era imposto, passam a trabalhar cada vez mais; os símbolos foram se modificando de modo a perderem seus caráteres inclusivos; a liberdade sendo tolhida discretamente; os mandamentos trocados por instruções totalitárias e o medo seguiu como o elemento central para que a opressão sobre a fazendinha se mantivesse crescente em prol de interesses escusos.

Enquanto os animais trabalhavam de forma incansável sob a ideia de união que lhes soasse equitativo, os porcos cada vez mais se estabeleciam no comando e suas ações eram cada vez menos claras e incompreensíveis. E ao menor sinal de desconfiança de algum animal, sempre surgia um porta voz do “governo” trazendo justificativas insustentáveis e o constante reforço para a necessidade de união dos animais em prol de não permitirem que o mal retorne.

Soa familiar, amigo brasileiro?

Orwell criou uma sátira genial porque é cheia de elementos sórdidos incutidos na política e que ainda ressoam na contemporaneidade, ao mesmo tempo em que usa bichinhos que nos são familiares dentro de uma linguagem que é quase lúdica. A premissa de mostrar de modo simples a ascensão do fascismo em todos os seus elementos nocivos, operando de dentro de um sistema implantado, sem que nada seja percebido, instigando um sentimento de patriotismo banal no qual se estabelece a tirania de um grupo sobre outros ou minorias, desencadeando uma desigualdade violenta.

Resolvi resenhar este livro, porque é precisamente tudo o que está acontecendo no nosso país: o governo atual tem aspirações fascistas e segue a cartilha do absolutismo, que já têm seus símbolos erguidos: camisas amarelas, geralmente da seleção brasileira, frases prontas de fácil memorização e apelo nacional (Brasil acima de tudo e Deus acima de todos), grupos conservadores quase sempre religiosos, bordões geralmente de mal gosto e extremo nacionalismo, e principalmente, a proliferação do medo constante ao alegar que, ou é este governo ou o comunismo nos devorará, tendo o partido dos trabalhadores como o principal correligionário de um suposto inferno que nos espreita constantemente... Ou seja, talvez estejamos vivenciando o nascimento de mais um regime autoritário e extremista, exatamente como aconteceu na singela fazendinha do Solar.

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS é mais uma obra genial de George Orwell, porém absurdamente contemporânea, e quanto a isto devo salientar que é uma pena... Livro imprescindível para o leitor que deseja conhecer a mácula do autoritarismo de modo franco e descomplicado.

NOTA: 8,2

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

RESENHA DE LIVRO – CEM ANOS DE SOLIDÃO

Quem acompanha as resenhas aqui do blog sabe que não sou muito inclinado a resenhar os clássicos da literatura. E embora o livro alvo desta reflexão seja daqueles gigantes, tão aclamado que até quem não tem o hábito de ler já ouviu falar, eu resolvi registrar alguns parágrafos, pois minha leitura da obra se mostrou um misto de prazer, nostalgia, comoção e algum enfado.

A sinopse meio que não instiga, pelo menos foi essa a impressão que tive quando precisei fazer uma sinopse verbal para uma colega de trabalho, curiosa sobre do que se tratava o livro: basicamente acompanhamos a história de sete gerações da família Buendía, cujos membros parecem destinados a viver alguma forma de solidão por todas as suas vidas, e então passar adiante essa dor essencial. Sim, pois “os filhos herdam as loucuras dos pais”, nas palavras do próprio autor e nobel de literatura Gabriel Garcia Marques. Concomitantemente à trajetória da família Buendía está o nascimento da fictícia cidade de Macondo, onde se passa todo o romance e palco de situações que misturam o real e o místico; Macondo quase chega a sustentar o mesmo teor transcendental que ocorre com o cortiço, no livro de mesmo nome do escritor Aluísio Azevedo; aqui diferindo apenas pela narrativa situacional que não desvia a atenção das personagens. Mesmo assim, Macondo paira constante por toda a obra, como um ilustre coadjuvante.

