sábado, 30 de novembro de 2024

CRÔNICA – VIAJAR OU EMPREENDER?

Em determinado ponto de uma leitura recente, a personagem da história disse que toda a nossa vida é pautada por dois aspectos importantes: A aquisição de bens e de experiências. No entanto, apenas a segunda levaremos conosco quando morrermos...

E apesar da sugestão de que levaremos experiências conosco, seja lá para onde iremos depois de morrer e, se é que iremos para algum lugar, ainda me parece custoso definir o que é prioridade.

No ano de 2022 eu e meu irmão mais novo combinamos de fazer uma aventura, saindo em singela viagem de onde moramos, com destino a Porto Seguro, na Bahia, onde passaríamos alguns dias curtindo a cidade histórica, descansando e pegando um bronzeado no belíssimo litoral baiano.

À princípio, a viagem seria feita em dois carros e três casais. Antecipadamente, fiz reservas em agradável hotel, dividimos as despesas e começamos a pagar parcelado. Dois meses depois, esse irmão me procurou para dizer que não poderia mais ir, pois estava muito perto de realizar o sonho de abrir o próprio negócio e precisava economizar. Meses depois da inesperada desistência, a viagem aconteceu, com metade dos membros iniciais; meu irmão abriu uma lanchonete próxima de casa e, pouco depois teve a vida abreviada, antes de ver seu ambicionado sonho completar 1 ano de existência.

A proximidade desses fatos me causa inquietação até hoje. Alguém que sempre manifestou o anseio de fazer uma viagem de carro com pessoas que ama, desiste do ato para ir em busca de algo por ele concluído como maior ou mais importante: empreender e ser dono do próprio negócio. Teve o sonho realizado, contudo, mal houve tempo de gozar o prazer da conquista, que segundo a personagem do livro, teria sido melhor se ele tivesse feito a viagem.

Nossa vida é feita de escolhas, de um jeito ou de outro, aprendemos que isso é condições inegociável da vida. Até mesmo alguém que se recusa a escolher entre uma coisa e outra, fez a escolha por não escolher. E como toda a causa tem efeitos que, consequentemente virarão novas causas e gerarão mais efeitos, a vida não cessa de nos impor..., e então, seguimos fazendo escolhas sem o benefício da certeza de estarmos tomando a melhor decisão, porque ninguém sabe onde estaremos daqui a alguns minutos, se sob o calor convidativo de um litoral paradisíaco, ou dentro de um féretro rodeado de flores e gente chorando.

Jamais teria a arrogância de afirmar que meu irmão tomou a decisão errada. Ele era um homem livre e capaz de discernir sobre as próprias escolhas. Além do mais, eu mesmo vivo cheio de incertezas a respeito do meu próximo passo, embora confesse que a aquisição de novas experiências ainda possua força enorme sobre minhas decisões. Portanto, estou ciente de que, se gastasse menos com viagens, talvez também já fosse dono do meu próprio negócio, ou vivesse numa casa maior ou já teria trocado meu velho carro por um possante que me cause menos dor de cabeça...

O filósofo Blaise Pascal afirmava que “todos os problemas da humanidade surgem da incapacidade do homem de sentar tranquilamente sozinho em um quarto”. Apesar do exagero, talvez o que Pascal quis com sua afirmação foi nos alertar de que decisões podem ser melhores tomadas sem tanta influência externa. Ou quem sabe as experiências adquirissem um caráter mais autônomo, caso tivéssemos maior contato com nossa verdadeira natureza.

Mas afinal de contas, estar sozinho em um quarto parece não caracterizar aquisição de coisas nem de experiências..., será mesmo?

Porque estar consigo mesmo, sozinho, em dias atuais não significa nem uma coisa, tampouco outra. Sim, pois posso estar sozinho no meu quarto durante a compra de alguma coisa que desejo muito através da internet, ou interagindo online com outras pessoas. E assim como a condição de estar sozinho proporciona uma proximidade com meu ser e, assim, estou em posição privilegiada para aprender sobre mim mesmo, por meio da autorreflexão.

De uma coisa eu tenho certeza e, talvez meu querido irmão tivesse muito mais do que eu: se pararmos para pensar demais sobre as coisas, acabamos estagnados perante a complexidade das possibilidades. Ele era o tipo de pessoa que, quando cismava com algo, perseguia aquilo até o final..., e talvez essa obstinação tenha proporcionado grandes satisfações em sua curta vida.

Contrário disso, minha mente é questionadora e vivo em busca daquilo que realmente importa pra mim, sem jamais ter certeza do que realmente quero.

Outro filósofo chamado Sartre dirá que somos condenados a ser livres; que ninguém pode escolher por nós, que não existe escolha certa ou errada. O que existe são nossos valores e, portanto, façamos a escolha que nos pareceres mais auspiciosos e convivamos com tais decisões. Porém, isso me soa racional demais e não esgota o diálogo.

Certa vez, minha namorada disse que estava se convencendo de um pensamento que lhe soava egoísta, mas que mesmo assim seguiria por este caminho, digamos, condenável do ponto de vista social. Ela confessou que aos 36 anos não estava mais interessada em pensar sobre os afetos ao seu redor: família, filhos, valores sociais; disse que está vivendo uma fase de sua vida, cujas escolhas estarão centradas nela..., pois até aquele instante, havia passado a vida cuidando e priorizando a vontade dos outros.

Achei bastante corajoso da parte dela, a atitude de priorizar a própria existência em detrimento dos outros mostra um caráter lúcido e ousado. Outro ponto que, devo confessar, deixou-me aliviado, é que meus objetivos meio que combinam com os dela. Portanto, queremos fazer coisas juntos, como viajar, por exemplo.

O fato é que ela chegou num ponto da vida que a fez compreender que as escolhas que havia feito até aquele momento não faziam sentido pra ela..., e levou cerca de um terço de uma expectativa de vida de 80 anos, para chegar a essa conclusão. Ou seja, dentro de seu contexto, nada mais justo do que priorizar a própria existência.

Experiência ou obtenção de coisa, não importa. Minha garota hoje leva a si própria em consideração quando precisa deliberar sobre suas escolhas..., acho isso louvável!

Mas e quanto a mim?

Recentemente, fiz uma pesquisa razoavelmente grande para entender pessoas que tiram um ano sabático e saem pelo mundo, conhecendo diversos países, com orçamento enxuto. E o resultado ao ler o testemunho de gente que teve a coragem de largar tudo e sair por aí, foi o despertar de minha própria vontade. Eis-me diante de algo que gostaria de fazer, a ambição pela ousadia foi o gatilho do meu anseio reacendido..., mas antes de tomar qualquer decisão eu travo.

E aqui vai mais um filósofo, Platão, que acreditava que o elemento central para a manifestação de um desejo é a falta. Ou seja, realizado o desejo, este morre, vitimado pela presença do objeto desejado. Se isso for verdade, então a vida seria como um saco sem fundo, pois passaríamos nossa existência desejando o que não temos, e desprezando aquilo que conseguimos. Pela lógica platônica, as viagens que fiz não significam mais nada, pois já foram feitas, e caso estivesse vivo, meu irmão estaria hoje vivendo o estresse de ter seu desejo realizado, talvez até pensando em fazer uma pausa na loucura do trampo para dar um pulinho ali em Porto Seguro.

