sexta-feira, 15 de setembro de 2023

RESENHA DE LIVRO – COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA

O filósofo Michel Foucault sugeriu que toda obra escrita possui autonomia e se basta. Segundo ele, “À crítica não cabe destacar as relações da obra com o autor, nem querer reconstituir através dos textos um pensamento ou uma experiência; ela deve antes analisar a obra em sua estrutura, em sua arquitetura, em sua forma intrínseca e no jogo de suas relações internas”.

Diante do exposto, podemos levantar duas hipóteses a respeito desse belo trabalho do também filósofo Alain De Botton, intitulado COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA: estamos diante de uma excelente análise sobre a obra de Marcel Proust, que mais do que esmiuçar a sensibilidade literária, serve como conteúdo de orientação que nos ajuda a viver melhor e, portanto, fazendo completa oposição ao que Foucault disse. Ou podemos dizer que, de fato um clássico da literatura se basta por si, não cabendo à crítica nenhum tipo de contextualização, e precisamente foi o que fez De Botton ao jogar luz sobre a obra e, no lugar da análise, apenas nos deu um vislumbre mais amplo de um gênio chamado Marcel Proust.

Pensando que é quase impossível para um escritor que analisa a obra de um companheiro de profissão se manter imparcial, creio que aqui encontraremos ao longo da leitura, um bocado das impressões de Alain De Botton, o que particularmente considerei um acréscimo requintado.

COMO PROUST MODE MUDAR SUA VIDA se trata de um exame detalhado do mais aclamado livro de Marcel Proust, EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, o autor se utiliza de uma linguagem humorada, cheia de aspectos de autoajuda e, porque não dizer, quase terapêutica. De Botton nos revela este mundo de Proust como um sistema composto de diferentes perspectivas, indo das mais corriqueiras, às mais complexas.

A motivação do autor é um tanto pertinente e convidativa, faz com que participemos de seu ponto de vista. De modo a priorizar a simplificação de sua escrita, De Botton nos oferece lições no lugar de filosofar. Ou talvez estivesse apenas simplificando algo a tal ponto que transformou a contemplação implícita na filosofia em algo altamente didático.

Sem se ater à conceitos universais, ou seja, algo que sirva para todos, o propósito do autor é precisamente aquilo que fez com que ele fundasse sua famosa School of Life (escola da vida): a chance de vivermos melhor. Apesar da estrutura feita em capítulos curtos sempre apontando para uma lição específica, além de um título similar a obras de autoajuda, pois usa o termo “como” para dar ênfase a algo que o conteúdo oferece, não considero esta obra, uma autoajuda em seu estado bruto. Vejo este trabalho mais como um guia sugestivo de possibilidades.

COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA não é nem de perto uma análise precisa ou uma biografia de Marcel Proust, apesar das muitas referências e relatos sobre sua vida. Mas pessoalmente falando, sinto como se a leitura desse livro fosse uma viagem singular, além de deliciosa, pois li sobre um autor sem antes ter lido sua obra..

NOTA: 9,1

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

CRÔNICA - QUASE IMPORTÂNCIA

É dia de saber do futuro! E você, cético leitor, pode não acreditar nesse tipo de assunto sobre adivinhação, mediunidade, gurus e feiticeiros, mas eu gosto de projetar as coisas boas que me anunciam. Garanto que as melhores escolhas que fiz na vida, foram fundamentadas pelas orientações de um xamã espiritual.

É bom deixar as coisas bem esclarecidas, pois odeio ser acusada de não ter avisado em tempo sobre aquilo que estou propondo em meus textos.

Entro em roupas leves e práticas, não uso nada que leve mais de dez segundos para vestir; nada de tiras, amarrados, lycras, apertos, dobras, redobras..., a leveza dos tecidos serve apenas para encobrir meus mistérios epidérmicos. Meus cabelos são sempre cortados muito curtos porque não os quero pentear. Maquiagem? De jeito nenhum! Minha existência já foi naturalmente colorida pela vida.

Saio bem cedo para evitar o trânsito. Tomo um ônibus e sigo até o endereço de minha mais recente cartomante. É uma moça jovem, no máximo uns trinta anos de idade e acho que isso a incomoda; este é um ramo em que as pessoas velhas costumam receber maior credibilidade. Ela sustenta um ar exageradamente sério, usa óculos de grau e lenço sobre a cabeça, tudo para parecer mais velha. Usa muitas joias no pescoço e nos pulsos; tem um tique de ficar empurrando os óculos que escorregam pela base do nariz; vários escritos tatuados ao longo dos braços os quais desconheço o idioma. Faz pausas constantes durante suas poucas falas e gesticula muito com os braços. Vez ou outra retira os óculos, fecha os olhos e encena um instante reflexivo... Sim, ela finge! Mas acho que com o passar do tempo se livrará dessa autoimagem clichê de guia espiritual.

Quando aperto o interfone ela atende com voz mal-humorada. Seu elevado prestígio não permite que lhe acordem tão cedo. Considera-se profissional requisitada demais e não precisa levantar da cama antes das nove da manhã. Mas ela sabe de minha natureza ansiosa, e quando estou em sua porta às sete e quinze da “madrugada”, ela resolve abrir uma exceção.

Não é uma questão de gentileza; a cartomante não me ignora porque eu pago três vezes mais para que me atenda fora de seus horários estabelecidos... Não, eu não sou rica, se é o que está pensando. Meu conceito de riqueza é um pouco diferente do senso comum: rico não é aquele que possui mais dinheiro, e sim, aquele que dele menos precisa. Só não me tomem como uma mulher medíocre, eu adoro dinheiro.

De qualquer forma, não há nada que um bom café seja incapaz de elevar. E quando ela me viu parada em sua porta, com dois expressos quentinhos, seu humor melhorou um pouco.

O consultório é a sala..., uma sala ordinária demais para uma cartomante. Sua ânsia por parecer o modelo incontestável de tradutora do futuro parece se resumir em sua aparência. Do contrário, haveria mandalas, amuletos, talismãs e incenso por todo canto.

– Minha mãe disse que eu preciso arranjar um emprego e não uma cartomante – comentei, enquanto ela me encarava com atenção afetada – ela vive dizendo pra eu fazer coisas as quais não estou envolvida: arranjar trabalho, fazer um curso de culinária, ler Augusto Cury, voltar para igreja, começar uma dieta porque acha que estou deprimida...

– Por que Augusto Cury? – ela pergunta.

Eu havia dado um extenso monólogo de sugestões e a outra se interessou apenas pelo escritor... Definitivamente não devia deixar as previsões do meu futuro com alguém mais jovem do que eu.

– É o autor favorito dela... – falei, indiferente, acho que a cartomante notou mudança em meu comportamento, porque de repente, ajeitou-se no tapete, como se o papo finalmente tornara-se interessante – Mas quer saber: eu acho que mamãe vive me dando conselhos porque ela deseja que eu me torne melhor para ela.

– Como assim?

– É isso mesmo que você entendeu... Mamãe não quer que eu seja uma pessoa melhor, propriamente. O que ela quer mesmo é que eu me torne mais fácil para ela.

A cartomante não disse nada. Odeio conversar com gente que não expressa nenhuma opinião. Gosto que discordem, concordem, mandem-me para a merda ou digam que sou louca. O silêncio das pessoas me soa perigoso demais. Entretanto, não sei se uma consulta com uma cartomante poderia ser considerada exatamente uma conversa.