Gabriel Garcia Marques é um escritor prolixo, quase uma metralhadora de palavras. Seus textos são diretos, mudam de foco despudoradamente e raramente se utiliza de recursos para descansar a leitura. Isso pode pegar de surpresa os desavisados, o que não foi o meu caso. Portanto, esta observação é válida, principalmente neste CEM ANOS DE SOLIDÃO, pois como estamos diante de muitas personagens, o estilo do autor pode causar um pouco de confusão. Mas para ajudar com isso a edição que li da editora Record traz uma árvore genealógica dos Buendía, já no início da leitura, o que facilita bastante com este entrave.

Talvez o grande sucesso dessa obra, sem mencionar o evidente talento desse autor em narrar grandes histórias, se deve ao fato de que CEM ANOS DE SOLIDÃO é uma narrativa centrada em personagens marginalizados que sofrem as opressões de regiões colonizadas, deixando a evidente identificação com a essência latino-americana do autor. Com sua mística Macondo, Gabriel Garcia Marques mostrou o lado sofrido e trágico da América Latina de um modo que talvez nenhum outro escritor conseguiu fazê-lo até hoje.

A narrativa segue na terceira pessoa, onde acompanhamos desde os primeiros membros da família, em cada geração particular, atentando-se para os requintes evolutivos da cidade e dos costumes. O autor tece sua história de forma imediata, e quando nos damos conta já se passou mais uma geração e estamos acompanhando um novo Buendía.

Fantasia e realidade também se misturam em todo momento, tão mesclados que fica difícil saber em quais instantes estamos diante de uma situação real ou imaginária vivida pelas personagens. Às vezes me perguntava se determinada situação era possível mesmo ou se estava acompanhando um relato alegórico cujo intento é mostrar algo subjetivo. Gabriel Garcia usa de maneira eficiente uma escrita cheia de promiscuidade linguística, talvez no intuito de tornar-se um pouco mais digerível toda a crueza e selvageria que permeia a sociedade daquele lugar.

Particularmente, eu fiz pausas para entender alguns instantes, principalmente por conta da já mencionada inserção de muitas personagens dentro de uma narrativa que pouco descansa. Alguns gostamos mais, outros nos afeiçoamos menos, aspecto absolutamente normal quando se está a ler um livro tão amplo de personagens; eis aqui mais um destaque deste extraordinário escritor: sua capacidade de desenvolver personagens altamente críveis, tornando os relatos próximo de uma pegada documental. Mesmo assim, houve instantes em que foi inevitável algum enfado na leitura, o livro ora se mostra um pouco truncado.

CEM ANOS DE SOLIDÃO é uma obra densa, de fácil linguagem, prolixa como já é marca de seu autor, e cheia de simbolismos, personagens amplamente humanos, tudo dentro de uma narrativa poderosa, dura e ampara cem anos de muita proximidade com a tragédia que tanto nos é característica.

NOTA: 8,8

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

RESENHA DE LIVRO – FAZES-ME FALTA

O nosso gênio Machado de Assis narra em sua obra Ressurreição, que somente a natureza seria capaz de exibir um sarcasmo amplamente benévolo e anódino ao misturar espinhos e rosas. Pois é exatamente disso que se trata este FAZES-ME FALTA, outro livraço da escritora portuguesa Inês Pedrosa, precisamente da sutileza do sarcasmo incutido no amor.

Conheci a literatura de Inês Pedrosa por acaso; vi um de seus livros na estante de minha ex-mulher. Eu retirei da prateleira, olhei capa, virei para ver a contracapa, e este me pareceu desinteressante (O livro era Desamparo, tem resenha sobre esse episódio aqui no blog). Contudo, a leitura se mostrou um inesperável deleite de poesia em prosa. Desde então não parei mais de procurar pelos livros de mais essa exímia representante da belíssima literatura lusitana.

