Amor é uma daquelas palavras em nossa cultura que foram desgastadas à ponto de sua interpretação se tornar polissêmica. Mas o objetivo de Flavio Gikovate quando escreveu este trabalho, é de ajudar as pessoas a transitarem melhor nesse domínio que tem sido fonte de enorme sofrimento. Se ele conseguiu é o assunto que vamos falar um pouco, mas é certo que o amor é espinhoso demais para ser solucionado apenas por uma obra publicada, pensemos na premissa de Gikovate como um trabalho introdutório.
Apesar parecer título de
romance água com açúcar (que aliás achei de mal gosto e compromete seu conteúdo
instrutivo) UMA HISTÓRIA DE AMOR… COM FINAL FELIZ, é uma reflexão
psicológica e sociológica à cerca da questão do amor. Gikovate tece uma análise
acessível sobre a natureza do ser humano, desde o nascimento, seguindo pela
adolescência com suas mudanças sociais e estruturais, até chegar a fase adulta.
O livro levanta uma proposta interessante acerca dos nossos sentimentos
complexos, assim como nossas carências, e aponta para o triste fato de que
chamamos tudo isso de amor.
Em concordância com o
pensamento freudiano, aqui as experiências vividas na infância são
condicionadas como fundamentais para explicar os entraves na fase adulta. Ou
seja, para Gikovate a infância deixa de ser apenas uma etapa cronológica e
passa a constituir a matriz da vida afetiva adulta. Os vínculos primários, a
formação do eu, a dependência infantil, a construção de autonomia – tudo isso
seria essencial para se compreender porque adultos se relacionam de determinada
maneira.
Já no nascimento ocorre uma
espécie de “ruptura” entre o bebê e a mãe; trata-se de um paralelo psicanalítico
que Flávio Gikovate vai chamar de desamparo, condição que se fixará na
constituição do ser humano e ele passará a vida inteira tentando suprir essa
falta. Segundo o autor, quando encontramos alguém capaz de amenizar a dor desse
desamparo, chamamos isso de amor. Ou seja, assim como pensava Freud, aqui a
condição psíquica inicial da vida é o eixo central para se compreender o
equívoco de um sentimento que denominamos como amor.
Gikovate propõe que a
experiência do desamparo nunca desaparece completamente da natureza humana, mas
apenas se transforma: na infância buscamos a mãe; na adolescência buscamos
grupos, amizades, pertencimento; na fase adulta frequentemente ansiamos por um
parceiro amoroso. Em todos esses casos o objeto muda, mas o mecanismo
permanece: a tentativa de se aliviar da dor do desamparo.
Sei que essa premissa soa
pessimista, e acho que, de fato, o autor nos introduz seu tema com uma
abordagem, digamos, pouco esperançosa. Porque se o desamparo é uma marca
constitutiva do ser humano, então a busca amorosa estará sempre contaminada por
essa necessidade primordial.
Contudo, nos capítulos finais,
Gikovate nos oferece uma possibilidade, algo que ele chama no livro de +amor;
condição infinitamente mais sofisticada, pois seria baseada na liberdade e
respeito, desaparecendo a necessidade de se provar qualquer coisa ao parceiro.
O +amor seria um sentimento que não nega nossa vulnerabilidade, mas impede que
ela se transforme no fundamento exclusivo de nosso vínculo (claro que a
premissa é mais complexa, quis apenas explicitar que o livro não trabalha
apenas com o diagnóstico, ele procura apresentar uma solução).
Um ponto que me pareceu menos abundante foi o modo como o autor reduziu a complexidade da natureza humana a apenas duas personalidades que ele chamou de natureza egoísta e natureza generosa. Basicamente tratam-se de dois opostos que também poderiam ser pensados como natureza extrovertida (egoísta) e natureza introvertida (generoso). A psicologia contemporânea tende a evitar classificações excessivamente dicotômicas; as pessoas não são coerentes o suficiente para caberem em dois tipos característicos. A personalidade humana é muito mais situacional e dinâmica do que uma oposição binária seria capaz de captar.
Enfim, UMA HISTÓRIA DE AMOR… COM FINAL FELIZ, é uma obra interessante que levanta questões pertinentes à cerca desse conceito complicado que chamamos de amor. Gikovate, ao desconfiar profundamente das narrativas idealizadas sobre o amor, se debruçou na busca por retirar do amor aquilo que considera ilusório e então verificar se algo ainda permanece de pé.
NOTA: 8,5

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