Mas afinal, por que escolher é tão difícil?

Obviamente é bem simples de se elaborar vantagens e desvantagens nas escolhas. Por exemplo, alguém que viaja pouco, acumula mais dinheiro pra trocar de carro, comprar uma casa maior ou montar o próprio negócio. Assim como viajar faz do indivíduo conhecedor de diferentes culturas, vislumbra lugares incríveis e aprende coisas novas que levará consigo pelo resto da vida. É como se uma decisão invalidasse a outra, como se fosse impossível haver benefícios sem perdas… Porque pode ser que se tivesse adquirido um patrimônio substancial, eu estivesse hoje desfrutando de um carro novo, morando numa espaçosa casa e tocando meu próprio comércio, de forma entediada e infeliz, desejando estar nos lugares incríveis que não pude conhecer. Ou dentro dessa minha realidade atual, passando os perrengues de ter um carro velho que passa mais tempo com o mecânico do que comigo, dentro de uma casa minúscula e ainda atrelado às regras opressoras de um contrato pela CLT.

Pois tal como Kierkegaard escreveu: “escolha isso ou aquilo, você vai se arrepender. Ame, não ame, chore, não chore, enforca-te, não te enforques. Dá na mesma. Você vai se arrepender de qualquer forma”.

Pessimista, mas acho que concordo com ele.

Talvez a maior lição que meu irmão deixou pra mim, seja a de que eu preciso pensar menos nas coisas, e fazer aquilo que minha alma pede, sem questionar ou olhar para trás. Assim como levar o ensinamento valioso de minha namorada, que das experiências difíceis que teve no passado, aprendeu a se colocar em primeiro lugar na hora de deliberar sobre a vida..., afinal, enquanto eu escolher, esperando a felicidade como resultado, serei infeliz, pois toda grande escolha envolve algum grau de sofrimento...

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

RESENHA DE LIVRO – NOTÍCIAS – MANUAL DO USUÁRIO

Se a comunicação é um elemento importante para uma condição plena do ser humano, sua conduta precisa ser ética, a linguagem deve ser apropriada e direcionada para a construção de um sentido de mundo igualitário. O noticiário é tema que ao meu ver é pouco discutido e sua importância talvez seja subestimada. A relevância da comunicação para a condição humana e para o seu desenvolvimento justifica o esforço permanente por uma ética da comunicação..., só esta ideia já justifica a existência desse livro.

O trabalho de pesquisa do filósofo Alain de Botton para formular esta reflexão intitulada NOTÍCIAS – Manual do Usuário, busca nos mostrar a diversidade, predominância e amplitude que os meios de comunicação exercem em nossas vidas. Realidades que nos escapam, como a de que uma vez concluída a educação formal, é o noticiário quem passa a nos ensinar. Por meio do noticiário as pessoas buscam revelações, aprendem o que é certo e errado, conferem sentido ao sofrimento e entendem como funciona a lógica da vida..., sem nenhum exagero, toda essa dinâmica quase soa como atributos religiosos.

A obra se organiza em torno de fragmentos colhidos de diferentes fontes e submetidos a uma análise deliberadamente mais aprofundada do que suas fontes pretendiam. Tratam-se de manchetes, agenciamento de notícias, matérias de revistas, entrevistas, índices financeiros de economia, sempre permeados por referências eruditas de filósofos, obras clássicas de literatura e artes plásticas.

Apesar de o título sugerir um manual para usuários, na verdade aqui parece se tratar de um produto destinado aos produtores dos noticiários, pois o autor parece se preocupar em gastar muito tempo indicando novos caminhos para a prática da confecção de notícia, e pouco reflete sobre como podemos desenvolver senso crítico na hora de escolhermos o noticiário com o qual iremos utilizar como fonte.

De Botton as vezes coloca-se numa posição, digamos, um pouco ingênua, ao alegar que o objetivo do noticiário é nos mostrar tudo aquilo que ele próprio considera mais inusitado e importante no mundo. Isso pode até ser parcialmente verdadeiro, mas diante de um sistema capitalista competitivo e consumista, parece-me que os intentos por trás da maior parte dos tabloides midiáticos sejam basicamente de viés lucrativo, político e antiético.

Outro problema é o tempo de sua publicação. NOTÍCIAS foi lançado no ano de 2014, e apesar de não parecer muito distante, o autor deixa de lado temas que atualmente se tornaram cruciais dentro do universo dos noticiários, como fake news, generalização do cinismo, grupos extremistas e a proliferação desenfreada de produtores de conteúdos em redes sociais.

No capítulo final da obra, Alain de Botton deixa algumas perguntas, talvez mais retóricas do que gostaríamos: Idealmente, como deveria ser o noticiário? Quais as necessidades profundas que deve atender? Como o noticiário poderia nos tornar pessoas melhores?

E na sequência de suas considerações, de Botton busca resumir algum esboço de soluções, embora um pouco tímidas, mas corajosamente, ou quem sabe, pretensiosamente elaboradas.

É um tema espinhoso, não da pra resolver isso em apenas um livro.

Enfim, antes de tentar responder a tais questionamentos, eu me atreveria a levantar outra questão, talvez um pouco mais ácida, ou apenas oriunda de um leitor que veio do futuro para ler esta obra, cujo tema inevitavelmente se tornaria desatualizada perante assunto tão inflexível: Será que é do interesse dos detentores das mídias de notícias tornar seus leitores pessoas melhores?

NOTA: 8,1

domingo, 27 de outubro de 2024

RESENHA DE LIVRO – ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

 Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

(Pag. 262)

 

A primeira vez que li este livro eu ainda não tinha cabelos brancos e meu porte magricela ainda se encontrava bem longe dos três dígitos na balança, lugar no qual ainda não cheguei, mas estou bem perto. Naquele tempo, eu estava tentando me aventurar por grandes autores, a maior parte dos que me propunha, eu terminava um pouco frustrado por conta da óbvia escassez de familiaridade com alguns estilos, cujas linguagens ainda custaria a dominar. Porém, aquele tempo também foi marcado pela imensa vontade de conhecer literatura e a obstinação por desbravar novos autores. Foi lá, naquele tempo de leitor iniciante, que resolvi dar chance a um tal senhorzinho português bastante elogiado no universo literário. Tanto, que ele até já tinha ganhado um prêmio Nobel de Literatura. Aliás, até o momento desta resenha, Jose Saramago é o único autor da língua portuguesa a ser contemplado pela maior honraria no campo da literatura.

Talvez ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA seja o livro mais conhecido de Saramago aqui no Brasil, a obra já virou película cinematográfica e, em conversas com amantes de livros sobre o autor, este é sempre o primeiro a ser lembrado quando citamos o seu nome.

Bem, eu quis fazer esta releitura, porque em minha primeira incursão, tive dificuldade em me acostumar ao estilo prolixo e a desordem de pontuação de Jose Saramago. Não abandonei a leitura, mas naquele tempo, considerei o livro cansativo e enfadonho. Contudo, os anos só alimentaram o anseio pela releitura, principalmente porque minhas incursões posteriores ao universo de Saramago mostraram que, na verdade, o problema não estava no escritor, mas na precariedade deste leitor que vos escreve.