– Por que você está deprimida?

– Eu não estou deprimida.

– Mas você acabou de dizer que está deprimida.

– Eu disse que minha mãe acha que estou deprimida e que uma dieta sempre ajuda a curar depressão.

Outra vez fez silêncio e continuou o trabalho de organizar cartas sobre a mesa de centro... E eu ansiosa pelas boas previsões! Até porque naquele momento já estávamos sem café.

Por que essa mulher vive me pedindo para falar da minha mãe?

Quando fiz essa pergunta a cartomante respondeu que eu já falava sobre ela sem que fosse preciso pedir. Mas então por que cargas d’água ela segue me pedindo para falar sobre mamãe?

“Porque eu acho que quando está falando sobre ela, na verdade é apenas uma projeção; você só está falando de si mesma”.

Se essa resposta era pra ser ofensiva não funcionou porque eu não entendi o que ela quis dizer. Não sou uma narcisista que só sei falar de mim mesma. Nem retardada por falar de uma pessoa me referindo à outra... E se o assunto “mamãe” vem à tona tantas vezes é porque ela vive me perguntando, ora! Se eu quisesse falar do meu presente ou do meu passado eu procuraria um terapeuta e não uma cartomante.

Falei para ela se concentrar no meu futuro, então ela virou algumas cartas. Previu algo sobre eu ser o entremeio de destinos esparsos, de expectativas muito perto de se concretizarem e terminou dizendo que em breve eu farei uma viagem de lazer, mas que será importante para aspectos profissionais.

– Mas eu nem tenho um emprego.

– Vai ver essa viagem abrirá as portas de uma boa profissão.

– Eu não quero trabalhar... Você disse que será uma viagem de lazer!

– Bom, é o que está dizendo as cartas – ela odeia ser contrariada – O jogo apenas mostra o caminho. Trilhar é uma decisão sua.

Dito isso, ficamos ambas olhando uma para a cara da outra. Eu esperando mais um pouco dessas malditas cartas, tipo o local exato em que irei viajar ou se estarei afetuosamente nos braços de um homem charmoso. Quanto a cartomante, certamente me encarava porque queria que eu me desse por satisfeita, afinal, aquilo eram cartas e não o google maps. É sério, isso foi ela quem disse, do alto de seus péssimos modos.

Talvez eu devesse mesmo procurar uma cartomante mais velha. Aquela garotinha ainda não sabia ler as preciosas cartas com maior profundidade.

Após a sessão, fui me sentar na pracinha perto do centro da cidade, esperando uma ligação que não vinha. Fico um pouco receosa quando estou perto de espaços verdes, porque não gosto muito de interagir com a natureza. Sempre considerei a natureza cruel, mas por mais que tente me manter longe, ela sempre dá um jeito de me inserir em suas diabruras.

A natureza nunca se esquece dos seres que habitam suas entranhas.

De repente, um pássaro voou bem perto da minha cabeça e pousou no gramado ao lado do banco onde eu estava. Mais ou menos do tamanho de um pombo, era cinzento e parecia agitado, procurando alguma coisa. Não demorou a encontrar no chão um fino rabo que sacolejava isoladamente. A destemida ave reivindicou com o bico aquele rabo perdido e o engoliu de uma só vez... Não satisfeita, voltou a procurar pela suposta presa, que agora havia se tornado criatura cotó... Então a ave chegou mais perto de mim, parou quase ao meu lado, a cabeça girando por todas as direções à procura de um pobre animal sem rabo.

A obstinação daquele bicho me surpreendeu. Ela receava minha presença, mas não a temia. Pelo contrário, chegava cada vez mais perto. E imóvel no assento do banquinho, eu apenas esperava pelo desfecho daquela aventura, talvez até torcendo pela ave corajosa que se comportava com uma audácia que jamais vi num animal...

Mas após algum tempo, ela se cansou e voou desapontada. Sua mortífera investida aérea lhe rendera apenas um esquelético rabo.

Passados alguns minutos, quando me convencera de que o celular não prestaria nenhum manifesto, levantei-me para voltar pra casa e, nesse momento, ao erguer uma das pernas, foi que encontrei o fugitivo sem rabo. Era uma lagartixa ou algo do tipo, refugiada e imóvel sob o solado do meu pé esquerdo.

Petrificada, o bicho também parecia me encarar, mas aquela era uma expressão totalmente diferente do olhar do pássaro. Eu via temor na fixação congelante da lagartixa. Sem dúvida era uma sobrevivente, mas permanecia atenta para o perigo que eu representava. Justo eu, que sem querer havia salvado sua vida.

Por que será que eu sempre tiro conclusões óbvias das coisas? De onde vem essa minha hipótese de que um caçador que desafia os próprios limites para atingir seu objetivo, só pode ser mais corajoso do que a caça que fornece uma parte do seu corpo para continuar viva?

Desejei boa sorte para a valente lagartixa e voltei para casa sem minha ligação, mas com a mente cheia de dúvidas advindas da natureza e sua interminável crueldade.

Antes precisei fazer uns serviços numa agência bancária, que por sorte não estava muito cheia. Enquanto aguardava com a senha na mão, notei (era impossível não notar) duas mulheres espremendo espinha uma da outra. Inclinavam-se com unhas erguidas e afiadas, dedos que pareciam prestes a atravessar o crânio, um enrosco obsceno que me fez pensar em acasalamentos de espécimes exóticas.

Nada contra gente que curte expressar afeição apertando cravo no rosto como macaco procurando insetos no pelo do outro. Mas fazer isso dentro do banco pareceu exagerado e até perigoso... Sim, pois estávamos correndo um sério risco de ter uma gosma branca respingada sobre nós... Acredite no que digo: eu já vi espinha voar enormes distâncias quando são explodidas do rosto das pessoas, parecem até um vulcão de lava amarelada.

Um colega que não vejo há muito tempo, disse, certa vez, que terminou um relacionamento de anos porque não aguentava mais ser espremido pela garota. Falou que chegou a fazer um tratamento intensivo contra acnes não por considerar cravos um incômodo, mas porque odiava ser torturado pela parceira.

Fiquei pensando que talvez uma das moças que se alternavam em espremidas dentro do banco fosse a ex citada por meu colega... Vai ver ela finalmente encontrou alguém que adora garimpar espinha tanto quanto ela. Se isso for verdade, eu terei que retirar o que disse, afinal, talvez a natureza não seja tão má assim, pois une semelhantes.

A cartomante disse, uma vez, que eu encontrarei um cara parecidíssimo comigo, mas que eu não deveria me envolver porque seremos como polos iguais de uma corrente elétrica: ou nada acontece ou a porra vai explodir violentamente.

Pra dizer a verdade, o conselho dela não me deixou com medo. Aliás, eu estou convencida de que as cartas revelam apenas o futuro das pessoas; o conselho fica por conta da cartomante, que no caso dela, pareceu-me um conselho infestado de ressentimento, sim pois as cartas costumam me revelar boas coisas que estão por vir. Talvez quando jogue as cartas para si mesma o efeito seja estritamente o contrário.

Desde então vivo atenta para o encontro com esse tal cara parecidíssimo comigo, porque se seremos assim, tão semelhantes, logo nos veremos dentro de um banco espremendo espinha um do outro, feito dois chipanzés...