Resumidamente temos aqui a história de um homem e uma mulher que viveram uma relação de discrepantes sentimentos e que estão a refletir sobre como isso ocorreu (e ainda ocorre) em suas existências. O livro é exposto em forma de cartas (no sentido epistolar, não de cartas propriamente ditas) no qual os dois amantes, um deles já falecido, sequenciam seus monólogos instigantes e nostálgicos num retrato fidedigno do luto, da dor e, ao mesmo tempo, da beleza humana. A “falta” que intitula a obra vai além da mera ausência física de um dos dois, precisamente remete à noção de perda de nós mesmos, enquanto almas que antes não se reconheciam como perdidas.

A delicadeza linguística da autora é o que de mais instigante temos na obra; Inês Pedrosa tece uma literatura assertivamente ordinária, porque são duas existências em confissões íntimas, e precisamente ela envolve por sua forma simples. Faz com que nos apaixonemos pelas personagens, rapidamente, para dentro de uma imersão que torna inevitável não refletirmos sobre a perda de quem amamos, pois como mencionei, uma das personagens faz suas reflexões postumamente. Desse modo, paira constante um sentimento de vazio e de arrependimento, como se algumas coisas na vida deixaram de ser vividas ou que simplesmente uma vida se perdeu cedo demais... enfim.

Há momentos belíssimos que se tornam ainda mais marcantes pela linguagem afável e verossímil da autora, cheias de atos involuntários e inexplicáveis. Como quando a personagem liga para o número do ser amado, apenas para escutar sua voz gravada na secretária eletrônica, uma vez que este morreu e há o receio na outra de esquecer como era sua voz... Até o dia em que ele liga e não há mais nenhuma voz do outro lado, fazendo com que a familiaridade finalmente se perca, vencida pelo distanciamento irredutível da morte.

Um aspecto interessante ocorre nas diferenças de sentimentos e constatações feitas ao longo da narrativa. Por exemplo, a personagem masculina transparece um bocado de culpa por tudo aquilo que supostamente teria se recusado a desfrutar com sua amada por puro capricho, assim como há momentos em que este deixa nítido alguma insegurança afetiva de sua parte. Já a personagem feminina, e minha favorita, apesar de jovem, é astuta, segura e audaz; expressa seu desapego de convenções sociais e expressa o destemor daquilo que viu como verniz do anseio de um relacionamento onde o amor romântico despe-se, dando lugar ao amor de amizade.

FAZES-ME FALTA é uma obra relativamente pequena em tamanho, mas profunda em sentimento. Faz um paralelo extremamente eficiente entre um homem e uma mulher que, distanciados pela implacabilidade da finitude, resolvem trazer à tona o que há de mais palpável em suas almas melancólicas e arrependidas.

NOTA: 8,5

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

CRÔNICA - NÃO FARÁ DIFERENÇA ALGUMA, POIS JÁ PERDEMOS!