Esta distopia de José Saramago nos remete à uma sociedade vitimada por uma pandemia de cegueira aterradora e comovente, na qual o leitor será transportado para uma experiência imaginativa única, onde a literatura cruel e sábia nos obriga a parar, fechar os olhos e ver..., com o perdão da ironia.

Na trama não teremos um arco principal, propriamente, embora o desenvolvimento narrativo careça muito de uma personagem que misteriosamente não perdeu a visão, optando em acompanhar o marido cego, quando este é encaminhado para uma espécie de “campo de concentração” para os primeiros infectados, pois o governo, não sabendo lidar com a doença e sua transmissão, resolve confinar infectados, numa tentativa de isolar o contágio.

Logo a medida se mostra um fracasso e o mundo parece ter-se tomado pela “cegueira branca”, como previamente é chamada a doença. Ocorre então uma mudança de perspectiva; onde antes havia um grupo de cegos confinados, aguardando explicações científicas e cuidados por parte daqueles que ainda podiam ver, transformou-se num ambiente caótico, desprezível e miserável, onde o instinto de sobrevivência e avidez pela saciedade de necessidades básicas, faz com que seres humanos revelem comportamentos primitivos, como egoísmo, indiferença e truculência.

A catástrofe de Saramago expõe a vulnerabilidade do ser humano, na sua extrema dependência dos olhos, inclusive para realização de suas necessidades mais básicas, mas também uma gradativa animalização conforme o tempo de infecção avança, tornando as necessidades do corpo algo insuportável, beirando a loucura.

O cenário caótico muitas vezes nos faz interromper a leitura. A podridão, tanto no aspecto ambiental quanto comportamental dos cegos, por várias vezes nos deixa com asco. O autor faz uso do olhar da única personagem que ainda pode ver, embora não se trate de uma narrativa em primeira pessoa, ela é o arco central do desconforto, pois vivencia na pele aquela hecatombe, como se representasse o próprio leitor dentro desse universo mórbido. A personagem que vê, possui uma percepção despida de julgamento moral diante dos cegos com os quais convive; ela é o peso da sensibilidade que atiça o olhar do leitor para a miséria existencial daquele mundo.

Alguns críticos literários apontam esta obra para uma possível metáfora da cegueira moral do ser humano, cujos olhos turvos já não podem ver mais a brutalidade ao redor; o autor escancara nossa animalidade primitiva de crueldade, mas parece fazer um paralelo à possibilidade de já estarmos vivenciando essa cegueira coletiva em relação à maldade do mundo, mesmo nos dias de hoje, onde uma pandemia ainda não nos cegou literalmente.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA foi uma necessária releitura, de outro universo saramaguiano em que o ser humano é desnudado em seus mais asquerosos anseios, mas sempre sob a perspectiva de um contraponto, no caso aqui representado pela personagem que pode ver, de que o ser humano ainda não é uma causa perdida.

NOTA: 8,5

sábado, 5 de outubro de 2024

RESENHA DE LIVRO – O DIA EM QUE MATEI MEU PAI

Deram-me a indicação desta obra no curso de psicanálise que faço. Disseram se tratar de um abrangente relato de parricídio e complexo de édipo. De fato, os elementos sugeridos estão no arco central da trama..., mas alguns probleminhas colocaram uma interrogação nos adjetivos dados ao conteúdo.

Vamos falar sobre eles.

Com um título autoexplicativo, este O DIA EM QUE MATEI MEU PAI, narra em primeira pessoa os motivos pelos quais o protagonista deu cabo de seu genitor. Isso ocorre logo nas primeiras páginas, depois teremos uma trajetória de relatos que servirão para validar ou não o parricídio. Como se dividido em três atos, a trama primeiro foca no assassinato e algumas possíveis motivações, em seguida somos apresentados a um livro inacabado escrito pela personagem principal, e chegamos a terceira parte que nos traz mais alguns elementos para compreensão das motivações do narrador.

Os méritos narrativos podem ser notados logo no início da trama. O autor Mario Sabino, que ainda não conhecia, nos entrega sua personagem como confessor, a voz que irá nos conduzir ao longo da leitura. Percebe-se de imediato o estilo atraente, a linguagem textual é fluída e a personagem não é autoindulgente; ele não parece interessado em justificar seus atos, mas apenas relatar o que houve. A pessoalidade também comunga o tempo inteiro com aspectos que deixam claro que seu ponto de vista obviamente seria colocado em perspectiva, caso lêssemos do ponto de vista da vítima.

Outro aspecto que me pareceu interessante na maior parte da leitura, é que o narrador parece falar diretamente para alguém que o escuta; ora parece conversar com o leitor, outras vezes ficamos com a sensação de que alguém o está entrevistando. E apesar de ser uma distinção passiva da opinião pessoal de quem lê, achei que este recurso, ao mesmo tempo em que agrada, também foi um problema em vários momentos; o protagonista insinua por meio de diálogos, comentários e questões que supõe estarmos a fazer – ou que estivesse sendo feito por um entrevistador, o qual não possui voz – portanto, quando o narrador errava o que eu estava pensando a respeito do relato, pareceu-me pretensioso.

Outro problema que me incomodou bastante foi o mencionado livro inacabado escrito pela personagem. E o impasse não esbarra propriamente no que é mais comum nesse tipo de recurso linguístico: uma história dentro da história dificilmente funciona, à menos que o autor seja extremamente eficiente na arte de entreter e te fazer esquecer o arco principal, ou caso esse subtexto seja algo de extrema importância para a compreensão da trama. Pois bem, aqui o livro da personagem até começa com algum vigor, causa-nos interesse, mas foge completamente do arco central e particularmente não encontrei nenhuma informação que fosse indispensável para os argumentos do parricida.

Falando nele, o protagonista é um sujeito com algumas camadas, algumas interessantes, outras nem tanto. Há momentos em que ele descreve sua história de forma lúcida e articulada; em outros instantes parece enviesado, tenta conduzir o interlocutor a crer no que relata – chega a nos apresentar informações num breve capitulo, para no capítulo seguinte desmentir tudo – essa dissimulação as vezes me deixou um pouco cansado da leitura.

O DIA EM QUE MATEI MEU PAI é uma obra cujo título antecipa que o suspense não é o elemento chave aqui. Afinal, a confissão da personagem já está incutida em sua proposta. Os motivos que levaram ao crime é o que servem de combustível para despertar o interesse do leitor. Com um narrador interessante e as vezes afetado, terminei a leitura na dúvida de sua verdadeira natureza; se foi o caso de um complexo de édipo levado ao extremo, ou um parricídio inevitável, orquestrado por um psicopata que resolveu sair do armário.