Mas sinceramente, ou esse pedaço de mau caminho está demorando demais, ou ele passou pela minha vida e, destrambelhada que sou, acabei não notando...

sábado, 2 de setembro de 2023

RESENHA DE LIVRO – ESTAÇÃO CARANDIRU

Em 1989, o médico Drauzio Varella aceitou exercer um trabalho voluntário de prevenção à AIDS, dentro da maior casa de detenção da América do Sul, a Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, por estar situada no bairro de mesmo nome. Seus muros abrigavam algo em torno de 7.200 presos, era praticamente uma pequena cidade.

A obra Estação Carandiru é o resultado dessa rica experiência vivida pelo médico, durante seu tempo de trabalho no recinto. Temos aqui uma compilação de histórias de vidas de gente que, ausentes de recursos substanciais ou de ferramentas de inclusão social, a contingencia os conduziram ao mundo do crime, geralmente pela via da necessidade de ganhar dinheiro ou por conta de relacionamentos conflituosos, salvo raras exceções.

Ao longo de uma década na convivência com os mais distintos indivíduos cumprindo pena, Drauzio foi uma presença constante, não somente no trabalho de prevenção no qual havia sido contratado, mas estabelecendo-se na Detenção como figura de confiança e apoio, fazendo amizades que duram ainda hoje, mal sabia o médico precisar a riqueza de conteúdo que encontraria naquele lugar improvável.

Este é, portanto, o ponto mais alto desta obra, ganhadora dos prêmios Jabuti de não ficção e livro do ano de 1999: os mais distintos e inusitados relatos das pessoas que viveram parte de suas vidas naquele espaço precário e fóbico; pessoas comuns, que transgrediram a sociedade vigente, cometeram crimes bárbaros e foram retirados do meio de convivência. Engana-se o leitor que acha que Estação Carandiru relata apenas o fato mais conhecido sobre o presídio: a trágica chacina ocorrida em 1992, quando a tropa de choque da polícia invadiu o presídio e abateu 111 presos. Engana-se também quem pensa que estamos diante de uma crônica da vida de bandidos.

Não. Este livro é um retrato da precariedade dos cidadãos mais abundantes no país: pessoas vindas da classe menos favorecida, que por vício ou falta de oportunidade, fizeram o que fizeram e foram parar naquele imenso aglomerado de condenados, num espaço físico minúsculo onde existe um rígido código de leis não escritas, elaboradas pela própria população carcerária, na qual a contravenção geralmente resulta na pena de morte sumária. É claro que é preciso uma boa dose de ausência de julgamentos por parte do leitor para que nasça essa leitura enriquecida.

A condução narrativa do autor é de viés jornalístico, o que contribui para a fluidez. Atribui-se a isso, uma linguagem leve, ágil e imparcial. Drauzio se limita a contar o que lhe fora relatado, sem opinar ou interferir com moralismos, aqui encontramos justamente o palco montado na exatidão de seus envolvidos. O trabalho do autor foi o de deixar que ele exista...

Até mesmo a fluência da linguagem, o peculiar estilo dialogal da “malandragem” se manteve fiel aos relatos. Quando é a vez de um preso narrar, o que foi parar no corpo do livro é sua precisa descrição, sem que houvesse intervenções gramaticais por parte dos editores.

Estação Carandiru é um belo trabalho documental, cuja premissa não é a de meramente fazer alguma denúncia da precariedade do sistema prisional brasileiro, embora a evidência seja inevitável para o leitor. Creio que maior do que o problema das penitenciárias deficientes, é a alienação da sociedade mais pobre, totalmente ignorada pelas instituições estatais desse país, o indivíduo desassistido sabe que o inferno da detenção espreita sua existência, quase como se isso fosse um projeto político.

NOTA: **10**

segunda-feira, 31 de julho de 2023

RESENHA DE LIVRO – DAMAS DE COPAS

Gosto quando descubro autores talentosos e desconhecidos das grandes mídias. Geralmente esse incógnito artista surge diante de mim depois de muito garimpo, em meio a prateleiras empoeiradas e esquecidas, dentro de Sebos tão desconhecidas quanto os exímios volumes que compõem seu arsenal. Afinal de contas, quem procura acha, não é mesmo? Assim aconteceu com muitos livros que estão resenhados aqui no blog, e assim que cheguei até essa ilustre desconhecida chamada Cecília Costa.

Degustei sem grandes expectativas este DAMAS DE COPAS, obra de título recorrente, uma capa discreta e conteúdo agradável, apesar de sustentar algumas particularidades que incomodaram. Vamos falar um pouco disso.

A trama narra em primeira pessoa a história de quatro mulheres que dividem o mesmo lar durante os tempos da pós ditadura no Brasil. Mulheres em torno dos trinta anos, cujas naturezas distintas constroem a estrutura de acontecimentos que faz com a narradora reflita sobre aquele tempo vivido e de suas experiências femininas. Por todo o tempo da leitura, Marta, a narradora, conversa não com o leitor, mas com outra personagem, Maria. São suas inflexões, opiniões e fantasias o ideário que nos faz enxergar aquele universo.

O livro começa um pouco excessivo em um fluxo de pensamento que quase incomoda e lança no leitor aquela desconfiança de que estamos entrando um cansativo volume de quase trezentas páginas de infinitas palavras e pouquíssimas ideias. Mas com o avanço na leitura, entramos naquilo que de melhor acontece: a história sendo contada por sua personagem, o entremeio da vida compartilhada com as demais colegas morando juntas, finalmente ganha o leitor que se interessa em saber mais sobre aquelas vidas.

Conforme narradora relata de forma propositalmente expositiva, cria-se em nossa mente certa desconfiança quanto a credibilidade do que está sendo dito, justamente por conta do olhar individualizado da protagonista. Delírio e realidade parecem mesclarem-se, e isso me pareceu acintoso. Não é uma narrativa ruim, mas o tempo todo deixa suspenso elementos como equívoco e talvez um pouco de vitimismo.

Os capítulos são intercalados com composições poéticas também construídas por Marta, que está a escrever um livro inspirado na convivência com as demais personagens. São como prefácios os quais achei um pouco cansativos e desnecessários. Cada vez que eu me deparava com tais introduções, meu interesse pela leitura diminuía consideravelmente.

Há uma personagem em específico, que é construída pela narradora como sendo o demônio encarnado. Beth nos é relatada como uma pessoa amarga, ressentida, cheia de baixa estima e um interminável rancor com o mundo que lhe cerca. No entanto, a mesma narrativa expositiva e de pouca credibilidade de Marta, deixa a impressão de que a coisa talvez não tenha acontecido exatamente como foi contado. Há momentos em que esse dedo apontando defeitos fica tão veemente, que faz parece exatamente o oposto do que está sendo dito, como naquela ideia que diz que quando Pedro fala de Paulo, fala mais de Pedro do que de Paulo.

DAMAS DE COPAS é um livro razoável, com uma narrativa interessante e ao mesmo tempo desvairada, cujas vivências de suas personagens são elementos que incitam temas diversos como feminismo, violência, cultura, ditadura e harmonia familiar. Uma condução relativamente fluída, intercalada com introduções extensas, mas vale a leitura.

