domingo, 13 de setembro de 2026

RESENHA DE LIVRO – EM BUSCA DE SENTIDO

Eis aqui uma obra cuja resenha existiu porque seu tema central atualmente me é muito caro: o que resta ao ser humano quando quase tudo lhe foi retirado? Dessa pergunta, deriva-se outras as quais tenho feito a mim mesmo, principalmente na atual fase da minha vida, aos 45 anos. Perguntas as quais o título deixa amplamente explicitadas: qual é o sentido da minha vida? Existe algum sentido implícito ou esse sentido vamos construindo ao longo de nossa existência?

A força desse livro, consiste justamente no fato de que seu autor, Viktor Frankl, não elabora sua teoria sentado atrás de uma mesa de gabinete. O tema de seu estudo, que ele vai chamar de Logoterapia, nasce, em grande medida, da experiência extrema dos campos de extermínio durante a segunda guerra. E embora a experiência, por si só, não prove uma teoria (o autor foi prisioneiro nesses campos, onde toda sua família foi morta), ela confere às suas reflexões um peso existencial muito particular.

Basicamente, Frankl recusa dois extremos: não afirma que o sofrimento necessariamente enobrece o ser humano (os campos de extermínio nazistas mostraram precisamente o contrário: muitas pessoas foram destruídas física e moralmente por terem vivido aquela experiência); mas também não aceita que o sofrimento torne a vida desprovida de sentido.

A tese aqui é um pouco mais sutil; o sofrimento não possui valor em si, o que pode adquirir valor é a atitude que cada indivíduo assume diante dele, quando esse sofrimento se torna inevitável. O ponto central para o autor é justamente esse: mesmo em circunstâncias extremas, permanece no ser humano uma esfera de liberdade interior que nenhuma violência consegue eliminar completamente. Obviamente é uma ideia que suscita debates. Mas em nenhum momento, Frankl desenvolve sua teoria como se fosse uma autoajuda.

O autor não trabalha a ideia do sentido da vida de forma abstrata, como faz a autoajuda. Na verdade, Viktor Frankl muda a questão central de sua própria obra. No lugar de perguntar qual é o sentido da vida, ele propõe: o que a vida está exigindo de mim neste momento?

A primeira metade da obra é uma leitura perturbadora por conta do testemunho: o autor não está reconstruindo acontecimentos a partir de documentos. Ele escreve como alguém cuja memória ainda está impregnada pelos cheiros, pela fome, pelo frio, pela humilhação e pela dor. Há momentos em que o leitor percebe que o texto quase abandona a elaboração teórica para simplesmente testemunhar. É um ponto muito forte da obra, pois em muitos outros livros sobre o holocausto se mantêm certa distância, mesmo de autores que viveram a experiência (certamente pela dificuldade em rememorar aquele tempo). Mas aqui essa distância é extremamente encurtada.

Frankl nos coloca diante da progressiva desintegração da vida: perder o nome, perder objetos pessoais, perder vínculos familiares, perder a privacidade, perder a dignidade, perder a autonomia sobre o próprio corpo. A violência não consistia em apenas matar pessoas, mas em destruir, passo a passo, tudo aquilo que constitui um indivíduo. Texto narrado com uma sobriedade que faz o leitor pensar em como esse relato pôde ser descrito dessa maneira.

Contudo, apesar de toda a fragilidade que a primeira parte do livro nos causa, ela é extremamente necessária de ser atravessada, para que se dissolva de nossas mentes possíveis abstrações aos temas que o livro irá tratar: sentido de vida, liberdade, responsabilidade.

Frankl passa a sustentar que o ser humano não pode ser compreendido apenas pela busca do prazer (como enfatizou Freud), nem somente pela busca de poder (como propôs Alfred Adler). Para Viktor Frankl, existe uma dimensão anterior a todas as outras: a vontade de sentido.

A esperança do autor não é leviana (como algumas pessoas se equivocam sobre a obra). A mensagem não consiste em afirmar que o mundo seja bom. Mas consiste em acreditar que o ser humano continua capaz de responder moralmente a um mundo que, muitas vezes não é bom. Frankl apenas enfatiza algo como: qualquer que seja o desfecho, permanece a possibilidade de uma resposta humana dotada de sentido. O livro vai exatamente na contramão de soluções fáceis para problemas complexos da vida. De fato, sua tese só aumenta a complexidade existencial, mas ainda assim, preserva a possibilidade de esperança.

É uma distinção que me parece fundamental.

EM BUSCA DE SENTIDO é uma obra espetacular, cujo autor, apesar de ter vivido uma das maiores tragédias da história da humanidade, não escreve um livro no qual o centro seja a morte…, o centro continua sendo a vida. Não uma vida idealizada, nem feliz por definição, mas uma vida que permanece convocando o sujeito a continuar trabalhando no aprimoramento da esperança, da ética e do sentido da vida.

NOTA: 🔟😍

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