NOTA: 6,3

sábado, 21 de setembro de 2024

RESENHA DE LIVRO – ENQUANTO O DITADOR DORMIA

A história sempre foi fonte inesgotável de inspiração para escritores. Alguns autores de romances históricos sabem construir obras com enorme eficiência, tornando-as quase um relato verídico ou simplesmente fazendo com que o leitor mergulhe naquele determinado universo. Trata-se de um gênero que, articulado para revisitar o passado ou trazer um olhar meticuloso e possível de suas lacunas, faz com que nasça narrativas sensacionais e inesquecíveis. O passado da humanidade é tão diversificado, rico e intrigante, que é difícil compreender quando um autor erra a mão ao fazer uso de fontes históricas.

ENQUANTO O DITADOR DORMIA, do escritor português Domingos do Amaral, tem o país de Portugal como cenário central durante os anos da Segunda Guerra Mundial, em toda sua postura de neutralidade no conflito (muitas aspas aqui). Construído por meio da multiplicidade étnica e estruturando-se em relações temporais e espaciais, a trama se passa na Lisboa do início da década de 40, uma cidade que sustentava posição privilegiada, lugar de fuga e migração de diversas nacionalidades europeias, tudo acontecendo “enquanto o ditador Salazar dormia”, Portugal foi uma das principais rotas de fuga para a América.

A história é narrada em primeira pessoa, deparamo-nos com as memórias de um ex-espião britânico, 50 anos após os acontecimentos, quando já em idade avançada retorna a Lisboa para o casamento de um neto. O reencontro com a cidade suscita memórias daquele tempo efervescente, onde a cidade havia se transformado numa verdadeira capital cosmopolita do continente em guerra.

Domingos do Amaral contextualiza sua trama de forma eficiente, tenta manter-se fiel aos eventos, descreve fatos marcantes, menciona datas, lugares, feitos cruciais e personalidades envolvidas no conflito. Sem a necessidade do olhar jornalístico, o autor faz uso de liberdade artística para enaltecer Portugal, mostrando que o país esteve na condição de cenário charmoso daquele período, onde intrigas aconteciam em suas profundezas, enquanto seu líder tentava conduzir uma postura de neutralidade e proximidade com ambos os lados do conflito.

O livro possui uma leitura ágil e charmosa, os diálogos entre as personagens são deliciosos de serem lidos, principalmente quando o protagonista Jack Gil encarna o 007, alternando instantes de aventuras de espionagem com flertes em mulheres deslumbrantes.

Apesar do período histórico e de sustentar um título que faz referência ao chefe de estado português, a obra se mantém imparcial, não critica nem concorda com Salazar, o que pode ser considerado um acerto, pois não se trata de conteúdo político, mas de um romance. O leitor que possui pouca familiaridade com eventos e personagens da Segunda Guerra poderá se incomodar com algumas referências, mas nada que chegue a interferir na compreensão da trama.

ENQUANTO O DITADOR DORMIA é um romance histórico que nos traz conjecturas interessantes de um cenário que recebeu pouca atenção durante o tempo da Segunda Grande Guerra. Uma narrativa fluida, cheia de referências assertivas e mistura de personagens reais e fictícios..., como o próprio autor definiu em entrevista: trata-se uma ficção criada por um apaixonado pela história daquele período.

NOTA: 7,8

domingo, 8 de setembro de 2024

CONTO - REENCONTRO

Rever a casa onde vivi durante anos de minha infância não me traz nenhuma recordação pela qual se vale a pena lembrar.

Exceto uma...

Os dias de minha rotina de moleque naquele velho barraco eram preenchidos por tédio, isolamento e muita, muita pobreza, além das intermináveis inconstâncias de meus desequilibrados pais.

Mesmo assim, e contra a vontade, estou de volta, parado em frente a fachada desse lugar sorumbático e sem significado. Estaria completamente soterrado num passado adormecido, não fosse...

Um único motivo.

Vejo paredes velhas, a tintas descascando por conta do tempo, levaram toda familiaridade, e o mato no quintal que crescera junto com meu receio de que, ao atravessar o portão, eu me veja magicamente transportado de volta àquele tempo de trevas.

Devo dizer que meus motivos não sejam exatamente nobres, mas merecem notoriedade; vim reencontrar uma antiga amiga. Na verdade, ela foi a minha única amiga..., única.

Fomos embora quando eu ainda era jovem, mamãe se cansou de apanhar do meu pai alcoólatra, juntou nossas coisas e fugimos.

Depois de nossa família, ninguém mais viveu na velha casa. Agora só restam muros pichados que circundam o matagal do quintal, janelas e portas podres, o balanço no qual eu brincava nos fundos da casa..., e a minha amiga.

Não que eu seja desnaturado, eu a convidei para nos acompanhar na fuga, mas ela sempre foi muito conservadora, não gostava de mudanças. Disse que ficaria aqui, esperando por minha visita.

Certa feita, tive a péssima ideia de falar sobre ela com um colega de escola. Disse como eram os nossos encontros, como era fascinante seu jeito, falei sobre como a gente combinava em quase tudo. Cheguei a confessar que queria me casar com ela quando crescêssemos. Mas quando citei seu nome, o interlocutor começou a rir de mim, disse que eu precisava procurar um psicólogo, pois estava doido.

Depois disso, não falei mais dela com ninguém.

Hoje tenho dezoito anos, acho que nunca me apaixonei por ninguém. As pessoas me acham estranho, atravessam a rua para me evitar. Não são como minha amiga, que me respeita, me entende, e minha cara de chapisco nunca foi um problema para ela.

Sua lembrança me traz coragem. Devolve-me o ânimo, eu fico cheio de esperança de que as coisas irão voltar a ser como eram antigamente, quando a gente brincava juntos pela casa velha, no quintal, no balanço; eu e ela, subindo e descendo, pendurados por correntes enferrujadas, sentindo a brisa soprar em nossos rostos durante a descida. Muitas vezes ao som dos gritos histéricos de minha mãe e meu pai, se digladiando dentro de casa, feito dois idiotas.

É engraçado pensar nisso, pois sempre que mamãe me via a brincar no balanço, se comportava como as outras pessoas, dizia que eu era idiota.

Eram tempos difíceis, mas como mencionei antes: minha amiga estava do meu lado, então nunca me sentia sozinho.

Lembro-me do dia em que levei uma surra porque havia me esquecido de limpar a cozinha. Doeu pra caramba, sabe, mas aquela surra valeu muito a pena. Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo, pois foi naquela tarde que minha amiga me pediu em casamento pela primeira vez.

Eu não sei direito como os adultos lidam com essa coisa de amor. Mas diferente de meus pais, eu e minha amiga nunca brigamos, nunca discordamos em nada. Acho que meus sentimentos por ela são os mais maneiros que uma pessoa poderia sentir por outra. A única coisa que me faltava era atitude.

Na verdade, sempre me faltou... Porque se ao menos eu fosse um pouco mais valente, talvez já tivesse tomado coragem suficiente para ultrapassar esse portão que nos separa. Mas o máximo que minha vergonhosa bravura me permitiu foi subir no muro. Era noite e estava muito escuro. E eu fiquei sentado no alto do muro, observando as trevas do meu antigo quintal, de onde eu até podia ouvir os sussurros dela me chamando...

Novamente estou aqui, parado em frente à velha casa. Esperando.

Hoje trouxe aquela pá que você pediu.

Talvez eu esteja me iludindo achando que mais cedo ou mais tarde, meu peito vai se encher de valentia, e fazer com que eu consiga prosseguir na direção de minha amiga.