NOTA: 7,6 

sábado, 10 de junho de 2023

RESENHA DE LIVRO – A COSTELA DE ADÃO – cartas a um psicanalista

Neste universo cultural machista que condiciona a figura da mulher como mera coadjuvante, gosto de pensar no título dessa obra como sendo uma eloquente ironia. Afinal, sou grande entusiasta do feminino e há nas mais distintas fontes a exibição da mulher como ser esplendoroso, muito mais do que os homens, porém, ao longo da história da humanidade, foi vítima de contumaz injustiça. São elas minhas autoras favoritas na literatura, elas são cada vez mais destaques no campo filosófico..., essas criaturas complexas e sofisticadas para além da compreensão do masculino. No lugar de deuses, por que não pensarmos em deusas? E a costela emprestada não seria de Adão, mas sim, foi Eva quem gentilmente ofereceu parte de sua existência para que a Deusa criasse um companheiro. Afinal, seria um desperdício viver sozinha num paraíso tão amplo e vislumbrante.

Opiniões à parte, o título me chamou atenção de imediato, ao me deparar com a obra numa seção de psicologia de um Sebo. A genialidade do título me fez entender de pronto que estava diante de um livro sobre mulheres. E como o universo feminino é objeto de interesse coletivo, mesmo em tempos passados (presentes?) de amplo patriarcado, já existiam pensadores se debruçando em compreender a natureza delas. Óbvio, pois sem a mulher o mundo seria um lugar menos interessante, menos brilhante e carente de sofisticação.

A COSTELA DE ADÃO – cartas a um psicanalista, é uma obra que reúne dezenas de correspondências enviadas ao psicanalista Eduardo Mascarenhas, que participava de programas de rádio, televisão e revistas, dedicados a responder cartas de leitoras das mais distintas classes sociais. Aqui nos deparamos com um aglomerado de diferentes problemas vividos por elas, e algumas respostas que o autor psicanalista dedicou em retornar.

A obra foi originalmente lançada em 1986, e logo pode se verificar uma grande quantidade de relatos, cuja essência denota as dores e questões mais frequentes sofridas pelas mulheres daquela década. Contudo, arrisco-me a dizer que o livro ainda segue bastante atual, se compararmos com outras obras que analisam o cenário da misoginia ao redor do mundo. O drama da mulher, principalmente nos relacionamentos amorosos, ainda parece ser o mesmo, talvez com uma roupagem um pouco menos caricata.

Eduardo Mascarenhas, foi um médico, psicanalista e político, que dedicou grande parte de sua obra a compreender a natureza da mulher, ele faleceu em 1997, vitimado por um câncer. Ficou famoso na década de 80 por participar de alguns programas de TV, como TV Mulher, sofreu perseguições após ter denunciado a conivência com Amílcar Lobo, por parte do então presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise, e com as torturas praticadas durante o regime militar, chegando a ser expulso da associação.

A ideia do livro surgiu unicamente da vontade de se fazer ouvir esta ilustre desconhecida: mulher. Elas são a maioria silenciosa que ganharam vozes aqui, praticamente são as verdadeiras autoras do livro, onde destilam suas dores, seus tormentos, decepções, angústias, medos e opressões. De muitos fragmentos, vindos de toda parte desse país, reuniu-se então este compilado da faceta feminina, tomadas de coragem em escrever ao psicanalista que pudesse contribuir em amainar seus sofrimentos..., reitero que as dores de ontem, são as dores atuais. Prova disso é que ao ler um pequeno relato para minha namorada, ela ficou entusiasmada em ler a obra.

A COSTELA DE ADÃO – cartas a um psicanalista, é um ato inexorável da voz das mulheres, cujo desejo de finalmente emanciparem-se de suas rédeas sociais, faz-se amplo aqui. É mesmo um trabalho importante e histórico; com linguagem acessível, Eduardo Mascarenhas nos convida a mergulhar neste relevante e atual manifesto, cuja função é atestar o enorme vazio existencial no cerne da mulher brasileira.

NOTA: 8,6

segunda-feira, 29 de maio de 2023

RESENHA DE LIVRO – O LIVRO DOS HOMENS SEM LUZ

Eis aqui o tipo de obra que sustenta um título atraente, uma sinopse promissora e um autor português (verdadeiro celeiro de grandes escritores), elementos que de imediato chamaram minha atenção. O LIVRO DOS HOMENS SEM LUZ não revela se está a fazer referência a si mesmo ou a algum objeto de leitura dos personagens, à priori, não da pra saber. O fato é que este era um livro que despertou muita curiosidade de minha parte..., tanto, que foi um dos primeiros que li neste ano de 2023.

Mas como bem sabemos, isso não necessariamente é uma coisa boa.

O cenário da trama se desenha sobre vidas perdidas em busca de algum significado ou simplesmente escapar da escuridão de suas almas. Aqui nos deparamos com quatro contos aparentemente distintos, mas que conforme avançamos na leitura, percebemos que ambos se entrelaçam em alguma medida. Depois de perder a família num incêndio, um homem afasta-se de tudo, trancafiado num singelo apartamento em Londres quando sua vida passa a ser comandada pela voz de um desconhecido ao telefone; após um bombardeio alemão durante a segunda guerra mundial, um casal fica preso dentro de um minúsculo e fóbico porão por muito tempo; um jovem estudante que em decorrência de sua dificuldade de dormir se vê inserido em abstrações de sua mente, criando uma paranoia sobre o vizinho; por fim, um médico desenvolve uma máquina de tortura a qual fara contestável uso em um paciente inusitado...

Os instantes de tensão criados pela narrativa já acontecem nas primeiras páginas, quando nos deparamos com o conto inicial (meu favorito). As personagens trazem em suas composições características indecifráveis, tudo dentro de uma atmosfera de muita claustrofobia, parece que o tempo todo algo nocivo está à espreita e que logo se descortinará uma tragédia. Então, todo esse desconforto se transforma em dúvida na cabeça do leitor, e instintivamente colocamos em perspectiva a sanidades dos envolvidos.

João Tordo faz sua estreia aqui e, de imediato, demonstra sua habilidade em conduzir o leitor através de lugares de extremo incômodo existencial. O alento dos protagonistas é percebido em suas atitudes, o lugar comum aqui está na loucura..., ou ao menos no inevitável sentido de sua direção.

O segundo conto segue uma linha similar ao primeiro, as vezes até me confundi, achando que ainda estava lendo o mesmo conto. Já no terceiro entramos num universo um pouco mais desesperador e insano. Deste ponto em diante o autor vai seguir uma narrativa mais sórdida, e que ainda neste terceiro episódio funcionou. Porém, o quarto e último conto a coisa parece ter ficado excessivamente asquerosa e animalesca (o conto que menos gostei). Senti-me incomodado com perda de ritmo aqui, foi como se o terceiro conto, apesar de desconfortável, fizesse um prenúncio do que estava por vir. Então no último conto parecia que estava lendo outro livro, desses de terror surrealista. Nenhum problema nisso, mas particularmente eu não gostei da mudança brusca de narrativa.

O LIVRO DOS HOMENS SEM LUZ é um conjunto de quatro longos contos, cujos dois primeiros denotam de forma muito crua solidão, desalento e perda de sentidos, o terceiro é uma angustiante descrição dos limites entre a sanidade e a loucura, então desembocamos no quarto que é um escatológico ensaio do grotesco. Discrepantes entre eles, mas terão alguma ligação que os complementam, vale a pena ser conferido.

NOTA: 6,8

domingo, 14 de maio de 2023

CRÔNICA – O REENCONTRO

Duas senhorinhas se encontraram por acaso dentro do ônibus. A última a entrar rapidamente reconheceu o rosto enrugado da amiga, que estava sentada mais ao fundo do veículo, as antenas levantadas pelo reconhecimento da outra. Houveram sorrisos e acenos de ambas as partes. O reencontro é sempre uma manifestação da esperança em reviver momentos que nos alegra.

