A questão campeã da curiosidade coletiva é quanto tempo dura um tratamento terapêutico. E apesar de ser a mais recorrente pergunta que recebo no consultório, devo salientar que não há uma resposta para isso. O tempo de duração de uma terapia depende de distintos fatores: a demanda do paciente, sua capacidade de resiliência, dedicação, a reciprocidade entre terapeuta e paciente, o nível de autoconhecimento de quem se senta no divã. Eu diria que este último é o que mais prolonga o tratamento..., porque as pessoas simplesmente não se conhecem.
O ser humano inserido em nossa sociedade moderna passa a vida inteira sendo ensinado a ignorar suas emoções e sentimentos, para focar num desenvolvimento pessoal estabelecido por uma cartilha coletiva. A sociedade nos entrega uma fórmula pronta para o nosso crescimento, geralmente pautada em comportamentos de consumo, e as pessoas passaram a crer que existe um jeito único de desenvolvimento que serve para todos. Desse modo, passamos a vida inteira praticando a auto sabotagem, apenas para não desfocar de metas que nos ensinaram ser o correto a seguir.
Tudo o que fazemos na vida está pautado nesse sistema genérico que desconsidera a individualidade: as famílias estabelecem o mesmo padrão de convivência; a escola possui uma grade curricular coletiva; o trabalho desconsidera qualquer hipótese de identidade para focar na lucratividade; as relações sociais seguem um esquema inflexível que nos foi ensinado desde sempre.
O resultado disso é uma sociedade cansada, sem propósito e deprimida. E só o que entra em meu consultório são desejos de reconexão com individualidades que se perderam..., ou que jamais se descobriram.
– Ela precisava daquele emprego, doutor! – aquela sessão começou há quinze minutos, e mais da metade desse tempo o paciente apenas chorou – Ela foi deixada pelo marido e tem dois filhos. Como vai levar comida pra casa agora?
– Bom, você disse que a demitiu por excesso de pessoal. Não é esse o objetivo de toda empresa privada? Reduzir despesas para aumentar os lucros?
– Eu não ficaria mais pobre se a mantivesse na equipe – ele parecia mesmo com raiva da própria atitude – Aliás, poderia dividir tarefas de modo a deixar meus colaboradores menos sobrecarregados. Todos ficariam menos estressados e essa mulher poderia cuidar dos filhos.
– Então, por que a demitiu?
– Porque isso é o que eu fiz a vida inteira: enxuguei orçamento para ganhar mais dinheiro – ele já nem usava mais os lenços de papel, enxugava as lágrimas na manga da camisa – Foi na sexta-feira da semana passada, eu chequei as contas como sempre fiz, levantei a hipótese de redução para o encarregado, ele me deu o nome dela como sendo a mais jovem no quadro de funcionários, passei as informações para o setor de RH, e no fim da tarde, dispensei aquela pobre criatura.
De repente, as lágrimas cessaram. Uma pausa na crise de consciência. Ele encarou o teto, mas o olhar parecei transpassar o reboco. Estava lutando com forças poderosas dentro de si, num conflito interno terrível.
– Eu poderia ligar para algum empresário e fazer uma recomendação – não falava diretamente comigo, era uma deliberação consigo mesmo – O problema é que caso ela não se adapte ao novo emprego, eu seria responsabilizado. E o pior: ficaria devendo um favor a esse empresário..., e dever favores não é uma condição positiva no mundo corporativo.
– Por que você não
reintegra essa mulher à sua equipe?
– O que? – o paciente
desviou a atenção do teto e me olhou com estranheza, como se houvesse esquecido
que estava dentro de um consultório terapêutico.
– Parece-me bem simples: basta você recontratar a mulher.
– Não é tão simples assim. Voltar atrás numa demissão faz parecer que só notei a importância daquele colaborador tardiamente, isso abre margem para que ele faça exigências. Além disso, essa atitude me faria parecer fraco perante toda a equipe.
– Bom..., nesse caso, eu não sei porque você está chorando tanto.
– Tem razão, doutor... Minha mente parece que está dividida; uma parte busca exercer minhas funções de modo pragmático como sempre fiz. Mas agora existe esse outro lado, que parece pensar demais nas consequências de todas as minhas decisões. Antes eu simplesmente fazia o que tinha que ser feito..., agora parece que algo me faz levar em consideração outras pessoas.
– Para você que não tem
muita familiaridade, eu te ajudo com isso: chama-se empatia.
Ele me encarou com ar de
surpresa e um misto de desconfiança.
– Isso tudo é culpa sua, doutor!