Mas no momento eu sei de mim. Conheço essa irrefreável covardia e percebo que toda minha intenção, por mais que seja boa, não é suficiente pra fazer-me seguir em frente.

Perdoe-me, querida companheira..., minha única amiga. Mas assim como eu acredito em você, espero que você também acredite em mim quando falo que sinto sua falta. Contudo, sou fraco e tenho medo.

Medo de entrar nessa casa;

Medo de que as pessoas estejam certas sobre eu ser esquisito;

Medo de não a encontrar aí dentro;

Medo de descobrir que esses olhos verdes lindos, só existiram na minha imaginação...

                                                                     ***

* TEXTO PUBLICADO NO PORTAL RECANTO DAS LETRAS, NO ANO DE 2009

sábado, 31 de agosto de 2024

RESENHA DE LIVRO – MEMÓRIAS DE MINHAS PUTAS TRISTES

Preciso confessar que minhas expectativas sobre esse MEMÓRIAS DE MINHAS PUTAS TRISTES eram elevadas. Não somente por se tratar de uma obra do nosso querido Gabo – Gabriel Garcia Márquez, Nobel de literatura em 1982 – mas também pela premissa do título e apresentar um velho com pinta de boêmio retratado na capa.

Contudo, digamos que meus anseios foram parcialmente saciados. A trama, que me soava como algo de uma pegada Nabokoviana, mostrou-se uma leitura delicada e, sim, uma história de amor singelo. Não foi uma experiência propriamente ruim, porém, bem diferente do que eu imaginava encontrar aqui.

A personagem central e narrador da história é um velho e entediado cronista de veículo de imprensa local. Vendo a chegada de seus 90 anos de idade, resolve realizar um feito, digamos, pouco habitual para sua longeva condição: celebrar o aniversário se dando de presente uma adolescente virgem.

Ideia desabrochada na mente, nosso protagonista entra em contato com velha conhecida, uma cafetina e dona de um bordel, que em deferência aos velhos tempos, vai em busca de atender inusitado desejo. Não demora e a mulher encontra a candidata ideal, uma jovem rapariga pobre e, portanto, mais suscetível a aceitar ser a realização do anseio obsceno de um nonagenário.

Nosso protagonista sem nome se submete a toda uma preparação, talvez inspirado pela nostalgia dos velhos tempos em que era frequentador assíduo de bordéis, começa então as situações inusitadas: ele encontra a garota nua sobre a cama do quarto que lhe fora reservado. Porém, a garota está profundamente adormecida, o que não torna a situação menos intensa para o velho, que se senta ao lado da cama e passa horas contemplando a jovem, até adormecer ao seu lado, levantar antes que ela acorde, e assim encerrar o encontro.

A situação descrita acima volta a se repetir ocasionalmente e com algumas mudanças, mas tudo dentro dessa relação visual e nada física, apenas a perspectiva da sensualidade mesclada a um respeito ímpar.

Todas as noites de encontro a letárgica garota vai se tornando um arquétipo do desejo platônico, cuja manutenção de sua continuidade é que este se encontre precisamente como se encontra no presente: algo continuado na esfera do desejo, sem que haja a glorificação do ato sexual.

Conforme os encontros se sucedem, ocorre uma evolução na condição desejante do protagonista, que aparentemente em sua distinta idade, parece sentir, pela primeira vez, o gosto singelo do amor.

Como é habitual nos textos de Márquez, a leitura é fluida e sedutora, leva o leitor a imersão com facilidade. Não faz uma homenagem à velhice, tampouco a retrata como a prisão inescapável da precariedade humana. Em alguns momentos a personagem chega a parecer usufruir de condições que apenas a longevidade fora capaz de proporcionar e, claro, também o desejo de celebração com algo motivado pela noção de proximidade com a morte.

Mas apesar de ser delicioso acompanhar tais momentos da vida do narrador, em especial seus encontros com sua bela adormecida, senti que a narrativa não nos deixa nos aproximar muito da intimidade de suas personagens. Mesmo uma leitura em primeira pessoa, que costuma facilitar a conexão do leitor com o cerne do protagonista, senti falta de um pouco mais de incidência do caráter privado de pensamento. Talvez isso fosse possível se o livro fosse um pouco mais longo do que suas estreitas 120 páginas.

MEMÓRIAS DE MINHAS PUTAS TRISTES é uma obra sutil, honesta e afável, uma história de amor que foge dos padrões clichês da literatura. De narrativa crua e ao mesmo tempo poética, cujos destinos dos amantes aqui relatados faz elevar a ansiedade do leitor...

NOTA: 8

sábado, 17 de agosto de 2024

RESENHA DE LIVRO – A COZINHA DO PENSAMENTO

Culinária e filosofia são duas instâncias distintas demais para serem objeto de interesse de uma mesma empreitada. É o que eu pensava até colocar meus olhos no trabalho deste espanhol chamado Josep Muñoz Redón, intitulado A COZINHA DO PENSAMENTO, onde já na introdução podemos ter um vislumbre de sua premissa, quando diz que “a gastronomia é a arte de condimentar os alimentos para produzir felicidade, enquanto a filosofia é o engenho de cozinhar ideias para obter perguntas”.

Faz sentido, senhor Redón, afinal, só se pode produzir o alimento da alma, mentes saciadas do alimento do corpo. Portanto, temos aqui uma produção rara de literatura filosófica, mesclada a informações e curiosidades gastronômicas, o que os mais notórios pensadores comiam, de que maneira a sociedade fazia suas refeições, quais eram os alimentos mais comuns. E os dois assuntos, que antes da leitura pareciam imiscíveis, tornaram-se uma divertida e estruturada obra, ganhadora do importante prêmio Sent Sóvi, no ano de 2004.

Cada capítulo nos introduz um filósofo, faz-se um breve resumo sobre sua vida e obra, juntamente com informações a respeito do costume alimentar que levava. Partindo dessas definições, Josep Muñoz Redón procura esquadrinhar o intelecto de um bem alimentado grupo de filósofos, imaginando seus hábitos à mesa e seus desejos por inovar no paladar.

Ao término de cada um dos capítulos, temos uma receita de pratos sofisticados, com ingredientes oriundos dos principais itens citados no texto. Em seguida, segue-se um enigma de sobremesa; um breve probleminha para o leitor instigar e abrir o apetite da mente.

Imagino que o livro pretenda, acima de tudo, atrair leitores de diferentes nichos por meio de uma escrita divertida, mas sem parecer leviano, a ideia é exibir a relevância que o alimento possui como ferramenta que fortalece o pensamento, popularizar a filosofia através da associação com a gastronomia.

Outro aspecto que me parece central é que o livro tenta desmitificar a gastronomia. Sim, pois se a filosofia parece ter total pertinência na esfera literária, acho que com a gastronomia isso se torne, digamos, algo restritivo; a literatura gastronômica parece limitada a livros de receita, inclusive há quem considere uma estética sem linguagem, ou uma estética que não pode ser definida como arte.

O autor buscar com sua obra nos mostrar a necessidade de um comer reflexivo como procedimento à mesa, desafiando a alienação que a gastronomia ocidental traz como marca de nascença.