Apesar de o tempo ter sido implacável com ambas as mulheres, a visão delas ainda parecia estar intacta, visto que o ônibus estava relativamente cheio, o que dificultaria muito visualizar um rosto familiar no meio da multidão.

Com a destreza de um jabuti, a senhorinha recém-chegada foi desbravando o corredor, até estar diante de sua sorridente colega. Sentaram-se lado a lado, os ombros roçando porque assentos de ônibus parecem não ter sido projetados para passageiros acima do peso (aliás, quase nada neste mundo foi criado levando os gordinhos em consideração), e essa era a condição das duas; dizem que na velhice engordamos porque nessa fase o metabolismo reproduz exatamente o mesmo comportamento de todo o resto do universo: ignora os idosos por completo.

Logo atrás do assento das vetustas amigas, eu havia interrompido a leitura que fazia para acompanhar todo aquele caloroso reencontro que, a julgar pelo entusiasmo, abraços e beijos, imaginei que elas não se viam desde o início das obras de construção das pirâmides do Egito..., e como elas não conseguiam se conter devido a muitas novidades para relatar, eu soube que seria difícil continuar lendo.

Depositei o marca página no centro do livro, fechei-o e, completamente derrotado, resolvi acompanhar a trivialidade mundana que passava do lado de fora da janela. Contudo, era difícil não prestar atenção na conversa das velhinhas, tamanha era a euforia. Elas falavam sem parar, num timbre elevado que ameaçava a soberania do motor estrepitoso do ônibus. Não demorou muito e eu estava tomado pelos causos narrados de longínquos tempos, elas falavam com nostalgia de uma juventude que imaginei ter sido vivida na companhia de Cabral e os lustrosos marujos portugueses que cá desembarcaram..., aliás, não somente a minha atenção fora roubada pela prosa avolumada, como também a de metade dos passageiros do ônibus.

Afinal, eram amigas pré-históricas, certamente não se viam desde a ressurreição de Cristo e, portanto, tinham muito o que conversar.

E o papo rolou solto, as “garotas” falavam de suas grandes aventuras, lembravam com brilho no olhar dos caras mais gatos daquele tempo, detalhavam coisas que parecia fazer sentido somente para gente daquela época..., enfim. O reencontro de duas metades de uma alma no interior do coletivo.

E olha que eram seis e meia da matina! Imagine como seria esse encontro, tipo, após as dez, em local menos conturbado, quando já fora possível apreciar um café revigorante e o corpo já atingira um ganho de energia decente.

Mas eis que o famigerado destino sempre nos alcança, e foi quando uma das velhotas anunciou que seu ponto de desembarque estava chegando e o papo teria que ser interrompido.

“Graças à Deus!”, pensei comigo, já resgatando o livro de dentro da mochila para retomar a leitura. Ainda poderia apreciar alguns parágrafos, antes que o meu destino chegasse.

– Anota meu número aí – disse uma das velhas – pra gente marcar um almoço.

– Vou anotar – respondeu a outra, e começou a vasculhar na bolsa, à procura do aparelho – Ué, será que eu deixei meu celular em casa.

– Você continua a mesma desatenta de sempre – a amiga gargalhou.

– Achei! – e a senhorinha digitou na tela os números que lhe eram oferecidos, de modo lento e sistemático – Agora eu vou fazer a chamada e você grava o meu número no seu telefone.

Um som polifônico encheu o recinto.

– Tá bem aqui na tela o seu número – disse a velhinha no canto da janela.

– Então já pode salvar.

– Deixe-me ver...

A essa altura, eu já tinha guardado o livro novamente, intrigado que fiquei com o processo de troca e salvamento do número telefônico. E o aparelho celular parecia mais indecifrável do que uma avaliação de mecatrônica. A velhinha cutucava a tela, arrastava o dedo desordenado, afastava a tela do rosto para conferir algo. E foi nesse momento que concluí que ao menos aquela velhinha não enxergava tão bem quanto eu imaginava.

De repente, outro som de toque iniciou, agora no celular da outra amiga.

– O que você está fazendo? – ela quis saber, enquanto olhava para o próprio aparelho a tocar em sua mão.

– Ué, eu apertei pra salvar aqui, mas ele tá fazendo chamada de volta.

– Você sabe salvar números no seu aparelho?

– É claro que eu sei! – mas a expressão dela era um mar de insegurança – É que eu estou sem os meus óculos.

– Deixa que eu salvo aqui no meu celular o seu número – sugeriu a outra – depois eu te ligo pra gente conversar.

– Tá bom então...

A velhinha do canto começou a vasculhar as opções do aparelho, igualmente ao que a amiga havia feito, há pouco. Do assento logo atrás eu notei que ela sustentava o mesmo olhar de quem não faz a menor ideia de como se salva um número de telefone.

Outra vez um celular tocando.

– Agora é você que está me ligando.

– Não liguei nada! Eu apertei sem querer.

– Conseguiu salvar?

– Deixa eu ver aqui.

As duas olharam para a tela..., quer dizer, nós três olhamos, porque do assento de trás eu me estiquei todo pra ver se havia dado certo.

Não havia.

Então mais dedos passeando pela tela de touchscreen. O ônibus diminuiu a velocidade para estacionar no ponto. Alguém deu uma gargalhada, mas não deu pra saber se era por conta da falta de intimidade com a tecnologia por partes das distintas senhoras.

– E então?

– Então o que? – disse a outra e se levantou para descer.

– Salvou?

– Meu telefone tá maluco.

– O meu também.

O motorista aguardava o desembarque dos passageiros. A velhinha em pé agora estava tomada pela indecisão, não conseguia decidir se ia em direção às escadas de saída ou se continuava tentando salvar o precioso número da melhor amiga.

– Se você fez a chamada o número vai estar no histórico de ligações feitas – era uma jovem de uniforme escolar quem dava a dica para as velhinhas. Também devia estar aflita acompanhando a cena.

– E pra que serve isso?

– É só a senhora entrar no histórico e salvar o número dela.

– Vou pedir ao meu neto pra fazer isso.

– Ela vai esquecer... – disse a velhinha sentada, e abriu a bolsa de onde retirou um pedaço de papel e uma caneta – é muito esquecida.

– Não vou esquecer.

O motorista quis fechar a porta, mas as pessoas gritaram para esperar.

– Pode falar – disse a velha sentada e apoiou o papel na lateral da bolsa.

– Falar o que?

– O seu número né!

– Não dá tempo.

– Fala logo!

– Nove..., nove...

A porta do ônibus foi fechada.

– Peraê, motor! – gritaram os passageiros.

– Nove...

– Gente, eu tô com a viagem atrasada!

– Não seja insensível, motorista!

– Oito..., cinco...

– Peraí, você falou quantos nove?

O motor roncou, mas não saiu do lugar.

– Nove...

– Calma aê, motor! O senhor não tem mãe?

– Nove...

– Você está começando a ditar do início?

– Nove..., nove...

– Quantos nove você falou?

– Me da esse papel que eu anoto – era a estudante, impaciente – Pegou o celular da velhinha, entrou no histórico de chamada, anotou o número no papel e entregou para a sorridente senhora.

– Já que se comprometeu a anotar, porque você não salvou na agenda?

– Nem me ocorreu fazer isso.

