Eis aqui uma obra cuja resenha existiu porque seu tema central atualmente me é muito caro: o que resta ao ser humano quando quase tudo lhe foi retirado? Dessa pergunta, deriva-se outras as quais tenho feito a mim mesmo, principalmente na atual fase da minha vida, aos 45 anos. Perguntas as quais o título deixa amplamente explicitadas: qual é o sentido da minha vida? Existe algum sentido implícito ou esse sentido vamos construindo ao longo de nossa existência?
A força desse livro, consiste
justamente no fato de que seu autor, Viktor Frankl, não elabora sua
teoria sentado atrás de uma mesa de gabinete. O tema de seu estudo, que ele vai
chamar de Logoterapia, nasce, em grande medida, da experiência extrema dos
campos de extermínio durante a segunda guerra. E embora a experiência, por si
só, não prove uma teoria (o autor foi prisioneiro nesses campos, onde toda sua
família foi morta), ela confere às suas reflexões um peso existencial muito
particular.
Basicamente, Frankl recusa
dois extremos: não afirma que o sofrimento necessariamente enobrece o ser
humano (os campos de extermínio nazistas mostraram precisamente o contrário:
muitas pessoas foram destruídas física e moralmente por terem vivido aquela
experiência); mas também não aceita que o sofrimento torne a vida desprovida de
sentido.
A tese aqui é um pouco mais
sutil; o sofrimento não possui valor em si, o que pode adquirir valor é a
atitude que cada indivíduo assume diante dele, quando esse sofrimento se torna
inevitável. O ponto central para o autor é justamente esse: mesmo em
circunstâncias extremas, permanece no ser humano uma esfera de liberdade
interior que nenhuma violência consegue eliminar completamente. Obviamente é
uma ideia que suscita debates. Mas em nenhum momento, Frankl desenvolve sua
teoria como se fosse uma autoajuda.
O autor não trabalha a ideia
do sentido da vida de forma abstrata, como faz a autoajuda. Na verdade, Viktor
Frankl muda a questão central de sua própria obra. No lugar de perguntar
qual é o sentido da vida, ele propõe: o que a vida está exigindo de mim neste
momento?
A primeira metade da obra é
uma leitura perturbadora por conta do testemunho: o autor não está
reconstruindo acontecimentos a partir de documentos. Ele escreve como alguém
cuja memória ainda está impregnada pelos cheiros, pela fome, pelo frio, pela
humilhação e pela dor. Há momentos em que o leitor percebe que o texto quase
abandona a elaboração teórica para simplesmente testemunhar. É um ponto muito
forte da obra, pois em muitos outros livros sobre o holocausto se mantêm certa
distância, mesmo de autores que viveram a experiência (certamente pela
dificuldade em rememorar aquele tempo). Mas aqui essa distância é extremamente
encurtada.
Frankl nos coloca diante da
progressiva desintegração da vida: perder o nome, perder objetos pessoais,
perder vínculos familiares, perder a privacidade, perder a dignidade, perder a
autonomia sobre o próprio corpo. A violência não consistia em apenas matar
pessoas, mas em destruir, passo a passo, tudo aquilo que constitui um
indivíduo. Texto narrado com uma sobriedade que faz o leitor pensar em como
esse relato pôde ser descrito dessa maneira.
Contudo, apesar de toda a
fragilidade que a primeira parte do livro nos causa, ela é extremamente
necessária de ser atravessada, para que se dissolva de nossas mentes possíveis
abstrações aos temas que o livro irá tratar: sentido de vida, liberdade, responsabilidade.
Frankl passa a sustentar que o
ser humano não pode ser compreendido apenas pela busca do prazer (como
enfatizou Freud), nem somente pela busca de poder (como propôs Alfred Adler).
Para Viktor Frankl, existe uma dimensão anterior a todas as outras: a
vontade de sentido.
A esperança do autor não é
leviana (como algumas pessoas se equivocam sobre a obra). A mensagem não
consiste em afirmar que o mundo seja bom. Mas consiste em acreditar que o ser
humano continua capaz de responder moralmente a um mundo que, muitas vezes não
é bom. Frankl apenas enfatiza algo como: qualquer que seja o desfecho,
permanece a possibilidade de uma resposta humana dotada de sentido. O livro vai
exatamente na contramão de soluções fáceis para problemas complexos da vida. De
fato, sua tese só aumenta a complexidade existencial, mas ainda assim, preserva
a possibilidade de esperança.
É uma distinção que me parece fundamental.
EM BUSCA DE SENTIDO é uma obra espetacular, cujo autor, apesar de ter vivido uma das maiores tragédias da história da humanidade, não escreve um livro no qual o centro seja a morte…, o centro continua sendo a vida. Não uma vida idealizada, nem feliz por definição, mas uma vida que permanece convocando o sujeito a continuar trabalhando no aprimoramento da esperança, da ética e do sentido da vida.
NOTA: 🔟😍

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