A COZINHA DO PENSAMENTO é um compilado de pensamentos filosóficos, que não são estranhos aos processos do apetite e da digestão. As ideias, assim como os pratos, também são preparadas, desejadas, cozinhadas, digeridas e oferecem, mais do que analogias, conexões complexas e imprevisíveis.

NOTA: 9,3

sábado, 27 de julho de 2024

RESENHA DE LIVRO – O ACONTECIMENTO

Fazendo uma pesquisa recentemente sobre autores que ganharam o Nobel de Literatura, foi que ouvi falar pela primeira vez dessa escritora que fez da própria vida, seu conteúdo literário. Em 2022 Annie Ernaux recebeu a consagração máxima pelo conjunto de sua obra, cujo ingrediente fundamental é sua vivência, cada um dos livros de Ernaux é um fragmento de sua história.

É preciso coragem para desnudar-se, elemento que é amplamente percebido no conteúdo dessa francesa, natural de Lillebonne. Evidentemente, você até pode não gostar da literatura produzida por Annie Ernaux (o que já consideraria incomum para um amante de leitura), mas é impossível deixar de reconhecer a coragem dessa mulher. O livro aqui resenhado termina precisamente com a confissão desse caminho percorrido: “Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo: as coisas aconteceram comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita...”.

O tema desse O ACONTECIMENTO é um tabu em praticamente todas as sociedades do mundo: aborto. Mas aqui a autora não se furta a escolher lados ou destilar opiniões. Só o que o leitor vai encontrar é o relato, honesto e simples, porém, não menos constrangedor e às vezes indigesto.

Em 1963, Annie Ernaux, então uma jovem estudante de vinte e três anos, engravida do namorado que acabara de conhecer. Completamente desamparada do apoio dele, da família e da sociedade como um todo, numa época em que o aborto era ilegal na França, Annie precisa encarar sozinha aquilo que denominou como “o acontecimento”, narrado quarenta anos depois, quando ela já era uma das escritoras mais importante de seu país.

A autora revisita os escritos do diário que havia escrito na época do ocorrido, mesclando impressões do passado com as reflexões advindas da sua memória. O resultado foi este livro; uma obra de avassaladora honestidade, o decurso solitário de uma mulher determinada a desafiar a hipocrisia da sociedade francesa, atravessando aquilo que me pareceu o elemento central: a vontade intrínseca de emancipação do corpo feminino, visto como propriedade pelo Estado, pela Religião e, portanto, alvo incessante do julgamento social.

A autora não diz diretamente, mas deixa evidenciado em seu relato, a importância de vozes femininas serem levantadas, para alavancar a desconstrução dos conceitos sociais que impuseram o lugar que deve ser da mulher, suas formas de se viver e como devem se comportar. Se ao término dessa leitura só o que você conseguiu considerar foi a crueldade da prática do aborto, talvez sua mente esteja mais influenciada pela cultura patriarcal na qual está inserido do que imagina. Eis aqui o tipo de conteúdo que ajuda a desmistificar o preconceito enraizado em nós.

Não estou me colocando contra ou a favor do aborto, apenas levantando algumas considerações suscitadas pelo próprio livro. Porque sobre esse tema, geralmente a sociedade deixa de levar em consideração a mulher, ou no mínimo a apontam como variável menos importante da equação. A intolerância com o relato de quem viveu a experiência também parece notório, deixando-se de lado a mulher enquanto indivíduo, ignorando-se o contexto, as consequências e perigos circunstanciais. E sim, o ocorrido deixou marcas indeléveis na autora, do mesmo modo em que deve acontecer com a maioria das mulheres que passam por esse tipo de trauma.

O ACONTECIMENTO é um trabalho cuja honestidade cortante pode provocar e talvez causar incômodo ou repulsa. Mas é uma leitura necessária, principalmente pela coragem expositiva, sem deixar que se perca a sensibilidade narrativa. As vozes da literatura intencionadas em trazer à tona aquilo que a sociedade costuma varrer para debaixo do tapete, por conta do desconforto gerado pelo tema, precisam receber nossa atenção, para que se quebre de uma vez por todas a dominação masculina do mundo.

NOTA: 8,7

sábado, 13 de julho de 2024

RESENHA DE LIVRO – O SILÊNCIO DOS INTELECTUAIS

Os ensaios reunidos neste trabalho, que foram originalmente apresentados num ciclo de conferências sobre o tema de mesmo título ao deste livro, em longínquo ano de 2005, levantou algumas questões pertinentes: “O que levou ao silêncio os intelectuais, antes tão ativos, diante do que acontece no mundo?”; “o que houve com a coragem de discernir abertamente diante de problemas que nos causam perplexidade?”; “houve, de fato, um silêncio dos intelectuais ou eles jamais se prestaram a contemplação?”; “de que modo os intelectuais poderiam contribuir para dar maior clareza aos acontecimentos?”; “quem são esses intelectuais autorizados a falar em nome da sociedade?”.

Mesmo após tantos anos passados, tais questionamentos ainda me parecem atuais, dadas as complexidades da sociedade brasileira e a continuidade do descolamento entre a voz de nossos pensadores e as muitas mazelas da realidade brasileira, que expõe distintos jogos ilícitos de poder.

Os participantes desses ciclos foram reunidos aqui para comentar, refletir e tentar responder a essas questões, reunidos pelo escritor e filósofo Adauto Novaes, um trabalho que não visa definir ou mesmo discutir a intervenção direta dos intelectuais na política, mas apenas discorrer sobre as questões levantadas.

Aqui teremos uma leitura breve das palestras organizadas por cada convidado, um time respeitável de figuras relevantes do cenário intelectual, como Marilena Chauí, Renato Janine Ribeiro, Francisco de Oliveira, Sergio Paulo Rouanet, Haquira Osakabe, e outros mais.

Como é consequência evidente em trabalhos que reúnem muitos autores, neste poderemos encontrar cada um deles tecendo suas considerações acerca de questões relacionadas com o tema do silêncio na seara intelectual, focando em diferentes perspectivas e pontos de vista. Cabe salientar também que alguns capítulos são mais palatáveis, outros mais complexos, alguns com linguagem acessível e outros textos mais técnicos.

Sabendo da importância em se discutir o país e ouvir o que nossos melhores pensadores têm a dizer sobre isso, o livro sustenta um tema de enorme importância. Sempre achei que a literatura devesse servir de palco para se analisar os impasses e estimas de uma sociedade, com impacto muito mais acentuado do que outras fontes culturais, dado a força de sua internalização.

Segundo o próprio organizador, Adauto Novaes, “Os intelectuais precisa aproveitar essa situação para apontar algo novo. Esse é o papel fundamental deles”. Ou seja, nos tempos modernos, não cabe mais a ideia clássica de que o intelectual é aquele ser distinto, que deixa os saberes particulares a cargo do tecnocrata e que faz uso de seu ócio para pensar sobre questões abstratas, que faz pouca ou nenhuma interferência na vida prática. Queremos ouvir o que os intelectuais têm a dizer, mas antes disso, compreender as razões de seus silêncios.