– Tchau, amiga! – disse a velhinha, já descendo as escadas.

O motorista deu a partida, meio puto por conta da falta de compreensão das pessoas em saber que ele tinha horário a cumprir. A velhinha remanescente ainda fez algum comentário sobre como se faz para salvar um número na agenda telefônica e, bem atrás dela, estava eu, certo de que precisaria escrever sobre aquela manhã infestada de reencontros, tecnologia e números nove...

terça-feira, 25 de abril de 2023

RESENHA DE LIVRO – TUDO SÃO HISTÓRIAS DE AMOR

Tive meu primeiro deslumbramento diante da literatura de Dulce Maria Cardoso, ao me deparar com seu excelente CAMPO DE SANGUE. Em seguida, ao término da leitura de OS MEUS SENTIMENTOS, soube que tinha em mãos uma das maiores escritoras da era contemporânea (ambos livros possuem resenha aqui no blog). Desde então, sou um buscador de suas obras, as quais elevam minha admiração por sua escrita imersiva, quebradiça e orgânica. Agora foi a vez dessa deliciosa coletânea de contos TUDO SÃO HISTÓRIAS DE AMOR.

Aqui temos um compilado de histórias de diferentes tons e intensidades. Como toda coletânea, vamos gostar de alguns contos, de outros nem tanto, ora notaremos o tom experimental inserido pela autora, noutras vezes iremos nos deparar com sua característica pegada sensível de narrar. O título que parece nos remeter à ideia de amor de um modo romântico e clichê, revela-se sua verdadeira face de ironia, ou quem sabe, de fato o elemento do amor, mas interpretado por Dulce como algo mais próximo do congênito; as ações humanas emanadas daquilo que lhes é mais característico, que acontece naturalmente e, portanto, tem-se a universalidade de um aspecto essencial, que nem sempre é bonito, agradável ou normativo; que não está limitado à seara romântica; algo onipresente em todas as ações..., eis o amor do ponto de vista da autora.

Desnecessário falar dos contos porque são, essencialmente, distintos e isso tornaria esta resenha um tanto extensa. Quem já conhece Dulce Maria Cardoso sabe que pode levar este volume pra casa, tranquilamente, pois está garantido o arrebatamento, a viagem através do doce e do amargo do ser humano. Mas, só pra mencionar um, eu gostei demais do conto “Este azul que nos cerca”, narra o dia-a-dia de uma comunidade primitiva que vive numa pequena ilha onde funciona um farol. A vida seguia no mais sublime tédio, quando desembarca na praia uma bela moça chamada Dóris e desestabiliza à todos.  Já na introdução do texto, Dulce faz um belo prenúncio:

“Naquele sítio o bem era quase impossível. A noite também existe para adormecer a maldade mas o farol não o permitia. Naquele sítio o bem era quase impossível porque a maldade ia crescendo em nós, noite após noite. Talvez esta seja uma explicação par ao que aconteceu. Talvez seja a única explicação possível”.

Alguns contos são incursões dolorosas, de relatos duros e cruéis da natureza humana. Outros nos levam a estranha sensação de perda. Às vezes a leitura nos provoca, faz-nos pausar, suscita discrição, timidez, e guardamos a leitura na memória como se fosse um tesouro precioso. O vazio desproporcional que vez ou outra nos acomete faz nivelamento com a presença que se esquiva.

A narrativa em diversos momentos escancara lições que se ampliam, as inconstâncias que nos é mais característica está lá, o tempo todo, por isso essa parte tão incompreendida desse amor preeminente. Por essas e outras razões ele continuará na esfera de nossa ignorância; o amor sempre será um sentimento cuja maior característica é sua natureza escapadiça.

TUDO SÃO HISTÓRIAS DE AMOR é meio que um livro de entrada, por seu aspecto experimental. Quem gosta de contos vai adorar esse volume diversificado e imersivo, cuja autora soube exatamente nos dar o testemunho do amor, na precisa medida que dele sabemos: absolutamente uma onipresença difusa, excêntrica e universal.

NOTA: 7,4

segunda-feira, 20 de março de 2023

RESENHA DE LIVRO – O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

O filósofo grego Aristóteles fazia uma distinção que acreditava ser fundamental entre o trabalho do historiador e do poeta. Segundo sua análise, o historiador precisa amparar sua obra pelo compromisso com a verdade, enquanto que o poeta não carecia de nenhum tipo de conformidade com fatos. Contudo, sabendo que historiadores são seres humanos e, portanto, suscetíveis de parcialidade opinativa, fica meio evidente que há alguma relação entre esses dois gêneros, pois talvez seja inevitável criar uma obra histórica sem alguma lacuna imaginária, assim como a ficção bebe na fonte da história com frequência.

A trajetória da família mais conhecida do mundo, sagrada para muitos, foi contada aqui pelo mestre José Saramago, dentro desta já mencionada promiscuidade de gêneros, precisamente para nos entregar um excelente trabalho ficcional. Tal observação precisa ser enfatizada, pois toda a polêmica que este O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO causou, e continua a causar até hoje, é justamente pela falta de sensibilidade crítica de se encarar a obra como deve ser: uma ficção que faz uso de elementos e personagens históricos.

Aqui não será necessário fazer uma sinopse, tendo em mente que a vida e obra de Jesus é imensamente conhecida até por quem não é religioso. Mais proveitoso será fazermos um breve resumo do percurso das personagens, sob o olhar humanista do autor, que para quem não sabe, vale ressaltar que Saramago era ateu.

A trama começa com uma inversão cronológica, então acompanhamos um capítulo introdutório que narra a dramática crucificação, com uma minuciosidade nos detalhes capaz de já prender o leitor. É um preâmbulo fabuloso, riquíssimo e encorpado, a ponto de nos fazer vislumbrar os instantes finais de Cristo; talvez o prefácio mais extraordinário que já li. Então, na interação de Jesus e os dois ladrões crucificados com ele, o autor introduz a versão humana de sua personagem, cujo aspecto mais notório é a imperfeição: “... este que ainda agora louvou o bom ladrão e desprezou o mau, por não compreender que não há nenhuma diferença entre um e outro, ou, se diferença há, não é essa, pois o bem e o mal não existem em si mesmo, cada um deles é somente a ausência do outro”.

Em seguida, tem-se início o livro e somos apresentados à José e Maria, casados, a convivência das famílias naquele tempo, as dificuldades e escassez dos pobres, o patriarcalismo inerente daquela comunidade, a inferioridade conformada das mulheres... O narrador vai mirar em José por um tempo, até chegarmos ao nascimento de Jesus e o triste e inesperado fim de seu pai terreno.

Em Jesus, aqui vemos períodos em que a bíblia não mostra ou não se interessa: a infância e adolescência. E eis que um jovem Jesus parte em peregrinação para desvendar os tormentos que aparentemente herdou do pai, o que o faz viver as experiências necessárias para o moldá-lo como o escolhido de Deus. Nessa aventura, confronta-se com os doutores do templo, conhece um ser intitulado Pastor que o instrui e o instiga a reflexão, apaixona-se por uma mulher que se torna sua companheira, encontra-se com Deus para embates subjetivos, assume o protagonismo como pastor de homens e aceita assim seu destino...

A obra impressiona não apenas no aspecto imersivo, mas também na riqueza de detalhes do cotidiano daquele tempo. Certamente José Saramago dedicou intensos estudos sobre história daquela região e fez uso disso para requintar sua trama. É como se cada frase, cada instante narrado, houvesse minuciosa preocupação com os detalhes da vida na época.