Não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Recentemente, encontrava-me preso num estressante engarrafamento no centro da cidade onde moro, quando um homem de meia idade surgiu em minha janela com um sorriso encabulado no rosto. Baixei o vidro e, sem cerimônias, ele foi me perguntando seu eu estava interessado em comprar um saquinho de pururucas que sua esposa havia feito. Agradeci e disse que não tinha interesse. Minha única vontade era que aquela fila infernal progredisse e eu pudesse ir pra casa. Ainda sorrindo desconfortavelmente, o homem perguntou se eu não poderia ajudá-lo com algum dinheiro... Friamente falei que não tinha. Notei os olhos dele ficando rasos quando seguia para o carro de trás e eu fechava o vidro, completamente indiferente.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Outro dia, estava dentro de um ônibus lotado, a caminho de casa. Era começo de noite, havia muito congestionamento e atrasos nos coletivos, cujo espaço interno era disputado por trabalhadores e estudantes. No trajeto, o ônibus parou para que uma mulher grávida embarcasse, apesar da superlotação e mesmo sob o risco de alguém atingir sua barriga, que já se encontrava bem saliente. Após alguns minutos ela se convenceu de que ninguém lhe cederia um lugar para se sentar, e simplesmente se espremeu entre os passageiros que estavam em pé e foi se sentar na escada do ônibus.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Como faço todos os dias nos horários de almoço, fui até a praça do centro da cidade para ler um pouco e, de imediato, encontrei um assento na sombra, o que não é muito simples de se conseguir. Pensando na enorme sorte, corri para me apossar do banquinho, foi quando notei o motivo pela qual ninguém havia sentado ali; é que o banquinho estava todo respingado de sangue seco. Mesmo com certo asco, tentei me encolher no canto do assento, até que encontrasse outro lugar para ler, foi quando escutei dos taxistas que trabalham naquele ponto, que na noite anterior um sujeito sem teto havia sido linchado até a morte por outros moradores de rua, exatamente naquele banquinho.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Nesta mesma praça, todos os dias cumprimento um homem muito velho cuja idade avançada o faz caminhar de forma lenta e sôfrega, porém, mesmo naquela altura de sua vida ainda precisa vender picolés puxando um carrinho, as mãos tremendo ao conduzir seu instrumento de escravização. Sempre que ele passa por perto de uma lixeira verifica seu interior à procura de latas de alumínio para vender..., um idoso que facilmente deve ter mais de 70 anos e ainda precisa sair de casa para ganhar o sustento, sob o sol impiedoso de Colatina.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Um enorme gato branco apareceu na minha rua se arrastando e golfando, dando sinais de que estava ferido ou envenenado. Encolheu-se num canto da calçada, incapacitado de seguir caminho devido a dor que certamente sentia. Neste momento, surgiu um cidadão pela rua, alto e saudável, caminhando de forma objetiva. Ao avistar o gato ele não precisou cogitar o que via, tratou de aplicar no animal um chute que o atirou a considerável distância. O homem seguiu seu caminho cantarolando descontraidamente, e o gato, ainda mais encurvado, voltou a se arrastar, na tentativa de se proteger de alguma forma.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Li recentemente o caso de uma mulher que foi espancada até a morte pelo marido, bem na frente dos dois filhos pequenos. O cara se entregou e foi levado para a delegacia, mas liberado no dia seguinte, pois alegou que estava muito abalado emocionalmente, por isso cometera o assassinato. Ele recebeu o direito de aguardar pelo julgamento em casa.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Conversei recentemente com um conhecido que está há quase um ano procurando emprego, vivendo de pequenos bicos para sustentar a família. Comentei pateticamente que estava mesmo muito difícil encontrar trabalho e ele concordou exibindo um sorriso cansado. A verdade que não precisava ser dita, pois ele já sabia, é que ninguém aceita empregar um homem negro, de pouca escolaridade e que já cumpriu pena por roubo.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Testemunhei um acidente de trânsito, em que uma senhora pilotando uma moto, bateu na traseira de um carro, próximo a uma faixa de pedestre. A mulher fora arremessada para o canteiro no meio fio e, por sorte, sofreu apenas alguns arranhões na perna. O motorista do carro, um rapaz jovem e estressado, saiu pela porta e, no lugar de prestar algum socorro à senhora caída no meio fio, sacou o celular e foi tirar fotos de um pequeno amassado que o impacto deixou na lataria do carro. Alguns transeuntes que passavam socorreram a mulher, colocaram ela num banquinho, deram-lhe um pouco de água. Ela parecia desnorteada, mesmo assim o dono do veículo amassado foi até onde ela estava para gritar algumas ofensas e dizer que ela teria que arcar com as despesas...

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Tudo isso que contei aconteceu em menos de duas semanas, na cidade de Colatina, no norte do Espírito Santo, onde moro. Lugar que sempre foi considerado relativamente pacato e bom de se viver... Tais acontecimentos devem ser evidências incontestáveis de nossa derrota como sociedade!

Pois não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo... Todos nós já perdemos!