NOTA: 8,7

sábado, 29 de junho de 2024

CRÔNICA – DO QUE VOCÊ TEM MEDO?

A catástrofe bíblica descrita no armagedon se inicia com a chegada dos cavaleiros do apocalipse e, segundo o profeta Daniel, o primeiro deles é a peste. Do alto de sua montaria, o cavaleiro mortífero anunciou ao profeta que sua mão pesada cairia sobre os homens e causaria o extermínio de cem mil indivíduos. Pois quando terminou sua execrável passagem, a peste foi abordada pelo profeta, ao passar por ele.

– Você disse que seriam cem mil mortos, mas diante de mim estão mais de um milhão de corpos tombados.

– Sou responsável pelas cem mil mortes que anunciei – disse a peste – as outras novecentas mil morreram de medo.

Talvez como condição inseparável, o medo caminha ao lado do ser humano ao longo de sua existência, como se fosse uma sombra. Eu diria que se trata de algo fundamental em todas as espécies da natureza, pois graças ao medo criaturas sobrevivem e se proliferam no caótico reino dos animais.

O medo é um aspecto irreprimível do ser humano, tão estruturado à sua natureza que, por mais paradoxal que pareça, devemos a essa condição nossa sobrevivência. Os homens pré-históricos mais corajosos certamente foram transformados em refeição de predadores maiores ou sucumbiram ao ataque de grupos rivais. A sobrevivência de nossa espécie se deve a infindável desconfiança e ansiedade dos medrosos, que evitavam batalhas e fugiam perante o menor movimento suspeito numa moita próxima.

Contudo, não moramos mais na savana, então nestes tempos modernos o medo evoluiu, digamos, para algo menos vital e mais nocivo. E embora o medo se tornou, de fato, um aspecto de menor importância do ponto de vista existencial, sentimos em maior proporção seus efeitos nefastos, porque hoje o medo atua na esfera do imaginário e, por essa razão, tornou-se instrumento de manipulação social.

Em nossa contemporaneidade a quantidade exacerbada de informações as quais estamos submetidos é tão vasta, que vivemos constantemente emitindo sinais de alerta a respeito da vida cotidiana, porque tudo nos parece ameaçador. Isso graças a uma ajudinha da imprensa e das mídias sociais, porque notícias trágicas geram engajamento, atraem audiência e resultam em ganhos substanciais. Se antigamente pairava em nossas mentes a possibilidade de sermos devorados por um leão, agora temos essa mesma mente entupida de informações, a maioria delas infundadas, gerando pânico ininterrupto.

Isso não significa que não haja perigo em sair na rua. A comparação que fiz serve apenas para despertar alguns questionamentos: será que hoje o mundo é mais perigoso do que o mundo em que nossos ancestrais viveram? O que sentimos cotidianamente é medo ou paranoia? Estamos sofrendo por excesso de informação?

O que se sabe é que o medo é uma ferramenta de manipulação eficiente.

As religiões detêm como base de toda sua estrutura teológica o medo. Porque se não houver no fiel o receio do inferno ou da punição, dificilmente este indivíduo receberá a adjetivação de fiel. Claro que isso não chega a ser necessariamente ruim, porém, há líderes religiosos que utilizam e até extrapolam a inserção do medo, apenas para elevar sua posição de poder. E não somente as religiões fazem isso, porque na política também se trabalha na manutenção constante do medo para que a sociedade se submeta às inimagináveis condições de escassez, violência e miséria..., tudo feito em nome do arquétipo do medo (que podem ser os comunistas comedores de criancinhas ou estrangeiros interessados em roubar os nossos empregos). Ou seja, para que se enxergue o herói salvador na figura de determinado candidato político, precisa-se antes que seja criado na mente do eleitor o risco do mal eminente.

Existe ainda os medos universais, tipo aquele de que o mundo irá acabar. E dentro dessa esfera tem muito teórico respeitado mundo afora achando que se trata de um medo absolutamente plausível, dado o modo de vida predatório do ser humano, sua capacidade de autodestruição por meio de contribuições para o aquecimento do planeta. Mas devo confessar que embora eu não me considere tão irresponsável (o que já seria uma irresponsabilidade), medo do fim do mundo é algo que não me acomete. Talvez porque ando tão preocupado com o vencimento dos boletos e os cuidados com minha saúde depois dos 40, que não sobra tempo para pensar sobre circunstâncias as quais me sinto tão irrelevante e impotente.

E falando de mim, acho que meus maiores medos atuais não estão diretamente relacionados com abstrações. Se na infância eu tinha medo de fantasmas, medo do escuro ou medo do inferno; hoje meus dois maiores temores é o medo de entrar numa escassez financeira e o medo de me tornar um enfermo inválido numa cama, completamente dependente de outro ser humano que cuide de mim.

Acredito que o ser humano amadurece conforme começa a notar que não tem controle sobre quase nada, e tem cada vez menos certeza de tudo. Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o medo. Bom, recentemente ocorreu uma transformação impactante na minha vida, quando repentinamente meu irmão mais novo faleceu. Isso atordoou a todos e ainda estamos sob alguma forma de luto. Mas este acontecimento me fez pensar muito naquilo que considero o maior de todos os nossos medos: o medo da morte.

Ao levar alguém que amei e convivi muito próximo, a morte me fez pensar nela como jamais havia feito antes. Porém, o curioso é que isso não elevou meu temor dela, mas fez com que eu pensasse no imediatismo da vida. Por isso deixei para falar da morte no final dessa crônica.

A morte me fez compreender que tudo pode ser quebrado inesperadamente; qualquer instante pode ser o último da nossa vida; não sabemos onde estaremos daqui há alguns minutos... Quando a morte tocou alguém tão próximo de mim, fez com que eu percebesse o tamanho da incerteza que paira sobre minha existência. E talvez, somente talvez, o meu maior medo mudou diante dessa percepção.

Desde o instante em que me deparei com a morte, tenho muito medo de desperdiçar meu tempo de vida com rancores, brigas desnecessárias, pessoas que não significam nada pra mim, tarefas sem sentido, compromissos levianos, obrigações impossíveis, problemas insolúveis, gente teimosa, obtenções fúteis.

Sei que nem tudo precisa ter um propósito. Mas se é para delimitar algum, que este faça sentido na indefinida vida que me resta. Claro que isso tem um preço a ser pago, mas acho que não há nada sem preço..., só o que nos resta é saber o quanto estamos dispostos a pagar.

A vida é urgente!

sábado, 15 de junho de 2024

RESENHA DE LIVRO – FILHOS DE NAZISTAS

Um problema bastante recorrente que acontece com muitos historiadores, é que por mais que sejam intelectualizados, obstinados e fidedignos, quando estão desenvolvendo suas obras não sabem usar linguagem acessível e agradável. Ou seja, escrevem para um público acadêmico específico ou simplesmente são herméticos por força de ofício. Portanto, é satisfatório quando encontramos um autor que, além do domínio elevado sobre o tema exposto, também escreve de maneira comunicativa e às vezes até literária..., eis o que mais me chamou a atenção neste excelente trabalho, intitulado FILHOS DE NAZISTAS.