O estilo narrativo é amplamente sedutor, busca incluir o leitor em suas divagações por vários instantes, faz comparações situacionais do tempo relatado com momentos mais recentes da história; Saramago provoca o leitor a fazer pausas para pensar. É como se o narrador estivesse tentando provar para o leitor a verossimilhança de seu relato.

O título da obra pode muito bem ser parte do estilo irônico característico de José Saramago. Afinal, se levarmos em conta os quatro evangelhos canônicos reunidos na bíblia, a condução humanista do autor possui a pretensão de chamar a atenção do leitor para preocupações com grupos excluídos. A ironia incutida por Saramago visa à reflexão sobre ideologias impostas.

A palavra evangelho tem sua origem no grego, que significa “boa nova”. Desse ponto de vista etimológico, a boa nova nesta versão de Saramago do evangelho de Cristo, é a benevolência. O aspecto divino de Jesus aqui é deixado de lado, para ser apresentado ao leitor um homem, nascido como todos os outros, cheio de inconstâncias, dúvidas e culpa; um homem que faz sua travessia existencial de forma hesitosa, mas que por meio das experiências acaba por adquirir senso ético e moral. Em determinado momento, como nos é sabido, a divindade vem ao encontro de Jesus, e então esta personagem humanizada confronta a evidente tirania de Deus sobre os homens, o que em minha opinião foi o ponto mais elevado de toda a trama. Semelhante aos deuses gregos que na literatura tratam os homens como se fossem suas marionetes, aqui a deidade se mostra autoritária, vaidosa e, por isso, é questionada por Jesus, mesmo que este siga com o cumprimento de seu destino de morrer na cruz, como o cervo que se abate em sacrifício. Saramago chega a inverter a fala de Cristo, quando na iminência da morte, olha para o céu e diz: “homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”.

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO é literatura de ficção, impecavelmente desenvolvida para desassossegar. Um romance que se refere a fatos históricos sem querer apresenta-los como verdades, mas que inevitavelmente insere na mente do leitor o desejo de que assim talvez houvesse ocorrido. Um livro que vai além da banal discussão sobre ficção ou fato; este é um precioso volume clássico da literatura que não fala apenas sobre a vida de Jesus, mas acima de tudo, sobre a vida de todos nós seres humanos...

NOTA: **10**

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

RESENHA DE LIVRO – FAHRENHEIT 451

Falar de um mundo onde os livros foram extintos da humanidade por meio de um projeto estatal de destituição social, imediatamente atraiu meu interesse, assim como a vontade de deixar alguns parágrafos aqui sobre o assunto. Na sociedade imaginada pelo escritor norte americano Ray Bradbury, os livros são considerados uma ameaça; uma plataforma que deve ser destruída em prol da manutenção da ignorância coletiva. Neste FAHRENHEIT 451 o ser humano está inserido numa organização social avançada tecnologicamente e de imbecilização generalizada, tornada massa de manobra incapaz de senso crítico..., e infelizmente a semelhança com nossa realidade atual, por enquanto menos trágica do que no livro, facilmente será notada pelo leitor.

A personagem principal da trama é o bombeiro Guy Montag, cuja função da instituição foi invertida; aqui os bombeiros não mais zelam pela segurança da sociedade, mas fazem o trabalho de invadir e queimar livros que são encontrados nas casas de alguns transgressores, como uma espécie de polícia fiscalizadora. Porém, a rotina do bombeiro é quebrada quando ele conhece sua nova vizinha, Clarisse McClellan, moça completamente distinta do modelo padrão alienado, ambos estabelecem alguns poucos diálogos, mas que são suficientes para atormentar a mente de Guy, tornando-o um crítico de seu próprio labor.

O autor prefere seguir uma linha narrativa totalmente pessoal, passamos toda a leitura vislumbrando apenas aquilo que Guy enxerga do mundo. Não há aqui explanações sobre como aquela constituição social se fez, nem as complexidades ocasionadas por um mundo de gente vivendo feito zumbis. Bradbury opta por uma visão menos didática, faz com que aprendamos sobre seu universo através do que está ocorrendo com suas personagens, quase uma leitura em primeira pessoa.

Conforme interage com a vizinha, Guy percebe a discrepância relacional existente na interação com Clarisse e quando está com sua esposa, por exemplo. O bombeiro vislumbra o modo desprendido, interessado, questionador e autêntico da vizinha, enquanto a esposa é o arquétipo perfeito do resto da sociedade: uma mulher superficial e insossa, cuja existência é inteiramente voltada para o entretenimento tecnológico.

O filósofo Ortega y Gasset escreveu: “vivemos num tempo de chantagem universal, que toma duas formas complementares de escárnio: a chantagem da violência e a chantagem do entretenimento. Uma e outra servem sempre para a mesma coisa: manter o homem simples longe do centro dos acontecimentos”. A chantagem do entretenimento citada pelo pensador é o principal elemento usado na alienação coletiva aqui; por meio das muitas distrações tecnológicas os cidadãos deixaram de ser criaturas reflexivas, não mais notam o ambiente no qual estão inseridos..., perderam as características que lhes eram mais naturais: empatia, gentileza e socialização. Então, quando a chantagem do entretenimento deixa de funcionar, entra a chantagem da violência e a ordem das coisas se restabelece... Eis a maior semelhança com o nosso mundo atual.

Logo ao iniciar a leitura, percebe-se que o universo distópico criado pelo autor já está internalizado na sociedade; a proliferação de uma humanidade alienada se mostra irredutível e o trabalho dos bombeiros como rotina, sendo eles os responsáveis por expurgar os resquícios que ficaram soltos após a massificação da ignorância. As lacunas devem ser fechadas para que o sistema de mediocridade e cegueira se mantenha intacto. Quem são os arquitetos desse sistema? Ray Bradbury não nos conta, embora a ambientação narrativa faça o trabalho de fornecer ao leitor um vislumbre do que aconteceu com a sociedade.

Outros autores também se aventuraram a narrar esse tipo de contenção da humanidade. Saramago com seu Ensaio Sobre a Cegueira nos mostra uma sociedade cuja cegueira vai muito além da ausência da visão, mas aponta os prejuízos causados pela falta de um olhar crítico sobre a sociedade e da necessidade de zelo daqueles que podem ver. George Orwell, com uma trama mais parecida com a de Bradbury, nos entregou 1984 e seu olhar distópico de um mundo tomado pelo totalitarismo nos moldes fascistas. Temos também Aldous Huxley com o aclamado Admirável Mundo Novo e uma sociedade futurista, cujos habitantes são condicionados biológica e psicologicamente a viverem em harmonia com as leis sociais estabelecidas. O que difere a obra de Bradbury de todas as demais citadas é que aqui não há a preocupação em esmiuçar as origens daquela organização social, nem fazer reflexões acerca das problemáticas ocasionada pela mesma. No universo de FAHRENHEIT 451 o leitor é atirado sem nenhuma cerimônia e vamos aprendendo sobre aquela sociedade através das experiências e diálogos de suas personagens. Particularmente, este modo de condução não me incomodou, mas pode desagradar alguns leitores.

Mais me incomodou foi a escassa presença da personagem Clarisse, que encanta logo que aparece, mas é rapidamente retirada da trama. Também achei pouco aproveitado o comandante dos bombeiros Beatty, figura visivelmente estereotipada do vilão casca dura e ao mesmo tempo intelectualizado; ambas as personagens poderiam ter sido melhor aproveitados.

