Certa feita, vasculhando literatura pela internet afora, li uma carta escrita por Caio Fernando Abreu, destinada a José Marcio Penido. Foi a primeira vez que tive contato com a escrita desse autor gaúcho, e de cara constatei seu conteúdo sensível, honesto e peculiar, que prendeu minha atenção, cheguei até a escrever sobre isso. Algum tempo depois, soube que Caio se inspirava na obra de Clarisse Lispector…, pensei: tenho que ler mais coisas desse autor. E para conhecer e explorar seus diferentes estilos, esta trilogia compilada pela editora Nova Fronteira veio a calhar.
Caio Fernando Abreu
publicou seus trabalhos, constituídos por contos, crônicas, novelas, poemas e depoimentos,
entre as décadas de 70, 80 e 90. Além dessa variedade convidativa, os três
volumes também trazem correspondências que o autor escreveu para amigos e familiares
ao longo desse período.
Escritor obsessivo, Caio parecia
um profissional fixado na absorção de uma tradição literária incessante, por
três décadas ele mergulhou de cabeça em sua obra, destilando palavras de forma
continuada e cada vez mais intensa. O estilo de vida e seus valores também
parecem se misturar com sua criação fictícia; os personagens parecem-se com seu
criador.
A experiência urbana está
presente em grande parte de sua obra, perdas, paixões e ausências. As
personagens geralmente são indivíduos inseridos na sociedade contemporânea, num
tempo no qual o consumo alcança reflexo na vida de forma nunca experimentada
antes. Outro aspecto que chama atenção é a coragem de falar sobre si mesmo,
suas fraquezas, inconstâncias, a doença que o acometeu, Caio fez questão de
explicitar a Aids em suas crônicas.
Outro ponto que me parece
constante nos conteúdos ficcionais é o fato de as personagens de Caio F.
Abreu estarem sempre em deslocamento, assim como ele próprio se apresenta
como um homem itinerante em suas cartas. Em diferentes condicionamentos, os
personagens são pessoas em transição constante, mesmo que transitem por espaços
curtos (como ir do quarto para o banheiro), o movimento aqui é recorrente, a
relação do indivíduo com o mundo circundante ou consigo mesmo.
O escritor insere em seus
protagonistas diferentes formas de enxergar a existência. Alguns parecem
expressar sempre uma falta, ausência de identidade ou escassez de um projeto
existencial significativo. Já o conteúdo não ficcional, para além da coragem do
autor, são escritos que denotam certa eliminação de barreiras entre o erudito e
o popular, e um caráter quase confessional.
O terceiro volume (meu preferido) fica evidente uma notória maturidade na escrita de Caio. Obviamente por ser o período em que ele estava no auge de sua melhor fase, o conteúdo reúne textos mais concisos, uma escrita intensa e sóbria ao mesmo tempo. As crônicas dialogam com o tempo vivido, acontecimentos políticos, sociais e culturais característicos.
O ESSENCIAL DA DÉCADA DE 70, 80 E 90 (conhecida na internet como Caio 3D) é uma trilogia indispensável para quem é fã da obra de Caio Fernando Abreu. Conteúdo que engloba parte significativa de seus textos em três décadas de produção…, essencial porque traz diferentes estilos literários, que ajudam a compreender e, por que não dizer, se apaixonar pelo universo de mais esse grande autor brasileiro.
NOTA: 9

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