É preciso que se diga que a autora Tania Crasnianski, não é uma historiadora, por profissão é advogada penalista, mas aqui desenvolveu conteúdo histórico de maneira eficiente e didática, sua escrita é surpreendentemente agradável, fluída e inicia cada um de seus capítulos como se estivesse narrando um conto; puxa pedaços da existência da personalidade relatada, mistura com eventos históricos e consequentemente nos deixa envolvidos na leitura. Em resumo, FILHOS DE NAZISTAS é um livro fácil de ser lido e composto de maneira insinuante, o que é incomum quando estamos diante desse tipo de gênero. A título de exemplo, quem faz isso muito bem é o escritor Laurentino Gomes, que apesar da sua elevada obstinação, também não é historiador e sim jornalista. Contudo, não me entendam mal, existem historiadores de profissão que sabem narrar maravilhosamente bem, cito como exemplo a brasileira Mary Del Priore e o britânico Antony Beevor.

O título da obra aqui já deixa explicitado sua premissa: após a queda do Terceiro Reich, houve um verdadeiro choque de realidade para a linhagens daqueles homens considerados cérebros de um dos regimes mais hediondos da história da humanidade. O escopo é convidativo; a autora quer saber o que aconteceu e como vivem os filhos dos principais nomes do regime nazista. E o que temos é uma aprofundada pesquisa de diferentes fontes, delimitados em oito capítulos os quais resumem a vida dos seguintes herdeiros: Gudrum Himmler, filha de Heinrich Himmler; Edda Göring, filha de Hermann Göring; Wolf R. Hess, filho de Rudolf Hess; Niklas Frank, filho de Hans Frank; Martin Adolf Bormann, filho de Martin Bormann, os irmãos Höss, herdeiros de Rudolf Höss; os irmãos Speer, filhos do arquiteto Albert Speer; e por último Rolf Mengele, filho do famigerado anjo da morte Josef Mengele. Para quem se interessa pela Segunda Guerra, os pais aqui citados dispensam apresentações, eles basicamente formavam a cúpula do regime nazista.

Para permitir que o leitor capte a realidade de cada personalidade retratada aqui, os capítulos se abrem com algum acontecimento significativo, recriados pela autora com certa liberdade. Em seguida, introjeta-se no texto um resumo de como foi a ascensão do pai até chegar ao top da chefia nazista, o ápice da crise com o fim da guerra, o desfecho de sua vida, e então como vivem, onde estão e o que pensam seus herdeiros a respeito do pai.

É um conteúdo curioso porque os resultados das pesquisas da autora mostram diferentes perspectivas e modos de enxergar passado e presente; alguns desses filhos mantém uma veneração imutável sobre seus pais, mesmo perante toda atrocidade documentada, creem que seus genitores são inocentes; outros preferem ignorar e evitam falar do passado; alguns odeiam e sentem vergonha do sobrenome que carregam..., mesmo assim, quase nenhum mudou esse sobrenome.

Apesar de se tratar de um tema espinhoso, mesmo depois de quase oitenta anos do fim da guerra, Tania diz ser difícil escrever sobre o assunto, tentou ser imparcial e apenas relatar o que descobriu com sua pesquisa, a autora evita fazer julgamento desses filhos, mesmo quando o filho narrado é alguém cujo pensamento extremista vai na contramão da realidade, acreditando que seu pai, na verdade, foi um herói de guerra, como é o caso de Gudrum Himmler.

Pra fechar a obra ainda temos um posfácio que faz uma breve análise de como estão as coisas na sociedade alemã nos dias atuais, alguns conflitos políticos efervescendo no parlamento e a ascensão de uma extrema direita que ignora a loucura assassina do Terceiro Reich.

FILHOS DE NAZISTAS é um trabalho estupendo e minucioso, cujo tema interessará de perto os apreciadores da Segunda Guerra Mundial, escrito de maneira aprazível e, mais do que isso, trata-se de um documento importante que ajuda a compreender o passado sombrio e as consequências de uma tragédia histórica..., recomendadíssimo!

NOTA: **10**

quinta-feira, 30 de maio de 2024

RESENHA DE LIVRO – DIVÃ

Assim que comecei a fazer graduação em psicanálise, conteúdos que envolvem o tema passaram a me interessar de perto. Já havia assistido adaptação da obra aqui resenhada para o cinema, mas adiava a leitura deste divertido DIVÃ por sustentar alguma desconfiança de que se tratasse de mais um daqueles livros água com açúcar, cheios de clichês..., mas fiquei satisfeito por estar completamente enganado, eu adoro quando a literatura me proporciona essas agradáveis surpresas.

DIVÃ narra a história de Mercedes, uma mulher de meia idade que começa a fazer psicanálise por sustentar certo vazio existencial. Ela é casada, mãe de três filhos, pedagoga e artista plástica nas horas vagas. Aparentemente leva uma vida regrada e sem grandes desafios, pois é justamente esse o problema que relata, já no início da trama: Mercedes não gosta do meio termo, tem dificuldade em lidar com essa vida morna e higienizada, ela relata no divã ao seu terapeuta que gosta dos extremos, mas por alguma razão optou por desempenhar o papel social que lhe era esperado.

O divã é o cenário único da narrativa. Tudo o que acompanhamos sobre a personagem são os relatos que ela expõe nas sessões com o psicanalista Lopes. Ou seja, cada capítulo é uma nova consulta e Mercedes conta como se sente, como vai a vida, suas impressões, seus sentimentos, tudo em recortes de monólogos.

E cá entre nós, é uma delícia acompanhar as sessões de Mercedes. Ela conta sua história de modo honesto e divertido, não se abstém, não tem medo de dizer como se sente. Mesmo quando relata situações difíceis em sua vida, nos faz querer avançar ao próximo capítulo para sabermos um pouco mais sobre a vida dessa mulher. Mercedes certamente é a analisanda que todo psicanalista gostaria de ter em seu consultório.

Há momentos em que damos boas risadas, outros em que nos pegamos a pensar sobre suas reflexões. Momentos difíceis, quando coincidem com algo já vivido por nós, causam imersão; o capítulo termina e você fica pensando longamente sobre o próprio passado.

Aliás, os capítulos aqui são curtinhos, o livro tem uma narrativa fluída, dá pra ler em um único dia, embora eu sigo sustentando o velho hábito de desacelerar minhas leituras quando estou gostando do livro.

Claro que é tudo mérito de sua criadora. Essa é a primeira obra que li de Martha Medeiros e já fiquei encantado com seu estilo direto e pitoresco. Ao que parece ela se destaca por suas crônicas, o que pode ser notado na condução narrativa aqui exibida. Alguns leitores dirão que isso é óbvio, mas o livro é bem melhor do que sua adaptação cinematográfica. Aliás, foi por conta de ter assistido ao filme primeiro, que fiquei com uma impressão equivocada sobre a autora.

DIVÃ é uma obra deliciosa, fácil de ser lida e detentora de uma protagonista apaixonante. Se algo negativo pode ser dito sobre esse livro é o quanto ele é curtinho, eu seguiria numa boa acompanhando as sessões de análise de Mercedes..., quem sabe futuramente Martha Medeiros brinde-nos com uma continuação?

NOTA **10**