FAHRENHEIT 451 é um livro inteligente, de leitura descomplicada, cuja trama de fácil compreensão nos remete ao universo pessimista de Ray Bradbury para nos fazer compreender, entre muitas lições, sobre a importância dos livros, que mesmo num mundo moderno onde a tecnologia seduz e nos rouba atenção, ainda é a maior fonte de sustentação de conhecimento.

NOTA: 7,4

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

CRÔNICA - DEDO NA GARGANTA

O escritor Caio Fernando Abreu escreveu: “Para mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta”.

Quando penso nessa ideia, a qual concordo plenamente, trago à tona ponderações sobre todo meu conteúdo nestes quase vinte anos parcialmente dedicados a escrever. Quais destes textos realmente emergiram de uma erupção interior, tal qual um vômito, pois estavam entalados na garganta e precisavam sair, como numa terapia solitária, somente eu e a tela em branco? E quais foram os textos escritos sem nenhuma ânsia, aqueles que nasceram simplesmente de um amontoado de palavras desalmadas, cujo único intento é elevar o ego deste moroso aprendiz?

Fora do contexto a afirmação do Caio talvez soe confusa; compreender a analogia de se escrever com o ato de introduzir o dedo na goela, parece um pouco abstrato. Na carta composta para um amigo, o escritor ressalta que escrever é o ato de sangrar, machucar por dentro, deixar sair toda loucura interior. E de modo semelhante, para mim, a referência é absolutamente elucidativa e ilumina sombras, tal como a luz do sol: escrever é botar pra fora toda a angústia presa dentro da gente, e o que sairá talvez seja inominável e muitas vezes pode causar desconforto, desespero, angústia ou mesmo incompreensão. Mas apesar do sentimento ao contemplar o resultado da criação de qualquer coisa, é fatal que ela saiu de dentro! Fragmento estranho, como a gosma escarrada, ao relento, que agora precisa ser trabalhada incessantemente, até se tornar, ao menos, algo plausível..., porém, não necessariamente aceitável.

Concluí que raramente isso acontece comigo. Meus trabalhos quase nada tem de visceral, além do intento honesto de expressar alguma opinião, embora quase sempre inconclusiva. Meus textos são esquecíveis porque sou imensamente racional e ponderado. Raramente permito que a angústia assuma a ponta dos dedos no teclado, porque sou covarde demais para suportar aquilo que sairá após o dedo indicador invadir a boca e tocar a faringe; tenho medo desse conteúdo entalado, então sigo empurrando com goles violentos de cerveja, o nó na garganta, para que ele retorne às profundezas nem um pouco seguras de meu ser.

Ainda na carta escrita para José Márcio Penido, Caio revela aquilo que considera como sendo a única motivação justificável para a escrita, num conselho ao amigo sobre como seguir produzindo neste universo pungente de criar. O dedo na garganta não é condição para o alívio, mas o requisito necessário. Sem isso, a construção literária é vazia e desinteressante. Portanto, isso fez com que eu me perguntasse:

O quão suportável é o vazio desinteressante do que escrevo?

Se é assim como disse o escritor, então porque continuar escrevendo? Por que insistir em algo que compreendo como sendo apenas um monte de parágrafos idiotas que não dizem nada além do óbvio? Talvez eu esteja sendo um pouco severo comigo mesmo, afinal, gosto de escrever e me sinto bem quando o faço, embora confesse que tenho feito cada vez menos, o desprendimento me fazendo crer que estou me distanciando de meu ser, ou numa conclusão, digamos, mais atual: estou me rendendo ao pragmatismo social.

Não é fácil regurgitar o que está entalado na garganta e talvez somente os grandes escritores da nossa história conseguiram realizar tamanha proeza. Contudo, acho que já escrevi o bastante para aceitar que a frivolidade é como a saliva que antecede o grande ato; que talvez a repetição insistente faça com que definitivamente o dedo alcance a profundidade ideal, e então despejarei algo verdadeiramente digno de ser lido.

O sociólogo Zygmunt Bauman resumiu o ato de escrever como algo quase inerente de sua natureza. Ele diz: “parece que sou incapaz de pensar sem escrever. Suponho que antes que escritor, sou leitor: há toda uma série de retalhos, fragmentos e pedaços de ideias que lutam por nascer, cujos fantasmagóricos espectros (aterradores, inclusive) rodopiam, se amontoam, condensam e dissipam uma e outra vez, e que apenas ao serem captados e capturados por nossos olhos, podemos imobilizar, fixar e limitar dentro dos contornos. E devem ser escritos um atrás do outro para que a ideia – arredondada para caber nos mínimos toleráveis – nasça finalmente, ou para que, caso contrário, seja abortada ou – se já chegou morta nesse mundo – enterrada para sempre”.

No filme A Esposa, do diretor Björn Runge, acompanhamos a história de um escritor que, ao ganhar o Nobel de literatura, precisa lidar com os ressentimentos do passado, papel belamente interpretado pelo ator Jonathan Pryce, que vive o instante em que deveria ser o ápice da glória literária, mas precisa confrontar com a mediocridade da própria existência ao encarar a verdade de seu sucesso, escondido na figura da esposa do título, interpretada pela maravilhosa Glenn Close. Uma belíssima obra que denota os efeitos do ostracismo, de um homem que foi beneficiado por um mundo essencialmente machista..., o filme revela de forma crua, que enquanto ele cuidava da prole e executava as tarefas banais do cotidiano, o dedo na goela estava ocorrendo no seu escritório, pela esposa, e os méritos e benefícios ficavam com ele, que assinava todas as obras.

Um filme que mexe, principalmente, mas não somente, com quem se arrisca a mergulhar neste incerto labor de desenvolver a linguagem escrita.

Certa vez, alguém me perguntou como se faz para ganhar dinheiro escrevendo. A primeira coisa que me ocorreu perante tal questionamento, foi a completa hesitação; afinal de contas, eu nunca ganhei dinheiro escrevendo, no máximo recuperei parte do valor investido. Ou seja, como posso ensinar aquilo que não sei como deve ser feito? Além do mais, receio que não seja esse o intuito de quem escreve... Enfim, respondi ao meu esperançoso interlocutor, que se a intenção dele era ganhar dinheiro, que existem outras maneiras mais eficazes de se fazer isso; aconselhei que não gastasse seu precioso tempo desenvolvendo uma habilidade que não é garantidora de retorno substancial, tampouco simbólica; que a escrita é quase como uma maldição: é inescapável para alguns, e amplamente opressiva com todos os seus poucos fiéis; que talvez você até aprenda a enganar e encontrar a medida de consumo preferencial dos leitores modernos, o que parcialmente seria uma conquista, mas jamais levará o nome de escritor, no máximo, um bom contador de estórias.

E não, isto que acabou de ser relatado aqui, da forma mais tosca possível, não foi o entalo desentalado. Meu dedo continua bem distante da garganta e o nó retornando ao interior, com tragadas incansáveis de álcool, efeito contrário ao que aconteceu com os goles que Edgar Alan Poe ingeriu e então vomitou seu esplêndido O Corvo. Nem de longe quero me comparar a este gênio da literatura, é apenas uma tentativa de desencorajar aqueles que enxergam na escrita, uma alternativa de sucesso nestas incertas trilhas do nosso sistema capitalista.