Por essa eu não esperava. Mas aquela afronta não me abalou, já havia sido responsabilizado por coisas muito piores no consultório.
– Se você está se tornando uma pessoa melhor, graças aos nossos encontros, vou tomar isso como um elogio.
– Você está me transformando num fraco! – ele falava firme, mas não alterava o tom de voz. – Para se vencer nessa vida, não se pode ser um homem fraco. Talvez essa terapia esteja me fazendo mais mal do que bem.
– O que é vencer na vida?
– Não começa com esse teu
joguinho, doutor.
– Não estou fazendo
joguinho..., mas tudo bem, eu refaço minha pergunta: o que é ser um homem
forte?
– Ser um homem forte é ter colhões! Saber tomar decisões difíceis sem se deixar abalar.
– Muito bem..., você está em tratamento há quase dois anos, justamente para encontrar essa força que aparentemente se perdeu aí dentro de você. Tomar decisões difíceis é ter a coragem de escolher aquilo que implica em alguma perda. Decidir algo que lhe proporcionará ganhos não é uma escolha difícil, é uma escolha óbvia. Percebe que existe uma distorção naquilo que você julga ser uma escolha difícil?
– Como assim, doutor?
– Demitir um funcionário com o intuito de reduzir gastos e elevar os lucros não é uma coisa muito complicada. Logicamente pode causar algum constrangimento, mas de um modo mais analítico, é uma escolha em benefício próprio..., e fazer escolha em benefício próprio não é muito difícil, porque o instinto prevaleceu. Coragem de verdade sempre será decidir sobre algo na contramão de seus ganhos e privilégios..., consegue entender isso?
Ele não disse nada. Ficou a refletir por algum tempo.
– Agir levando em consideração apenas o próprio umbigo é fácil. Difícil é ter empatia, e hoje você está demonstrando isso. Perceba: você nunca chorou tanto numa sessão quanto hoje, talvez porque essa lógica esteja, pela primeira vez, fazendo algum sentido dentro dos teus valores. Noutras sessões eu falei com você sobre a importância de observar com mais atenção os pequenos detalhes ao nosso redor..., esse é o princípio da empatia: a observação do outro. Parece que você está praticando bastante esse exercício.
– Mas e se as pessoas começarem a abusar da minha empatia.
– Ser empático não significa ser permissivo. O ato de se colocar no lugar do outro, não pressupõe virar escravo de suas vontades. É preciso estabelecer um equilíbrio entre o que o semelhante precisa e até onde podemos colaborar.
– Sempre busquei ser um empresário produtivo. Achava que através dos meus esforços eu conseguiria motivar as pessoas a buscar essa mesma produtividade, então transformar isso numa corrente contínua de pessoas produtivas.
– O segredo não é
meramente ser produtivo. O grande efeito realizador do ser humano consiste em
ser produtivo contribuindo para a comunidade.
– O que preciso fazer para ser mais contributivo?
– Acho que o primeiro passo você já aprendeu: está observando seu entorno, e esse ato faz com que perceba o que você pode fazer para tornar melhor a vida das pessoas que convivem com você. Jamais permita que alguém saia de perto de você pior do que quando chegou; pratique mais a escuta ativa, isso ajudará você a conhecer melhor as pessoas; não se apresse em fazer julgamentos, e seja sempre a mudança que você gostaria de ver no mundo – trocamos olhares condescendentes – você descobrirá que a única forma de ser feliz é coletivamente. Não é possível ser feliz quando todos ao redor estão tristes.
O paciente foi embora com bastante coisas para refletir. Nas sessões seguintes, indiquei alguns livros que reforçavam a ideia de felicidade coletiva. Ele seguiu com a terapia por mais alguns meses e, de repente, não apareceu mais, nem atendeu minhas ligações. Tempos depois, eu soube por outro paciente, que este empresário havia vendido sua empresa para os funcionários por um valor simbólico, e usou os recursos para viajar pelo mundo com a família...
Se ele conseguiu encontrar sentido na vida, é difícil saber. Mas o cartão postal que recebi dele, anos depois, parecia indiciar que sim. Ele parecia alegre na foto, estava festejando na cabine de um barco pesqueiro no Camboja. Justo esse paciente, que alegava não ter tempo para viajar e detestava atividades braçais. Por detrás de seu sorriso, mais precisamente na parede ao lado do leme de direção, havia um mural retangular com recortes de rostos de pessoas…, pessoas desconhecidas. Ou talvez seu novo hábito de observar os pequenos detalhes, fez com que elas deixassem de ser.

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